Um brasileiro que fala um alemão macarrônico chega a Frankfurt sem saber nem mesmo onde vai morar... Aqui narro minhas aventuras nesta temporada germânica: lugares interessantes, enrascadas em que me meto, esquisitices que percebo a cada dia. O nome do blog é uma analogia aos irmãos Grimm, alemães que compilaram muitas dezenas de contos de fada tradicionais, como Branca de Neve, João e Maria, Rapunzel, a Gata Borralheira, o Músico Maravilhoso, Chapeuzinho Vermelho, e a Bela Adormecida (mais detalhes em Vorstellung).

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terça-feira, 5 de outubro de 2010

Kapitel CXVI – Trilogia: O Retorno do Reis

Acabou o curso de verão. Passamos de bar em bar a longa noite depois do coquetel de encerramento em Bruxelas e começaram as despedidas. A italiana Luana foi a primeira a ir embora, na véspera. Ainda teríamos o começo de sábado para dar umas voltas. Logo depois do último almoço no restaurante da sopa de lentilha (ver Kapitel anterior), foi a vez de me despedir de Patrícia e João, cujo voo de volta para Portugal seria no meio da tarde. Não muito depois foi a vez de Sofie e, por fim, eu e Edalina nos separamos no metrô. Era minha vez de ir à estação norte para pegar o ônibus baratinho para Amsterdã.

Cheguei no começo da noite. Não havia feito reserva em albergue, mas tinha pegado o endereço de alguns. Entretanto, não tinha um mapa. Estava perdido e me recusei a pagar três euros por um minúsculo mapinha em uma das várias lojas turísticas no centro. Ridículo! Em qualquer cidade europeia se consegue um mapa daqueles gratuitamente e os holandeses ficam metendo a mão!

Andei muito, o mochilão e o laptop pesavam cada vez mais. Os únicos mapas que eu tinha eram os que copiei do Google e colei em um documento de Word com os endereços dos albergues. Para me localizar, portanto, eu precisava, a cada vez, ligar o computador e tentar encontrar em algum dos micromapas a rua onde eu estava. Acabei chegando a uma rua mais residencial, e um senhor de idade viu que eu estava bem perdido.

Pegou um guia de ruas e telefonou para o primeiro albergue da lista. Esdruxula- mente, o atendente falava mal holandês, e ele falava mal inglês. Ainda assim, pôde constatar que eu tinha capturado o mapa errado que aquele albergue ficava muito longe dali. Viu que o segundo albergue da minha lista, no entanto, era ali pertinho, e me acompanhou até lá. Foi muita gentileza.

Tive muita sorte: havia uma (apenas uma!) cama vazia para aquela noite! A sorte só não era maior porque ela ficava em um quarto com 18 camas! Pelo menos as pessoas não eram barulhentas. Talvez porque se tratava de um albergue cristão. Ou seja, tratava-se de um albergue não apenas silencioso como chato, sem qualquer clima; isso em plena louca Amsterdã. Reservei mais duas noites em um quarto com seis camas (que, aliás, nem chegaram a ficar todas ocupadas).

Os funcionários eram gentis e educados, tinham sempre a preocupação de ajudar e impedir que os hóspedes se perdessem ou tivessem problemas (parece até que já me conheciam, não é?). Mas o albergue em si era uma porcaria. A internet wireless não era gratuita, e era preciso pagar para ter acesso mesmo do próprio laptop. O café-da-manhã, incluído, era paupérrimo: quando havia panquecas, estava até bom, mas foi frustrande o dia em que pedi os sanduíches e vi que eles se restringiam a dois pãezinhos com uma única fatia de queijo cada, muito fina e que sequer cobria todo o interior do pão. E ainda tive que comprar um mapa: lá custava menos, um euro, mas eles não forneciam de graça como em outros labergues em que já estive.

No dia seguinte à minha chegada, andei por toda a cidade, tentando cobrir a maioria dos lugares desenhados no mapa. Amsterdã é uma cidade bonita, cheia de antigas casinhas localizadas em ruas inclinadas de pedras, cortadas por belos canais. Aliás, uma aparência que não condiz com seu clima amalucado. As pessoas lá parecem querer ser o mais loucas possível; mesmo o comportamento alternativo não me parecia natural, tive a impressão de ser um pouco forçado. É visível também que há uma enorme quantidade de estrangeiros, seja como turistas, seja como imigrantes, seja como indecisos quanto a qual das duas categorias se enquadrar.

Não demorou muito e, sem querer, eu me encontrei no meio do famoso distrito da luz vermelha. O mais louco é ver crianças pequenas e velhinhos olhando aquele monte de sex shops e de casas de sexo explícito. Alé bichinhos de pelúcia com peru de fora são vendidos aos montes, juntamente com camisetas engraçadas alusivas a sexo e drogas. Não deixa de ser estranho olhar para janelas de frente para a rua, que parecem vitrines de lojas, e constatar que as manequins se mexem e lá o produto à venda não é a roupa, mas sexo. E há de tudo: desde jovens moças até prostitutas bem velhas, desde mulheres tão lindas que não dá nem para acreditar que existem até outras que não dá para acreditar que alguém queira algo com elas (e muito menos que pague para isso!). Não faltam garotas vindas do leste europeu, mas há também orientais, negras etc.

Outra coisa que se encontra por toda parte são os não menos conhecidos coffe-shops. É o local onde é permitida a venda de maconha e haxixe. Quem não fuma, dependendo do lugar, tem a opção de comer um bolinho aditivado. Há desde uns buracos escuros e esfumaçados com música pesada até um charmoso café com cara de limpinho, em frente a uma igreja e com belas garçonetes. No distrito da luz vermelha fica um que se chama Buldog, que se intitula o mais antigo de todos, aberto em 1971, se minha memória não falha (não, não houve nenhuma piada implícita nesta frase).

Apesar de todo o clima de animação e balada, as cervejas não são o forte da Holanda, definitivamente. São muito piores do que as vizinhas belgas. A Amstel, talvez a mais comum, é bem ruinzinha. Vale mais a pena beber uma Jupiler, que conheci em Bruxelas e é fácil de se encontrar em Amsterdã, além de ser uma das opções mais baratas.

No meu segundo dia, choveu o tempo todo. Ainda bem que tirei bastantes fotos na véspera. Aproveitei para fazer algo que eu já pretendia e que dispensa um céu ensolarado: ir a museus (que, aliás, são todos caros). Fui ao Museu Van Gogh e à Rembrandthaus. A Casa de Anne Frank ficava perto do albergue, mas a fila para entrar era tão quilométrica que desisti dela. O Van Gogh tem uma grande coleção de pinturas não apenas dele como também de artistas que o influenciaram ou que foram influenciados por ele. Pude ver Monet, Toulouse-Lautrec, Gauguin e até Gustave Coubert, de quem gosto muito, mas as pinturas que me impressionaram mesmo foram as de Jozef Israëls e de Léon Lhermitte, que eu não conhecia.

A Casa de Rembrandt é, efetivamente, um casarão onde esse mestre das sombras vivia (até que, afundado em dívidas por seu estilo de vida luxuoso, precisou abrir mão dela, terminando seus dias com pouco espaço e pouco dinheiro). Nas paredes, pinturas feitas em seu atelier por ele e por seus aprendizes. Em uma das salas, podíamos ver uma demonstração do processo de litografia.

Como meu voo de Bruxelas para Frankfurt sairia na manhã de quarta-feira, eu precisaria voltar a Bruxelas na terça para passar a noite lá. Então, deixei para ir a um último museu no final da manhã e, em seguida, pegar minhas coisas no albergue e partir de volta para a Bélgica. O museu escolhido foi o meu preferido entre os três que visitei: o Rijksmuseum. Além de ser uma construção linda (que estava, no entanto, parcialmente oculta por uma reforma em seu exterior), tem um grande acervo de brilhantes pintores holandeses, como Rembrandt, Vermeer, Jan Steen e Bosch, além de armas, prataria e porcelana. Adorei a atualíssima pintura “Fishing for Souls”, de Van de Venne, em que católicos e protestantes pescam fiéis no rio.

Peguei minha mochila e parti para a estação Amstel, onde, suposta- mente, pegaria o ônibus baratinho para Bruxelas às três e meia. Suposta- mente, havia o ônibus das três e meia e, se tudo desse errado, ainda havia um às seis e meia, segundo vi na internet. Tudo apenas “supostamente”. Chegando lá, às 3h10, tive a desagradável notícia de que, naquele dia, o último ônibus tinha saído às 2h30. No dia seguinte, sim, haveria esses horários.

Era preciso inventar um plano B. Voltei à estação central e comprei o bilhete de trem. Era bem mais caro, 41 euros, mas ainda um preço viável; no sentido contrário, de Bruxelas para Amsterdã, o preço era surreal: 87 euros! Ainda assim, como não aceitaram meu cartão de crédito, fiquei praticamente seu dinheiro vivo até a volta para a Alemanha. Cheguei à Bélgica com o dia ainda claro. Não havia reservado albergue mas tinha pegado uma lista de três opções com Willy, o sino-californiano que dividira quarto comigo durante o curso de verão. Não haveria de ser difícil encontrar um. Pelo menos, isso era o que eu achava. O avanço das horas e o escurecimento do céu me fariam mudar completamente de opinião.

Fui até a primeira opção, a pé, com todo o peso da mochila e do computador sobre os ombros. Era um albergue bem central, tudo de que eu precisava. Foi muito frustrante ouvir que todos os lugares estavam ocupados. O cara disse que, se eu quisesse, poderia esperar lá para ver se haveria alguma desistência. É claro que não fiquei. Queria achar o quanto antes um albergue para deixar as minhas coisas, e seria bom se fizesse isso ainda de dia. Seria...

Andei muito até chegar a outro albergue da lista. Dos três que eu tinha o endereço, apenas aquele primeiro era bem central. Apesar de afastado e localizado em uma rua meio escura, parecia um lugar legal. Mas isso não faria diferença. Também estava lotado! Exausto e já muito preocupado, perguntei à atendente (que tinha aquele jeitinho charmoso e acelerado de francesinha cool) se ela sabia de algum lugar não muito caro onde eu poderia passar a noite. Gentilíssima, a menina começou a telefonar para outros albergues e, ao encontrar um, fez a reserva para mim e me deu o endereço de lá e um mapa, explicando o caminho mais fácil para chegar lá.

Era, portanto, apenas questão de tempo. Graças às boas indicações, achei o lugar sem maior dificuldade. Havia no meu quarto um figuraça estaduni-dense, com bigode à la Hercule Poirot, chamado Patrick, descendente de escoceses e nascido no dia de São Patrício, que falava pelos cotovelos (e eu só entendia metade do que dizia). O albergue parecia bom e tinha um bom café da manhã. Este começava a ser servido às sete e eu já estava, antes dessa hora, a postos. Tomei o café rápido e saí bem cedo, para não ter problemas. E não teria nenhum se não fosse por alguns percalços...

Se tem algo que não compreendi bem como funciona são os trens em Bruxelas. Perguntei para o controlador se o trem que ia sair era o que iria para o aeroporto e, sem paciência e desatento, ele me deu uma resposta que deu a entender que era. Mas não era. Os controladores não fazem nenhuma questão de orientar os passageiros perdidos. Quando achei estranho e perguntei para outros passageiros, eles me disseram que era no outro sentido.

Saltei naquela cidadezinha-satélite e perguntei para o vendedor da estação ferroviária local como eu poderia ir para a Estação Norte, de onde eu sabia que sairia o trem para o distante aeroporto. Ele me deu a indicação, mas acabei novamente saltando errado. Quando cheguei a Estação Norte, não tive problemas para seguir para o aeroporto. Mas já era praticamente a hora do meu voo.

Quando cheguei ao balcão da Lufthansa, perguntei ao funcionário se ainda era possível ir no voo, porque eu estava atrasado. É claro que não era. Ele me orientou a ir ao balcão de remarcação de viagens. Minha surpresa foi a tranqüilidade do balconista da Lufthansa para remarcar minha viagem para o voo seguinte, menos de duas horas depois, sem cobrar nada por isso. Fiquei totalmente fã da Lufthansa! Isso é que é saber tratar bem os clientes!

As confusões continuariam até o último momento. Chegando ao prédio onde moro, tive a desagradável surpresa de que não havia ninguém em casa. E como fiz um acerto com Mario, que aluga o quarto para mim, para ele alugá-lo nessas duas semanas em que estive fora, eu estava sem a chave. Telefonei para ele e soube que Manfred viria, mas ainda demoraria uns quarenta minutos. Demorou mais. Fiquei uns vinte do lado de fora, na rua, até que enfim algum vizinho chegou. Entrei “de carona” e me sentei na escada.

Peguei meu laptop, consegui captar fraquinho o sinal da internet da minha casa, e lá fiquei esperando, sob olhares desconfiados de vizinhos que entravam ou saíam. Enfim, o final foi feliz e toda a aventura valeu a pena. Não há trilogia sem momentos difíceis e contratempos, não é mesmo?

domingo, 3 de outubro de 2010

Kapitel CXV – Trilogia: As Duas Bruxelas

Enfim, cheguei a Bruxelas. O aeroporto é estranho, parece um labirinto. É preciso andar muito lá dentro, subir escadas, descer escadas, dar voltas e mais voltas em caracol... tudo bem pouco racional. Fui seguindo outros passageiros, é claro, para achar o lugar de pegar a bagagem. Só que, quando percebi, eu já estava na área de saída do aeroporto. Precisei pedir ajuda para o pessoal da segurança para entrar novamente e pegar minha bagagem.

Bruxelas é uma cidade bem maior do que eu esperava. Capital da União Europeia e sede da OTAN, tem grande quantidade de estrangeiros. Por esse motivo e pela combinação de casas antigas com prédios modernos, era inevitável que eu a comparasse com Frankfurt, e a visse como uma versão belga da cidade onde estou morando. Só que não apenas achei as distâncias maiores em Bruxelas como a sua população é uns 30% mais numerosa do que a de Frankfurt.

Logo me chamaram a atenção os prédios antigos, com amplo predomínio das cores bege e cinza, as impressio- nantes seqüencias de casas conjugadas (sem nenhum espaço entre elas), também a presença de muitas casinhas de tijolos, e as amplas áreas das praças e prédios públicos, em contraste com a aglomeração das velhas casas “amontoadas”. Não faltam estátuas, principalmente de homens montados em cavalos, como chamou a atenção minha mãe. O pior da cidade é a antipatia da maioria dos garçons e dos funcionários dos transportes públicos. Um aspecto extremamente charmoso são as cenas de quadrinhos pintadas em grandes dimensões nas paredes de vários prédios; adorei, e fotografei várias.

Há algo, no entanto, bem mais pitoresco na cidade, e na Bélgica como um todo. É um país que não é bem um país. É dividido em duas regiões, uma em que se fala holandês – Flandres – e outra em que se fala francês – Valônia. Não é incomum que flamengos não saibam falar francês e que valões desconheçam o holandês. Enquanto os flamengos aprendem francês no colégio mas depois pouco o usam, inclusive podendo se ofender se você se dirigir a eles na língua francesa (é melhor usar com eles o inglês), os valões podem não ter nem mesmo o menor conhecimento da língua holandesa, pois têm a opção de estudar na escola holandês ou inglês, como preferirem.

O país tem as duas regiões e, no seu centro, fica a capital, Bruxelas. Trata-se de uma área bilíngüe, localizada próxima ao limite entre as duas regiões mas dentro de Flandres. Originalmente uma cidade flamenga, acabou, por sua importância, recebendo tantos valões que, hoje, a língua predominante, que se ouve sempre nas ruas, é o francês.

Só que no país tudo tem que ser dividido em cada uma das culturas lingüísticas. Todas as ruas de Bruxelas têm um nome em cada idioma, os partidos políticos são sempre dois de cada ideologia (há um socialista flamengo e um socialista valão, um liberal de Flandres e um liberal da Valônia, etc.) e até a universidade é, na verdade, duas. Meu curso de verão sobre partidos políticos durou uma semana, acontecendo primeiro no campus valão (Université Libre de Bruxelles) e, nos últimos cinco dias, no flamengo (Vrije Universiteit Brussel).

Acabei chegando tarde ao hotel que estava reservado para os estudantes do curso de verão. Tomei um banho e fui à universidade. Não tinha levado o mapa e custei muito a achar o local, que era o instituto de investigações europeias. Cheguei uma hora depois ao coquetel de inauguração (que, a propósito, foi bem mixuruca). Fui o último não desistente a chegar: os demais participantes ou chegaram muito mais cedo ou não foram nesse dia. Aquele primeiro momento foi meio frio. Eu tentava fazer piada, puxar assunto, mas todos estavam meio tímidos e retraídos. Mas era apenas o “gelo” inicial. A turma tinha muita gente legal e nos divertiríamos bastante.


Eu era o único latino-americano do curso, cujo corpo discente se destacava pelo fato incomum de, entre quinze alunos, três serem portugueses. Eles, aliás, se tornaram meus melhores amigos lá, junto com a italiana Luana, sulista de sangue quente nascida em Puglia. João, sempre muito engraçado, nasceu em Évora e é filho de pais alentejanos. Estuda na Universidade de Aveiro com Patrícia, que vem dessa cidade mesmo. Edalina nasceu na Espanha, filha de pais cabo-verdianos, mas foi novinha para a Terrinha e também é “tuga”.

A turma tinha ainda três estadunidenses: uma judia de Ohio chamada Sarah, que sempre falava alto, rápido e com muita gesticulação; um chinês de Taiwan que se mudou criança para a Califórnia e adquiriu nacionalidade ianque (chama-se Willy e foi meu companheiro de quarto); e uma estudante de relações internacionais radicada na Alemanha. Alás, havia também uma alemã da Baviera, uma coreana que mora no Texas, um romeno meio doido, o francês Matthieu (que não fala português mas tem pai lusitano; eu e João começamos a chamá-lo de Mateus) e três belgas.

Entre os belgas não havia nenhum valão. Maïté, que pouco fala holandês e é francófona (e fuma como uma francesa), reclamou quando eu disse que ele era da Valônia. Observou que era de Bruxelas, e que, apesar de falarem francês, bruxelenses e valões são completamente diferentes. Ah, bom. A propósito, ela é também, provavelmente, o único caso do mundo de alguém que foi à Polônia com a motivação de aprender a falar inglês (?!).

Os demais belgas da turma eram flamengos. Um era Tom, que era gente-boa mas deu uma declaração tão equivocada como infeliz: disse que o único time de futebol brasileiro que conhecia era o Boca Juniors. Lamentável e imperdoável! A outra belga, que foi a que ficou mais próxima dos luso-ítalo-brasileiros, especialmente no final, era Sofie. Alta, loira, magra, bonita, simpática, elegante, delicada e sorridente, ganhou o apelido de “princesa da Disney”. Cinderelamente, aliás, deixou o sapato cair enquanto andava conosco em uma rua de Bruxelas, mas eu bobeei e não peguei a tempo.

Eu, João, Patrícia, Edalina e Luana saímos vários dias juntos, depois da aula da tarde, passeando pela cidade, conhecendo os lugares turísticos, jantando e bebendo cerveja. Às vezes alguma outra pessoa ia conosco, às vezes algum deles ficava no hotel para descansar ou preparar alguma coisa relacionada os estudos. Eu fui o único que saí todos os dias, sem exceção, inclusive na véspera da minha apresentação. Foram saídas leves, voltando cedo, mas me recusei a passar algum dia trancafiado no hotel. Além disso, sempre quando eu voltava, ainda tinha pique para ir para a internet. Como as aulas começavam às nove da manhã e as universidades (sim, os dois campus) não ficavam perto do hotel, passei duas semanas dormindo seis horas ou menos todos os dias.

A Bélgica é a grande rival da Alemanha na disputa pelo posto de país com as melhores cervejas do mundo. Tive seis meses na Alemanha para provar várias cervejas. Como só estive duas semanas na Bélgica, precisava ser rápido para ter base para comparação. E provei várias cervejas: Westmalle Trappist, Leffe Brüne, Leffe Blonde, Chimay Blue, Duvel, Waterloo, Judas, Vedett, Grimbergen Dubbel, Jupiler, Orval, Trappistes Rochefort e até a não-alcoólica Tourtel (essa por acidente, porque o Tom me disse equivocadamente que era uma stout).

Provei ainda cervejas lambic (de trigo, com fermentação espontânea), faro (versão mais adocicada da lambic), gueuze Mort Subite Framboise (lambic misturada com framboesa; não é ruim, mas prefiro cerveja normal) e St Lamvinus Cantillon (lambic misturada com uva, lembra um vinho beeeem doce, argh!). Como não anotei, no entanto, não tenho certeza se realmente bebi todas essas e provavelmente estou me esquecendo de alguma.

Cheguei à conclusão de que certamente prefiro as alemãs. Se fizermos uma comparação com os vinhos (não sei se é uma boa comparação, mas acho que possibilita expressar minha avaliação), as cervejas alemãs são como vinhos secos e as da Bélgica como vinhos suaves. As cervejas belgas têm em geral um gosto mais frutado e, apesar de terem alto teor alcoólico, não são encorpadas como as germânicas. Minha cerveja preferida entre as que eu provei lá foi justamente a que mais me lembrou as boas alemãs: a ótima Chimay Blue. Ah, e valeu a pena prová-las, só para conhecer, mas não achei nada saborosas as lambic e as faro; prefiro inclusive o “suquinho de framboesa” gueuze a elas.

Nem só de bebida vive a Bélgica, é claro. Os belgas são especialistas em batatas fritas, o que não como, mas também têm enorme tradição nos waffles (ou gauffres, em francês). Comemos as duas versões com chocolate (de que também são exímios produtores): o de Liège, que é mais durinho, e o de Bruxelas, mais mole. Não sei qual é melhor, mas são ambos muito tradicionais no país.

Um dia, fomos a um restaurante português assistir ao clássico lisboeta entre Benfica e Sporting, o Fla-Flu da capital lusa. E para a alegria de Edalina, que estava tensa, e para leve decepção de Patrícia (bem leve mesmo, aliás, pois não estava lá muito preocupada), deu vitória “encarnada”: fácil, fácil, dois a zero para o Benfica. Comemos bifanas, uns sanduíches de carne de porco, e, lá, nossas cervejas eram lusas: Sagres e Superbock.

O restaurante aonde fomos mais vezes, no entanto, foi um que tinha uma ótima sopa de lentilhas. Foi sugestão de Luana, que ficou viciada no lugar. Tomei a sopa em dois dias, e em outros dois comi um gostoso crepe com diferentes queijos. Aliás, Luana merece um comentário adicional em relação à culinária: disse que adora comida inglesa e que está cansada de ver restaurante italiano por todos os lados. Como assim? Está cansada de comer massa e acha a culinária inglesa boa?! Bizarro. Ela mesma já contou que dizem que é uma italiana fake: também não gosta de café, nem de futebol. Mas após duas semanas deu para ver que não é completamente “falsificada”: fala com as mãos, tem sangue quente e não admite que a massa não esteja al dente.

Houve um dia que fomos todos convidados pela organização do curso para ir a um restaurante típico belga. Lá, comi um filet americaine tartar (foi a segunda vez que comi esse prato; a primeira, em Paris, está descrita no Kapitel XC). De sobremesa, mandei ver em uma dame blanche, um sorvete de creme com calda quente de chocolate; o gosto lembrava o do profiterole e é uma sobremesa popular no país.

Também houve dia em que fomos a um restaurante italiano, a um tailandês, e em que comemos pizza. O mais inusitado certamente foi a vez em que comi canguru. Nunca imaginei que provaria tal carne na Bélgica. É boa, mas lembra muito a bovina, não sendo, portanto, muito diferente do trivial. E a carne de canguru estava macia, diferentemente do que, no passado, eu tinha ouvido falar sobre ela.

O bandejão dos dois campus também não era ruim – aliás, era bem melhor do que o Mensa da Universidade de Frankfurt. O que era complicado era encarar as enormes filas. É claro que houve dias sofríveis, como uma péssima sopa ou falta de acompanhamentos razoáveis, mas no geral havia boas opções. Inclusive pratos típicos belgas, como os boulettes à la liégeoise e o vol-au-vent.

Mas não pensem que nossos passeios se resumiam à comilança. Desbravamos a cidade por vários dias, especialmente no domingo, quando a maioria das ruas estava fechada para os carros. Fomos algumas vezes à bela Grand Place, inclusive presenciando o lindo espetáculo de luzes no prédio da prefeitura. Também fomos ao Atomium, visitamos o Parlamento Europeu, e passamos a mão em uma imagem de Jesus que dizem que dá sorte.


Cruzamos outras tantas oportuni- dades com o conhecido Maneken Pis. É a famosa fonte em forma de um menino fazendo xixi. Quando visitas ilustres vêm de outros países, costuma-se vesti-lo com trajes que homenageiem o visitante. É uma cópia dele o Manequinho, que, localizado no Rio de Janeiro, tornou-se um símbolo do Botafogo. Todas as pessoas ficam decepcionadas com o Maneken Pis, por ser muito menor do que se imagina. De fato, é pequenino, parecendo ainda menor pelo contraste com a grande estrutura atrás dele.

Mas é um ponto inevitável de visitação, justificando a estampa de uma camiseta que eu vi, com o desenho dele e a inscrição “eu sou pequeno mas sou o dono do pedaço”. Há na cidade também a versão feminina e a versão canina do Maneken Pis: a menina, Jeanneke Pis, está agachada urinando, e o cão tem até a perninha levantada. Só que, se o Maneken Pis tem sua importância pelo fato de ser a primeira fonte da cidade, instalada no século XVII, a menina e o cachorro não têm nem de longe o mesmo destaque, até porque têm poucas décadas de existência.

Um dia, fomos ao museu histórico, que abriu à noite, gratuitamente. Mas funcionava de um modo diferente: estava com as luzes apagadas e lanternas eram distribuídas para as pessoas. A ideia era divertida, apesar de, obviamente, não motivar muito a ler textos mais extensos. Havia algumas coisas bem interessantes, como cartazes políticos. O que mais gostei foi a antiga charge “Pyramide a Renverser”. Com o desenho de uma pirâmide em que o rei estava no topo, localizando-se abaixo dele, nesta ordem, clérigos, militares, burgueses e, em sua base, os populares, a charge tinha as seguintes inscrições ao lado dos respectivos personagens: “A Realeza – Eu reino sobre vocês; O Clericalismo – Eu oro para vocês; O Militarismo – Eu atiro em vocês; O Capitalismo – Eu como para vocês; O Povo – Eu trabalho para vocês.” Simplesmente brilhante.

No sábado, viajei com Patrícia, Edalina, Luana, João e a coreana para Gent e Brugges. A ideia original era ir a Brugges, mas quando Patrícia consultou Tom, ele disse que a cidade era uma farsa. Ela perguntou se não era interessante ir lá e ele respondeu: “se você gosta de Disneylândia”. Obviamente era um exagero, mas de fato a dica de ir antes a Gent foi ótima. É uma cidade tão medieval quanto Brugges, só que mais bonita e menos turística. Basicamente é a mesma coisa sem aquele monte de propaganda em cima.

Só me irritou o fato de que cobravam para ver a Catedral. Eu já tinha ido a igrejas que deixavam ver de graça, já vi cobrarem só para conhecer as catacumbas ou alguma sala com relíguias. Já tinha visto até a parte cobrada ser um terço da igreja, o que já me parecia um excesso. Mas o que presenciamos em Gent foi ridículo: simplesmente um pedaço minúsculo depois da porta estava com acesso liberado, e uma cortina preta cobria a visão da igreja inteira, incluindo o altar. Como se não bastasse, uma leva de turistas saía irritada de lá reclamandado que não havia nada para ver e que tinham jogado quatro euros fora. Obviamente não vimos a igreja, portanto. Mas a cidade é bonita, e valeu a pena pagarmos para subir em uma torre, que tem vista panorâmica.

Minha estadia na Bélgica foi proveitosa. Não apenas porque participei de um bom curso, mas porque me diverti um bocado e fiz ótimos amigos: Patrícia, sempre boazinha e perita em imitar sotaque brasileiro do interior; Luana, a italiana algo reclamona e gente-finíssima; João, o camarada com quem dei muitas gargalhadas; e Edalina, que sempre brincava que eu e ele éramos “os piores” por causa da bagunça que aprontamos na cidade (vários garçons pediram, com educação ou com grosseria, para falarmos baixo); sem falar na princesa belga Sofie. Amigos que não esquecerei. Os “piores”, sem dúvida. Como dissemos: “os piores serão os melhores”.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Kapitel CXIV – Trilogia: A Fraternidade da Alemanha

Já estou sendo cobrado pelo meu sumiço, pela minha recende falta de produtividade nestes Contos Fantásticos. É que tive duas semanas agitadas, com pouco tempo livre. Mas contarei o que me aconteceu nos neste Kapitel e nos dois seguintes, que formarão uma “trilogia”. Estava se aproximando minha viagem para Bruxelas, onde eu participaria de um curso de verão sobre partidos políticos. Mas antes eu ainda tinha alguns compromissos na Alemanha.


Primeiro, fui ao Jazzkeller, onde seriam comemorados o aniversário de Celi (a paulista da viagem para Freiburg; ver o Kapitel anterior) e a despedida de Alécio (outro brasileiro do grupo da festa da casa do Filipe; sobre esta, ver Kapitel LVII), que voltaria para o Brasil. Estava lá a maioria dos brasileiros que conheci na Alemanha: Vítor, Filipe, Gilberto, Letice, Fiorina, Celi, Ulisses, Alécio. O som era um jazzinho muito bom, que lembrava a ótima trilha sonora dos Peanuts composta por Vince Guaraldi. Dei um tempo nas cervejas e lá bebi o vinho Côtes du Rhône. Foi também a minha despedida europeia do meu camarada Vítor, que voltou ao Brasil enquanto eu estava na Bélgica.

No dia seguinte, foi a vez de me encontrar com Berenice, que não via já fazia um tempão. Fomos a um restaurante no bairro de Sachsenhausen, chamado Frollein. A ideia era bebermos Apfelwein, o tradicional vinho de maçã frankfurtiano, mas fomos surpreendidos pela informação de que eles não tinham. Fui obrigado a voltar à cerveja (fazer o quê, né?). Bebi uma cerveja escura chamada Hövels, e comi Käsekreiner, que é uma salsicha recheada com queijo.

Antes de me encontrar com Berê no restaurante, no entanto, consegui a proeza de ter dificuldades de encontrá-lo. Atravessei a ponte no rio Main, adentrei Sachsenhausen, e estive do outro lado da rua em frente ao restaurante mas não o reconheci; virei, então, à direita, e dei a maior volta, até retornar pelo outro lado da rua e, após muito caminhar, deparar-me com o Frollein e me dar conta de que eu tinha me enrolado à toa.

Um dia depois, foi a vez de ir pela última vez a Mainz (ou Mogúncia), encontrar-me com Tobi e Marion Mannhold. Cheguei mais cedo, enquanto eles ainda estavam no trabalho, para visitar o Museu Gutenberg. Como disse no Kapitel XLIII, Gutenberg está para Mogúncia como Goethe está para Frankfurt. Como grande personagem histórico nascido na cidade, tudo lá leva o seu nome.

O Museu Gutenberg mostra antigas máquinas de impressão, conta sobre a vida do criador da imprensa móvel, exibe vários impressos europeus e chineses e, claro, a famosa Bíblia de Gutenberg. O frustrante é que o museu fechou mais cedo do que o divulgado no site, por estar em período de férias, de modo que fui, basicamente, expulso de lá antes de terminar de ver as últimas salas.

Precisei, também, fazer uma horinha antes de encontrar meus amigos. Quando Marion e Tobias apareceram, fomos a uma tradicional casa de vinho da cidade. Lá, bebemos Feder Weisser, um tipo de vinho branco mais suave, que é o vinho ainda “jovem”, no começo do processo de fermentação. Como Mogúncia é uma cidade produtora de vinho, eles vendem apenas nos meses de setembro e outubro, em função da época da colheita das uvas, essa bebida. Achei saborosa, apesar de bem diferente do vinho em seu estágio final.

As leveduras ficam concentradas no fundo do copo, e eles me alertaram para não ingeri-las, pois elas continuariam trabalhando dentro do meu estômago, podendo dar um... digamos... revertério. Eu parecia um perito em beber Feder Weisser: deixei menos de um milímetro de líquido acima da levedura. Marion era claramente a mais medrosa; temendo ingerir o pozinho do fundo, deixou quase um quarto do líquido. Tobi, que talvez tenha bebido com um pouco da levedura junto, ainda arrematou o restinho do líquido da taça da Marion. Marion comentou que as conseqüências eles veriam à noite. Espero que não tenha havido nenhuma...

Tobi tentou pedir para nós o tradicional acompanha- mento para o Feder Weisser: uma torta de cebola chamada Zwiebel- kuchen. Ele brincou que tal iguaria, junto com o Feder Weisser, dá um efeito bombástico, com as leveduras continuando a trabalhar dentro da barriga ainda mais ativamente, mas ainda assim todo mundo consome os dois juntos. Infelizmente (ou não) o produto estava no cardápio mas o bar não tinha.

Depois, fomos comer em um restaurante que funciona em um antigo prédio onde originalmente era um hospital. Bem interessante o lugar. Só que no cardápio todos os pratos vinham com batata (sobre essa leguminosa nos restaurantes germânicos, ver Kapitel XVII). Acabei comendo um pão no forno coberto com molho e queijos, que parecia uma pizza; estava bom e era o único jeito de fugir das batatas, essa obsessão gastronômica dos alemães. Voltei a beber a cerveja Hövels, a mesma de quando fui ao restaurante com a Berê em Frankfurt, e depois encerramos a noite com o licor Jägermeister, o mesmo que tínhamos bebido na vez anterior que os visitei em Mainz (ver Kapitel LXII). Foi curiosa a cara de espanto da garçonete quando Tobi pediu a bebida. Depois, ele comentou isso com outro garçom, perguntando se é incomum consumirem o licor, e este fez graça, respondendo que é porque ela queria que fosse ela a beber no nosso lugar.

Foi muito bom reencontrar esse casal de amigos. Como são muito ocupados e vivem em outra cidade, não sei se voltarei a vê-los nesta temporada europeia, que já está acabando. Espero que sim. De todo modo, sempre muito gentis, eles me deram lembranças de Mainz: um calendário com fotos da cidade, e um copinho desenhado com uma cena de Mogúncia para beber Jägermeister ou outra bebida.

Ainda faltavam poucos dias para viajar para Bruxelas, mas o fato de eu não sair mais de casa até lá não significava que eu estaria de bobeira. Foi uma grande correria, porque eu precisava terminar o artigo para um congresso de ciências sociais no Brasil antes de partir. Seria um inferno precisar escrevê-lo no meio do curso de verão, e o prazo final para enviá-lo era bem no meio do período em que eu estaria na Bélgica.

Para vocês terem uma ideia de como foi corrido, acabei exatamente no mesmo dia do meu voo. Saí correndo, com medo de me atrasar, e dormi pouquíssimo naquela noite. Aliás, isso bem poderia ser um presságio do que me ocorreria nas duas semanas seguintes.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Kapitel CXI – Antes das Bodas

Mal voltei a Frankfurt da viagem à Baviera e já estava cheio de compromissos. Era aniversário da Lara, a alemã que fala português perfeitamente e com sotaque baiano. Tinha marcado de comemorar no jardim atrás do Museum der Weltkulturen, onde o brasileiro Ivan Santos tocaria (já tinha assistido a um show dele, excelente; ver Kapitel CI). Menos de três horas depois de pisar na estação de trem de Frankfurt, eu estava lá, pronto para o festejo. Mas era o único! Ninguém tinha chegado, apesar de que a ideia original era marcar para uma hora mais cedo ainda do que aquela. Logo o carioca foi chegar antes dos alemães, quem diria...

Depois vieram Lara, suas irmãs, e um animado rapazinho chamado Peter, filho de uma delas. O bebezinho mexia em tudo, e deu sinais de que trabalhará futuramente com comércio ou investimentos, tamanha a vontade de tirar o dinheiro da carteira da mãe. Muito engraçado! Depois chegou um amigo de curso de inglês da Lara, gente-fina. Bebemos vinho, ouvimos música e... abrimos os guarda-chuvas! Começou a cair o maior pé-d’água! Ainda assim, resistimos até o show acabar.

Fazia parte do Museumsuferfest, um festival artístico e cultural semelhante à Noite dos Museus que descrevi no Kapitel XXXVI. De lá, seguimos caminhando pela rua que margeia o rio Main, onde nos encontramos com o namorado de Lara, chamado Jens. E mais álcool! Bebemos uns chazinhos aditivados com água que passarinho não bebe e, depois, fomos a um bar. Lá, chegaram Xenia, Maryhen e o namorado dela, Jens (Jens não é, definitvamente, um nome muito incomum na Alemanha), e a alemã filha de pernambucana chamada Ana (ela apareceu no Kapitel CV).

Lá, bebemos Apfelwein, o vinho de maçã, que é uma tradição em Frankfurt (especialmente no bairro de Sachsenhau- sen, onde estávamos, do outro lado do rio Main). Aliás, aproveitei para ter uma refeição totalmente frankfurtiana. Além do Apfelwein, pedi um Frankfurter Schnitzel, que é um filé de porco com Grüne Soße, um molho verde à base de ervas da região. É o prato mais típico de Frankfurt, e também encontrado mais facilmente em restaurantes em Sachsenhausen. Eu acho gostoso, e estava com saudade de comer isso (sobre a vez anterior em que tinha comido o Frankfurter Schnitzel, ver Kapitel XL).

Depois, demos mais uma volta e encontramos meu amigo Vítor. Havia várias barraquinhas e palcos. Eu, Lara, Xenia e o amigo de Lara dançamos em uma tendinha de música disco das antigas e em outra de salsa e ritmos latinos. Além disso, eu e Vítor mandamos ver na cerveja de trigo. Foi uma noite divertida, mas minha programação frankfurtiana não acabaria ali.

Já na noite seguinte, haveria a festa de despedida de Fabian, que fará um intercâmbio na Letônia. Por que Letônia? Boa pergunta, eu também o questionei sobre a mesma coisa, e a resposta não foi muito satisfatória. Ele não fala nada de letão, espera conseguir se virar exclusivamente em inglês, e lá não é nenhum centro em que ele tenha contatos ou que seja especialmente forte nos temas que ele estuda.

Fabian me disse que queria ir a um lugar diferente. Bem, se a ideia era essa, como disse um amigo brasileiro chamado Flávio, ele poderia ter ido fazer intercâmbio em alguma ilha paradisíaca do Pacífico, não é? Dizem que Riga, capital da Letônia, é bonita, mas ele estará lá em pleno inverno! Para vocês terem uma ideia, Fabian precisou comprar um casaco de frio, daqueles com pele de animal, porque os que ele tinha não eram suficientes para a friaca que ele encontrará lá. Vejam bem: Fabian é alemão, bávaro, e mora em Frankfurt, não estamos falando de nenhum latino ou africano dos trópicos!

Bem... cada louco com a sua mania. Apesar do aparente parafuso a menos, Fabian é um cara legal e eu fazia questão de ir a sua festa de despedida. Seria realizada na casa de um amigo dele chamado Björn, que também ia estudar fora (no e-mail de convite dizia que seria “lá onde os deuses vivem”; pelo nome dele, portanto, suponho que seja na Suécia ou algo assim). Aliás, a festa incluía entre os homenageados ainda uma terceira amiga deles, Elena, que fará o intercâmbio em Moscou.

Os exotismos geográficos não acabavam. Um dia depois de voltar de trem conversando com uma eritreia (ver Kapitel CIX), na festa de meu amigo que vai se mudar para a Letônia falei com pessoas de lugares que achei que nunca estariam mais próximos de mim do que quando eu olho um mapa-múndi. Primeiro, conversei com um alemão que falava português bem direitinho. Por quê? Porque o pai dele é de Goa! Não era brasileiro, português ou angolano... era indiano de Goa! Não é todo dia que se encontra alguém de Goa, não é? Ou filho de alguém de lá, que seja...

Depois, passei um tempo considerável conversando com uma moça chamada Olga. Amiga de Elena, ela também vai à Rússia. Estuda economia, espanhol e russo (?!). Sim, isso é o tema de um curso de graduação, por mais estranho que possa parecer. Perguntei-lhe o porquê e ela me disse que também não era alemã. Era cazaque! Veio aos cinco anos para a Alemanha, e sua língua materna é russo. Ela e seus pais não falam cazaque. Ela me explicou que o regime soviético não incentivava muito que as pessoas falassem outras línguas que não o russo, de modo que sua família não sabe o idioma próprio do Cazaquistão. Como ela estuda espanhol, tem amigos brasileiros e adora música baiana (?!), sabe falar um pouco de português e adora a sonoridade da língua de Camões.

Fui ficando na festa. Quatro cervejas, dois copinhos de tequila, um de vodca... Era bem mais do que eu esperava... Fabian foi embora, mas eu continuei lá, apesar de não conhecer nenhum dos presentes até então. Havia umas oito pessoas quando eu resolvi, por curiosidade, olhar o relógio. Eram cinco e meia da madrugada! Em estado de choque, eu me despedi de todos os sobreviventes e voltei para casa. Precisava dormir! No dia seguinte, domingo, eu teria mais um evento pela frente.

Fui com Vítor, Filipe, Fiorina e Brunela ver a ópera “O casamento de Fígaro”, de Mozart, na Neue Oper, localizada em frente à Willy-Brandt-Platz. Foi divertido: os ótimos cantores, trajados com figurinos engraçados, contracenavam em um cenário giratório. Só não deu para entender muito da rápida história das bodas de Fígaro, cheia de reviravoltas e confusões. É que uma ópera cantada em italiano com legenda em alemão não é exatamente a combinação mais compreensível para mim.

Mas, no intervalo entre os atos, Filipe e Brunela, que entendiam melhor, deram uns palpites e deu para não boiar muito. Filipe brincou que a história era meio “A Grande Família”, meio “Os Normais”. Poderia ser ainda mais complicado de se entender, é claro, como, por exemplo, se a ópera fosse cantada em mandarim com legendas em swahili... Mas depois de conhecer gente da Eritreia, de Goa e do Cazaquistão, isso já seria demais, não é mesmo?

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Kapitel CVIII – O Gato de Botas e o Suspensório

Munique é uma cidade bonita, mas não é tão limpa e neuroticamente certinha como tinham me falado. Vi guimbas de cigarros no chão e muitos playboys correndo de carro. Florian tinha dito que é bem mais cara do que as outras cidades alemãs, mas vi camisas, bermudas e camisetas na promoção que eram muito baratas (comprei uma por três euros). De todo modo, a informação dada por meu amigo talvez tenha fundamento. Afinal, dá razão a ele o meu virtualmente infalível método de avaliar o quão careira é uma cidade europeia: o preço da bola de sorvete na casquinha (ver Kapitel XLVII e LXXXIV). Em Frankfurt, ela costuma custar oitenta cêntimos, sendo um euro o da Mövenvick. Pois em Munique custou 1,20. O sorvete de pistache estava ótimo, mas não nega que Munique é mais cara.

Além desse sorvete, comi em Munique um salgado turco que era um pão com carne que veio fatiado e não entendi o nome (“bire”, “bude”, não sei...) e provei várias especialidades bávaras: pretzel (Bretzel em alemão e Brezn no dialeto bávaro), as já conhecidas salsichinhas brancas com mostarda doce (ver Kapitel VII), uma estranha mas boa Bayerische Festagssuppe (com bolinhos de semolina, bolinhos de fígado, tiras de panqueca e Markklößchen, que acho que é tutano, mas não tenho certeza), e um porco enrolado (Roll-qualquer-coisa-shwein; não anotei o nome, e este era comprido) acompanhado de chucrute. Só provei cervejas que ainda não conhecia: Franziskaner Dunkel Hefe-Weisse, Augustiner Dunkel, Augustiner Lagerbier Hell, uma ótima Ayinger Kellerbier (não filtrada), a também boa Ayinger Jahrhundert (clara), Hofbräu Urbock (forte). Nenhuma cerveja mais ou menos; todas aprovadas!

Por falar em comidas e bebidas, o atendimento nos bares de cerveja em Munique é péssimo (exceção para o Ayingers Wirtshaus). No que fica perto do albergue, que serve Augustiner, eu fiquei um tempão esperando e nada de me atenderem. Fui, então, ao bar, supondo que era preciso pedir lá. Ao me ouvir falando com o funcionário do bar, um garçom respondeu que eu tinha que pedir na mesa, pois lá não funciona self-service.

No dia seguinte, fui ao Biergarten (jardim de cerveja) da Torre Chinesa, localizada no parque Jardim Inglês. Lá, há uma grande fila onde cada um, com sua bandeja, vai pedindo o que quer e, depois, paga no caixa. Primeiro, vi uma costela grande e uma carne de porco enrolada. Perguntei ao sujeito do balcão o que era – porque eu queria saber os nomes – e ele me respondeu, impaciente: porco e porco, os dois são porco.

Depois, quando fui pagar, a mulher do caixa perguntou se eu não tinha cinqüenta cêntimos, e eu fiquei procurando, mas nada de encontrá-los. Estava tão difícil que até uma moeda de um euro caiu no meu prato (eca!). E não é que a salafrária ficou resmungando? Quem tinha a obrigação de ter troco era ela, eu estava fazendo uma gentileza de tentar encontrar. Esse povo está assoberbado de trabalho, eu sei, é muita gente enchendo a cara de cerveja, mas não pode atender mal desse jeito... Além de tudo, é cobram caro!

No meu primeiro dia em Munique, passeei principal- mente pelo centro histórico, onde vi muitas construções bonitas, como as igrejas St. Paul’s Kirche e Freuen Kirche, o Neues Rathaus e toda a área da Marienplatz. No segundo, também passei por lá mas procurei ver os marcos presentes no mapa que estavam mais afastados, como o Maximilianeum. Quando eu procurava o Deutsches Museum, que fica mais a sudeste, acabei me deparando, sem querer, com o rio Isar. Muito bonito. Eu já estava estranhando estar em uma cidade grande na Europa em que não via um rio bem no meio onde as pessoas se encontram. Foi uma grata surpresa...

Faz um calor toulousiano em Munique (quando fui a Toulouse, estava tão quente que comecei o Kapitel LXXXII dizendo isso), mas a população descobriu um jeito fantástico de resolver o problema: ir à praia! Munique está londe do mar, mas as pessoas vão com trajes de banho (sunga, calção, biquíni, até topless eu vi!) para a beira do rio Isar. Eu não estava preparado para isso, mas não resisti. Tirei camisa, óculos, relógio, e, na beira, tomei o chamado “banho de gato”, de calça comprida e botina mesmo. Excelente! Se mais tempo eu ficasse, é certo que tiraria uma manhã ou tarde para nadar!

Depois, fui ao Deutsches Museum, uma dica do Marlos. Ele fica, a exemplo dos principais museus de Berlim, em uma ilha, também chamada pelo convencional nome de Museumsinsel. O museu é enorme, são muitas salas e muita coisa exposta. Para fazer uma visita detalhada e completa, são necessários pelo menos quatro ou cinco horas. Eu estava cansado de tanto caminhar e, por isso, uma olhada despretensiosa durante duas horas foi satisfatória. E, apesar de não ter sido tão minuciosa, ainda assim não consegui ver tudo e faltaram várias salas, como a dos instrumentos musicais e a das telecomunicações.

O museu é dedicado à tecnologia, mas a aborda de maneira bem abrangente. É um prato cheio para engenheiros, físicos, aficionados por automóveis ou por aviação. Mas é interessante para outras pessoas também. Há motores, hélices, turbinas, altímetros, robôs, tratores, muitos aviões e helicópteros, carros, moinhos e várias outras máquinas. Além disso, há criaturas abissais submarinas, um modelo que simula o diferente funcionamento da físico-química para dimensões muito microscópicas, e por aí vai.

Na saída do albergue, antes de ir a Regensburg, ouvi reclamação de montão porque fiz o check-out à uma quando o certo seria às dez. Eu não me lembro de terem me dado tal informação e, se deram, eu não devo ter entendido. Senti no ar uma intenção de me cobrarem outra diária, o que obviamente não ia rolar. Fiquei repetindo “mas eu não sabia, mas eu não sabia”, até que deixassem para lá. De todo modo, o albergue – Meininger City Hostel – era bom. É limpo, fica não longe da Hauptbahnhof, e tem um bar que, se não é animado, pelo menos serve cerveja boa. No hall, tinha internet wireless, que era meio lerda, mas era gratuita (havia internet nos computadores do hall e wireless nos quartos, mas aí era cara e não sei se menos lenta, pois obviamente não a usei).

Apesar de estar próximo à estação ferroviária, custei a encontrar o albergue quando cheguei à cidade. É que sou enrolado, não conhecia Munique, não tinha ainda um mapa e não segui as instruções do site: ele dizia para pegar o trem urbano S-bahn e andar uma estação; ora, são muito preguiçosos, não querem caminhar nada... Eu quis ir a pé. Foi meio cansativo, até porque andei um pouco mais do que precisava, mas não me arrependo. Aliás, nem sei se o transporte público em Munique é bom, porque fiz tudo a pé.

Uma coisa que me chamou muito a atenção logo que cheguei a Munique é que há vários lugares vendendo as roupas típicas dos bávaros, provavelmente devido à proximidade da Oktoberfest. A brincadeira não sai por menos de uns 140 euros. A roupa típica consiste em um vestido característico para as mulheres, e em berbudas e suspensórios de couro para os homens.

O mais engraçado é que vi um homem andando na rua vestido assim! E não era nenhum garotão fazendo piada não, era um senhor de idade. Só não sei se ele era um orgulhoso entusiasta das tradições bávaras ou se precisava se vestir assim para trabalhar. Por exemplo, as garçonetes de vários restaurantes usam vestidos típicos da Baviera, e na Torre Chinesa uma banda tocava, lá no alto, com todos os seus componentes devidamente paramentados com a bermuda e o suspensório de couro.

Essa roupa é tão característica desta região da Alemanha que, conforme Bertram me contou, os torcedores de outros times costumam cantar a seguinte canção para o Bayern de Munique quanto sua equipe o enfrenta: “Zieht den Bayern die Lederhosen aus, Lederhosen aus, Lederhosen aus!” Significa nada menos do que: “Tire fora as bermudas de couro do Bayern, fora as bermudas de couro, fora as bermudas de couro!” É engraçado, mas, por favor, façam isso longe de mim. Prefiro ser poupado dessa visão do inferno. Se ainda fosse para tirar os vestidos de belas bávaras...


Vídeo de Munique

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Kapitel CI – O Anjo

Muita coisa aconteceu nos útimos três dias. Fizemos no bar Albatros a despedida da universidade de alguns estudantes – Fabian, Janeth e Dana – que terminaram seus períodos de pesquisa com Jens e Marion Reiser e passarão meses em outros países (Fabian vai pra a Letônia). Fui ao Museu de caricatura, onde estavam expostas tirinhas feninistas de Franziska Becker.

Fui com Gilberto, Letice e Julian a um festival na orla do rio Main. Lá, encontrei-me com meu amigo pernambucano João Guilherme, de quem me despedi, pois volta ao Recife após cinco meses em Frankfurt. Fui com Bertram e Gilberto ver um amistoso no estádio, em que o Eintracht Frankfurt derrotou o Chelsea por 2 a 1. Segui com Gilberto para uma casa chamada Jazzkeller, onde assisitmos a um excelente show, de Ivan Santos & Band.

Eu poderia dar mais detalhes de todos esses acontecimentos, mas não quero. Soube de outro acontecimento que abafou todos os demais. Uma das pessoas que mais amo na minha vida foi agraciar aos que a rodeiam, com sua pureza, bondade e generosidade, em outra dimensão (o céu, certamente, nos termos dela).

Sua alegria de viver, que demonstrou nos últimos 96 anos, nunca será esquecida. O nosso amor nunca sairá dos nossos corações. Infelizmente, as pessoas que estiverem por perto tristes e aborrecidas não terão mais a luz da minha vovó para fazê-las mudarem e abrirem um sorriso. Isso sempre acontecia. Todo mundo que convivia com ela perde muito.

Sua alegria de viver sempre foi um exemplo para todos. A cada ano alimentávamos um sonho. O sonho de que a vovó seria eterna. Cada ano era mais um rumo à barreira centenária, que parecia que seria ultrapassada com facilidade. Parecia que ficaria pequena conforme outra década se passaria. E ela sempre estaria conosco, conhecendo os bisnetos, acompanhando os rumos que nossas vidas adultas fossem tomando.

Mas não era eterna. Não seu corpo vaidoso, sempre permufado, bem-vestido, e com brincos vistosos adornando um ouvido que pouco ouvia. Este era, aliás, o único problema daquele corpo que bem andava, bem enxergava, esbanjava saúde. Mas eternos são sua lembrança e nosso amor. Tchau, vovó querida. Amo muito você. Todos a amamos. Para sempre.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Kapitel XCVI – As Bicicletas de Berlimville

Quando se fala sobre algo que nunca se esquece, diz-se que é como andar de bicicleta. Só que esta é uma meia verdade. De fato, nunca se esquece como se anda de bicicleta, mas o tempo de inatividade tem um inegável impacto sobre o desempenho do ciclista.

Como eu narrei no Kapitel XX, as pessoas vão a todas as partes de bicicleta na Alemanha (e, quando estive na França, vi que lá não é diferente). Quando cheguei a Berlim, portanto, meu amigo e anfitrião Florian me emprestou sua bicicleta, pegou a de sua namorada, e nos pusemos a pedalar. Ele assegurou que não há melhor forma de conhecer a cidade do que sobre duas rodas. E assim me apresentou os principais lugares de Berlim nos meus dois primeiros dias lá.

Só que fazia anos que eu não pedalava. Foi, portanto, um relativo desastre. É verdade que melhorei um pouco ao longo desses dias, e também que fui capaz de segui-lo. Mas era surreal o tempo que eu levava para conseguir subir na bicicleta (que me parecia excessivamente alta, apesar de Florian, seu proprietário, ser mais baixo que eu) e sair pedalando. Pior foi quando eu me estabaquei na rua ao prender a roda no trilho do bonde. Lamentável...

Mas foi divertido. Passamos pelo Checkpoint Charlie (local onde as tropas russas e estadunidenses se encontraram e quase entraram em conflito), pelo parlamento Bundestag, pela sede do governo Bundes-kanzleramt (apelidada popularmente como máquina de lavar, devido a sua aparência), pelo Portão de Brandemburgo (havia tantos turistas que me senti como se estivesse em Paris; odeio outros turistas que não eu!), pela rua Unter den Linden, pelo Deutscher Dom e pelo Französischer Dom, pela Catedral de St. Hedwigs, pela Universidade Humboldt, pela estátua de Frederico o Grande, pela Ilha dos museus (Museumsinsel), pela Neue Synagoge (certamente, a sinagoga mais bonita que eu já vi!) e pela East Side Gallery, que reúne pinturas em uma parte não destruída do muro de Berlim. Depois, nós nos encontramos com vários amigos do Florian, todos muito bacanas, no bairro alternativo de Kreuzberg. A ideia era almoçarmos uma comida preparada por alguns deles em um restaurante lá – mas estava tão cheio que acabamos matando a fome no árabe do outro lado da rua mesmo.

No dia seguinte, eu e Florian fomos ao espetacular Pergamon-museum, onde estão expostas várias obras mesopotâ-micas, islâmicas e gregas. É realmente incrível ver pessoalmente esculturas e mosaicos que pareciam não poder ser contemplados fora dos livros. Em todo o mundo se podem ver – sejam eles melhores ou piores – museus de arte moderna, de esculturas, de história natural, de pinturas, de folclore... mas um museu como o Pergamonmuseum é muito raro!

Situado na Ilha dos Museus, o Pergamonmuseum não apenas apresenta esculturas, joias, tapeçarias e estátuas como reconstrói vários locais, como a magnífica Porta de Ishtar, o Altar de Pérgamo e a Porta do Mercado de Mileto (os dois últimos, ambos do século II a.C., foram extraídos em escavações arqueológicas e transportados da Turquia no começo do século XX; é questionada a legitimidade de sua posse pelo museu e se argumenta que deveriam voltar para seu país de origem). A Porta de Ishtar, da antiga Babilônia, é sem dúvida o que mais me impressionou: até vendo em fotografias nos livros eu sempre babei com seus tons de azul e dourado e imagens de leões, dragões mushhushshu (ser mitológico com as pernas dianteiras de felino e as traseiras de águia), touros e flores.

Depois, fomos com dois dos amigos de Florian – Johannes e Mulan – comer hambúrgueres. Johannes, que fala bem português, já morou em Belo Horizonte, onde estudou ciência política. Bebi pela primeira vez a cerveja inglesa Newcastle Brown Ale; o preço estava bom e eu queria experimentar. Nada contra as cervejas alemãs, até porque também bebi nessa viagem a Flensburguer, a Krombacher, e provei a de trigo Schneider Weisse, a escura Märkischer Landmann, e as locais Berliner Kindl e Berliner Pilsner – esta última inferior a anterior, mas também tomável).

Lá no restaurante, pegamos um jornal e nada de Johannes e Florian encontrarem a programação de cinema. Surpreenden- temente, eu, que falo um pífio alemão, peguei o jornal e rapidamente encontrei! Fomos, então, a um cinema ao ar livre em Kreuzberg, só que o filme que estava passando não era o planejado. Vimos “Same, same, but different”, um filme alemão sobre um turista germânico que se apaixona por uma prostituta cambojana. Não consegui entender os diálogos em alemão, mas deu para entender bem a história porque havia muitos trechos falados em inglês (que contavam com legenda em alemão).

Na segunda-feira, Florian ficou em casa para adiantar seu projeto de tese. Saí, então, sem bicicleta (imaginem que perigo – para mim e para as demais pessoas – eu, sozinho, circulando de bicicleta por uma cidade que não conheço!). Voltei a alguns lugares onde tinha estado antes para tirar fotos, como o Bundestag, a “máquina de lavar” e a East Side Gallery. Tinha planejado entrar no Bundestag, de onde, lá do alto, tem-se uma bela vista. Na véspera, havia uma fila que, segundo Florian, duraria uma hora e meia. Ele achava que seria tranqüilo que eu visitasse o parlamento no dia seguinte. Mas estava enganado: a fila estava três vezes maior! Desisti, é claro. Mas tinha muito mais lugares para conhecer.

Fui ainda ao Deutscher Dom, de onde, do alto da cúpula, pode-se ter uma bela vista da cidade. Em seguida, comi uma Currywurst. Já a havia provado em Frankfurt e não tinha gostado. Como é típica de Berlim, dei uma segunda chance. Estava melhor do que a que comi em Frankfurt, mas ainda acho que há opções bem melhores de comida na Alemanha.

Visitei, depois, o Museu Histórico, que tem muita coisa interessante. Merecem destaque os pôsteres políticos dos anos trinta – que mostram a tensão daquelas eleições envolvendo nazistas, social-democratas, comunistas e centristas – e os brinquedos infantis com motivos nazistas, como uma casa de bonecas com a foto de Hitler na parede! Andei bastante e passei pelo Nicolaiviertel, área muito diferente, que parece uma cidade do interior. Lá, tomei uma sopa de Gulasch e comi um sanduíche de Berlin Bratwurst.

Tinham se passado três dias de maratona na capital alemã. No dia seguinte, eu iria a Potsdam, a 24 quilômetros de Berlim. Ainda havia muito o que conhecer. E mais quilômetros para percorrer de bicicleta!

terça-feira, 1 de junho de 2010

Kapitel LXII – Duas Noites, Três Cidades, Treze Nações e Uma Hora de Sono

Quinta-feira, sexta e sábado passados, definitivamente, não foram dias comuns. Eu tinha um congresso para ir que aconteceria da tarde de quinta à manhã de sábado, em Eschborn, uma cidadezinha sem atrativos na periferia de Frankfurt. Eu havia combinado, também, de ir a Mainz (ou Mogúncia? Ainda não me decidi. Ver Kapitel XLIII) visitar um casal de amigos alemães, Tobias e Marion Mannhold (não confundir com a Marion Reiser, professora da universidade). Desde que cheguei ao país ainda não tinha me encontrado com eles.

Soube do congresso por uma amiga chilena, Alejandra, que mora na Baviera e é casada com um alemão. Eu a conheci ano passado, no congresso mundial de ciência política em Santiago. Ela me contou sobre o evento de Eschborn, promovido pela Associação Alemã de Investigação sobre a América Latina – ADLAF (sim, existe uma associação alemã assim!). Disse que pretendia ir e perguntou se eu não queria ir também. Havia muitos motivos para eu ir e nenhuma boa razão para eu não ir. O congresso era gratuito, aconteceria em uma cidade que fica apenas a uns 15 ou 20 minutos de Frankfurt, seria realizado justamente em uma semana em que eu não teria aula na universidade, e seria uma boa oportunidade de conhecer mais gente. Fui então, né?

O congresso misturava os mais variados temas, tendo a América Latina como eixo, de modo que era possível, em uma mesma seção, ver trabalhos sobre tango, desenvolvimento financeiro, religião, e missão cubana em Angola. Como qualquer simpósio, teve trabalhos de todos os níveis de qualidade. O mais incrível foi que todas as apresentações foram em espanhol, mesmo as dos autores alemães. Quer dizer, houve dois brasileiros que não apresentaram em espanhol: um falou em português e a outra, em portunhol assumido.

O ponto alto acadêmico foi a palestra monumental de Enrique Russell Ambrosini, derrubando as premissas do eurocentrismo, realizada na Biblioteca Nacional – único evento do congresso a ocorrer em Frankfurt –, que fica a não muitas quadras da minha casa. Esse foi o ponto alto acadêmico. Mas não o único ponto alto. Depois de Eschborn, era a vez da “eschbórnia”!

Na primeira noite houve, é claro, um coquetelzinho, após a conferência de Russell. Mas a coisa animou mesmo no segundo dia. Após as palestras da tarde, um grupo foi a Frankfurt para beber uns coquetéis, caipirinhas (elas são populares na Alemanha!) e cervejas. Fomos eu, Alejandra, a venezuelana Maryhen (minha aluna), e mais dois argentinos – Franco e Ramón, o colombiano David, o chileno Álvaro, o costarriquenho Vladimir e uma alemã de quem não sei o nome.

Aliás, ela foi a responsável pela gafe do começo da noite: disse que os equatorianos eram feios, porque eram muito misturados. Vendo que todos estavam com os olhos arregalados de espanto com tão surreal declaração, tentou consertar: “os índios são bonitos, feios são os que são misturados com os brancos”. Bem... pegamos no pé dela por horas a fio, é claro.

Maryhen e Alejandra foram embora, mas os demais seguiram para outro bar, onde bebemos mais! Depois, juntaram-se a nós três alemães: Florian (outro, não o meu amigo da universidade), Sophie e Irene. Para vocês terem uma ideia de como estava a situação, vale dizer que Álvaro gastou um bom tempo contando para Florian como sua avó era importante para ele... Manguaça total!

Sophie, Irene e a outra alemã, a que não acha equatorianos bonitos, foram as primeiras a partir de lá. Mais tarde, foi a vez de Franco e Vladimir, que estavam hospedados em Eschborn e precisavam pegar o trem de volta. Eu, David, Ramón, Álvaro e Florian, no entanto, ainda não estávamos satisfeitos, apesar de já passar das duas da madrugada e de o congresso ainda ter seções na manhã seguinte. A namorada de David, uma polonesa, estava com umas amigas em um bar em Sacksenhausen. Lá fomos nós!

Pausa para um pequeno interregno: meu amigo paulista Vítor tinha me enviado um torpedo me chamando para ir ao Balalaika, o bar musical que descrevi no Kapitel LVI, pois ele estaria lá a partir das onze. Concluí que não poderia encontrá-lo, pois já estava com o outro pessoal, que tinha conhecido no congresso. Pois qual não é minha surpresa quando nos encaminhávamos para o bar onde estava a namorada de David e o nome do lugar era... Balalaika!

Na mais incrível das coincidências, a polonesa namorada do David era professora de alemão do Vítor! As amigas dela, na verdade, eram colegas de turma dele e alunas dela: uma chinesa, uma ucraniana e uma colombiana. Lá no bar também estavam personagens descritos no mencionado Kapitel LVI, como a figuraça estadunidense dona do bar, o pianista romeno Marius, o cantor espanhol Nacho e a paulista Juliana, que, mais uma vez, soltou a voz. Lá ficamos até depois das cinco. Depois, uma passada no mesmo restaurante libanês da ida anterior ao Balalaika. Desta vez, não tinham shawarma, e por isso provei um sanduíche com uma escura lingüiça árabe picante chamada sujuk. Todo o pessoal afirmou que chegaria no congresso às nove. Eu mesmo disse que às nove seria difícil, mas que eu estaria lá.

Deitei-me às 6h20. Minha ideia inicial era acordar às sete, mas não podia dormir menos de uma hora. Apesar de ainda ser muito pouco, dormir uma hora é, na minha opinião, o mínimo possível para haver algum efeito de descanso no corpo. Marquei o despertador, então, para as 7h20. O incrível é que não apenas acordei, como cheguei pontualmente às nove em Eschborn. Fui o único a chegar na hora e, dentre os que estiveram comigo até o fim na Balalaika, somente Florian também foi, aparecendo umas duas horas mais tarde do que eu.

Meus feitos ainda não tinham terminado. Apesar de ter tido apenas uma mísera horinha de sono, ainda ficaria muitas outras sem dormir. Após almoçar com Florian, Sophie e Irene, ainda passeei com os dois primeiros pela margem do rio Main. Às cinco e meia eu me despedi deles e parti para o metrô. Ainda tinha uma viagem para fazer!

Cheguei à Hauptbanhof (estação principal de trem) de Mainz/Mogúncia às sete, onde Tobias, doravante chamado Tobi, estava me esperando. Demos uma volta na cidade, comemos um gostoso queijo cremoso típico de lá – o Spundkäse – e bebemos o não menos típico vinho branco batizado com água gasosa. Diferentemente do Apfelwein, o vinho de maçã que os frankfurtianos tomam (também com água), o de Mainz é de uva mesmo.

Depois, fomos até a casa do Tobi para buscar a Marion. Lá nós três tomamos uma cerveja Jever e saímos. Assim como ocorrera antes em Frankfurt (ver Kapitel XXXVI), era Noite dos Museus em Mogúncia. Em um evento como esse, não vale a pena ir a um grande museu gastar todo o tempo lá (como ocorreria no Museu Gutemberg, que ainda preciso conhecer); é melhor ir a muitos museus pequenos. Fomos, então, a várias salas alternativas, com manifestações artísticas inusitadas e pinturas perturbadoras.

O museu mais curioso era o museu de sete graus. Sim, ele foi todo construído com uma inclinação de sete graus. Não apenas por fora, como todas as suas paredes, o elevador, tudo é inclinado! Em um bar anexo, ocorria algo não menos curioso. Uma multidão acompanhava ansiosa por um telão o resultado de um concurso musical que eu nem sabia existir: o Eurovision Song Contest. Ele consiste em uma competição tradicional, com décadas de existência, em que cada país europeu envia um cantor (Israel também participa; não é só para a Fifa que o país não faz parte do Oriente Médio).

O público de casa escolhe os três melhores cantores, sem poder votar no próprio país. A apuração é feita com um número de pontos para cada um dos três primeiros colocados nas votações de cada país. É um critério que consegue algum grau de justiça, apesar de certamente existirem algumas distorções: acho difícil, por exemplo, os franceses votarem no Reino Unido (que, aliás, acabou em último lugar este ano). Além disso, Marion e Tobi disseram que há um monte de alemães que cruzam a fronteira com a Holanda para votar nos cantores alemães. São loucos esses germanos! De todo modo, não são sempre os mesmos países que vencem, o que significa que tais distorções não determinam o resultado.

Segundo Tobi e Marion contaram, esse concurso há tempos não fazia muito sucesso, era visto como algo antiquado. A Alemanha não era campeã desde 1982. Só que, desta vez, o país tinha enviado uma garotinha carismática de dezenove anos que era favoritíssima e, aí, todo mundo se encheu de orgulho patriótico. As pessoas no bar lotado aplaudiam, gritavam, e a Alemanha acabou, de fato, ganhando com rodadas de antecedência (a cada vez se divulgavam os votos de um país). Na saída, um motorista buzinava com passageiros tremulando a bandeira alemã! Tanto Tobi como, depois, Manfred (a primeira coisa que este me disse quando nos vimos no dia seguinte foi que a Alemanha venceu o concurso!) acham que, na verdade, os alemães não se importam tanto assim com esse resultado, e estavam apenas treinando para a Copa do Mundo.

Assim mesmo, as pessoas estavam empolgadíssimas no bar. Um quarteto cubano tinha sido contratado para tocar ao vivo, mas teve que esperar um tempão, porque a maioria não queria que a televisão ficasse no mudo; preferia ouvir as declarações da garota e, claro, uma palhinha da música campeã. Saímos e ainda fomos a outro bar, onde bebemos cerveja de trigo Paulaner. Já era madrugada, e eu ainda estava muito aceso, apesar de ter dormido por apenas sessenta minutos nas últimas 43 horas! Depois, pedi, àquela hora, um cafezinho, para agüentar o tranco e segurar o álcool. Mas em seguida chutaríamos o balde, pedindo um licor popular na cidade chamado Jägermeister.

Quando saímos de lá já eram umas duas e meia da matina. Até as quatro e meia já não haveria mais trem para eu voltar. Tobi ofereceu para eu dormir lá na casa deles. Eu disse que o problema é que, uma vez fechando o olho, não fazia a menor ideia de que horas acordaria. Meus amigos disseram que não havia problema e ainda me deram todo o conforto: emprestaram roupa para dormir, deram uma escova de dente, arrumaram a cama (na verdade, o sofá) e, no dia seguinte, ainda havia café-da-manhã para mim! Quer dizer, da tarde. Pois só fui acordar às duas e meia!

Chovia. Não tanto quanto da outra vez em que fui a Mainz, mas chovia. Tobi, que me acompanhou até a Hauptbanhof, disse que, normalmente, o tempo é melhor em Mogúncia do que em Frankfurt, e brincou que era eu que levava o tempo feio de Frankfurt para lá. De todo modo, certamente não seria aquela chuvinha que iria me atrapalhar, depois de encarar quase dois dias sem dormir, e ainda participar de um congresso acadêmico e viajar, tudo isso sem cair de sono. E já estou pronto para outra!


Fotos do encontro com Tobi e Marion em Mogúncia

Cenas da “Eschbórnia” pós-congresso nas fotos do terceiro mês em Frankfurt