No Kapitel LIV eu esculhambei os correios, enquanto comemorava ter, enfim, recebido duas cartas. A comemoração foi precipitada, pois acabo de saber que meus problemas com o correio não terminaram. A esculhambação, portanto, também foi insuficiente. Os malditos merecem mais! Meu banco, o Postbank – que, por mórbida coincidência, é (ou foi, antes de ser vendido) o banco dos correios – também não está fazendo nada para melhorar a situação. Odeio os dois! Odeio essa dupla maldita!
Preocupado com a demora para chegar meu cartão do banco, tentei acessar a conta pela internet. Não consegui, é claro. Era preciso usar outra senha, com mais dígitos, que não tenho. Recebi, até agora, duas cartas do banco: uma apenas com minha senha do cartão, outra cheia de propagandas e papelada inútil, além dos dados bancários. Uma terceira correspondência, com o cartão, deveria ter chegado. Deveria.
São Manfred, percebendo a difícil situação em que me encontrava, já precisando pagar mais um mês de aluguel, resolveu me ajudar e telefonou para saber o que estava acontecendo. Eis a resposta: o cartão voltou para a sede do banco, em Hamburgo, porque o carteiro não encontrou ninguém com o meu nome no meu prédio. Já tive problemas antes por causa desse sistema idiota de não haver numeração nos apartamentos quando eu não tinha o nome na caixa dos correios. Só que, para parar de perder cartas, não apenas coloquei meu nome como o pus maior do que os sobrenomes de todos os vizinhos. Só um cego não enxergaria!
Além disso, se chegaram depois disso outras duas cartas do banco, como o cartão não chegou? Manfred me disse que isso ocorre, que depende da boa vontade do carteiro, que ele já perdeu cartas importantes por causa disso. Observou, com muita propriedade, que o junkmail, aquele monte de propaganda, sempre chega, mas que, com as cartas importantes, isso pode acontecer.
A situação, no entanto, é ainda mais ridícula. A informação que o banco tem no sistema, portanto, é a de que não moro no endereço que dei para eles (e que já tinha reconfirmado pessoalmente quando voltei lá na agência). O que é preciso fazer, então? Enviar uma carta contando-lhes que isso está incorreto e que, sim, eu moro no tal endereço. Só então eles poderão enviar novamente o cartão e qualquer outra correspondência deles que tenha voltado. Isso não é surreal? São Manfred escreveu para mim a carta em alemão e a colocamos nos correios.
Quando Manfred falou para o atendente que eu tinha dito que não confio no correio alemão, a resposta foi que nada podiam fazer, que o único meio de me mandarem o cartão é pelo correio para a minha casa. Não posso nem mesmo passar numa agência para buscá-lo. Ou seja, terei que continuar tentando até o cartão chegar à minha residência. Odeio o Deutsche Post, odeio o Postbank. Vejamos quando acabará essa novela. Ou seria um filme B de terror?
segunda-feira, 7 de junho de 2010
sábado, 5 de junho de 2010
Kapitel LXVII – O Pratinho Cheio
Confesso que nunca soube cozinhar. Só que esse obstáculo teria que ser superado mais cedo ou mais tarde. Quando comprei no supermercado um pacote de tortelloni de carne e dois de queijo ralado, há mais de uma semana, eu já dava os primeiros passos para a concretização desse momento histórico. E lá pelas sete da noite de hoje, só tendo comido mais cedo um sanduichinho de nada, decidi que chegara o momento.
Minha ideia era preparar algo fácil, e desde o início tinha uma receita na cabeça: o Fettuccine Alfredo. Massa, manteiga, parmesão, tudo muito simples. Nada magrinha, mas bem simples. Só que, além de minha inexperiência, pesava contra o sucesso da missão o fato de eu ter feito uma série de pequenas adaptações...
Primeiramente, em vez de comprar o fettuccine ou outra massa longa, comprei uma recheada, o tortelloni. Além disso, enquanto a receita dava a porção para quatro a seis pessoas, eu ia cozinhar apenas para mim, já que o esquema aqui no apartamento é gastronomicamente um tanto individualista. Além disso, em vez de queijo parmesão, comprei gouda ralado, e não tinha certeza de qual seria o efeito disso no resultado final. Para completar, enquanto uma receita recomendava manteiga sem sal e a outra dizia para usar uma manteiga mais branca, a minha tinha sal e era um tanto amarelada.
Lá fui eu, contra todas as probabilidades de dar certo o experimento, preparar um prato de massa que podia ser chamado de tudo, menos de Fettuccine Alfredo. O mais bizarro é que eu tinha lido que seria necessário, quando faltassem apenas dois minutos do ponto da massa, escorrê-la para, nos sessenta segundos seguintes, preparar o molho com a manteiga, o queijo e um pouco da água do cozimento e, no tempo final, deixar o prato finalizando em forno pré-aquecido. Só que não comprei um fettuccine e minha massa só precisava exatamente de dois minutos para ficar no ponto! Logo, era matematicamente impossível eu seguir o tempo da receita usando a massa que comprei. Eu teria que inovar.
Mudei todas as medidas da receita, fazendo uma proporção para um homem adulto em vez de quatro a seis pessoas (na base do chute, é claro). Deixei a água ferver, coloquei a massa, tirei com pouco mais de um minuto. Comecei a fazer o molho, só com queijo e manteiga e, depois, acrescentei a água. Logo, coloquei a massa toda na frigideira do molho e misturei tudo. Deixei pouco tempo e, voilà!, pus no prato, despejando em cima, então, mais um monte de queijo gouda ralado.
Em momento algum coloquei sal ou qualquer outro tempero, como se recomendava na receita. Tenho dúvidas se a massa ficou no ponto ideal e não sei se eu pagaria por esse prato em um restaurante. Mas sabem que não ficou ruim? Já encararei o que sobrou do pacote de tortelloni com menos medo na hora de revisitar o fogão.
Minha ideia era preparar algo fácil, e desde o início tinha uma receita na cabeça: o Fettuccine Alfredo. Massa, manteiga, parmesão, tudo muito simples. Nada magrinha, mas bem simples. Só que, além de minha inexperiência, pesava contra o sucesso da missão o fato de eu ter feito uma série de pequenas adaptações...
Primeiramente, em vez de comprar o fettuccine ou outra massa longa, comprei uma recheada, o tortelloni. Além disso, enquanto a receita dava a porção para quatro a seis pessoas, eu ia cozinhar apenas para mim, já que o esquema aqui no apartamento é gastronomicamente um tanto individualista. Além disso, em vez de queijo parmesão, comprei gouda ralado, e não tinha certeza de qual seria o efeito disso no resultado final. Para completar, enquanto uma receita recomendava manteiga sem sal e a outra dizia para usar uma manteiga mais branca, a minha tinha sal e era um tanto amarelada.
Lá fui eu, contra todas as probabilidades de dar certo o experimento, preparar um prato de massa que podia ser chamado de tudo, menos de Fettuccine Alfredo. O mais bizarro é que eu tinha lido que seria necessário, quando faltassem apenas dois minutos do ponto da massa, escorrê-la para, nos sessenta segundos seguintes, preparar o molho com a manteiga, o queijo e um pouco da água do cozimento e, no tempo final, deixar o prato finalizando em forno pré-aquecido. Só que não comprei um fettuccine e minha massa só precisava exatamente de dois minutos para ficar no ponto! Logo, era matematicamente impossível eu seguir o tempo da receita usando a massa que comprei. Eu teria que inovar.
Kapitel LXVI – Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos
Ontem fui ao Balalaika pela terceira vez (ver os Kapitel LVI e LXII). A capixaba gente-boa Brunela, amiga de Vítor e Filipe, ia comemorar lá seu aniversário, e eles chamaram um bocado de gente. Aproveitei para convidar outros tantos amigos, que dificilmente estariam juntos num mesmo lugar.
Chamei e compareceram Berê, Florian com uma amiga inglesa, e David com oitenta por cento da comunidade colombiana de Frankfurt e mais um equatoriano e uma panamenha. Tentei também, por desencargo de consciência, integrar os moradores de meu apartamento, mas aconteceu o esperado: Janine está viajando, Suzanne alegou cansaço, Manfred disse que não tinha dinheiro.
Estavam no Balalaika ainda, além das figuras carimbadas de sempre, os simpaticíssimos pais do Vítor, Brunela e seu marido alemão, e o maranhense quase carioca Gilberto e sua mulher, Letice; os dois últimos casais eu tinha conhecido na festa na casa do Filipe (ver Kapitel LVII). Metade das pessoas presentes tinha ido por convite meu, do Vítor ou da Brunela. A conversa foi ótima. A música seria a mesma de sempre, se não fosse pelo show do pai do Vítor no piano! Saí de lá, como sempre, no final, já passadas as quatro da manhã.
Chegar ao Balalaika, no entanto, não foi tão fácil. Até então eu nunca havia ido sozinho até lá e, como disse para Berê e para a mãe do Vítor, nasci sem o GPS instalado. Eu tinha pesquisado no Google Maps e não parecia tão difícil assim: anotei em que estação de metrô eu deveria saltar e que ruas deveria tomar. O problema foi que, ao sair do metrô, não encontrei o diabo da rua! Nenhuma saída para a rua que, segundo entendi pelo que vi no Google, deveria estar lá! Saí, é claro, andando a esmo e só fui me achar quando, ao falar com Berê pelo celular, ela me deu as coordenadas e nos encontramos no meio do caminho, exatamente na rua que eu estava procurando.
Apesar de ter feito às cegas esse caminho antes de falar com a Berê, vi coisas bizarras, daquelas que não se espera ver na Alemanha. Logo na estação Südbahnhof, onde saltei, havia um grupo de três mulheres mais jovens e uma dupla de outras não tão jovens (sou um cavalheiro, não sou?). As três estavam insultando e provocando uma das outras duas, que estava quase saindo no tapa com elas e era contida pela amiga. Uns caras meio bêbados passaram e ficaram rindo daquela situação, daquele iminente vale-tudo feminino (que acabou não acontecendo).
Depois, vi outra cena ainda mais suspeita. Em uma esquina, duas mulheres com um visual que bem pode indicar serem “mulheres-da-vida”, conversavam de modo não muito fraterno. Uma, com ar agressivo, apontava para a outra, com cara meio chorosa, aparentemente obrigando-a a lhe dar alguma coisa de sua bolsa (dinheiro, suponho). Suspeito que era alguma briga pelo ponto ou cobrança de rufianato.
Em contraste com a leveza de nossa posterior confraternização balalaikiana, o caminho de ida, portanto, foi barra-pesada. E, estranhamente, todas as confusões envolveram mulheres. Ainda bem que apenas fora do Balalaika havia mulheres à beira de um ataque de nervos!
quinta-feira, 3 de junho de 2010
Kapitel LXV – Pelota Abóbora
Quem me conhece sabe que adoro basquete. Não é modinha, nem é por conveniência quando meu time vai mal no futebol. Eu simplesmente gosto demais desse esporte da bola laranja. E não estou falando de NBA não. Gosto mesmo é de ver a seleção de camisa amarela e, claro, o time vermelho e preto, o mais querido do mundo. Freqüentemente vou ao ginásio e raramente perco as transmissões pela tevê.
Hoje, apesar de feriado, foi um dia em que passei todo o tempo em casa, pois tinha que avançar na preparação de uma apresentação para a universidade. Mas eu tenho do que reclamar? Bebendo uma ótima cerveja Altbier da marca Diebels e comendo um gostoso queijo Old Amsterdam, vi pelo Skype, com o sempre inestimável apoio logístico da minha mãe, a sensacional vitória do Mengão no basquete.
Em uma grande atuação, o Flamengo atropelou o Brasília por 94 a 74, empatando a série final do campeonato brasileiro de basquete em dois a dois. No domingo que vem, às dez horas do Rio e três da tarde da Alemanha, acontecerá em Anápolis a partida decisiva, que não perco em hipótese alguma! Se vencer, o Fla será tricampeão brasileiro consecutivo! E o Brasília será trivice.
Que vontade de estar lá... Não são muitas as situações em que preferiríamos estar em Anápolis do que em Frankfurt, não é mesmo? Coisas de um coração rubro-negro.
Hoje, apesar de feriado, foi um dia em que passei todo o tempo em casa, pois tinha que avançar na preparação de uma apresentação para a universidade. Mas eu tenho do que reclamar? Bebendo uma ótima cerveja Altbier da marca Diebels e comendo um gostoso queijo Old Amsterdam, vi pelo Skype, com o sempre inestimável apoio logístico da minha mãe, a sensacional vitória do Mengão no basquete.
Em uma grande atuação, o Flamengo atropelou o Brasília por 94 a 74, empatando a série final do campeonato brasileiro de basquete em dois a dois. No domingo que vem, às dez horas do Rio e três da tarde da Alemanha, acontecerá em Anápolis a partida decisiva, que não perco em hipótese alguma! Se vencer, o Fla será tricampeão brasileiro consecutivo! E o Brasília será trivice.
Que vontade de estar lá... Não são muitas as situações em que preferiríamos estar em Anápolis do que em Frankfurt, não é mesmo? Coisas de um coração rubro-negro.
Kapitel LXIV – Quase, Quase
Meus amigos da universidade Florian e Bertram me convidaram para um inusitado evento. Haveria na noite desta quarta-feira uma festa brasileira em um lugar chamado Club o25, localizado próximo à Ostbanhof, a estação de trem do leste. Seria, segundo o anúncio, uma festa junina, com forró ao vivo e tudo. Telefonei para Vítor para ver se ele também queria ir. Ele me respondeu que seus pais estavam aqui em Frankfurt, e que eles e mais um pessoal iriam se encontrar perto da estação Hauptwache, onde aconteceria uma feira gastronômica. Estava feita minha programação da noite – pelo menos era o que eu pensava.
Encontrei-me com Vítor, seus pais, e um casal de amigos que estava na festa da casa do Filipe (ver Kapitel LVII). Aliás, Filipe e Fiorina, além de Julian, chegaram pouco depois à Hauptwache. Como disse Filipe, aquele evento não parecia coisa de cidade grande, poderia ocorrer em qualquer cidadezinha do interior. De fato, era exatamente o que chamamos de quermesse. Havia barraquinhas vendendo comida árabe, indiana, alemã, crepe, pipoca, espumante, cerveja...
Fui à barraca de tradicional comida alemã e pedi um Leberkäs’ no pão, iguaria bávara. Não percebi nenhuma diferença em relação ao Fleischkäse que eu já havia comido em duas outras oportunidades (ver Kapitel XXIV), e acabo de descobrir após rápida pesquisa o motivo: são sinônimos. Comprei também em uma barraquinha próxima um copão de cerveja de trigo escura Erdinger Dunkel. Com esta alemaníssima refeição, eu estava pronto para toda a noite.
Não fiquei muito tempo lá, afinal, tinha marcado às onze perto da Ostbahnhof com Bertram e Florian. Peguei o metrô e cheguei lá. Pouco depois chegou Florian, que tinha ouvido falar bem do lugar. A expectativa era de que a entrada seria de graça até a meia-noite e que, depois disso (ainda eram onze e pouco), custaria cinco euros. Pois eis a desagradável surpresa: teríamos que pagar dez euros cada para poder entrar. A situação piorou conforme fomos vendo as pessoas chegando. Eram todos brasileiros, e eles não estavam me motivando nem um pouco a entrar. Estava na cara que seria uma roubada! Após rápida deliberação, decidimos seguir um plano B. Só que não tínhamos um, e começamos a pensar a respeito enquanto caminhávamos de volta.
Florian sugeriu um bar no bairro de Ostend, não muito longe dali, chamado Trikhalle. Fomos lá e foi agradável. Conversamos bastante e fizemos nossos prognósticos para a Copa do Mundo. Florian bebeu vinho de maçã (Apfelwein), Bertram preferiu a cerveja Veltins, e eu fiquei em cima do muro: bebi um de cada. Na saída, Florian foi para uma direção, eu e Bertram para a outra.
Nós dois moramos na mesma rua, só que a duas estações de metrô de distância. Ambos precisávamos, portanto, descobrir onde estava ela, a Eschersheimer Landstraße. É claro que foi Bertram, detentor com um senso de direção decente, quem assumiu essa responsabilidade e, após alguma caminhada, estávamos perto da Hauptwache. Eis que escutei um som e, apesar de perceber que não era meu telefone celular, instintivamente coloquei a mão no bolso. E ele não estava lá! Perdi o celular. Muito provavelmente, deslizou do bolso lateral da calça enquanto eu estava sentado no sofá.
É nestas horas que reconhecemos um amigo. Bertram, que já estava fazendo todo o caminho comigo a pé apesar de estar de bicicleta, acompanhou-me de volta até o bar para que eu conferisse se o telefone estava lá. Chegando, apesar da boa vontade da garçonete e do cliente que, àquela hora, ocupava o sofá, a situação não era promissora. Empurramos o móvel, tiramos as almofadas, e nada de encontrar o maldito aparelho. Pedi que Bertram telefonasse para mim, para tentarmos localizá-lo, mas nenhum som foi percebido. A garçonete já havia me passado o telefone da casa, para que eu ligasse no dia seguinte para saber se o pessoal da limpeza tinha encontrado alguma coisa, todos já dávamos a situação por perdida, até que, subitamente, sei lá como, ela achou o dito cujo!
E lá fomos nós, eu e Bertram, fazer todo o caminho de novo. Mais cansados, mas, em meu caso, também muito mais aliviado. Na noite do quase-quase, quase fui a uma festa brasileira e quase perdi meu celular. Em ambos os casos, felizmente, apenas quase. Agora, com licença que vou para a cama, pois já estou aqui há quase duas horas e preciso dormir!
Encontrei-me com Vítor, seus pais, e um casal de amigos que estava na festa da casa do Filipe (ver Kapitel LVII). Aliás, Filipe e Fiorina, além de Julian, chegaram pouco depois à Hauptwache. Como disse Filipe, aquele evento não parecia coisa de cidade grande, poderia ocorrer em qualquer cidadezinha do interior. De fato, era exatamente o que chamamos de quermesse. Havia barraquinhas vendendo comida árabe, indiana, alemã, crepe, pipoca, espumante, cerveja...
Fui à barraca de tradicional comida alemã e pedi um Leberkäs’ no pão, iguaria bávara. Não percebi nenhuma diferença em relação ao Fleischkäse que eu já havia comido em duas outras oportunidades (ver Kapitel XXIV), e acabo de descobrir após rápida pesquisa o motivo: são sinônimos. Comprei também em uma barraquinha próxima um copão de cerveja de trigo escura Erdinger Dunkel. Com esta alemaníssima refeição, eu estava pronto para toda a noite.
Não fiquei muito tempo lá, afinal, tinha marcado às onze perto da Ostbahnhof com Bertram e Florian. Peguei o metrô e cheguei lá. Pouco depois chegou Florian, que tinha ouvido falar bem do lugar. A expectativa era de que a entrada seria de graça até a meia-noite e que, depois disso (ainda eram onze e pouco), custaria cinco euros. Pois eis a desagradável surpresa: teríamos que pagar dez euros cada para poder entrar. A situação piorou conforme fomos vendo as pessoas chegando. Eram todos brasileiros, e eles não estavam me motivando nem um pouco a entrar. Estava na cara que seria uma roubada! Após rápida deliberação, decidimos seguir um plano B. Só que não tínhamos um, e começamos a pensar a respeito enquanto caminhávamos de volta.
Florian sugeriu um bar no bairro de Ostend, não muito longe dali, chamado Trikhalle. Fomos lá e foi agradável. Conversamos bastante e fizemos nossos prognósticos para a Copa do Mundo. Florian bebeu vinho de maçã (Apfelwein), Bertram preferiu a cerveja Veltins, e eu fiquei em cima do muro: bebi um de cada. Na saída, Florian foi para uma direção, eu e Bertram para a outra.
Nós dois moramos na mesma rua, só que a duas estações de metrô de distância. Ambos precisávamos, portanto, descobrir onde estava ela, a Eschersheimer Landstraße. É claro que foi Bertram, detentor com um senso de direção decente, quem assumiu essa responsabilidade e, após alguma caminhada, estávamos perto da Hauptwache. Eis que escutei um som e, apesar de perceber que não era meu telefone celular, instintivamente coloquei a mão no bolso. E ele não estava lá! Perdi o celular. Muito provavelmente, deslizou do bolso lateral da calça enquanto eu estava sentado no sofá.
É nestas horas que reconhecemos um amigo. Bertram, que já estava fazendo todo o caminho comigo a pé apesar de estar de bicicleta, acompanhou-me de volta até o bar para que eu conferisse se o telefone estava lá. Chegando, apesar da boa vontade da garçonete e do cliente que, àquela hora, ocupava o sofá, a situação não era promissora. Empurramos o móvel, tiramos as almofadas, e nada de encontrar o maldito aparelho. Pedi que Bertram telefonasse para mim, para tentarmos localizá-lo, mas nenhum som foi percebido. A garçonete já havia me passado o telefone da casa, para que eu ligasse no dia seguinte para saber se o pessoal da limpeza tinha encontrado alguma coisa, todos já dávamos a situação por perdida, até que, subitamente, sei lá como, ela achou o dito cujo!
E lá fomos nós, eu e Bertram, fazer todo o caminho de novo. Mais cansados, mas, em meu caso, também muito mais aliviado. Na noite do quase-quase, quase fui a uma festa brasileira e quase perdi meu celular. Em ambos os casos, felizmente, apenas quase. Agora, com licença que vou para a cama, pois já estou aqui há quase duas horas e preciso dormir!
quarta-feira, 2 de junho de 2010
Kapitel LXIII – O Menu de Wurst, o Espanto e a Almôndega de Lata
Eu devia ter praticado a arte da culinária antes de vir para a Alemanha. É pela minha profunda ignorância acerca de como cozinhar que eu compro tantas salsichas no supermercado. Outro dia, comi salsichas de Viena (Wienerwurst). Da última vez, não comprei nenhuma salsicha e trouxe um pacote de massa; vejamos no que vai dar... De todo modo, ainda falta um último pacote, de salsichinhas brancas de Nurenberg (Original Nürnberger Rostbratwürstchen), que estou esquentando neste momento.
Manfred debocha que só compro salsichas, que isso não é comida, e blablablá. Mas tenho minhas dúvidas se ele faz muito melhor do que isso. Está sempre esquentando comidas enlatadas, nem sempre muito cheirosas ou atraentes. Outro dia, esquentava uma refeição enlatada com almôndega, pelo menos era o que aquilo parecia ser. Gosto de almôndegas, mas aquilo lá... Diante de meus olhos arregalados, ele deu a seguinte explicação: “Sei que isto não está bonito, mas eu não tenho tempo de cozinhar!”
Levei mais tempo rindo do desabafo dele do que as almôndegas de lata precisaram para ficar prontas. Definitivamente, falta um cozinheiro neste apartamento! Com licença, que vou ver se minhas salsichas estão prontas.
Manfred debocha que só compro salsichas, que isso não é comida, e blablablá. Mas tenho minhas dúvidas se ele faz muito melhor do que isso. Está sempre esquentando comidas enlatadas, nem sempre muito cheirosas ou atraentes. Outro dia, esquentava uma refeição enlatada com almôndega, pelo menos era o que aquilo parecia ser. Gosto de almôndegas, mas aquilo lá... Diante de meus olhos arregalados, ele deu a seguinte explicação: “Sei que isto não está bonito, mas eu não tenho tempo de cozinhar!”
Levei mais tempo rindo do desabafo dele do que as almôndegas de lata precisaram para ficar prontas. Definitivamente, falta um cozinheiro neste apartamento! Com licença, que vou ver se minhas salsichas estão prontas.
terça-feira, 1 de junho de 2010
Kapitel LXII – Duas Noites, Três Cidades, Treze Nações e Uma Hora de Sono
Quinta-feira, sexta e sábado passados, definitivamente, não foram dias comuns. Eu tinha um congresso para ir que aconteceria da tarde de quinta à manhã de sábado, em Eschborn, uma cidadezinha sem atrativos na periferia de Frankfurt. Eu havia combinado, também, de ir a Mainz (ou Mogúncia? Ainda não me decidi. Ver Kapitel XLIII) visitar um casal de amigos alemães, Tobias e Marion Mannhold (não confundir com a Marion Reiser, professora da universidade). Desde que cheguei ao país ainda não tinha me encontrado com eles.
Soube do congresso por uma amiga chilena, Alejandra, que mora na Baviera e é casada com um alemão. Eu a conheci ano passado, no congresso mundial de ciência política em Santiago. Ela me contou sobre o evento de Eschborn, promovido pela Associação Alemã de Investigação sobre a América Latina – ADLAF (sim, existe uma associação alemã assim!). Disse que pretendia ir e perguntou se eu não queria ir também. Havia muitos motivos para eu ir e nenhuma boa razão para eu não ir. O congresso era gratuito, aconteceria em uma cidade que fica apenas a uns 15 ou 20 minutos de Frankfurt, seria realizado justamente em uma semana em que eu não teria aula na universidade, e seria uma boa oportunidade de conhecer mais gente. Fui então, né?
O congresso misturava os mais variados temas, tendo a América Latina como eixo, de modo que era possível, em uma mesma seção, ver trabalhos sobre tango, desenvolvimento financeiro, religião, e missão cubana em Angola. Como qualquer simpósio, teve trabalhos de todos os níveis de qualidade. O mais incrível foi que todas as apresentações foram em espanhol, mesmo as dos autores alemães. Quer dizer, houve dois brasileiros que não apresentaram em espanhol: um falou em português e a outra, em portunhol assumido.
O ponto alto acadêmico foi a palestra monumental de Enrique Russell Ambrosini, derrubando as premissas do eurocentrismo, realizada na Biblioteca Nacional – único evento do congresso a ocorrer em Frankfurt –, que fica a não muitas quadras da minha casa. Esse foi o ponto alto acadêmico. Mas não o único ponto alto. Depois de Eschborn, era a vez da “eschbórnia”!
Na primeira noite houve, é claro, um coquetelzinho, após a conferência de Russell. Mas a coisa animou mesmo no segundo dia. Após as palestras da tarde, um grupo foi a Frankfurt para beber uns coquetéis, caipirinhas (elas são populares na Alemanha!) e cervejas. Fomos eu, Alejandra, a venezuelana Maryhen (minha aluna), e mais dois argentinos – Franco e Ramón, o colombiano David, o chileno Álvaro, o costarriquenho Vladimir e uma alemã de quem não sei o nome.
Aliás, ela foi a responsável pela gafe do começo da noite: disse que os equatorianos eram feios, porque eram muito misturados. Vendo que todos estavam com os olhos arregalados de espanto com tão surreal declaração, tentou consertar: “os índios são bonitos, feios são os que são misturados com os brancos”. Bem... pegamos no pé dela por horas a fio, é claro.
Maryhen e Alejandra foram embora, mas os demais seguiram para outro bar, onde bebemos mais! Depois, juntaram-se a nós três alemães: Florian (outro, não o meu amigo da universidade), Sophie e Irene. Para vocês terem uma ideia de como estava a situação, vale dizer que Álvaro gastou um bom tempo contando para Florian como sua avó era importante para ele... Manguaça total!
Sophie, Irene e a outra alemã, a que não acha equatorianos bonitos, foram as primeiras a partir de lá. Mais tarde, foi a vez de Franco e Vladimir, que estavam hospedados em Eschborn e precisavam pegar o trem de volta. Eu, David, Ramón, Álvaro e Florian, no entanto, ainda não estávamos satisfeitos, apesar de já passar das duas da madrugada e de o congresso ainda ter seções na manhã seguinte. A namorada de David, uma polonesa, estava com umas amigas em um bar em Sacksenhausen. Lá fomos nós!
Na mais incrível das coincidências, a polonesa namorada do David era professora de alemão do Vítor! As amigas dela, na verdade, eram colegas de turma dele e alunas dela: uma chinesa, uma ucraniana e uma colombiana. Lá no bar também estavam personagens descritos no mencionado Kapitel LVI, como a figuraça estadunidense dona do bar, o pianista romeno Marius, o cantor espanhol Nacho e a paulista Juliana, que, mais uma vez, soltou a voz. Lá ficamos até depois das cinco. Depois, uma passada no mesmo restaurante libanês da ida anterior ao Balalaika. Desta vez, não tinham shawarma, e por isso provei um sanduíche com uma escura lingüiça árabe picante chamada sujuk. Todo o pessoal afirmou que chegaria no congresso às nove. Eu mesmo disse que às nove seria difícil, mas que eu estaria lá.
Deitei-me às 6h20. Minha ideia inicial era acordar às sete, mas não podia dormir menos de uma hora. Apesar de ainda ser muito pouco, dormir uma hora é, na minha opinião, o mínimo possível para haver algum efeito de descanso no corpo. Marquei o despertador, então, para as 7h20. O incrível é que não apenas acordei, como cheguei pontualmente às nove em Eschborn. Fui o único a chegar na hora e, dentre os que estiveram comigo até o fim na Balalaika, somente Florian também foi, aparecendo umas duas horas mais tarde do que eu.
Meus feitos ainda não tinham terminado. Apesar de ter tido apenas uma mísera horinha de sono, ainda ficaria muitas outras sem dormir. Após almoçar com Florian, Sophie e Irene, ainda passeei com os dois primeiros pela margem do rio Main. Às cinco e meia eu me despedi deles e parti para o metrô. Ainda tinha uma viagem para fazer!
Cheguei à Hauptbanhof (estação principal de trem) de Mainz/Mogúncia às sete, onde Tobias, doravante chamado Tobi, estava me esperando. Demos uma volta na cidade, comemos um gostoso queijo cremoso típico de lá – o Spundkäse – e bebemos o não menos típico vinho branco batizado com água gasosa. Diferentemente do Apfelwein, o vinho de maçã que os frankfurtianos tomam (também com água), o de Mainz é de uva mesmo.
Depois, fomos até a casa do Tobi para buscar a Marion. Lá nós três tomamos uma cerveja Jever e saímos. Assim como ocorrera antes em Frankfurt (ver Kapitel XXXVI), era Noite dos Museus em Mogúncia. Em um evento como esse, não vale a pena ir a um grande museu gastar todo o tempo lá (como ocorreria no Museu Gutemberg, que ainda preciso conhecer); é melhor ir a muitos museus pequenos. Fomos, então, a várias salas alternativas, com manifestações artísticas inusitadas e pinturas perturbadoras.
O museu mais curioso era o museu de sete graus. Sim, ele foi todo construído com uma inclinação de sete graus. Não apenas por fora, como todas as suas paredes, o elevador, tudo é inclinado! Em um bar anexo, ocorria algo não menos curioso. Uma multidão acompanhava ansiosa por um telão o resultado de um concurso musical que eu nem sabia existir: o Eurovision Song Contest. Ele consiste em uma competição tradicional, com décadas de existência, em que cada país europeu envia um cantor (Israel também participa; não é só para a Fifa que o país não faz parte do Oriente Médio).
O público de casa escolhe os três melhores cantores, sem poder votar no próprio país. A apuração é feita com um número de pontos para cada um dos três primeiros colocados nas votações de cada país. É um critério que consegue algum grau de justiça, apesar de certamente existirem algumas distorções: acho difícil, por exemplo, os franceses votarem no Reino Unido (que, aliás, acabou em último lugar este ano). Além disso, Marion e Tobi disseram que há um monte de alemães que cruzam a fronteira com a Holanda para votar nos cantores alemães. São loucos esses germanos! De todo modo, não são sempre os mesmos países que vencem, o que significa que tais distorções não determinam o resultado.
Segundo Tobi e Marion contaram, esse concurso há tempos não fazia muito sucesso, era visto como algo antiquado. A Alemanha não era campeã desde 1982. Só que, desta vez, o país tinha enviado uma garotinha carismática de dezenove anos que era favoritíssima e, aí, todo mundo se encheu de orgulho patriótico. As pessoas no bar lotado aplaudiam, gritavam, e a Alemanha acabou, de fato, ganhando com rodadas de antecedência (a cada vez se divulgavam os votos de um país). Na saída, um motorista buzinava com passageiros tremulando a bandeira alemã! Tanto Tobi como, depois, Manfred (a primeira coisa que este me disse quando nos vimos no dia seguinte foi que a Alemanha venceu o concurso!) acham que, na verdade, os alemães não se importam tanto assim com esse resultado, e estavam apenas treinando para a Copa do Mundo.
Assim mesmo, as pessoas estavam empolgadíssimas no bar. Um quarteto cubano tinha sido contratado para tocar ao vivo, mas teve que esperar um tempão, porque a maioria não queria que a televisão ficasse no mudo; preferia ouvir as declarações da garota e, claro, uma palhinha da música campeã. Saímos e ainda fomos a outro bar, onde bebemos cerveja de trigo Paulaner. Já era madrugada, e eu ainda estava muito aceso, apesar de ter dormido por apenas sessenta minutos nas últimas 43 horas! Depois, pedi, àquela hora, um cafezinho, para agüentar o tranco e segurar o álcool. Mas em seguida chutaríamos o balde, pedindo um licor popular na cidade chamado Jägermeister.
Chovia. Não tanto quanto da outra vez em que fui a Mainz, mas chovia. Tobi, que me acompanhou até a Hauptbanhof, disse que, normalmente, o tempo é melhor em Mogúncia do que em Frankfurt, e brincou que era eu que levava o tempo feio de Frankfurt para lá. De todo modo, certamente não seria aquela chuvinha que iria me atrapalhar, depois de encarar quase dois dias sem dormir, e ainda participar de um congresso acadêmico e viajar, tudo isso sem cair de sono. E já estou pronto para outra!
Fotos do encontro com Tobi e Marion em Mogúncia
Cenas da “Eschbórnia” pós-congresso nas fotos do terceiro mês em Frankfurt
Soube do congresso por uma amiga chilena, Alejandra, que mora na Baviera e é casada com um alemão. Eu a conheci ano passado, no congresso mundial de ciência política em Santiago. Ela me contou sobre o evento de Eschborn, promovido pela Associação Alemã de Investigação sobre a América Latina – ADLAF (sim, existe uma associação alemã assim!). Disse que pretendia ir e perguntou se eu não queria ir também. Havia muitos motivos para eu ir e nenhuma boa razão para eu não ir. O congresso era gratuito, aconteceria em uma cidade que fica apenas a uns 15 ou 20 minutos de Frankfurt, seria realizado justamente em uma semana em que eu não teria aula na universidade, e seria uma boa oportunidade de conhecer mais gente. Fui então, né?
O congresso misturava os mais variados temas, tendo a América Latina como eixo, de modo que era possível, em uma mesma seção, ver trabalhos sobre tango, desenvolvimento financeiro, religião, e missão cubana em Angola. Como qualquer simpósio, teve trabalhos de todos os níveis de qualidade. O mais incrível foi que todas as apresentações foram em espanhol, mesmo as dos autores alemães. Quer dizer, houve dois brasileiros que não apresentaram em espanhol: um falou em português e a outra, em portunhol assumido.
O ponto alto acadêmico foi a palestra monumental de Enrique Russell Ambrosini, derrubando as premissas do eurocentrismo, realizada na Biblioteca Nacional – único evento do congresso a ocorrer em Frankfurt –, que fica a não muitas quadras da minha casa. Esse foi o ponto alto acadêmico. Mas não o único ponto alto. Depois de Eschborn, era a vez da “eschbórnia”!
Na primeira noite houve, é claro, um coquetelzinho, após a conferência de Russell. Mas a coisa animou mesmo no segundo dia. Após as palestras da tarde, um grupo foi a Frankfurt para beber uns coquetéis, caipirinhas (elas são populares na Alemanha!) e cervejas. Fomos eu, Alejandra, a venezuelana Maryhen (minha aluna), e mais dois argentinos – Franco e Ramón, o colombiano David, o chileno Álvaro, o costarriquenho Vladimir e uma alemã de quem não sei o nome.
Aliás, ela foi a responsável pela gafe do começo da noite: disse que os equatorianos eram feios, porque eram muito misturados. Vendo que todos estavam com os olhos arregalados de espanto com tão surreal declaração, tentou consertar: “os índios são bonitos, feios são os que são misturados com os brancos”. Bem... pegamos no pé dela por horas a fio, é claro.
Maryhen e Alejandra foram embora, mas os demais seguiram para outro bar, onde bebemos mais! Depois, juntaram-se a nós três alemães: Florian (outro, não o meu amigo da universidade), Sophie e Irene. Para vocês terem uma ideia de como estava a situação, vale dizer que Álvaro gastou um bom tempo contando para Florian como sua avó era importante para ele... Manguaça total!
Pausa para um pequeno interregno: meu amigo paulista Vítor tinha me enviado um torpedo me chamando para ir ao Balalaika, o bar musical que descrevi no Kapitel LVI, pois ele estaria lá a partir das onze. Concluí que não poderia encontrá-lo, pois já estava com o outro pessoal, que tinha conhecido no congresso. Pois qual não é minha surpresa quando nos encaminhávamos para o bar onde estava a namorada de David e o nome do lugar era... Balalaika!
Na mais incrível das coincidências, a polonesa namorada do David era professora de alemão do Vítor! As amigas dela, na verdade, eram colegas de turma dele e alunas dela: uma chinesa, uma ucraniana e uma colombiana. Lá no bar também estavam personagens descritos no mencionado Kapitel LVI, como a figuraça estadunidense dona do bar, o pianista romeno Marius, o cantor espanhol Nacho e a paulista Juliana, que, mais uma vez, soltou a voz. Lá ficamos até depois das cinco. Depois, uma passada no mesmo restaurante libanês da ida anterior ao Balalaika. Desta vez, não tinham shawarma, e por isso provei um sanduíche com uma escura lingüiça árabe picante chamada sujuk. Todo o pessoal afirmou que chegaria no congresso às nove. Eu mesmo disse que às nove seria difícil, mas que eu estaria lá.
Deitei-me às 6h20. Minha ideia inicial era acordar às sete, mas não podia dormir menos de uma hora. Apesar de ainda ser muito pouco, dormir uma hora é, na minha opinião, o mínimo possível para haver algum efeito de descanso no corpo. Marquei o despertador, então, para as 7h20. O incrível é que não apenas acordei, como cheguei pontualmente às nove em Eschborn. Fui o único a chegar na hora e, dentre os que estiveram comigo até o fim na Balalaika, somente Florian também foi, aparecendo umas duas horas mais tarde do que eu.
Depois, fomos até a casa do Tobi para buscar a Marion. Lá nós três tomamos uma cerveja Jever e saímos. Assim como ocorrera antes em Frankfurt (ver Kapitel XXXVI), era Noite dos Museus em Mogúncia. Em um evento como esse, não vale a pena ir a um grande museu gastar todo o tempo lá (como ocorreria no Museu Gutemberg, que ainda preciso conhecer); é melhor ir a muitos museus pequenos. Fomos, então, a várias salas alternativas, com manifestações artísticas inusitadas e pinturas perturbadoras.
O museu mais curioso era o museu de sete graus. Sim, ele foi todo construído com uma inclinação de sete graus. Não apenas por fora, como todas as suas paredes, o elevador, tudo é inclinado! Em um bar anexo, ocorria algo não menos curioso. Uma multidão acompanhava ansiosa por um telão o resultado de um concurso musical que eu nem sabia existir: o Eurovision Song Contest. Ele consiste em uma competição tradicional, com décadas de existência, em que cada país europeu envia um cantor (Israel também participa; não é só para a Fifa que o país não faz parte do Oriente Médio).
O público de casa escolhe os três melhores cantores, sem poder votar no próprio país. A apuração é feita com um número de pontos para cada um dos três primeiros colocados nas votações de cada país. É um critério que consegue algum grau de justiça, apesar de certamente existirem algumas distorções: acho difícil, por exemplo, os franceses votarem no Reino Unido (que, aliás, acabou em último lugar este ano). Além disso, Marion e Tobi disseram que há um monte de alemães que cruzam a fronteira com a Holanda para votar nos cantores alemães. São loucos esses germanos! De todo modo, não são sempre os mesmos países que vencem, o que significa que tais distorções não determinam o resultado.
Segundo Tobi e Marion contaram, esse concurso há tempos não fazia muito sucesso, era visto como algo antiquado. A Alemanha não era campeã desde 1982. Só que, desta vez, o país tinha enviado uma garotinha carismática de dezenove anos que era favoritíssima e, aí, todo mundo se encheu de orgulho patriótico. As pessoas no bar lotado aplaudiam, gritavam, e a Alemanha acabou, de fato, ganhando com rodadas de antecedência (a cada vez se divulgavam os votos de um país). Na saída, um motorista buzinava com passageiros tremulando a bandeira alemã! Tanto Tobi como, depois, Manfred (a primeira coisa que este me disse quando nos vimos no dia seguinte foi que a Alemanha venceu o concurso!) acham que, na verdade, os alemães não se importam tanto assim com esse resultado, e estavam apenas treinando para a Copa do Mundo.
Assim mesmo, as pessoas estavam empolgadíssimas no bar. Um quarteto cubano tinha sido contratado para tocar ao vivo, mas teve que esperar um tempão, porque a maioria não queria que a televisão ficasse no mudo; preferia ouvir as declarações da garota e, claro, uma palhinha da música campeã. Saímos e ainda fomos a outro bar, onde bebemos cerveja de trigo Paulaner. Já era madrugada, e eu ainda estava muito aceso, apesar de ter dormido por apenas sessenta minutos nas últimas 43 horas! Depois, pedi, àquela hora, um cafezinho, para agüentar o tranco e segurar o álcool. Mas em seguida chutaríamos o balde, pedindo um licor popular na cidade chamado Jägermeister.
Quando saímos de lá já eram umas duas e meia da matina. Até as quatro e meia já não haveria mais trem para eu voltar. Tobi ofereceu para eu dormir lá na casa deles. Eu disse que o problema é que, uma vez fechando o olho, não fazia a menor ideia de que horas acordaria. Meus amigos disseram que não havia problema e ainda me deram todo o conforto: emprestaram roupa para dormir, deram uma escova de dente, arrumaram a cama (na verdade, o sofá) e, no dia seguinte, ainda havia café-da-manhã para mim! Quer dizer, da tarde. Pois só fui acordar às duas e meia!
Chovia. Não tanto quanto da outra vez em que fui a Mainz, mas chovia. Tobi, que me acompanhou até a Hauptbanhof, disse que, normalmente, o tempo é melhor em Mogúncia do que em Frankfurt, e brincou que era eu que levava o tempo feio de Frankfurt para lá. De todo modo, certamente não seria aquela chuvinha que iria me atrapalhar, depois de encarar quase dois dias sem dormir, e ainda participar de um congresso acadêmico e viajar, tudo isso sem cair de sono. E já estou pronto para outra!
Fotos do encontro com Tobi e Marion em Mogúncia
Cenas da “Eschbórnia” pós-congresso nas fotos do terceiro mês em Frankfurt
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