Um brasileiro que fala um alemão macarrônico chega a Frankfurt sem saber nem mesmo onde vai morar... Aqui narro minhas aventuras nesta temporada germânica: lugares interessantes, enrascadas em que me meto, esquisitices que percebo a cada dia. O nome do blog é uma analogia aos irmãos Grimm, alemães que compilaram muitas dezenas de contos de fada tradicionais, como Branca de Neve, João e Maria, Rapunzel, a Gata Borralheira, o Músico Maravilhoso, Chapeuzinho Vermelho, e a Bela Adormecida (mais detalhes em Vorstellung).

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Centenas de fotos disponíveis em Ilustrações.


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terça-feira, 5 de outubro de 2010

Kapitel CXVI – Trilogia: O Retorno do Reis

Acabou o curso de verão. Passamos de bar em bar a longa noite depois do coquetel de encerramento em Bruxelas e começaram as despedidas. A italiana Luana foi a primeira a ir embora, na véspera. Ainda teríamos o começo de sábado para dar umas voltas. Logo depois do último almoço no restaurante da sopa de lentilha (ver Kapitel anterior), foi a vez de me despedir de Patrícia e João, cujo voo de volta para Portugal seria no meio da tarde. Não muito depois foi a vez de Sofie e, por fim, eu e Edalina nos separamos no metrô. Era minha vez de ir à estação norte para pegar o ônibus baratinho para Amsterdã.

Cheguei no começo da noite. Não havia feito reserva em albergue, mas tinha pegado o endereço de alguns. Entretanto, não tinha um mapa. Estava perdido e me recusei a pagar três euros por um minúsculo mapinha em uma das várias lojas turísticas no centro. Ridículo! Em qualquer cidade europeia se consegue um mapa daqueles gratuitamente e os holandeses ficam metendo a mão!

Andei muito, o mochilão e o laptop pesavam cada vez mais. Os únicos mapas que eu tinha eram os que copiei do Google e colei em um documento de Word com os endereços dos albergues. Para me localizar, portanto, eu precisava, a cada vez, ligar o computador e tentar encontrar em algum dos micromapas a rua onde eu estava. Acabei chegando a uma rua mais residencial, e um senhor de idade viu que eu estava bem perdido.

Pegou um guia de ruas e telefonou para o primeiro albergue da lista. Esdruxula- mente, o atendente falava mal holandês, e ele falava mal inglês. Ainda assim, pôde constatar que eu tinha capturado o mapa errado que aquele albergue ficava muito longe dali. Viu que o segundo albergue da minha lista, no entanto, era ali pertinho, e me acompanhou até lá. Foi muita gentileza.

Tive muita sorte: havia uma (apenas uma!) cama vazia para aquela noite! A sorte só não era maior porque ela ficava em um quarto com 18 camas! Pelo menos as pessoas não eram barulhentas. Talvez porque se tratava de um albergue cristão. Ou seja, tratava-se de um albergue não apenas silencioso como chato, sem qualquer clima; isso em plena louca Amsterdã. Reservei mais duas noites em um quarto com seis camas (que, aliás, nem chegaram a ficar todas ocupadas).

Os funcionários eram gentis e educados, tinham sempre a preocupação de ajudar e impedir que os hóspedes se perdessem ou tivessem problemas (parece até que já me conheciam, não é?). Mas o albergue em si era uma porcaria. A internet wireless não era gratuita, e era preciso pagar para ter acesso mesmo do próprio laptop. O café-da-manhã, incluído, era paupérrimo: quando havia panquecas, estava até bom, mas foi frustrande o dia em que pedi os sanduíches e vi que eles se restringiam a dois pãezinhos com uma única fatia de queijo cada, muito fina e que sequer cobria todo o interior do pão. E ainda tive que comprar um mapa: lá custava menos, um euro, mas eles não forneciam de graça como em outros labergues em que já estive.

No dia seguinte à minha chegada, andei por toda a cidade, tentando cobrir a maioria dos lugares desenhados no mapa. Amsterdã é uma cidade bonita, cheia de antigas casinhas localizadas em ruas inclinadas de pedras, cortadas por belos canais. Aliás, uma aparência que não condiz com seu clima amalucado. As pessoas lá parecem querer ser o mais loucas possível; mesmo o comportamento alternativo não me parecia natural, tive a impressão de ser um pouco forçado. É visível também que há uma enorme quantidade de estrangeiros, seja como turistas, seja como imigrantes, seja como indecisos quanto a qual das duas categorias se enquadrar.

Não demorou muito e, sem querer, eu me encontrei no meio do famoso distrito da luz vermelha. O mais louco é ver crianças pequenas e velhinhos olhando aquele monte de sex shops e de casas de sexo explícito. Alé bichinhos de pelúcia com peru de fora são vendidos aos montes, juntamente com camisetas engraçadas alusivas a sexo e drogas. Não deixa de ser estranho olhar para janelas de frente para a rua, que parecem vitrines de lojas, e constatar que as manequins se mexem e lá o produto à venda não é a roupa, mas sexo. E há de tudo: desde jovens moças até prostitutas bem velhas, desde mulheres tão lindas que não dá nem para acreditar que existem até outras que não dá para acreditar que alguém queira algo com elas (e muito menos que pague para isso!). Não faltam garotas vindas do leste europeu, mas há também orientais, negras etc.

Outra coisa que se encontra por toda parte são os não menos conhecidos coffe-shops. É o local onde é permitida a venda de maconha e haxixe. Quem não fuma, dependendo do lugar, tem a opção de comer um bolinho aditivado. Há desde uns buracos escuros e esfumaçados com música pesada até um charmoso café com cara de limpinho, em frente a uma igreja e com belas garçonetes. No distrito da luz vermelha fica um que se chama Buldog, que se intitula o mais antigo de todos, aberto em 1971, se minha memória não falha (não, não houve nenhuma piada implícita nesta frase).

Apesar de todo o clima de animação e balada, as cervejas não são o forte da Holanda, definitivamente. São muito piores do que as vizinhas belgas. A Amstel, talvez a mais comum, é bem ruinzinha. Vale mais a pena beber uma Jupiler, que conheci em Bruxelas e é fácil de se encontrar em Amsterdã, além de ser uma das opções mais baratas.

No meu segundo dia, choveu o tempo todo. Ainda bem que tirei bastantes fotos na véspera. Aproveitei para fazer algo que eu já pretendia e que dispensa um céu ensolarado: ir a museus (que, aliás, são todos caros). Fui ao Museu Van Gogh e à Rembrandthaus. A Casa de Anne Frank ficava perto do albergue, mas a fila para entrar era tão quilométrica que desisti dela. O Van Gogh tem uma grande coleção de pinturas não apenas dele como também de artistas que o influenciaram ou que foram influenciados por ele. Pude ver Monet, Toulouse-Lautrec, Gauguin e até Gustave Coubert, de quem gosto muito, mas as pinturas que me impressionaram mesmo foram as de Jozef Israëls e de Léon Lhermitte, que eu não conhecia.

A Casa de Rembrandt é, efetivamente, um casarão onde esse mestre das sombras vivia (até que, afundado em dívidas por seu estilo de vida luxuoso, precisou abrir mão dela, terminando seus dias com pouco espaço e pouco dinheiro). Nas paredes, pinturas feitas em seu atelier por ele e por seus aprendizes. Em uma das salas, podíamos ver uma demonstração do processo de litografia.

Como meu voo de Bruxelas para Frankfurt sairia na manhã de quarta-feira, eu precisaria voltar a Bruxelas na terça para passar a noite lá. Então, deixei para ir a um último museu no final da manhã e, em seguida, pegar minhas coisas no albergue e partir de volta para a Bélgica. O museu escolhido foi o meu preferido entre os três que visitei: o Rijksmuseum. Além de ser uma construção linda (que estava, no entanto, parcialmente oculta por uma reforma em seu exterior), tem um grande acervo de brilhantes pintores holandeses, como Rembrandt, Vermeer, Jan Steen e Bosch, além de armas, prataria e porcelana. Adorei a atualíssima pintura “Fishing for Souls”, de Van de Venne, em que católicos e protestantes pescam fiéis no rio.

Peguei minha mochila e parti para a estação Amstel, onde, suposta- mente, pegaria o ônibus baratinho para Bruxelas às três e meia. Suposta- mente, havia o ônibus das três e meia e, se tudo desse errado, ainda havia um às seis e meia, segundo vi na internet. Tudo apenas “supostamente”. Chegando lá, às 3h10, tive a desagradável notícia de que, naquele dia, o último ônibus tinha saído às 2h30. No dia seguinte, sim, haveria esses horários.

Era preciso inventar um plano B. Voltei à estação central e comprei o bilhete de trem. Era bem mais caro, 41 euros, mas ainda um preço viável; no sentido contrário, de Bruxelas para Amsterdã, o preço era surreal: 87 euros! Ainda assim, como não aceitaram meu cartão de crédito, fiquei praticamente seu dinheiro vivo até a volta para a Alemanha. Cheguei à Bélgica com o dia ainda claro. Não havia reservado albergue mas tinha pegado uma lista de três opções com Willy, o sino-californiano que dividira quarto comigo durante o curso de verão. Não haveria de ser difícil encontrar um. Pelo menos, isso era o que eu achava. O avanço das horas e o escurecimento do céu me fariam mudar completamente de opinião.

Fui até a primeira opção, a pé, com todo o peso da mochila e do computador sobre os ombros. Era um albergue bem central, tudo de que eu precisava. Foi muito frustrante ouvir que todos os lugares estavam ocupados. O cara disse que, se eu quisesse, poderia esperar lá para ver se haveria alguma desistência. É claro que não fiquei. Queria achar o quanto antes um albergue para deixar as minhas coisas, e seria bom se fizesse isso ainda de dia. Seria...

Andei muito até chegar a outro albergue da lista. Dos três que eu tinha o endereço, apenas aquele primeiro era bem central. Apesar de afastado e localizado em uma rua meio escura, parecia um lugar legal. Mas isso não faria diferença. Também estava lotado! Exausto e já muito preocupado, perguntei à atendente (que tinha aquele jeitinho charmoso e acelerado de francesinha cool) se ela sabia de algum lugar não muito caro onde eu poderia passar a noite. Gentilíssima, a menina começou a telefonar para outros albergues e, ao encontrar um, fez a reserva para mim e me deu o endereço de lá e um mapa, explicando o caminho mais fácil para chegar lá.

Era, portanto, apenas questão de tempo. Graças às boas indicações, achei o lugar sem maior dificuldade. Havia no meu quarto um figuraça estaduni-dense, com bigode à la Hercule Poirot, chamado Patrick, descendente de escoceses e nascido no dia de São Patrício, que falava pelos cotovelos (e eu só entendia metade do que dizia). O albergue parecia bom e tinha um bom café da manhã. Este começava a ser servido às sete e eu já estava, antes dessa hora, a postos. Tomei o café rápido e saí bem cedo, para não ter problemas. E não teria nenhum se não fosse por alguns percalços...

Se tem algo que não compreendi bem como funciona são os trens em Bruxelas. Perguntei para o controlador se o trem que ia sair era o que iria para o aeroporto e, sem paciência e desatento, ele me deu uma resposta que deu a entender que era. Mas não era. Os controladores não fazem nenhuma questão de orientar os passageiros perdidos. Quando achei estranho e perguntei para outros passageiros, eles me disseram que era no outro sentido.

Saltei naquela cidadezinha-satélite e perguntei para o vendedor da estação ferroviária local como eu poderia ir para a Estação Norte, de onde eu sabia que sairia o trem para o distante aeroporto. Ele me deu a indicação, mas acabei novamente saltando errado. Quando cheguei a Estação Norte, não tive problemas para seguir para o aeroporto. Mas já era praticamente a hora do meu voo.

Quando cheguei ao balcão da Lufthansa, perguntei ao funcionário se ainda era possível ir no voo, porque eu estava atrasado. É claro que não era. Ele me orientou a ir ao balcão de remarcação de viagens. Minha surpresa foi a tranqüilidade do balconista da Lufthansa para remarcar minha viagem para o voo seguinte, menos de duas horas depois, sem cobrar nada por isso. Fiquei totalmente fã da Lufthansa! Isso é que é saber tratar bem os clientes!

As confusões continuariam até o último momento. Chegando ao prédio onde moro, tive a desagradável surpresa de que não havia ninguém em casa. E como fiz um acerto com Mario, que aluga o quarto para mim, para ele alugá-lo nessas duas semanas em que estive fora, eu estava sem a chave. Telefonei para ele e soube que Manfred viria, mas ainda demoraria uns quarenta minutos. Demorou mais. Fiquei uns vinte do lado de fora, na rua, até que enfim algum vizinho chegou. Entrei “de carona” e me sentei na escada.

Peguei meu laptop, consegui captar fraquinho o sinal da internet da minha casa, e lá fiquei esperando, sob olhares desconfiados de vizinhos que entravam ou saíam. Enfim, o final foi feliz e toda a aventura valeu a pena. Não há trilogia sem momentos difíceis e contratempos, não é mesmo?

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Kapitel CIII – Comi e Duas Noites

Não sei se são preocupações, ou se é o excesso de Coffea arabica, mas tenho tido um sério problema para dormir cedo. Em um desses dias até veio a calhar, pois, depois de um bom tempo, voltei a sair à noite. Meus camaradas Bertram e Florian combinaram de nos encontrarmos no rio Main, perto de uma ponte que eu não sabia qual era. Peguei as instruções com eles e fui. Mas nada de encontrá-los. Andei muito, passei por várias pontes, e nada. Até que, em algum momento, pegando as orientações com o Bertram por telefone, finalmente entendi uma coisa: eu tinha atravessado para o outro lado do rio, enquanto que eles não. Ou seja, eu não os encontraria nunca!

Julguei que seria do outro lado porque todas as vezes que marquei com qualquer pessoa no rio (eles, inclusive), era do outro lado. Nem perguntei, portanto. Enfim, o importante é que os achei. Havia muito mais gente lá. Katja e Mona – as duas garotas que reforçaram o FLATmengo no campeonato de futebol após a contusão de Martina (ver Kapitel XCI), também estavam – mas o grupo era bem maior. Ficamos bebendo cerveja e, dentro do possível, conversando. Estava realmente difícil entender o alemão, até porque, à medida que bebíamos, não só minha compreensão piorava como os demais conversavam com ainda menos preocupação de serem claros. Mas uma coisa é certa: eu realmente aprendi a abrir garrafas usando o isqueiro em vez do abridor (ver Kapitel LXX e LXXIX).

Depois, nós cinco e mais uma loirinha e um cara fomos a uma boate chamada Nachtleben (ou “vida noturna”). E mais cerveja! Era claramente uma boate mais em conta do que aquela a que eu tinha ido da outra vez (ver Kapitel LI). A música não era grande coisa, mas me pareceu aceitável. Não sei se Florian concordou muito, pois disse: “this music is shit”. Naquele dia, portanto, dormir tarde foi justificável.

Mas nem sempre isso ocorre... Em geral, é no meu quarto (sozinho, é bom esclarecer) que as horas avançam e me atormentam com a falta de sono. A insônia atingiu seu grau máximo na noite do dia 9, quando dormi aproximadamente às 7h30 da manhã (do dia 10, é claro)! Eu me deitei já pelas três da madrugada, e de duas em duas horas em média eu ficava de saco cheio de não conseguir dormir e ligava o computador. Pelo menos serviu para assistir pela internet ao bom desempenho da Dilma Rousseff na hostil entrevista do Jornal Nacional. Lá pelas seis da manhã, o céu já claro, eu ainda conversava pelo chat com minha irmã no Facebook.

Estou tentando dormir e acordar mais cedo, acabar com esse ciclo vicioso. Ontem, consegui dormir à uma, o que foi uma vitória! Anteontem, dormi tarde, mas pelo menos consegui acordar a tempo de ir à universidade. Como eu sempre acordava muito tarde – e, quando eu estava plenamente desperto, boa parte do dia já tinha se passado – acabava me parecendo totalmente improdutivo ir até lá. Mas finalmente consegui quebrar esse jejum.

Por falar em jejum, a ida à universidade me proporcionou romper com outro ciclo: comi uma refeição decente. Por preguiça de me aventurar na cozinha e sem vontade de ir a algum restaurante próximo de casa, tenho comido mal. Há alguns dias em que todas as minhas poucas refeições são sanduíches de pão de forma. Manfred sempre brinca que minha bolsa-sanduíche me dá direito a comer apenas um sanduíche, e que eu devo, portanto, comer ainda menos.

Ontem, para encontrar um lugar para comer tal refeição decente lá no bairro de Bockenheim, no entanto, não foi tão fácil. Andei um bocado, até por áreas que não conhecia, e nada de achar um restaurante que me atraísse. É surpreendentemente difícil achar lugares que não girem em torno de döner, carne de porco, culinária oriental (não só chinesa e japonesa, mas também muita tailandesa) ou massas e pizzas. E eu não queria nada disso (minhas últimas duas refeições decentes tinham sido, inclusive, em restaurantes tailandeses, onde provei boas cervejas da Tailândia: Chang e Singha).

Acabei encontrando um bom e velho galeto (Hännchen, como chamam em alemão) com salada. Pedi a salada pequena, que simplesmente significou um prato cheio. Fiquei imaginando como seria a salada grande, mas tive até medo de perguntar. Bem, por ora é isso o que eu tinha a lhes dizer. Agora, vou esquentar uma pizza pronta. Ou, quem sabe, preparar um sanduíche de pão de forma...

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Kapitel CII – A Casa do Urso

Depois de vários dias só comendo besteira, tive hoje minha primeira refeição decente em bastante tempo. Comi um prato de frango com molho de leite de coco e curry e bebi a cerveja tailandesa (?!) chamada Chang, no ótimo resturante Krua Thai. Já almocei lá outras vezes antes. Fica no bairro de Bockenheim, perto da universidade, para onde fui em seguida, usar o programa de estatística SPSS e dar uma olhada em um livro.

Minha ida à universidade marcou o fim de uma seqüência de três dias enfurnado em casa, de onde só saí para fazer compras no supermercado e colocar o lixo para fora. Esse período restrito ao circuito quarto-banheiro-cozinha me alertou para uma coisa: eu ainda não tratei nestes Contos Fantásticos, com a devida profundidade, do lugar onde moro. Pois corrigirei essa falha agora.

Moro em um WG (sigla para Wohngemeinschaft), que é um apartamento compartilhado. Comigo moram o já famoso (São) Manfred, muitas vezes citado aqui, e duas meninas, também alemãs: Suzanne e Janine. Este seria o último mês das duas antes de voltarem para suas cidadezinhas, mas parece que estão negociando com Mario (que Mario? o espanhol que aluga o apartamento, é claro) para prorrogarem o aluguel. Elas não são más pessoas, mas há muito pouco diálogo com elas. São muito amigas entre si, mas não demonstram qualquer interesse em se aproximar de nós dois (tratei disso no Kapitel XLV). Já Manfred é um cara legal, que me ajudou várias vezes. Mas não tem paciência de me ajudar no alemão e sempre zomba das minhas trapalhadas. Que não são poucas.

O WG fica no bairro de Dornbush. Está longe de ser badalado como Sachsenhausen ou bonitinho como Bockenheim, mas é um bom lugar. Como disse no Kapitel II, tem boas opções de transporte e seviços. Vivo a umas duas quadras da estação de metrô Dornbush, que é a primeira no sentido Sul-Norte que não é subterrânea (tipo linha 2 do metrô carioca, na superfície).

Além disso, o maior supermercado da cidade fica perto da estação anterior, a Miquel-/ Adickes- allee/Polizei- präsidium (vocês não imaginam o quanto é viciante ficar repetindo esse nome enorme quando ele é anunciado no metrô). Perto da minha casa ficam ainda o restaurante italiano Cosi Cosi, um oriental, uma padaria, uma loja que vende embutidos onde também já almocei algumas vezes, um banco (onde saquei dinheiro do Banco do Brasil várias vezes), o escritório da administração da região (o Bürgeramt)...

Meu endereço diz que moro na Eschersheimer Landstraße, mas é mentira. O meu número ocupa o quarteirão inteiro, e é um número comercial. Depois, virando-se a esquina, o número se repete, mas com as letras A, B, C... Pois é em um desses que eu vivo. Só que aí já não é mais, realmente, na Eschersheimer Landstraße. O nome da rua é Carl-Goerdeler str.

Uma vez, de curiosidade, fiz uma pesquisa na Wikipedia e descobri que o tal do Carl Goerdeler era um político monarquista conservador, que, inicialmente, considerou Hitler um ditador ilustrado, com potencial para fazer o bem. A partir de 1933, mudou de ideia, e passou a fazer oposição a ele e a tentar ajudar comerciantes judeus perseguidos. Se uma tentativa de matar Hitler em 1944 tivesse dado certo, ele seria o novo chanceler. Como ela falhou e descobriram que ele estava envolvido, foi preso e torturado por meses e, depois, executado.

Mas é na Eschersheimer Landstraße que eu ando sempre. Pelo que me explicaram, várias ruas em Frankfurt levam o nome de outras cidades porque eram, originalmente, as rotas para viajar para tais lugares. A tal da Eschersheim, bem ao norte e onde nunca estive, originalmente era uma cidade independente, mas foi anexada a Frankfurt em 1910. Frankfurt cresceu muito incorporando cidades vizinhas, entre elas Bockenheim, bairro onde fica o campus onde eu tive aulas de política. As belas – e parecidas entre si – Warte (Bockenheimer Warte, Galluswarte, Friedberger Warte, Sachsenhäuser Warte) eram torres de guarda que ficavam nos antigos limites de Frankfurt, mas, com a expansão, hoje ficam bem no meio da cidade (ver Kapitel LX).

Vivo no quarto andar, mas isso não significa nada. Na Alemanha, bizarramente, os apartamentos não têm numeração, e as referências são simplesmente o número do prédio e o seu sobrenome. Ou seja, trata-se de um prato cheio para um correio ineficiente como o alemão. Isso me causou muita dor de cabeça, como já praguejei nos Kapitel LIV e LXVIII.

Meu apartamento tem uma sala pequena, uma cozinha idem, mas quartos bastante espaçosos (o meu é enorme!). Além disso, há dois banheiros com chuveiro, o que diminui consideravelmente a possibilidade de conflitos entre nós quatro. A sala para pendurar a roupa para secar fica fora do apartamento, no subsolo do edifício e, bizarramente (levando-se em conta que roupas secam melhor no calor), está sempre muitos graus mais fria do que em qualquer outro lugar que não a geladeira. O local para colocar o lixo fica fora do prédio e atende a todos os edifícios que usam a mesma numeração. Lá, há lixeiras para plástico e embalagens, outras para papel e duas para lixo orgânico. Tudo bastante alemão (o sistema está explicado no Kapitel XXX).

O meu quarto tem 25 metros quadrados, se o anúncio dizia a verdade (eu nunca o medi, mas é grande). Tem um bom armário, uma cômoda, uma pequena mesa, uma cama meio desconfortável, uma mesa de cabeceira moderninha, uma estante com cara de escada em que não cabe quase nada (mas ponho livros lá assim mesmo), um sofá-cama e uma televisão miúda que pega poucos canais (nunca asssisti a ela e, quando tentei, não achei a transmissão de nenhuma partida da Copa).

O que mais chama a atenção, no entanto, é um imenso ursão de pelúcia (escrevi sobre ele no Kapitel II; continua na mesma posição e no mesmo lugar). Não é meu, nem comprei para dar de presente. Parece que Manfred ganhou há muito tempo e, como não tem onde colocá-lo, deixou-o aqui. Simplesmente aqui já estava quando cheguei, a aqui ficou, pois não me atrapalha e não quis ser chato. É um tanto bizarro ver um ursão no canto do quarto, mas já me acostumei. Pena que ele só divide o espaço comigo, não os custos do aluguel. Aliás, debaixo dele há uma gaveta cheia de tralha que também não é minha: sacos plásticos, parafusos, lâmpadas... Ou seja, é melhor deixar o urso lá; pelo menos esconde a tranqueira toda.

O urso não é a única peça de “decoração” que chama a atenção em meu quarto. Há também um enorme mapa-múndi em alemão atrás da minha cama. É interessante que posso olhar para “Die Welt”, o mundo, e ver como se chamam os países nesta língua que tanto custo a aprender. Vereinigte Staaten Von Amerika, Gross Britannien, Schweden, Weiss-Russland, Aserbaischan, Ägypten, Elfenbeinküste (este eu aprendi na Copa!), Simbabwe... Legal, né?

Mas o fato de eu gostar de geografia é apenas uma coincidência. Mario colocou o mapa lá para esconder umas manchas na pintura da parede. É que o antigo morador deixou a roupa secando no interior do quarto e criou mofo. Aí, antes de eu me mudar, Mario pintou as partes afetadas e ficou de fazer uma pintura geral quando eu me ausentasse por mais tempo. Bem... passei duas semanas na França e continua na parede, ali atrás da China, da Mongólia e da Indochina, uma baita mancha mais clara.

Parece que estou reclamando, mas não estou não. Não tenho motivos para isso. O urso e as manchas são mais casos pitorescos do que realmente problemas. Além disso, o Mario é gente-boa e compreensivo, não tem rigor excessivo com o prazo do pagamento do aluguel e, assim como Manfred, já me deu várias dicas da vida em Frankfurt. E meu quarto é realmente espaçoso. Tanto que é possível ficar três dias enfurnado nele. Mesmo tendo que dividi-lo com um urso tamanho família.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Kapitel LXXXIX – A Corrida para a Luz

O domingo começou com fortes emoções. Acordei cedo, para não haver risco de me atrasar para o trem rumo a Paris. Mas queria aproveitar os últimos momentos de internet gratuita no albergue. Então, respondi e-mails, pesquisei a localização exata do prédio da minha amiga Joana, onde eu ia me hospedar, e esvaziei as fotos da câmera. Saí tranqüilo, comprei uma garrafa d´água, um croissant e um pain au chocolat e fui caminhando rumo à estação. De repente, ocorreu-me que eu estava fazendo uma confusão: o trem chegaria a Paris às 14h40 e não sairia de Toulouse às 9h40; sairia às 9h22! Logo, eu estava, sim, atrasado!

Comecei a correr desesperadamente. Não há táxis andando por toda parte em Toulouse, como há em outras cidades. Foi preciso um esforço hercúleo para correr metade do caminho com um mochilão pesadíssimo e uma bolsa com quase um litro de água, um laptop e dois livros.

Cheguei à estação às 9h25, ouvi um apito, corri na direção, vi uma porta aberta, entrei e perguntei: “À Paris?” Sim, era o meu trem. Partiu menos de um minuto depois. Ufa! Eu me senti o próprio Indiana Jones. Levei tempo para parar de suar e respirar normalmente de novo. Li um pouco, dormi muito, e cheguei à cidade-luz. Precisava telefonar e só conseguir achar um cartão de telefone com 120 créditos. O que vou fazer com 120 créditos?! Assim, o dinheiro vai embora.

E vai mesmo. Paris é muito mais cara que Toulouse, que é muito mais cara que Frankfurt. Fui provar o crêpe (pedi um doce, de licor Grand Marnier) e, sem recheio algum, só massa, era quatro euros. Depois de comprar o crédito e não conseguir telefonar, fui procurar no mapa a localização e constatei que a Joana mora razoavelmente perto da estação de trem de Montparnasse. Desisti do metrô e fui a pé mesmo. Para quem correu com a mochila, essa caminhada seria fichinha.

Ao chegar ao prédio, fui pegar a chave com a vizinha, conforme o combinado. Pois se existisse uma copa do mundo de vizinhas simpáticas, dona América seria seriíssima candidata ao caneco. Cubana (mas com sotaque compreensível, pois não fala correndo como os cubanos em geral), casada com um francês, mãe de um egiptólogo e moradora de Paris há meio século, ela é incrivelmente gentil e prestativa. Não bastasse ter ficado à disposição para me dar a chave, deu para mim também um mapa de Paris, me mostrou a localização dos lugares e as linhas de metrô, e ainda ofereceu cafezinho. Apesar de nunca recusar café, abri uma exceção, pois já estava com vergonha.

Parti, então, para minha primeira exploração de Paris. A ideia era atravessar os Champs-Élysées, mas, saltando na respectiva estação de metrô, andei para o lado errado. Os Champs-Élysées ficaram, portanto, para o dia seguinte. Conheci o rio Sena, o Jardim das Tulherias, a Assembleia Nacional, a praça da Sorbonne, o Louvre (só o exterior e a parte central interna, pois as exposições já estavam fechadas), entre outros lugares. A Torre Eiffel eu vi de longe, de vários ângulos, tanto de dia como, iluminada, à noite.

É interessante como Paris, Toulouse, Bordéus/Bordeaux e Carcassonne são cidades totalmente diferentes. Enquanto Paris tem prédios grandes como uma grande cidade, mas tem espalhados pela cidade muitas grandiosas obras arquitetônicas evocando às antigas civilizações e outras aos heróis da Segunda Guerra, com muito branco e dourado, Toulouse se caracteriza pela simplicidade, com um ar simpático de tudo o que imaginamos ver em uma antiga cidade francesa. Carcassone, por outro lado, preserva ao máximo uma atmosfera anterior, medieval, enquanto Bordéus também tem grandes espaços e grandiosidade, como Paris, mas é mais sóbria. Estou gostando de minha passagem francesa neste período da Europa.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Kapitel LXXVIII – Piada

Hoje fui ao campus de Westend ver o jogo entre Portugal e a Coreia do Norte. Sempre simpatizei com os lusos, tive vários antepassados portugueses, e é a seleção que eu apoio na Europa. Além disso, eu queria que Portugal vencesse a Coreia porque, desde a distribuição de botinadas da Costa do Marfim na derrota para o Brasil, quero que esta seleção africana seja eliminada (mas sigo na torcida por Gana e Nigéria!). Só que sete a zero foi um exagero!

Foi bom que tenha saído um resultado que praticamente elimina os brutamontes marfinenses, mas deu muita pena dos coreanos. Eles jogaram bem contra o Brasil e perderam de pouco. Contra Portugal, até levarem o segundo gol, seguiam nesse ritmo, inclusive criando chances de empatar. Mas a partir daí, sei la por quê, abriu a porteira. Foi surreal. Um gol atrás do outro. Deu muita pena. E, levando-se em conta a ditadura do país, o mais seguro para os jogadores coreanos seria pedir um asilo político e não voltar para casa.

Mas os portugueses não têm nada com isso, e foi divertido ver a festa deles em Frankfurt. Havia portugueses gritando no metrô, portugueses corneteando na estação central de trem (ou tocando vuvuzela, se preferirem, já que, agora, só porque a Copa acontece na África, resolveram parar de chamar de “corneta” o que sempre foi corneta no Brasil)...

O que não foi nada divertido foi descobrir que o dinheiro da minha bolsa não foi depositado até agora. No Brasil, o CNPq sempre foi pontual, mas está há um mês atrasado na minha bolsa-sanduíche e não responde aos meus e-mails. Fui ao banco confirmar se não tinham mesmo depositado e eis que vi a grande piada. Uma piada de péssimo gosto e que não é de português: minha conta não estava zerada; estava com quinze euros negativos! Fui perguntar o motivo e eles explicaram que isso se deve ao fato de terem enviado um novo cartão de banco para mim. Acontece que só precisei que enviassem um novo cartão por culpa dos correios, que não entregaram o primeiro cartão na minha casa, apesar de a correspondência estar com o endereço certo (ver os Kapitel LIV e LXVIII)! Reclamei, eles preencheram um relatório com minha queixa e disseram que devolverão meus quinze euros.

Realmente, estou vivendo uma tensa e irritante situação. É melhor voltarmos para o assunto Copa do Mundo, então. Tenho dois palpites que certamente contrariam o da maioria das pessoas, mas fazem todo sentido: a Nigéria se classificará e a Espanha será eliminada na primeira fase. Façam as contas. Se a Nigéria vencer por qualquer placar a Coreia do Sul (pode ser um mísero 1 a 0) e a Argentina derrotar a Grécia também por qualquer placar, os nigerianos avançarão às oitavas. Com a goleada argentina contra os coreanos e a vitória destes por 2 a 0 sobre os gregos na estreia, a missão da Nigéria não é tão difícil, apesar de estar com duas derrotas em dois jogos, já que elas foram por apenas um gol de diferença.

Já no grupo H, com a surpreendente derrota da estreia da Espanha para a Suíça e a derrota desta, hoje, para o Chile, acho que a Fúria vai decepcionar mais uma vez e deixará furiosos os seus torcedores. Vejam a lógica: todos vencerão Honduras (aliás, neste momento estou vendo seu jogo contra a Espanha no computador, em uma transmissão em árabe da Aljazeera!). Assim, o Chile chegará à última partida só precisando de um empate, não só para se classificar como para assegurar o primeiro lugar. A Espanha estará desesperada, pois sabe que não poderá contar com um tropeço suíço e, por isso, precisará vencer os chilenos.

Ela, então, partirá para cima da boa equipe sul-americana, que se fechará e jogará no contra-ataque. Os espanhóis, nervosos, cometerão vários erros, terão sua tradicional dose de azar, amarelarão como de costume e, por fim, empatarão ou, com sua defesa escancarada, levarão o gol de misericórdia e perderão. A Espanha, portanto, ou perde ou empata com o Chile, que fica em primeiro no grupo, e a Suíça leva a segunda vaga ao carimbar o passaporte dos jogadores do único país onde ainda há golpes de Estado na América Latina.

Gostaram dos meus palpites? Sim, eu acredito muito no que estou dizendo. Eles não fazem parte da piada.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Kapitel LXXIV – As Coreias e as Chinas

Na terça-feira fui ver o jogo do Brasil no mesmo lugar em que havia assistido à estreia alemã na Copa (ver Kapitel anterior), a praça Rossmarkt, perto da estação da Hauptwache. Infelizmente, o local foi o mesmo mas o placar e o desempenho do time favorito foram bem diferentes. Nossa seleção Canarinho venceu a Coreia do Norte – tudo bem, isso é o mais importante – mas, tirando os belos gols, não foi de modo algum um grande jogo. Para piorar, eu tinha apostado no bolão, com os pés no chão, que o Brasil venceria por 2 a 0, enquanto todos tinham apostado em grandes massacres; e aquele golzinho coreano no final me fez cair de três pontos que eu ganharia para apenas um!

Tudo bem, pelo menos encontrei vários amigos lá na exibição pública. Tanto amigos com quem marquei de me encontrar – como Berê, Forian, David, Maryhen, Marcelo (brasileiro que estuda alemão comigo) – como outros tantos, brasileiros ou estrangeiros, que conheci ali mesmo na hora (o tricolor Pedro, por exemplo), e ainda, por acaso, boa parte da galera que tinha conhecido na festa da casa do Filipe (ver Kapitel LVII). Incrivelmente, até o Manfred eu consegui convencer a sair de casa e ir assistir à partida!

Tirando o jogo do Brasil com a Coreia do Norte, a goleada alemã sobre a Austrália, e a pelada horrorosa entre Eslovênia e Argélia (sobre esta, ver também o Kapitel anterior), assisti a todas as partidas da Copa no telão do campus de Westend da universidade. Hoje, no entanto, pela primeira vez deixei de assistir a uma partida da Copa. E justamente a goleada argentina sobre os sul-coreanos. Eu estava em aula. Deve ter sido um grande jogo.

Digo “deve ter sido” porque, até agora, não consegui sequer ver os gols. Tentei vê-los e se dizia no site: “acesso internacional: este vídeo não possui direitos de exibição fora do território brasileiro”. O pior é que isso não é algo que acontece apenas com um site brasileiro. Já deixei de ver vários vídeos do YouTube recomendados por amigos porque aparecia a mensagem de que não era permitida a exibição do vídeo neste país.

Aí, eu só fico me lembrando do tanto que falam que a China censura a internet. Oras, então, estou me sentindo na China aqui na Alemanha! Não consigo ver um monte de vídeos – não só brasileiros, mas de várias partes do mundo! Se bobear, até na Coreia do Norte se consegue ver esses vídeos, caramba!

Bem, com licença que vou procurar um pouco mais os melhores momentos da vitória argentina, antes de voltar ao campus de Westend para torcer pelo México contra a França.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Kapitel LXV – Pelota Abóbora

Quem me conhece sabe que adoro basquete. Não é modinha, nem é por conveniência quando meu time vai mal no futebol. Eu simplesmente gosto demais desse esporte da bola laranja. E não estou falando de NBA não. Gosto mesmo é de ver a seleção de camisa amarela e, claro, o time vermelho e preto, o mais querido do mundo. Freqüentemente vou ao ginásio e raramente perco as transmissões pela tevê.

Hoje, apesar de feriado, foi um dia em que passei todo o tempo em casa, pois tinha que avançar na preparação de uma apresentação para a universidade. Mas eu tenho do que reclamar? Bebendo uma ótima cerveja Altbier da marca Diebels e comendo um gostoso queijo Old Amsterdam, vi pelo Skype, com o sempre inestimável apoio logístico da minha mãe, a sensacional vitória do Mengão no basquete.

Em uma grande atuação, o Flamengo atropelou o Brasília por 94 a 74, empatando a série final do campeonato brasileiro de basquete em dois a dois. No domingo que vem, às dez horas do Rio e três da tarde da Alemanha, acontecerá em Anápolis a partida decisiva, que não perco em hipótese alguma! Se vencer, o Fla será tricampeão brasileiro consecutivo! E o Brasília será trivice.

Que vontade de estar lá... Não são muitas as situações em que preferiríamos estar em Anápolis do que em Frankfurt, não é mesmo? Coisas de um coração rubro-negro.

domingo, 9 de maio de 2010

Kapitel XLVI – A Máquina do Mal e o Adormecido

Sempre acreditei que os computadores são seres malignos com vontade própria. Aliás, melhor seria dizer “com vontades próprias”, no plural; afinal, eles são cheios de vontades. Pois o meu laptop, que andava calminho desde o meu segundo dia em Frankfurt (ver Kapitel IV), atacou novamente. Caiu a conexão aqui em casa na sexta-feira à noite, mas ela voltou. Todos aqui em casa conseguiram conectar, menos eu! A droga do meu computador diz que o sinal da internet está “excelente”, mas não consigo conectar. Já fiz de tudo, já fucei cada instrução do computador (dá a maior raiva quando ele recomenda a utilização da ajuda on-line), e nenhum resultado! Passou o sábado inteiro e a situação é a mesma.

Eu ia sair com o pessoal do curso de alemão nesta sexta-feira, havia combinado com o João Guilherme. Seria bom inclusive para esquecer um pouco o problema. Só que estava com uma tremenda dor de cabeça, que o meu computador obviamente não contribuía para melhorar. Resolvi, lá pelas dez e pouco, tirar um cochilo, pois acreditava que a dor era resultado do horário alternativo do meu sono na quarta-feira (ver Kapitel XLIV) e das poucas horas dormidas na quinta (sempre durmo meio tarde e preciso acordar mais cedo nos dias de alemão, segundas e sextas). Só que minha soneca superou minhas expectativas. Só fui acordar às três e meia da madrugada! Lá se foi minha saída. E sem internet para compensar.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Kapitel XLIV – O Urubu e o Corujão

Quarta-feira teria sido mais um dia trivial, em que não fui à universidade, estudei em casa, almocei um sanduíche, esquentei um Schnitzel congelado para a janta, saí com Manfred para trocar um pacote de café (estou experimentando para ver qual é meu café preferido, mas, estupidamente, tinha comprado por engano a mesma marca que havia julgado ruim). Sim, teria sido mais um dia trivial se não fosse pelo fato de que o Flamengo enfrentaria o Corinthians em um jogo decisivo pela Taça Libertadores, e eu estava determinado a assistir à partida.

Além das batatas (ver Kapitel XVII), do problema do idioma, da burocracia (ver Kapitel XL) e do choque cultural, uma dificuldade que encontro aqui na Alemanha é a distância do meu Mengão. Ainda assim, apesar de não ser tão fácil, nem de estar nas condições ideais, já consegui assistir a algumas partidas. Tento pegar pela internet alguma transmissão e, quando não consigo, minha irmã gentilmente cede seu quarto em nosso apartamento no Rio de Janeiro para minha santa mãezinha telefonar para mim pelo Skype e virar a webcam de frente para a tevê. É claro que é uma forma precária de assistir à televisão, parece uma transmissão dos anos 70: cores estouradas, tamanho de tela pequeno, listras e sombras que se movem insistentemente na imagem. Mas é melhor do que ficar sem o meu Flamengo, afinal, como brilhantemente compôs Lamartine Babo: “Eu teria um desgosto profundo se faltasse o Flamengo no mundo”.

Na quarta-feira, no entanto, havia outro complicador: diferentemente das partidas do Flamengo a que tinha assistido desde que aqui cheguei, esta não aconteceria à tarde no Brasil, mas à noite. Juntando-se o fuso horário ao maldito horário de verão que está vigorando nos frios dias alemães, aqui são cinco horas mais tarde que no sudeste brasileiro! Mas era um jogo de vida ou morte e, nessas situações, são necessárias medidas drásticas.

Após terminar o que tinha para ler, à meia-noite, marquei o despertador para as duas e meia da madrugada. Acordei meio tonto, mas fiquei a postos. Minha mãe preparou tudo no Skype, mas acabei conseguindo pegar uma transmissão da Fox Sports na internet, com imagem bem menos ruim. A narração em espanhol dava um toque especial a essa partida tão internacional entre os mais populares times do Brasil.

Os 2 a 0 do Corinthians no primeiro tempo davam uma sensação dupla de frustração: o Mengo ser eliminado já seria horrível, mas ele ser eliminado comigo acordado às três e tanto da manhã para poder assistir seria ainda pior. Entretanto, o segundo tempo foi só alegria! O gol de Vagner Love só não foi mais comemorado porque eu precisava ficar mudo, já que era o único acordado em toda a vizinhança. Vibrei a la cinema mudo. Depois, fui dormir às cinco da manhã – para ter aula (à tarde, pelo menos) no dia seguinte. Tinha a sensação de dever cumprido!

Flamengo classificado e, no dia seguinte, era dia de vestir rubro-negro. Pus o manto sagrado, mas, infelizmente, ele ficou quase o tempo todo escondido pelo meu casaco mais grosso. Diferentemente do calor ensolarado do Rio, aqui esta quinta-feira foi dia de chuva e frio. Mas, apesar disso, mostrei com orgulho a camisa. Ser Flamengo, afinal, não é para qualquer um. É “só” para trinta e cinco milhões de felizardos. De um lado ou do outro do Atlântico.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Kapitel XXVII – Jumbo, o Carneirinho

Eu já acordei preocupado com o que teria que fazer hoje. Era o último dia para enviar meu artigo para o congresso em Toulouse e tê-lo inserido no CD do evento. Fiz os últimos ajustes e consegui terminá-lo, graças às inestimáveis ajudas de minha mãe – que assegurou a logística necessária para que eu compensasse a distância de alguns livros do meu quarto – e de minha amiga uruguaia Flor, que evitou que eu passasse vergonha com eventuais erros crassos em meu texto escrito em espanhol.

Só que, para passar o texto de .doc para .pdf, conforme solicitaram os organizadores, eu precisava que minha mãe fizesse a conversão no meu computador de casa, no Rio. Mas o meu computador de casa poderia estar dicionarizado no Houaiss como sinônimo de “lerdeza”, “lentidão”. É simplesmente irritante esperá-lo ligar e abrir algum programa. Quando o arquivo finalmente ficou pronto e pude enviá-lo, já não faltava tanto tempo assim para minha primeira aula na universidade!

Não tinha tempo para almoçar decentemente. Apenas comi uma minipizza de salame vendida na padaria do metrô e fui para a aula de abertura sobre política comparada, ministrada pelo Jens. Foi apenas uma apresentação do curso, mas já deu para ver que o programa está ótimo. Decidi voltar a pé, pois não carregava tanto peso, e almoçar decentemente quando passasse por algum lugar interessante e, principalmente, aberto, posto que deviam ser umas quatro da tarde.

Passei por uma loja de kebap, Yufi Döner. Entrando lá, comi uma massinha de queijo chamada börek, que foi cortesia, e pedi logo um “Jumbo Döner”, com o dobro de carne de carneiro e tudo mais o que tinha direito (salada, molho...). Afinal, era o meu almoço e não um singelo lanchinho da tarde. Faltando ainda comer um terço, eu já sentia uma pressão para os lados e para frente tentando dilatar meu abdômen. Aquele döner kebap era enorme!

O restante do percurso de volta para casa foi trilhado rolando e não mais caminhando. Depois de chegar, ainda levei treze garrafas vazias que eu estava juntando no armário para trocar lá na loja do armênio (ver Kapitel XXV). Afinal, como eu disse no Kapitel XX, aqui, para se reaproveitarem os plásticos e vidros, cobra-se na venda um adicional pelas garrafas, que depois podem ser trocadas por abatimentos na compra seguinte. Acabei pagando apenas cinqüenta cêntimos na compra de uma garrafa de água com gás e outra de suco de maçã!

A história é cíclica, sempre se repete. Agora, como ontem, ficarei em casa trabalhando, desta vez para preparar uma proposta para outro congresso acadêmico. Amanhã, terei novamente aula, de política brasileira e de alemão. Só não posso repetir também a refeição: se eu comer outro Jumbo Döner, a história não será cíclica, será redonda!

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Kapitel IV - A Tomada, o Cadeado e a Cama Tombada

Levei pelo menos três baita sustos nas duas primeiras semanas em Frankfurt. Logo no segundo dia, achei que meu computador tinha pifado. Já via com desespero a iminência da perda do contato com minha família e todos os meus amigos do Novo Mundo, a perda de todas as fotos que trouxe do Brasil e das que já tinha tirado (tinha acabado de copiá-las todas para o notebook e apagado da câmera!). Na verdade, acabou a bateria e, provavelmente, a tomada à qual ele estava conectado não estava funcionando.

Depois, na hora de sair do albergue, outro susto: quase perdi meu cadeado! Saí com a mala aberta e o cadeado solto pendurado. Ele, obviamente, caiu. Perguntei às faxineiras se elas o tinham visto, em inglês, e elas não entendiam nada. Achavam que eu estava falando de alguma camisa. Apelei, então, para a mímica, e imitei um cadeado com a minha mão, fazendo um ganchinho com o dedo indicador. Não é que elas entenderam?! E por sorte elas o tinham encontrado. Chegaram a jogar no saco de lixo, mas perceberam o que era e guardaram.

Na madrugada de primeiro de abril para o dia 2 (a peça foi pregada com efeito retardado...), levei um novo susto: a cama desmontou. Fiquei com medo de ela ter quebrado. Já imaginou já começar quebrando a cama do quarto provisório? Como eu escaparia do prejuízo? E eu não tinha feito nada de mais, nada de cama elástica ou de arrastar móveis, apenas havia me deitado. Após ver que estava apenas desmontada, fiquei irritado de ter que encaixar os tacos do estrado (foi o maior sufoco) em vez de continuar dormindo. Depois, Mario, o teuto-espanhol que aluga os apartamentos, admitiu que não era das camas mais novas...