Um brasileiro que fala um alemão macarrônico chega a Frankfurt sem saber nem mesmo onde vai morar... Aqui narro minhas aventuras nesta temporada germânica: lugares interessantes, enrascadas em que me meto, esquisitices que percebo a cada dia. O nome do blog é uma analogia aos irmãos Grimm, alemães que compilaram muitas dezenas de contos de fada tradicionais, como Branca de Neve, João e Maria, Rapunzel, a Gata Borralheira, o Músico Maravilhoso, Chapeuzinho Vermelho, e a Bela Adormecida (mais detalhes em Vorstellung).

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Centenas de fotos disponíveis em Ilustrações.


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sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Kapitel CXVIII – Tijolonautas

Não foi fácil, ainda em Frankfurt, encontrar um albergue que não fosse afastado, que tivesse um preço acessível e que tivesse vaga disponível. Acabei escolhendo um que mais parece um hotel, localizado no bairro boêmio de St. Pauli, antiga área proletária onde ficam os inferninhos da cidade, bem como sede do clube de futebol homônimo. É claro que, para estar pagando por um quarto individual com banheiro um preço equivalente ao de um quarto compartilhado em outros albergues, não se trata do melhor hotel do mundo.

O albergue em que me hospedei em Toulouse (sobre essa viagem, ver Kapitel LXXXII e os seguintes) ainda é o campeão absoluto de barulho da rua (e o pior é que lá fazia tanto calor que era preciso deixar a janela aberta), mas não se pode dizer que esta área é propriamente silenciosa. Ouço música das boates aqui de baixo até tarde. Aliás, também dá para ouvir vizinhos mais barulhentos durante o dia. Mas acredito que o custo-benefício vale muito mais a pena do que o dos concorrentes disponíveis. O quarto é esquisito, o banheiro tem uma ducha minúscula, mas ao menos parece limpo, a internet não está incluída mas não chega a ser cara, e o conforto de estar sozinho no quarto e de não dividir banheiro é muito bom.
Como cheguei cansado de Hannover na quarta-feira à noite, só saí na manhã de quinta-feira. Fui andando meio a esmo, e tentando me encontrar no mapa. Visitei a Michaelis- kirche, igreja que ostenta na entrada uma imponente imagem de Miguel Arcanjo atacando o demônio. Paguei para subir em sua torre (que já foi reconstruída algumas vezes por causa de acidentes naturais e dos bombardeios da Segunda Guerra) e para visitar a cripta. A cripta era meio sem graça mas, pelo menos, lá eu aprendi por que vejo tantas construções alemãs com tetos e picos verdes: é que são feitos de cobre, e, quando uma estrutura desse metal não é plana e está submetida a muitas intempéries, pode criar após dez a quinze anos uma pátina verde, resultado de um proxeço de oxidação. Estão vendo? Criptas e os Contos Fantásticos do Irmão Gui também são cultura.

Quanto à torre, subi pela escada, apesar de haver um elevador, para poder ver qualquer coisa interessante no meio do caminho. De fato, vi os sinos e vi o mecanismo que faz o relógio da torre funcionar. Chegando lá em cima, podem-se avistar todas as partes de Hamburgo. Depois ainda vi pelo menos outras duas igrejas onde também se pode pagar para subir na torre, mas não posso dizer se eram melhores ou piores, pois eu já estava cansado e não tinha vontade de subir para ver mais ou menos a mesma coisa.

O que mais chama a atenção em Hamburgo é a grande quantidade de água, já que é uma enorme cidade portuária e tem vários canais, e o incrível número de construções em tijolos. Jens me contou que estas são típicas do norte da Alemanha. Há, no entanto, bem mais do que em Hannover, que também tem essa característica. Em contraste com as casinhas de tijolos e as pontes de metal, há edifícios modernos e viadutos futuristas para a passagem de trens.


A exemplo da Kaiser-Wilhelm-Gedächtniskirche em Berlim (ver Kapitel XCVIII) e da Egidienkirsche em Hannover (ver Kapitel anterior), Hamburgo também tem sua igreja destruída pelos bombardeios aliados na Segunda guerra Mundial e mantida em escombros como monumento pela paz: o memorial St. Nikolai. Há várias esculturas espalhadas pelo local, e também estão expostos alguns blocos de pedras que não viraram pó quando a igreja foi bombardeada.

Achei muito bonito o prédio da prefeitura. Dentro dele, ao lado da exposição de caricaturas de políticos (eu só conhecia e reconheci o Helmut Kohl), parte de um livro que está sendo lançado, havia quadros mostrando a correlação de forças dos partidos no legislativo local. Fui a um estabelecimento que era loja de roupas e cafeteria ao mesmo tempo (?!); lá tomei um café hondurenho que achei meio fraco, mas comi uma deliciosa torta de nozes com maçã. Antes, em um bar com temática naval, provei duas cervejas: Fürstenberg e a ruiva Duckstein. Depois, em uma feirinha próxima à rua Spitaler, que é cheia de lojas de roupa e de gente “cult-bacaninha”, bebi outras duas que não conhecia: Dithmarscher clara e escura (Pilsener e Dunkel).

À noite, fui dar uma volta em St. Pauli. Para dizer a verdade, minha impressão não foi das melhores. E não é nenhum conservado- rismo ou puritanismo não, acho legal haver um bairro assim. Mas achei o clima meio estranho, muito diferente do divertido distrito da luz vermelha em Amsterdã (ver Kapitel CXVI). Na Holanda, era tudo muito claro e descontraído, mas nesta parte de Hamburgo vê-se em cada esquina gente querendo empurrar você para dentro com uns papos “171”...

Pelo menos uma cena deixou claro que a situação está sob controle: vi um travesti levando dois policiais para um hotel. Todos com um ar tenso, em claro indício de que o travesti fez uma queixa na delegacia (que, aliás, funciona em uma casinha de tijolos bem bonitinha), provavelmente de algum cliente caloteiro ou violento, e os policiais foram averiguar. Ou seja, a polícia não só estava trabalhando efetivamente como não tratou o travesti com desrespeito ou preconceito.

Hamburgo é uma cidade interessante. Não pertence a nenhum estado e é a segunda maior da Alemanha. Em um dia andando em Hamburgo, andei à beça e tirei 250 fotos! E ainda falta um dia e meio. Um dia e meio de muita água e muitos tijolos.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Kapitel CXVI – Trilogia: O Retorno do Reis

Acabou o curso de verão. Passamos de bar em bar a longa noite depois do coquetel de encerramento em Bruxelas e começaram as despedidas. A italiana Luana foi a primeira a ir embora, na véspera. Ainda teríamos o começo de sábado para dar umas voltas. Logo depois do último almoço no restaurante da sopa de lentilha (ver Kapitel anterior), foi a vez de me despedir de Patrícia e João, cujo voo de volta para Portugal seria no meio da tarde. Não muito depois foi a vez de Sofie e, por fim, eu e Edalina nos separamos no metrô. Era minha vez de ir à estação norte para pegar o ônibus baratinho para Amsterdã.

Cheguei no começo da noite. Não havia feito reserva em albergue, mas tinha pegado o endereço de alguns. Entretanto, não tinha um mapa. Estava perdido e me recusei a pagar três euros por um minúsculo mapinha em uma das várias lojas turísticas no centro. Ridículo! Em qualquer cidade europeia se consegue um mapa daqueles gratuitamente e os holandeses ficam metendo a mão!

Andei muito, o mochilão e o laptop pesavam cada vez mais. Os únicos mapas que eu tinha eram os que copiei do Google e colei em um documento de Word com os endereços dos albergues. Para me localizar, portanto, eu precisava, a cada vez, ligar o computador e tentar encontrar em algum dos micromapas a rua onde eu estava. Acabei chegando a uma rua mais residencial, e um senhor de idade viu que eu estava bem perdido.

Pegou um guia de ruas e telefonou para o primeiro albergue da lista. Esdruxula- mente, o atendente falava mal holandês, e ele falava mal inglês. Ainda assim, pôde constatar que eu tinha capturado o mapa errado que aquele albergue ficava muito longe dali. Viu que o segundo albergue da minha lista, no entanto, era ali pertinho, e me acompanhou até lá. Foi muita gentileza.

Tive muita sorte: havia uma (apenas uma!) cama vazia para aquela noite! A sorte só não era maior porque ela ficava em um quarto com 18 camas! Pelo menos as pessoas não eram barulhentas. Talvez porque se tratava de um albergue cristão. Ou seja, tratava-se de um albergue não apenas silencioso como chato, sem qualquer clima; isso em plena louca Amsterdã. Reservei mais duas noites em um quarto com seis camas (que, aliás, nem chegaram a ficar todas ocupadas).

Os funcionários eram gentis e educados, tinham sempre a preocupação de ajudar e impedir que os hóspedes se perdessem ou tivessem problemas (parece até que já me conheciam, não é?). Mas o albergue em si era uma porcaria. A internet wireless não era gratuita, e era preciso pagar para ter acesso mesmo do próprio laptop. O café-da-manhã, incluído, era paupérrimo: quando havia panquecas, estava até bom, mas foi frustrande o dia em que pedi os sanduíches e vi que eles se restringiam a dois pãezinhos com uma única fatia de queijo cada, muito fina e que sequer cobria todo o interior do pão. E ainda tive que comprar um mapa: lá custava menos, um euro, mas eles não forneciam de graça como em outros labergues em que já estive.

No dia seguinte à minha chegada, andei por toda a cidade, tentando cobrir a maioria dos lugares desenhados no mapa. Amsterdã é uma cidade bonita, cheia de antigas casinhas localizadas em ruas inclinadas de pedras, cortadas por belos canais. Aliás, uma aparência que não condiz com seu clima amalucado. As pessoas lá parecem querer ser o mais loucas possível; mesmo o comportamento alternativo não me parecia natural, tive a impressão de ser um pouco forçado. É visível também que há uma enorme quantidade de estrangeiros, seja como turistas, seja como imigrantes, seja como indecisos quanto a qual das duas categorias se enquadrar.

Não demorou muito e, sem querer, eu me encontrei no meio do famoso distrito da luz vermelha. O mais louco é ver crianças pequenas e velhinhos olhando aquele monte de sex shops e de casas de sexo explícito. Alé bichinhos de pelúcia com peru de fora são vendidos aos montes, juntamente com camisetas engraçadas alusivas a sexo e drogas. Não deixa de ser estranho olhar para janelas de frente para a rua, que parecem vitrines de lojas, e constatar que as manequins se mexem e lá o produto à venda não é a roupa, mas sexo. E há de tudo: desde jovens moças até prostitutas bem velhas, desde mulheres tão lindas que não dá nem para acreditar que existem até outras que não dá para acreditar que alguém queira algo com elas (e muito menos que pague para isso!). Não faltam garotas vindas do leste europeu, mas há também orientais, negras etc.

Outra coisa que se encontra por toda parte são os não menos conhecidos coffe-shops. É o local onde é permitida a venda de maconha e haxixe. Quem não fuma, dependendo do lugar, tem a opção de comer um bolinho aditivado. Há desde uns buracos escuros e esfumaçados com música pesada até um charmoso café com cara de limpinho, em frente a uma igreja e com belas garçonetes. No distrito da luz vermelha fica um que se chama Buldog, que se intitula o mais antigo de todos, aberto em 1971, se minha memória não falha (não, não houve nenhuma piada implícita nesta frase).

Apesar de todo o clima de animação e balada, as cervejas não são o forte da Holanda, definitivamente. São muito piores do que as vizinhas belgas. A Amstel, talvez a mais comum, é bem ruinzinha. Vale mais a pena beber uma Jupiler, que conheci em Bruxelas e é fácil de se encontrar em Amsterdã, além de ser uma das opções mais baratas.

No meu segundo dia, choveu o tempo todo. Ainda bem que tirei bastantes fotos na véspera. Aproveitei para fazer algo que eu já pretendia e que dispensa um céu ensolarado: ir a museus (que, aliás, são todos caros). Fui ao Museu Van Gogh e à Rembrandthaus. A Casa de Anne Frank ficava perto do albergue, mas a fila para entrar era tão quilométrica que desisti dela. O Van Gogh tem uma grande coleção de pinturas não apenas dele como também de artistas que o influenciaram ou que foram influenciados por ele. Pude ver Monet, Toulouse-Lautrec, Gauguin e até Gustave Coubert, de quem gosto muito, mas as pinturas que me impressionaram mesmo foram as de Jozef Israëls e de Léon Lhermitte, que eu não conhecia.

A Casa de Rembrandt é, efetivamente, um casarão onde esse mestre das sombras vivia (até que, afundado em dívidas por seu estilo de vida luxuoso, precisou abrir mão dela, terminando seus dias com pouco espaço e pouco dinheiro). Nas paredes, pinturas feitas em seu atelier por ele e por seus aprendizes. Em uma das salas, podíamos ver uma demonstração do processo de litografia.

Como meu voo de Bruxelas para Frankfurt sairia na manhã de quarta-feira, eu precisaria voltar a Bruxelas na terça para passar a noite lá. Então, deixei para ir a um último museu no final da manhã e, em seguida, pegar minhas coisas no albergue e partir de volta para a Bélgica. O museu escolhido foi o meu preferido entre os três que visitei: o Rijksmuseum. Além de ser uma construção linda (que estava, no entanto, parcialmente oculta por uma reforma em seu exterior), tem um grande acervo de brilhantes pintores holandeses, como Rembrandt, Vermeer, Jan Steen e Bosch, além de armas, prataria e porcelana. Adorei a atualíssima pintura “Fishing for Souls”, de Van de Venne, em que católicos e protestantes pescam fiéis no rio.

Peguei minha mochila e parti para a estação Amstel, onde, suposta- mente, pegaria o ônibus baratinho para Bruxelas às três e meia. Suposta- mente, havia o ônibus das três e meia e, se tudo desse errado, ainda havia um às seis e meia, segundo vi na internet. Tudo apenas “supostamente”. Chegando lá, às 3h10, tive a desagradável notícia de que, naquele dia, o último ônibus tinha saído às 2h30. No dia seguinte, sim, haveria esses horários.

Era preciso inventar um plano B. Voltei à estação central e comprei o bilhete de trem. Era bem mais caro, 41 euros, mas ainda um preço viável; no sentido contrário, de Bruxelas para Amsterdã, o preço era surreal: 87 euros! Ainda assim, como não aceitaram meu cartão de crédito, fiquei praticamente seu dinheiro vivo até a volta para a Alemanha. Cheguei à Bélgica com o dia ainda claro. Não havia reservado albergue mas tinha pegado uma lista de três opções com Willy, o sino-californiano que dividira quarto comigo durante o curso de verão. Não haveria de ser difícil encontrar um. Pelo menos, isso era o que eu achava. O avanço das horas e o escurecimento do céu me fariam mudar completamente de opinião.

Fui até a primeira opção, a pé, com todo o peso da mochila e do computador sobre os ombros. Era um albergue bem central, tudo de que eu precisava. Foi muito frustrante ouvir que todos os lugares estavam ocupados. O cara disse que, se eu quisesse, poderia esperar lá para ver se haveria alguma desistência. É claro que não fiquei. Queria achar o quanto antes um albergue para deixar as minhas coisas, e seria bom se fizesse isso ainda de dia. Seria...

Andei muito até chegar a outro albergue da lista. Dos três que eu tinha o endereço, apenas aquele primeiro era bem central. Apesar de afastado e localizado em uma rua meio escura, parecia um lugar legal. Mas isso não faria diferença. Também estava lotado! Exausto e já muito preocupado, perguntei à atendente (que tinha aquele jeitinho charmoso e acelerado de francesinha cool) se ela sabia de algum lugar não muito caro onde eu poderia passar a noite. Gentilíssima, a menina começou a telefonar para outros albergues e, ao encontrar um, fez a reserva para mim e me deu o endereço de lá e um mapa, explicando o caminho mais fácil para chegar lá.

Era, portanto, apenas questão de tempo. Graças às boas indicações, achei o lugar sem maior dificuldade. Havia no meu quarto um figuraça estaduni-dense, com bigode à la Hercule Poirot, chamado Patrick, descendente de escoceses e nascido no dia de São Patrício, que falava pelos cotovelos (e eu só entendia metade do que dizia). O albergue parecia bom e tinha um bom café da manhã. Este começava a ser servido às sete e eu já estava, antes dessa hora, a postos. Tomei o café rápido e saí bem cedo, para não ter problemas. E não teria nenhum se não fosse por alguns percalços...

Se tem algo que não compreendi bem como funciona são os trens em Bruxelas. Perguntei para o controlador se o trem que ia sair era o que iria para o aeroporto e, sem paciência e desatento, ele me deu uma resposta que deu a entender que era. Mas não era. Os controladores não fazem nenhuma questão de orientar os passageiros perdidos. Quando achei estranho e perguntei para outros passageiros, eles me disseram que era no outro sentido.

Saltei naquela cidadezinha-satélite e perguntei para o vendedor da estação ferroviária local como eu poderia ir para a Estação Norte, de onde eu sabia que sairia o trem para o distante aeroporto. Ele me deu a indicação, mas acabei novamente saltando errado. Quando cheguei a Estação Norte, não tive problemas para seguir para o aeroporto. Mas já era praticamente a hora do meu voo.

Quando cheguei ao balcão da Lufthansa, perguntei ao funcionário se ainda era possível ir no voo, porque eu estava atrasado. É claro que não era. Ele me orientou a ir ao balcão de remarcação de viagens. Minha surpresa foi a tranqüilidade do balconista da Lufthansa para remarcar minha viagem para o voo seguinte, menos de duas horas depois, sem cobrar nada por isso. Fiquei totalmente fã da Lufthansa! Isso é que é saber tratar bem os clientes!

As confusões continuariam até o último momento. Chegando ao prédio onde moro, tive a desagradável surpresa de que não havia ninguém em casa. E como fiz um acerto com Mario, que aluga o quarto para mim, para ele alugá-lo nessas duas semanas em que estive fora, eu estava sem a chave. Telefonei para ele e soube que Manfred viria, mas ainda demoraria uns quarenta minutos. Demorou mais. Fiquei uns vinte do lado de fora, na rua, até que enfim algum vizinho chegou. Entrei “de carona” e me sentei na escada.

Peguei meu laptop, consegui captar fraquinho o sinal da internet da minha casa, e lá fiquei esperando, sob olhares desconfiados de vizinhos que entravam ou saíam. Enfim, o final foi feliz e toda a aventura valeu a pena. Não há trilogia sem momentos difíceis e contratempos, não é mesmo?

domingo, 3 de outubro de 2010

Kapitel CXV – Trilogia: As Duas Bruxelas

Enfim, cheguei a Bruxelas. O aeroporto é estranho, parece um labirinto. É preciso andar muito lá dentro, subir escadas, descer escadas, dar voltas e mais voltas em caracol... tudo bem pouco racional. Fui seguindo outros passageiros, é claro, para achar o lugar de pegar a bagagem. Só que, quando percebi, eu já estava na área de saída do aeroporto. Precisei pedir ajuda para o pessoal da segurança para entrar novamente e pegar minha bagagem.

Bruxelas é uma cidade bem maior do que eu esperava. Capital da União Europeia e sede da OTAN, tem grande quantidade de estrangeiros. Por esse motivo e pela combinação de casas antigas com prédios modernos, era inevitável que eu a comparasse com Frankfurt, e a visse como uma versão belga da cidade onde estou morando. Só que não apenas achei as distâncias maiores em Bruxelas como a sua população é uns 30% mais numerosa do que a de Frankfurt.

Logo me chamaram a atenção os prédios antigos, com amplo predomínio das cores bege e cinza, as impressio- nantes seqüencias de casas conjugadas (sem nenhum espaço entre elas), também a presença de muitas casinhas de tijolos, e as amplas áreas das praças e prédios públicos, em contraste com a aglomeração das velhas casas “amontoadas”. Não faltam estátuas, principalmente de homens montados em cavalos, como chamou a atenção minha mãe. O pior da cidade é a antipatia da maioria dos garçons e dos funcionários dos transportes públicos. Um aspecto extremamente charmoso são as cenas de quadrinhos pintadas em grandes dimensões nas paredes de vários prédios; adorei, e fotografei várias.

Há algo, no entanto, bem mais pitoresco na cidade, e na Bélgica como um todo. É um país que não é bem um país. É dividido em duas regiões, uma em que se fala holandês – Flandres – e outra em que se fala francês – Valônia. Não é incomum que flamengos não saibam falar francês e que valões desconheçam o holandês. Enquanto os flamengos aprendem francês no colégio mas depois pouco o usam, inclusive podendo se ofender se você se dirigir a eles na língua francesa (é melhor usar com eles o inglês), os valões podem não ter nem mesmo o menor conhecimento da língua holandesa, pois têm a opção de estudar na escola holandês ou inglês, como preferirem.

O país tem as duas regiões e, no seu centro, fica a capital, Bruxelas. Trata-se de uma área bilíngüe, localizada próxima ao limite entre as duas regiões mas dentro de Flandres. Originalmente uma cidade flamenga, acabou, por sua importância, recebendo tantos valões que, hoje, a língua predominante, que se ouve sempre nas ruas, é o francês.

Só que no país tudo tem que ser dividido em cada uma das culturas lingüísticas. Todas as ruas de Bruxelas têm um nome em cada idioma, os partidos políticos são sempre dois de cada ideologia (há um socialista flamengo e um socialista valão, um liberal de Flandres e um liberal da Valônia, etc.) e até a universidade é, na verdade, duas. Meu curso de verão sobre partidos políticos durou uma semana, acontecendo primeiro no campus valão (Université Libre de Bruxelles) e, nos últimos cinco dias, no flamengo (Vrije Universiteit Brussel).

Acabei chegando tarde ao hotel que estava reservado para os estudantes do curso de verão. Tomei um banho e fui à universidade. Não tinha levado o mapa e custei muito a achar o local, que era o instituto de investigações europeias. Cheguei uma hora depois ao coquetel de inauguração (que, a propósito, foi bem mixuruca). Fui o último não desistente a chegar: os demais participantes ou chegaram muito mais cedo ou não foram nesse dia. Aquele primeiro momento foi meio frio. Eu tentava fazer piada, puxar assunto, mas todos estavam meio tímidos e retraídos. Mas era apenas o “gelo” inicial. A turma tinha muita gente legal e nos divertiríamos bastante.


Eu era o único latino-americano do curso, cujo corpo discente se destacava pelo fato incomum de, entre quinze alunos, três serem portugueses. Eles, aliás, se tornaram meus melhores amigos lá, junto com a italiana Luana, sulista de sangue quente nascida em Puglia. João, sempre muito engraçado, nasceu em Évora e é filho de pais alentejanos. Estuda na Universidade de Aveiro com Patrícia, que vem dessa cidade mesmo. Edalina nasceu na Espanha, filha de pais cabo-verdianos, mas foi novinha para a Terrinha e também é “tuga”.

A turma tinha ainda três estadunidenses: uma judia de Ohio chamada Sarah, que sempre falava alto, rápido e com muita gesticulação; um chinês de Taiwan que se mudou criança para a Califórnia e adquiriu nacionalidade ianque (chama-se Willy e foi meu companheiro de quarto); e uma estudante de relações internacionais radicada na Alemanha. Alás, havia também uma alemã da Baviera, uma coreana que mora no Texas, um romeno meio doido, o francês Matthieu (que não fala português mas tem pai lusitano; eu e João começamos a chamá-lo de Mateus) e três belgas.

Entre os belgas não havia nenhum valão. Maïté, que pouco fala holandês e é francófona (e fuma como uma francesa), reclamou quando eu disse que ele era da Valônia. Observou que era de Bruxelas, e que, apesar de falarem francês, bruxelenses e valões são completamente diferentes. Ah, bom. A propósito, ela é também, provavelmente, o único caso do mundo de alguém que foi à Polônia com a motivação de aprender a falar inglês (?!).

Os demais belgas da turma eram flamengos. Um era Tom, que era gente-boa mas deu uma declaração tão equivocada como infeliz: disse que o único time de futebol brasileiro que conhecia era o Boca Juniors. Lamentável e imperdoável! A outra belga, que foi a que ficou mais próxima dos luso-ítalo-brasileiros, especialmente no final, era Sofie. Alta, loira, magra, bonita, simpática, elegante, delicada e sorridente, ganhou o apelido de “princesa da Disney”. Cinderelamente, aliás, deixou o sapato cair enquanto andava conosco em uma rua de Bruxelas, mas eu bobeei e não peguei a tempo.

Eu, João, Patrícia, Edalina e Luana saímos vários dias juntos, depois da aula da tarde, passeando pela cidade, conhecendo os lugares turísticos, jantando e bebendo cerveja. Às vezes alguma outra pessoa ia conosco, às vezes algum deles ficava no hotel para descansar ou preparar alguma coisa relacionada os estudos. Eu fui o único que saí todos os dias, sem exceção, inclusive na véspera da minha apresentação. Foram saídas leves, voltando cedo, mas me recusei a passar algum dia trancafiado no hotel. Além disso, sempre quando eu voltava, ainda tinha pique para ir para a internet. Como as aulas começavam às nove da manhã e as universidades (sim, os dois campus) não ficavam perto do hotel, passei duas semanas dormindo seis horas ou menos todos os dias.

A Bélgica é a grande rival da Alemanha na disputa pelo posto de país com as melhores cervejas do mundo. Tive seis meses na Alemanha para provar várias cervejas. Como só estive duas semanas na Bélgica, precisava ser rápido para ter base para comparação. E provei várias cervejas: Westmalle Trappist, Leffe Brüne, Leffe Blonde, Chimay Blue, Duvel, Waterloo, Judas, Vedett, Grimbergen Dubbel, Jupiler, Orval, Trappistes Rochefort e até a não-alcoólica Tourtel (essa por acidente, porque o Tom me disse equivocadamente que era uma stout).

Provei ainda cervejas lambic (de trigo, com fermentação espontânea), faro (versão mais adocicada da lambic), gueuze Mort Subite Framboise (lambic misturada com framboesa; não é ruim, mas prefiro cerveja normal) e St Lamvinus Cantillon (lambic misturada com uva, lembra um vinho beeeem doce, argh!). Como não anotei, no entanto, não tenho certeza se realmente bebi todas essas e provavelmente estou me esquecendo de alguma.

Cheguei à conclusão de que certamente prefiro as alemãs. Se fizermos uma comparação com os vinhos (não sei se é uma boa comparação, mas acho que possibilita expressar minha avaliação), as cervejas alemãs são como vinhos secos e as da Bélgica como vinhos suaves. As cervejas belgas têm em geral um gosto mais frutado e, apesar de terem alto teor alcoólico, não são encorpadas como as germânicas. Minha cerveja preferida entre as que eu provei lá foi justamente a que mais me lembrou as boas alemãs: a ótima Chimay Blue. Ah, e valeu a pena prová-las, só para conhecer, mas não achei nada saborosas as lambic e as faro; prefiro inclusive o “suquinho de framboesa” gueuze a elas.

Nem só de bebida vive a Bélgica, é claro. Os belgas são especialistas em batatas fritas, o que não como, mas também têm enorme tradição nos waffles (ou gauffres, em francês). Comemos as duas versões com chocolate (de que também são exímios produtores): o de Liège, que é mais durinho, e o de Bruxelas, mais mole. Não sei qual é melhor, mas são ambos muito tradicionais no país.

Um dia, fomos a um restaurante português assistir ao clássico lisboeta entre Benfica e Sporting, o Fla-Flu da capital lusa. E para a alegria de Edalina, que estava tensa, e para leve decepção de Patrícia (bem leve mesmo, aliás, pois não estava lá muito preocupada), deu vitória “encarnada”: fácil, fácil, dois a zero para o Benfica. Comemos bifanas, uns sanduíches de carne de porco, e, lá, nossas cervejas eram lusas: Sagres e Superbock.

O restaurante aonde fomos mais vezes, no entanto, foi um que tinha uma ótima sopa de lentilhas. Foi sugestão de Luana, que ficou viciada no lugar. Tomei a sopa em dois dias, e em outros dois comi um gostoso crepe com diferentes queijos. Aliás, Luana merece um comentário adicional em relação à culinária: disse que adora comida inglesa e que está cansada de ver restaurante italiano por todos os lados. Como assim? Está cansada de comer massa e acha a culinária inglesa boa?! Bizarro. Ela mesma já contou que dizem que é uma italiana fake: também não gosta de café, nem de futebol. Mas após duas semanas deu para ver que não é completamente “falsificada”: fala com as mãos, tem sangue quente e não admite que a massa não esteja al dente.

Houve um dia que fomos todos convidados pela organização do curso para ir a um restaurante típico belga. Lá, comi um filet americaine tartar (foi a segunda vez que comi esse prato; a primeira, em Paris, está descrita no Kapitel XC). De sobremesa, mandei ver em uma dame blanche, um sorvete de creme com calda quente de chocolate; o gosto lembrava o do profiterole e é uma sobremesa popular no país.

Também houve dia em que fomos a um restaurante italiano, a um tailandês, e em que comemos pizza. O mais inusitado certamente foi a vez em que comi canguru. Nunca imaginei que provaria tal carne na Bélgica. É boa, mas lembra muito a bovina, não sendo, portanto, muito diferente do trivial. E a carne de canguru estava macia, diferentemente do que, no passado, eu tinha ouvido falar sobre ela.

O bandejão dos dois campus também não era ruim – aliás, era bem melhor do que o Mensa da Universidade de Frankfurt. O que era complicado era encarar as enormes filas. É claro que houve dias sofríveis, como uma péssima sopa ou falta de acompanhamentos razoáveis, mas no geral havia boas opções. Inclusive pratos típicos belgas, como os boulettes à la liégeoise e o vol-au-vent.

Mas não pensem que nossos passeios se resumiam à comilança. Desbravamos a cidade por vários dias, especialmente no domingo, quando a maioria das ruas estava fechada para os carros. Fomos algumas vezes à bela Grand Place, inclusive presenciando o lindo espetáculo de luzes no prédio da prefeitura. Também fomos ao Atomium, visitamos o Parlamento Europeu, e passamos a mão em uma imagem de Jesus que dizem que dá sorte.


Cruzamos outras tantas oportuni- dades com o conhecido Maneken Pis. É a famosa fonte em forma de um menino fazendo xixi. Quando visitas ilustres vêm de outros países, costuma-se vesti-lo com trajes que homenageiem o visitante. É uma cópia dele o Manequinho, que, localizado no Rio de Janeiro, tornou-se um símbolo do Botafogo. Todas as pessoas ficam decepcionadas com o Maneken Pis, por ser muito menor do que se imagina. De fato, é pequenino, parecendo ainda menor pelo contraste com a grande estrutura atrás dele.

Mas é um ponto inevitável de visitação, justificando a estampa de uma camiseta que eu vi, com o desenho dele e a inscrição “eu sou pequeno mas sou o dono do pedaço”. Há na cidade também a versão feminina e a versão canina do Maneken Pis: a menina, Jeanneke Pis, está agachada urinando, e o cão tem até a perninha levantada. Só que, se o Maneken Pis tem sua importância pelo fato de ser a primeira fonte da cidade, instalada no século XVII, a menina e o cachorro não têm nem de longe o mesmo destaque, até porque têm poucas décadas de existência.

Um dia, fomos ao museu histórico, que abriu à noite, gratuitamente. Mas funcionava de um modo diferente: estava com as luzes apagadas e lanternas eram distribuídas para as pessoas. A ideia era divertida, apesar de, obviamente, não motivar muito a ler textos mais extensos. Havia algumas coisas bem interessantes, como cartazes políticos. O que mais gostei foi a antiga charge “Pyramide a Renverser”. Com o desenho de uma pirâmide em que o rei estava no topo, localizando-se abaixo dele, nesta ordem, clérigos, militares, burgueses e, em sua base, os populares, a charge tinha as seguintes inscrições ao lado dos respectivos personagens: “A Realeza – Eu reino sobre vocês; O Clericalismo – Eu oro para vocês; O Militarismo – Eu atiro em vocês; O Capitalismo – Eu como para vocês; O Povo – Eu trabalho para vocês.” Simplesmente brilhante.

No sábado, viajei com Patrícia, Edalina, Luana, João e a coreana para Gent e Brugges. A ideia original era ir a Brugges, mas quando Patrícia consultou Tom, ele disse que a cidade era uma farsa. Ela perguntou se não era interessante ir lá e ele respondeu: “se você gosta de Disneylândia”. Obviamente era um exagero, mas de fato a dica de ir antes a Gent foi ótima. É uma cidade tão medieval quanto Brugges, só que mais bonita e menos turística. Basicamente é a mesma coisa sem aquele monte de propaganda em cima.

Só me irritou o fato de que cobravam para ver a Catedral. Eu já tinha ido a igrejas que deixavam ver de graça, já vi cobrarem só para conhecer as catacumbas ou alguma sala com relíguias. Já tinha visto até a parte cobrada ser um terço da igreja, o que já me parecia um excesso. Mas o que presenciamos em Gent foi ridículo: simplesmente um pedaço minúsculo depois da porta estava com acesso liberado, e uma cortina preta cobria a visão da igreja inteira, incluindo o altar. Como se não bastasse, uma leva de turistas saía irritada de lá reclamandado que não havia nada para ver e que tinham jogado quatro euros fora. Obviamente não vimos a igreja, portanto. Mas a cidade é bonita, e valeu a pena pagarmos para subir em uma torre, que tem vista panorâmica.

Minha estadia na Bélgica foi proveitosa. Não apenas porque participei de um bom curso, mas porque me diverti um bocado e fiz ótimos amigos: Patrícia, sempre boazinha e perita em imitar sotaque brasileiro do interior; Luana, a italiana algo reclamona e gente-finíssima; João, o camarada com quem dei muitas gargalhadas; e Edalina, que sempre brincava que eu e ele éramos “os piores” por causa da bagunça que aprontamos na cidade (vários garçons pediram, com educação ou com grosseria, para falarmos baixo); sem falar na princesa belga Sofie. Amigos que não esquecerei. Os “piores”, sem dúvida. Como dissemos: “os piores serão os melhores”.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Kapitel CVIII – O Gato de Botas e o Suspensório

Munique é uma cidade bonita, mas não é tão limpa e neuroticamente certinha como tinham me falado. Vi guimbas de cigarros no chão e muitos playboys correndo de carro. Florian tinha dito que é bem mais cara do que as outras cidades alemãs, mas vi camisas, bermudas e camisetas na promoção que eram muito baratas (comprei uma por três euros). De todo modo, a informação dada por meu amigo talvez tenha fundamento. Afinal, dá razão a ele o meu virtualmente infalível método de avaliar o quão careira é uma cidade europeia: o preço da bola de sorvete na casquinha (ver Kapitel XLVII e LXXXIV). Em Frankfurt, ela costuma custar oitenta cêntimos, sendo um euro o da Mövenvick. Pois em Munique custou 1,20. O sorvete de pistache estava ótimo, mas não nega que Munique é mais cara.

Além desse sorvete, comi em Munique um salgado turco que era um pão com carne que veio fatiado e não entendi o nome (“bire”, “bude”, não sei...) e provei várias especialidades bávaras: pretzel (Bretzel em alemão e Brezn no dialeto bávaro), as já conhecidas salsichinhas brancas com mostarda doce (ver Kapitel VII), uma estranha mas boa Bayerische Festagssuppe (com bolinhos de semolina, bolinhos de fígado, tiras de panqueca e Markklößchen, que acho que é tutano, mas não tenho certeza), e um porco enrolado (Roll-qualquer-coisa-shwein; não anotei o nome, e este era comprido) acompanhado de chucrute. Só provei cervejas que ainda não conhecia: Franziskaner Dunkel Hefe-Weisse, Augustiner Dunkel, Augustiner Lagerbier Hell, uma ótima Ayinger Kellerbier (não filtrada), a também boa Ayinger Jahrhundert (clara), Hofbräu Urbock (forte). Nenhuma cerveja mais ou menos; todas aprovadas!

Por falar em comidas e bebidas, o atendimento nos bares de cerveja em Munique é péssimo (exceção para o Ayingers Wirtshaus). No que fica perto do albergue, que serve Augustiner, eu fiquei um tempão esperando e nada de me atenderem. Fui, então, ao bar, supondo que era preciso pedir lá. Ao me ouvir falando com o funcionário do bar, um garçom respondeu que eu tinha que pedir na mesa, pois lá não funciona self-service.

No dia seguinte, fui ao Biergarten (jardim de cerveja) da Torre Chinesa, localizada no parque Jardim Inglês. Lá, há uma grande fila onde cada um, com sua bandeja, vai pedindo o que quer e, depois, paga no caixa. Primeiro, vi uma costela grande e uma carne de porco enrolada. Perguntei ao sujeito do balcão o que era – porque eu queria saber os nomes – e ele me respondeu, impaciente: porco e porco, os dois são porco.

Depois, quando fui pagar, a mulher do caixa perguntou se eu não tinha cinqüenta cêntimos, e eu fiquei procurando, mas nada de encontrá-los. Estava tão difícil que até uma moeda de um euro caiu no meu prato (eca!). E não é que a salafrária ficou resmungando? Quem tinha a obrigação de ter troco era ela, eu estava fazendo uma gentileza de tentar encontrar. Esse povo está assoberbado de trabalho, eu sei, é muita gente enchendo a cara de cerveja, mas não pode atender mal desse jeito... Além de tudo, é cobram caro!

No meu primeiro dia em Munique, passeei principal- mente pelo centro histórico, onde vi muitas construções bonitas, como as igrejas St. Paul’s Kirche e Freuen Kirche, o Neues Rathaus e toda a área da Marienplatz. No segundo, também passei por lá mas procurei ver os marcos presentes no mapa que estavam mais afastados, como o Maximilianeum. Quando eu procurava o Deutsches Museum, que fica mais a sudeste, acabei me deparando, sem querer, com o rio Isar. Muito bonito. Eu já estava estranhando estar em uma cidade grande na Europa em que não via um rio bem no meio onde as pessoas se encontram. Foi uma grata surpresa...

Faz um calor toulousiano em Munique (quando fui a Toulouse, estava tão quente que comecei o Kapitel LXXXII dizendo isso), mas a população descobriu um jeito fantástico de resolver o problema: ir à praia! Munique está londe do mar, mas as pessoas vão com trajes de banho (sunga, calção, biquíni, até topless eu vi!) para a beira do rio Isar. Eu não estava preparado para isso, mas não resisti. Tirei camisa, óculos, relógio, e, na beira, tomei o chamado “banho de gato”, de calça comprida e botina mesmo. Excelente! Se mais tempo eu ficasse, é certo que tiraria uma manhã ou tarde para nadar!

Depois, fui ao Deutsches Museum, uma dica do Marlos. Ele fica, a exemplo dos principais museus de Berlim, em uma ilha, também chamada pelo convencional nome de Museumsinsel. O museu é enorme, são muitas salas e muita coisa exposta. Para fazer uma visita detalhada e completa, são necessários pelo menos quatro ou cinco horas. Eu estava cansado de tanto caminhar e, por isso, uma olhada despretensiosa durante duas horas foi satisfatória. E, apesar de não ter sido tão minuciosa, ainda assim não consegui ver tudo e faltaram várias salas, como a dos instrumentos musicais e a das telecomunicações.

O museu é dedicado à tecnologia, mas a aborda de maneira bem abrangente. É um prato cheio para engenheiros, físicos, aficionados por automóveis ou por aviação. Mas é interessante para outras pessoas também. Há motores, hélices, turbinas, altímetros, robôs, tratores, muitos aviões e helicópteros, carros, moinhos e várias outras máquinas. Além disso, há criaturas abissais submarinas, um modelo que simula o diferente funcionamento da físico-química para dimensões muito microscópicas, e por aí vai.

Na saída do albergue, antes de ir a Regensburg, ouvi reclamação de montão porque fiz o check-out à uma quando o certo seria às dez. Eu não me lembro de terem me dado tal informação e, se deram, eu não devo ter entendido. Senti no ar uma intenção de me cobrarem outra diária, o que obviamente não ia rolar. Fiquei repetindo “mas eu não sabia, mas eu não sabia”, até que deixassem para lá. De todo modo, o albergue – Meininger City Hostel – era bom. É limpo, fica não longe da Hauptbahnhof, e tem um bar que, se não é animado, pelo menos serve cerveja boa. No hall, tinha internet wireless, que era meio lerda, mas era gratuita (havia internet nos computadores do hall e wireless nos quartos, mas aí era cara e não sei se menos lenta, pois obviamente não a usei).

Apesar de estar próximo à estação ferroviária, custei a encontrar o albergue quando cheguei à cidade. É que sou enrolado, não conhecia Munique, não tinha ainda um mapa e não segui as instruções do site: ele dizia para pegar o trem urbano S-bahn e andar uma estação; ora, são muito preguiçosos, não querem caminhar nada... Eu quis ir a pé. Foi meio cansativo, até porque andei um pouco mais do que precisava, mas não me arrependo. Aliás, nem sei se o transporte público em Munique é bom, porque fiz tudo a pé.

Uma coisa que me chamou muito a atenção logo que cheguei a Munique é que há vários lugares vendendo as roupas típicas dos bávaros, provavelmente devido à proximidade da Oktoberfest. A brincadeira não sai por menos de uns 140 euros. A roupa típica consiste em um vestido característico para as mulheres, e em berbudas e suspensórios de couro para os homens.

O mais engraçado é que vi um homem andando na rua vestido assim! E não era nenhum garotão fazendo piada não, era um senhor de idade. Só não sei se ele era um orgulhoso entusiasta das tradições bávaras ou se precisava se vestir assim para trabalhar. Por exemplo, as garçonetes de vários restaurantes usam vestidos típicos da Baviera, e na Torre Chinesa uma banda tocava, lá no alto, com todos os seus componentes devidamente paramentados com a bermuda e o suspensório de couro.

Essa roupa é tão característica desta região da Alemanha que, conforme Bertram me contou, os torcedores de outros times costumam cantar a seguinte canção para o Bayern de Munique quanto sua equipe o enfrenta: “Zieht den Bayern die Lederhosen aus, Lederhosen aus, Lederhosen aus!” Significa nada menos do que: “Tire fora as bermudas de couro do Bayern, fora as bermudas de couro, fora as bermudas de couro!” É engraçado, mas, por favor, façam isso longe de mim. Prefiro ser poupado dessa visão do inferno. Se ainda fosse para tirar os vestidos de belas bávaras...


Vídeo de Munique

sábado, 21 de agosto de 2010

Kapitel CVII – O Trem das Onze

Finalmente eu ia conhecer a Baviera. Meus dias de Europa se aproximam do fim e há muitos lugares na Alemanha que eu gostaria de conhecer e, até agora, não foi possível. Cheguei a comprar, há poucas semanas, uma passagem para Regensburg, mas não pude ir (motivo no Kapitel CI). Antes de partir neste sábado para Munique, no entanto, eu ainda tinha alguns eventos em Frankfurt.

Na quinta-feira, marquei com Julian de comermos uma pizza ali perto da minha casa, a Pizzeria Da Benito. De lá, ele sugeriu que fôssemos a um festival (Fest) que estava acontecendo perto da estação central Hauptbahnhof. E lá fomos nós, onde encontramos duas amigas dele. Depois, elas foram embora, mas encontramos um outro amigo de Julian, acompanhado de um monte de colegas de trabalho. E seguimos com eles. E íamos bebendo cerveja: primeiro uma Warsteiner na pizzaria, depois, na rua, uma Germania, uma Becks, uma Flensburger.

Chamou a atenção no festival o estande de uma ONG antiglobali- zação, montado em frente a um banco. Como aquela área é cheia de inferninhos, eles fizeram uma brincadeira com aquelas cabines cobertas com buraquinhos para os homens olharem as mulheres fazerem suas performances eróticas: fizeram uma montagem em que, olhando-se para dentro, via-se vários desenhos com críticas ao sistema financeiro, aos megacapitalistas, etc.

Na sexta-feira, eu tinha outro evento, em que também encontraria um monte de gente legal que eu não conhecia. Era a festa de despedida de uma grega chamada Ioli, que vai ficar três meses... no Rio de Janeiro! Ela fará um estágio lá, e eu só a conhecia por e-mail e Facebook. É amiga de Marion Mannhold (ver a seção Personagens), que nos apresentou para que eu pudesse lhe dar algumas dicas sobre onde morar no Rio.

Na véspera, apesar de não ter chegado tarde, só dormi muito depois e acordei de manhã bem cedo. Com apenas três horas de sono, precisava de um cochilo naquela sexta-feira à tarde, depois que voltei da universidade e antes de ir para a festa. É claro que o despertador não tocou, e cheguei depois do que havia planejado. Mas não foi um grande problema. Lá, eu me deparei com pessoas de várias partes, falando inglês, alemão, grego e português (o namorado de Ioli, Ricardo, é português, e havia ainda uma paulista, Fernanda, de modo que também falavam a língua de Camões tanto eles como o namorado dela, Bastian, e um outro alemão que estava lá, Tobias, que já morou em Portugal).

Risadas, caipirinha, cerveja portuguesa Super Bock, um trago da fortíssima grapa greco-turca. Não quis sair muito tarde porque viajaria para Munique no dia seguinte. O trem partiria já no final da manhã, mas eu não queria correr o risco de perdê-lo. Ainda assim, saí depois que o metrô já tinha parado de funcionar. Precisei ir a pé. Como sou meio perdido, perguntei a eles como chegar à minha rua, a Eschersheimer Landstraße. Eles me explicaram, mas, quando cheguei à rua que eles tinham indicado, tive uma desagradável surpresa: era outra! Era a Grosse Eschersheimer Straße. Por que dão nomes tão parecidos?!

Felizmente, eu estava com um mapa dos arredores da casa de Ioli e Ricardo, e o fato de eu ter feito muitas vezes a pé o caminho da universidade até minha casa nos meus primeiros dois meses na Alemanha me ajudou a conhecer algumas pistas de como voltar, apesar do meu péssimo senso de direção. Depois de chegar, dormi mal, pois estava preocupado que o despertador não tocasse. Acordei várias vezes e acabei me levantando antes do previsto. Mas quando alguém é atrapalhado, mesmo todas as providências podem ser insuficientes...

Eu tinha acordado com antecedência, mas, sabe-se lá o porquê, memorizei a hora errada da viagem. Ficou na minha cabeça que era no final da manhã e, então, pensei em 11h54, quando, na verdade, era às 10h54. Então, apesar de ter tempo, fiquei enrolando no computador, e quando já passava das 11 horas, fui conferir a passagem e vi que eu estava em casa ainda e o trem já tinha partido.

Fiquei um bom tempo me xingando e saí de casa apressado e preocupado. Como eu faria agora? Acho que, a princípio, como comprei a passagem com algum desconto, eu precisaria pagar uma multa para pegar o trem seguinte. E eu não sabia se seriam os quinze euros que estão escritos em meu bilhete, se seria a diferença entre o preço da minha passagem e o custo integral (que acho que daria uns trinta euros), se seria a soma dos dois (45 euros... isso está ficando caro...), se eu precisaria pagar o preço inteiro da passagem...

Quando cheguei à Hauptbahnhof, faltavam cinco minutos para o próximo trem para Munique, que sairia às 11h50. Comecei a procurar algum funcionário da companhia de trens para me informar. Como eu tinha pressa e precisava usar muitos termos técnicos que eu não conheço, tentei perguntar em inglês. O funcionário não compreendia o idioma, e não estávamos nos entendendo em alemão. Ele me disse para perguntar na sala de venda de passagens, onde saberiam inglês.

Era o que eu temia, pois lá as filas são enormes. Minha esperança era falar com um funcionário da recepção e ele me responder que eu poderia pagar uma quantia pequena ali mesmo ou no próprio trem. Não foi bem o que aconteceu... O primeiro funcionário do balcão não entendia inglês e sugeriu que eu perguntasse ao que estava ao seu lado. Este também não falava e me disse para pegar minha senha para a fila. Indiquei a ele, apontando o relógio, que eu não tinha tempo, e ele fez a cara de “paciência... vai lá para a fila”. Peguei a senha, dei meia volta e fui embora. O trem para Munique sairia em breve; depois, só à tarde! Não sou muito chegado a viver perigosamente, mas seria preciso arriscar.

Eu não tentava viajar sem pagar. Afinal, comprei minha passagem. Aliás, já paguei caríssimo para ir à Baviera, se somarmos ainda o que paguei, em vão, há não muito tempo, para ir a Regensburg. Mas eu não sabia quais seriam as conseqüências de entrar no trem errado. Teria que pagar ali a diferença? Teria que pagar uma multa de 40 euros, como a cobrada de quem viaja sem pagar no sistema de transporte público de Frankfurt? Teria que comprar nova passagem? Seria mandado para fora do trem?! Teria a improvável sorte de não me fiscalizarem ou de o controlador não perceber que eu estava com a passagem para outro trem? Nada disso aconteceu. Pausa para o suspense... Um pouquinho mais... Bem, sigamos agora com a história.

O controlador não tomava banho sabe-se lá há quanto tempo (situação compartilhada pela senhora sentada na poltrona atrás de mim), mas se mostrou flexível e compreensivo. Tive muita sorte! Ele pegou meu bilhete, conferiu minha identidade, e começou a falar comigo algo que eu suspeitava do que se tratava, mas me fiz de desentendido. Respondi que falava mal o alemão – o que é verdade, apesar da benevolência da maioria dos alemães com quem converso no idioma local.

Ele perguntou se eu falava inglês, respondi que melhor (“besser...”), e ele informou na língua de Shakespeare que eu estava no trem errado. Fiz uma teatral cara de perplexidade e, cinicamente, perguntei: “É outro o trem?!” Ele me disse que eu ia para Munique, está certo, mas que o meu trem era o de número 621, enquanto que aquele era o quinhentos e qualquer coisa. Mudo, olhei para ele com uma cara de “ops... e agora?”. Aí, ele marcou meu bilhete como checado e me disse que, da próxima vez eu deveria prestar atenção para pegar o trem certo.

Final feliz.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Kapitel CV – A Hora Feliz

Nesta terça-feira fui ao bar onde se dança salsa (foi a segunda vez que fui lá; sobre a primeira, ver Kapitel C). Chama-se Curubar, fica perto da estação Konstablerwache. Quem organizou a saída foi a argentina Xenia, que estaria com outros amigos. Além de mim e da alemã quase baiana Lara, estavam um cara chamado Christian (incrível a quantidade de pessoas com esse nome na Alemanha!) e uma garota chamada Ana, que é filha de pai alemão com mãe recifense. Fala português (não tão bem quanto Lara, mas também fala) com um baita sotaque pernambucano.

Da outra vez em que fomos, havia uma promoção, com as bebidas a um preço mais em conta do que os extorsivos valores do cardápio. Lara perguntou se havia happy-hour, e o garçom respondeu que já tinha acabo, pois ia até as dez horas (eram 10h30). Foi frustrante. Como o lugar não cobra entrada, pagar quatro euros por um coquetel até que acabaria saindo em conta. Mas o valor normal da bebida, oito euros, não motivava nenhum de nós. Já planejávamos passar a noite a seco, até que meu sangue carioca falou mais alto.

Uma garçonete perguntou se queríamos beber alguma coisa e respondi – com aquele malandro tom de brincadeira com fundo de verdade em que somos exímios – que queríamos happy-hour. A garçonete olhou para a minha cara e perguntou: “são quantos drinques?” Naquele momento, estava claro que o jeitinho brasileiro havia funcionado. Respondi que pelo menos quatro (éramos cinco pessoas), e ela avisou ao outro garçom que ele podia nos servir as bebidas como happy-hour, ou seja, pelo preço promocional.

Um alemão perguntaria se há happy-hour, lamentaria que o horário tinha passado, jamais pensaria em consultar os funcionários se, levando-se em conta a quantidade de pessoas interessadas em consumir, não poderiam abrir uma exceção e flexibilizar a regra. Isso é coisa de brasileiro. Eu arrisquei... e petisquei. Posso não ser bom de samba, pode me faltar categoria nos campos de futebol, mas hoje mostrei que sou um brasileiro legítimo.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Kapitel CIII – Comi e Duas Noites

Não sei se são preocupações, ou se é o excesso de Coffea arabica, mas tenho tido um sério problema para dormir cedo. Em um desses dias até veio a calhar, pois, depois de um bom tempo, voltei a sair à noite. Meus camaradas Bertram e Florian combinaram de nos encontrarmos no rio Main, perto de uma ponte que eu não sabia qual era. Peguei as instruções com eles e fui. Mas nada de encontrá-los. Andei muito, passei por várias pontes, e nada. Até que, em algum momento, pegando as orientações com o Bertram por telefone, finalmente entendi uma coisa: eu tinha atravessado para o outro lado do rio, enquanto que eles não. Ou seja, eu não os encontraria nunca!

Julguei que seria do outro lado porque todas as vezes que marquei com qualquer pessoa no rio (eles, inclusive), era do outro lado. Nem perguntei, portanto. Enfim, o importante é que os achei. Havia muito mais gente lá. Katja e Mona – as duas garotas que reforçaram o FLATmengo no campeonato de futebol após a contusão de Martina (ver Kapitel XCI), também estavam – mas o grupo era bem maior. Ficamos bebendo cerveja e, dentro do possível, conversando. Estava realmente difícil entender o alemão, até porque, à medida que bebíamos, não só minha compreensão piorava como os demais conversavam com ainda menos preocupação de serem claros. Mas uma coisa é certa: eu realmente aprendi a abrir garrafas usando o isqueiro em vez do abridor (ver Kapitel LXX e LXXIX).

Depois, nós cinco e mais uma loirinha e um cara fomos a uma boate chamada Nachtleben (ou “vida noturna”). E mais cerveja! Era claramente uma boate mais em conta do que aquela a que eu tinha ido da outra vez (ver Kapitel LI). A música não era grande coisa, mas me pareceu aceitável. Não sei se Florian concordou muito, pois disse: “this music is shit”. Naquele dia, portanto, dormir tarde foi justificável.

Mas nem sempre isso ocorre... Em geral, é no meu quarto (sozinho, é bom esclarecer) que as horas avançam e me atormentam com a falta de sono. A insônia atingiu seu grau máximo na noite do dia 9, quando dormi aproximadamente às 7h30 da manhã (do dia 10, é claro)! Eu me deitei já pelas três da madrugada, e de duas em duas horas em média eu ficava de saco cheio de não conseguir dormir e ligava o computador. Pelo menos serviu para assistir pela internet ao bom desempenho da Dilma Rousseff na hostil entrevista do Jornal Nacional. Lá pelas seis da manhã, o céu já claro, eu ainda conversava pelo chat com minha irmã no Facebook.

Estou tentando dormir e acordar mais cedo, acabar com esse ciclo vicioso. Ontem, consegui dormir à uma, o que foi uma vitória! Anteontem, dormi tarde, mas pelo menos consegui acordar a tempo de ir à universidade. Como eu sempre acordava muito tarde – e, quando eu estava plenamente desperto, boa parte do dia já tinha se passado – acabava me parecendo totalmente improdutivo ir até lá. Mas finalmente consegui quebrar esse jejum.

Por falar em jejum, a ida à universidade me proporcionou romper com outro ciclo: comi uma refeição decente. Por preguiça de me aventurar na cozinha e sem vontade de ir a algum restaurante próximo de casa, tenho comido mal. Há alguns dias em que todas as minhas poucas refeições são sanduíches de pão de forma. Manfred sempre brinca que minha bolsa-sanduíche me dá direito a comer apenas um sanduíche, e que eu devo, portanto, comer ainda menos.

Ontem, para encontrar um lugar para comer tal refeição decente lá no bairro de Bockenheim, no entanto, não foi tão fácil. Andei um bocado, até por áreas que não conhecia, e nada de achar um restaurante que me atraísse. É surpreendentemente difícil achar lugares que não girem em torno de döner, carne de porco, culinária oriental (não só chinesa e japonesa, mas também muita tailandesa) ou massas e pizzas. E eu não queria nada disso (minhas últimas duas refeições decentes tinham sido, inclusive, em restaurantes tailandeses, onde provei boas cervejas da Tailândia: Chang e Singha).

Acabei encontrando um bom e velho galeto (Hännchen, como chamam em alemão) com salada. Pedi a salada pequena, que simplesmente significou um prato cheio. Fiquei imaginando como seria a salada grande, mas tive até medo de perguntar. Bem, por ora é isso o que eu tinha a lhes dizer. Agora, vou esquentar uma pizza pronta. Ou, quem sabe, preparar um sanduíche de pão de forma...

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Kapitel CII – A Casa do Urso

Depois de vários dias só comendo besteira, tive hoje minha primeira refeição decente em bastante tempo. Comi um prato de frango com molho de leite de coco e curry e bebi a cerveja tailandesa (?!) chamada Chang, no ótimo resturante Krua Thai. Já almocei lá outras vezes antes. Fica no bairro de Bockenheim, perto da universidade, para onde fui em seguida, usar o programa de estatística SPSS e dar uma olhada em um livro.

Minha ida à universidade marcou o fim de uma seqüência de três dias enfurnado em casa, de onde só saí para fazer compras no supermercado e colocar o lixo para fora. Esse período restrito ao circuito quarto-banheiro-cozinha me alertou para uma coisa: eu ainda não tratei nestes Contos Fantásticos, com a devida profundidade, do lugar onde moro. Pois corrigirei essa falha agora.

Moro em um WG (sigla para Wohngemeinschaft), que é um apartamento compartilhado. Comigo moram o já famoso (São) Manfred, muitas vezes citado aqui, e duas meninas, também alemãs: Suzanne e Janine. Este seria o último mês das duas antes de voltarem para suas cidadezinhas, mas parece que estão negociando com Mario (que Mario? o espanhol que aluga o apartamento, é claro) para prorrogarem o aluguel. Elas não são más pessoas, mas há muito pouco diálogo com elas. São muito amigas entre si, mas não demonstram qualquer interesse em se aproximar de nós dois (tratei disso no Kapitel XLV). Já Manfred é um cara legal, que me ajudou várias vezes. Mas não tem paciência de me ajudar no alemão e sempre zomba das minhas trapalhadas. Que não são poucas.

O WG fica no bairro de Dornbush. Está longe de ser badalado como Sachsenhausen ou bonitinho como Bockenheim, mas é um bom lugar. Como disse no Kapitel II, tem boas opções de transporte e seviços. Vivo a umas duas quadras da estação de metrô Dornbush, que é a primeira no sentido Sul-Norte que não é subterrânea (tipo linha 2 do metrô carioca, na superfície).

Além disso, o maior supermercado da cidade fica perto da estação anterior, a Miquel-/ Adickes- allee/Polizei- präsidium (vocês não imaginam o quanto é viciante ficar repetindo esse nome enorme quando ele é anunciado no metrô). Perto da minha casa ficam ainda o restaurante italiano Cosi Cosi, um oriental, uma padaria, uma loja que vende embutidos onde também já almocei algumas vezes, um banco (onde saquei dinheiro do Banco do Brasil várias vezes), o escritório da administração da região (o Bürgeramt)...

Meu endereço diz que moro na Eschersheimer Landstraße, mas é mentira. O meu número ocupa o quarteirão inteiro, e é um número comercial. Depois, virando-se a esquina, o número se repete, mas com as letras A, B, C... Pois é em um desses que eu vivo. Só que aí já não é mais, realmente, na Eschersheimer Landstraße. O nome da rua é Carl-Goerdeler str.

Uma vez, de curiosidade, fiz uma pesquisa na Wikipedia e descobri que o tal do Carl Goerdeler era um político monarquista conservador, que, inicialmente, considerou Hitler um ditador ilustrado, com potencial para fazer o bem. A partir de 1933, mudou de ideia, e passou a fazer oposição a ele e a tentar ajudar comerciantes judeus perseguidos. Se uma tentativa de matar Hitler em 1944 tivesse dado certo, ele seria o novo chanceler. Como ela falhou e descobriram que ele estava envolvido, foi preso e torturado por meses e, depois, executado.

Mas é na Eschersheimer Landstraße que eu ando sempre. Pelo que me explicaram, várias ruas em Frankfurt levam o nome de outras cidades porque eram, originalmente, as rotas para viajar para tais lugares. A tal da Eschersheim, bem ao norte e onde nunca estive, originalmente era uma cidade independente, mas foi anexada a Frankfurt em 1910. Frankfurt cresceu muito incorporando cidades vizinhas, entre elas Bockenheim, bairro onde fica o campus onde eu tive aulas de política. As belas – e parecidas entre si – Warte (Bockenheimer Warte, Galluswarte, Friedberger Warte, Sachsenhäuser Warte) eram torres de guarda que ficavam nos antigos limites de Frankfurt, mas, com a expansão, hoje ficam bem no meio da cidade (ver Kapitel LX).

Vivo no quarto andar, mas isso não significa nada. Na Alemanha, bizarramente, os apartamentos não têm numeração, e as referências são simplesmente o número do prédio e o seu sobrenome. Ou seja, trata-se de um prato cheio para um correio ineficiente como o alemão. Isso me causou muita dor de cabeça, como já praguejei nos Kapitel LIV e LXVIII.

Meu apartamento tem uma sala pequena, uma cozinha idem, mas quartos bastante espaçosos (o meu é enorme!). Além disso, há dois banheiros com chuveiro, o que diminui consideravelmente a possibilidade de conflitos entre nós quatro. A sala para pendurar a roupa para secar fica fora do apartamento, no subsolo do edifício e, bizarramente (levando-se em conta que roupas secam melhor no calor), está sempre muitos graus mais fria do que em qualquer outro lugar que não a geladeira. O local para colocar o lixo fica fora do prédio e atende a todos os edifícios que usam a mesma numeração. Lá, há lixeiras para plástico e embalagens, outras para papel e duas para lixo orgânico. Tudo bastante alemão (o sistema está explicado no Kapitel XXX).

O meu quarto tem 25 metros quadrados, se o anúncio dizia a verdade (eu nunca o medi, mas é grande). Tem um bom armário, uma cômoda, uma pequena mesa, uma cama meio desconfortável, uma mesa de cabeceira moderninha, uma estante com cara de escada em que não cabe quase nada (mas ponho livros lá assim mesmo), um sofá-cama e uma televisão miúda que pega poucos canais (nunca asssisti a ela e, quando tentei, não achei a transmissão de nenhuma partida da Copa).

O que mais chama a atenção, no entanto, é um imenso ursão de pelúcia (escrevi sobre ele no Kapitel II; continua na mesma posição e no mesmo lugar). Não é meu, nem comprei para dar de presente. Parece que Manfred ganhou há muito tempo e, como não tem onde colocá-lo, deixou-o aqui. Simplesmente aqui já estava quando cheguei, a aqui ficou, pois não me atrapalha e não quis ser chato. É um tanto bizarro ver um ursão no canto do quarto, mas já me acostumei. Pena que ele só divide o espaço comigo, não os custos do aluguel. Aliás, debaixo dele há uma gaveta cheia de tralha que também não é minha: sacos plásticos, parafusos, lâmpadas... Ou seja, é melhor deixar o urso lá; pelo menos esconde a tranqueira toda.

O urso não é a única peça de “decoração” que chama a atenção em meu quarto. Há também um enorme mapa-múndi em alemão atrás da minha cama. É interessante que posso olhar para “Die Welt”, o mundo, e ver como se chamam os países nesta língua que tanto custo a aprender. Vereinigte Staaten Von Amerika, Gross Britannien, Schweden, Weiss-Russland, Aserbaischan, Ägypten, Elfenbeinküste (este eu aprendi na Copa!), Simbabwe... Legal, né?

Mas o fato de eu gostar de geografia é apenas uma coincidência. Mario colocou o mapa lá para esconder umas manchas na pintura da parede. É que o antigo morador deixou a roupa secando no interior do quarto e criou mofo. Aí, antes de eu me mudar, Mario pintou as partes afetadas e ficou de fazer uma pintura geral quando eu me ausentasse por mais tempo. Bem... passei duas semanas na França e continua na parede, ali atrás da China, da Mongólia e da Indochina, uma baita mancha mais clara.

Parece que estou reclamando, mas não estou não. Não tenho motivos para isso. O urso e as manchas são mais casos pitorescos do que realmente problemas. Além disso, o Mario é gente-boa e compreensivo, não tem rigor excessivo com o prazo do pagamento do aluguel e, assim como Manfred, já me deu várias dicas da vida em Frankfurt. E meu quarto é realmente espaçoso. Tanto que é possível ficar três dias enfurnado nele. Mesmo tendo que dividi-lo com um urso tamanho família.