Um brasileiro que fala um alemão macarrônico chega a Frankfurt sem saber nem mesmo onde vai morar... Aqui narro minhas aventuras nesta temporada germânica: lugares interessantes, enrascadas em que me meto, esquisitices que percebo a cada dia. O nome do blog é uma analogia aos irmãos Grimm, alemães que compilaram muitas dezenas de contos de fada tradicionais, como Branca de Neve, João e Maria, Rapunzel, a Gata Borralheira, o Músico Maravilhoso, Chapeuzinho Vermelho, e a Bela Adormecida (mais detalhes em Vorstellung).

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Centenas de fotos disponíveis em Ilustrações.


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sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Kapitel CXIV – Trilogia: A Fraternidade da Alemanha

Já estou sendo cobrado pelo meu sumiço, pela minha recende falta de produtividade nestes Contos Fantásticos. É que tive duas semanas agitadas, com pouco tempo livre. Mas contarei o que me aconteceu nos neste Kapitel e nos dois seguintes, que formarão uma “trilogia”. Estava se aproximando minha viagem para Bruxelas, onde eu participaria de um curso de verão sobre partidos políticos. Mas antes eu ainda tinha alguns compromissos na Alemanha.


Primeiro, fui ao Jazzkeller, onde seriam comemorados o aniversário de Celi (a paulista da viagem para Freiburg; ver o Kapitel anterior) e a despedida de Alécio (outro brasileiro do grupo da festa da casa do Filipe; sobre esta, ver Kapitel LVII), que voltaria para o Brasil. Estava lá a maioria dos brasileiros que conheci na Alemanha: Vítor, Filipe, Gilberto, Letice, Fiorina, Celi, Ulisses, Alécio. O som era um jazzinho muito bom, que lembrava a ótima trilha sonora dos Peanuts composta por Vince Guaraldi. Dei um tempo nas cervejas e lá bebi o vinho Côtes du Rhône. Foi também a minha despedida europeia do meu camarada Vítor, que voltou ao Brasil enquanto eu estava na Bélgica.

No dia seguinte, foi a vez de me encontrar com Berenice, que não via já fazia um tempão. Fomos a um restaurante no bairro de Sachsenhausen, chamado Frollein. A ideia era bebermos Apfelwein, o tradicional vinho de maçã frankfurtiano, mas fomos surpreendidos pela informação de que eles não tinham. Fui obrigado a voltar à cerveja (fazer o quê, né?). Bebi uma cerveja escura chamada Hövels, e comi Käsekreiner, que é uma salsicha recheada com queijo.

Antes de me encontrar com Berê no restaurante, no entanto, consegui a proeza de ter dificuldades de encontrá-lo. Atravessei a ponte no rio Main, adentrei Sachsenhausen, e estive do outro lado da rua em frente ao restaurante mas não o reconheci; virei, então, à direita, e dei a maior volta, até retornar pelo outro lado da rua e, após muito caminhar, deparar-me com o Frollein e me dar conta de que eu tinha me enrolado à toa.

Um dia depois, foi a vez de ir pela última vez a Mainz (ou Mogúncia), encontrar-me com Tobi e Marion Mannhold. Cheguei mais cedo, enquanto eles ainda estavam no trabalho, para visitar o Museu Gutenberg. Como disse no Kapitel XLIII, Gutenberg está para Mogúncia como Goethe está para Frankfurt. Como grande personagem histórico nascido na cidade, tudo lá leva o seu nome.

O Museu Gutenberg mostra antigas máquinas de impressão, conta sobre a vida do criador da imprensa móvel, exibe vários impressos europeus e chineses e, claro, a famosa Bíblia de Gutenberg. O frustrante é que o museu fechou mais cedo do que o divulgado no site, por estar em período de férias, de modo que fui, basicamente, expulso de lá antes de terminar de ver as últimas salas.

Precisei, também, fazer uma horinha antes de encontrar meus amigos. Quando Marion e Tobias apareceram, fomos a uma tradicional casa de vinho da cidade. Lá, bebemos Feder Weisser, um tipo de vinho branco mais suave, que é o vinho ainda “jovem”, no começo do processo de fermentação. Como Mogúncia é uma cidade produtora de vinho, eles vendem apenas nos meses de setembro e outubro, em função da época da colheita das uvas, essa bebida. Achei saborosa, apesar de bem diferente do vinho em seu estágio final.

As leveduras ficam concentradas no fundo do copo, e eles me alertaram para não ingeri-las, pois elas continuariam trabalhando dentro do meu estômago, podendo dar um... digamos... revertério. Eu parecia um perito em beber Feder Weisser: deixei menos de um milímetro de líquido acima da levedura. Marion era claramente a mais medrosa; temendo ingerir o pozinho do fundo, deixou quase um quarto do líquido. Tobi, que talvez tenha bebido com um pouco da levedura junto, ainda arrematou o restinho do líquido da taça da Marion. Marion comentou que as conseqüências eles veriam à noite. Espero que não tenha havido nenhuma...

Tobi tentou pedir para nós o tradicional acompanha- mento para o Feder Weisser: uma torta de cebola chamada Zwiebel- kuchen. Ele brincou que tal iguaria, junto com o Feder Weisser, dá um efeito bombástico, com as leveduras continuando a trabalhar dentro da barriga ainda mais ativamente, mas ainda assim todo mundo consome os dois juntos. Infelizmente (ou não) o produto estava no cardápio mas o bar não tinha.

Depois, fomos comer em um restaurante que funciona em um antigo prédio onde originalmente era um hospital. Bem interessante o lugar. Só que no cardápio todos os pratos vinham com batata (sobre essa leguminosa nos restaurantes germânicos, ver Kapitel XVII). Acabei comendo um pão no forno coberto com molho e queijos, que parecia uma pizza; estava bom e era o único jeito de fugir das batatas, essa obsessão gastronômica dos alemães. Voltei a beber a cerveja Hövels, a mesma de quando fui ao restaurante com a Berê em Frankfurt, e depois encerramos a noite com o licor Jägermeister, o mesmo que tínhamos bebido na vez anterior que os visitei em Mainz (ver Kapitel LXII). Foi curiosa a cara de espanto da garçonete quando Tobi pediu a bebida. Depois, ele comentou isso com outro garçom, perguntando se é incomum consumirem o licor, e este fez graça, respondendo que é porque ela queria que fosse ela a beber no nosso lugar.

Foi muito bom reencontrar esse casal de amigos. Como são muito ocupados e vivem em outra cidade, não sei se voltarei a vê-los nesta temporada europeia, que já está acabando. Espero que sim. De todo modo, sempre muito gentis, eles me deram lembranças de Mainz: um calendário com fotos da cidade, e um copinho desenhado com uma cena de Mogúncia para beber Jägermeister ou outra bebida.

Ainda faltavam poucos dias para viajar para Bruxelas, mas o fato de eu não sair mais de casa até lá não significava que eu estaria de bobeira. Foi uma grande correria, porque eu precisava terminar o artigo para um congresso de ciências sociais no Brasil antes de partir. Seria um inferno precisar escrevê-lo no meio do curso de verão, e o prazo final para enviá-lo era bem no meio do período em que eu estaria na Bélgica.

Para vocês terem uma ideia de como foi corrido, acabei exatamente no mesmo dia do meu voo. Saí correndo, com medo de me atrasar, e dormi pouquíssimo naquela noite. Aliás, isso bem poderia ser um presságio do que me ocorreria nas duas semanas seguintes.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Kapitel CXI – Antes das Bodas

Mal voltei a Frankfurt da viagem à Baviera e já estava cheio de compromissos. Era aniversário da Lara, a alemã que fala português perfeitamente e com sotaque baiano. Tinha marcado de comemorar no jardim atrás do Museum der Weltkulturen, onde o brasileiro Ivan Santos tocaria (já tinha assistido a um show dele, excelente; ver Kapitel CI). Menos de três horas depois de pisar na estação de trem de Frankfurt, eu estava lá, pronto para o festejo. Mas era o único! Ninguém tinha chegado, apesar de que a ideia original era marcar para uma hora mais cedo ainda do que aquela. Logo o carioca foi chegar antes dos alemães, quem diria...

Depois vieram Lara, suas irmãs, e um animado rapazinho chamado Peter, filho de uma delas. O bebezinho mexia em tudo, e deu sinais de que trabalhará futuramente com comércio ou investimentos, tamanha a vontade de tirar o dinheiro da carteira da mãe. Muito engraçado! Depois chegou um amigo de curso de inglês da Lara, gente-fina. Bebemos vinho, ouvimos música e... abrimos os guarda-chuvas! Começou a cair o maior pé-d’água! Ainda assim, resistimos até o show acabar.

Fazia parte do Museumsuferfest, um festival artístico e cultural semelhante à Noite dos Museus que descrevi no Kapitel XXXVI. De lá, seguimos caminhando pela rua que margeia o rio Main, onde nos encontramos com o namorado de Lara, chamado Jens. E mais álcool! Bebemos uns chazinhos aditivados com água que passarinho não bebe e, depois, fomos a um bar. Lá, chegaram Xenia, Maryhen e o namorado dela, Jens (Jens não é, definitvamente, um nome muito incomum na Alemanha), e a alemã filha de pernambucana chamada Ana (ela apareceu no Kapitel CV).

Lá, bebemos Apfelwein, o vinho de maçã, que é uma tradição em Frankfurt (especialmente no bairro de Sachsenhau- sen, onde estávamos, do outro lado do rio Main). Aliás, aproveitei para ter uma refeição totalmente frankfurtiana. Além do Apfelwein, pedi um Frankfurter Schnitzel, que é um filé de porco com Grüne Soße, um molho verde à base de ervas da região. É o prato mais típico de Frankfurt, e também encontrado mais facilmente em restaurantes em Sachsenhausen. Eu acho gostoso, e estava com saudade de comer isso (sobre a vez anterior em que tinha comido o Frankfurter Schnitzel, ver Kapitel XL).

Depois, demos mais uma volta e encontramos meu amigo Vítor. Havia várias barraquinhas e palcos. Eu, Lara, Xenia e o amigo de Lara dançamos em uma tendinha de música disco das antigas e em outra de salsa e ritmos latinos. Além disso, eu e Vítor mandamos ver na cerveja de trigo. Foi uma noite divertida, mas minha programação frankfurtiana não acabaria ali.

Já na noite seguinte, haveria a festa de despedida de Fabian, que fará um intercâmbio na Letônia. Por que Letônia? Boa pergunta, eu também o questionei sobre a mesma coisa, e a resposta não foi muito satisfatória. Ele não fala nada de letão, espera conseguir se virar exclusivamente em inglês, e lá não é nenhum centro em que ele tenha contatos ou que seja especialmente forte nos temas que ele estuda.

Fabian me disse que queria ir a um lugar diferente. Bem, se a ideia era essa, como disse um amigo brasileiro chamado Flávio, ele poderia ter ido fazer intercâmbio em alguma ilha paradisíaca do Pacífico, não é? Dizem que Riga, capital da Letônia, é bonita, mas ele estará lá em pleno inverno! Para vocês terem uma ideia, Fabian precisou comprar um casaco de frio, daqueles com pele de animal, porque os que ele tinha não eram suficientes para a friaca que ele encontrará lá. Vejam bem: Fabian é alemão, bávaro, e mora em Frankfurt, não estamos falando de nenhum latino ou africano dos trópicos!

Bem... cada louco com a sua mania. Apesar do aparente parafuso a menos, Fabian é um cara legal e eu fazia questão de ir a sua festa de despedida. Seria realizada na casa de um amigo dele chamado Björn, que também ia estudar fora (no e-mail de convite dizia que seria “lá onde os deuses vivem”; pelo nome dele, portanto, suponho que seja na Suécia ou algo assim). Aliás, a festa incluía entre os homenageados ainda uma terceira amiga deles, Elena, que fará o intercâmbio em Moscou.

Os exotismos geográficos não acabavam. Um dia depois de voltar de trem conversando com uma eritreia (ver Kapitel CIX), na festa de meu amigo que vai se mudar para a Letônia falei com pessoas de lugares que achei que nunca estariam mais próximos de mim do que quando eu olho um mapa-múndi. Primeiro, conversei com um alemão que falava português bem direitinho. Por quê? Porque o pai dele é de Goa! Não era brasileiro, português ou angolano... era indiano de Goa! Não é todo dia que se encontra alguém de Goa, não é? Ou filho de alguém de lá, que seja...

Depois, passei um tempo considerável conversando com uma moça chamada Olga. Amiga de Elena, ela também vai à Rússia. Estuda economia, espanhol e russo (?!). Sim, isso é o tema de um curso de graduação, por mais estranho que possa parecer. Perguntei-lhe o porquê e ela me disse que também não era alemã. Era cazaque! Veio aos cinco anos para a Alemanha, e sua língua materna é russo. Ela e seus pais não falam cazaque. Ela me explicou que o regime soviético não incentivava muito que as pessoas falassem outras línguas que não o russo, de modo que sua família não sabe o idioma próprio do Cazaquistão. Como ela estuda espanhol, tem amigos brasileiros e adora música baiana (?!), sabe falar um pouco de português e adora a sonoridade da língua de Camões.

Fui ficando na festa. Quatro cervejas, dois copinhos de tequila, um de vodca... Era bem mais do que eu esperava... Fabian foi embora, mas eu continuei lá, apesar de não conhecer nenhum dos presentes até então. Havia umas oito pessoas quando eu resolvi, por curiosidade, olhar o relógio. Eram cinco e meia da madrugada! Em estado de choque, eu me despedi de todos os sobreviventes e voltei para casa. Precisava dormir! No dia seguinte, domingo, eu teria mais um evento pela frente.

Fui com Vítor, Filipe, Fiorina e Brunela ver a ópera “O casamento de Fígaro”, de Mozart, na Neue Oper, localizada em frente à Willy-Brandt-Platz. Foi divertido: os ótimos cantores, trajados com figurinos engraçados, contracenavam em um cenário giratório. Só não deu para entender muito da rápida história das bodas de Fígaro, cheia de reviravoltas e confusões. É que uma ópera cantada em italiano com legenda em alemão não é exatamente a combinação mais compreensível para mim.

Mas, no intervalo entre os atos, Filipe e Brunela, que entendiam melhor, deram uns palpites e deu para não boiar muito. Filipe brincou que a história era meio “A Grande Família”, meio “Os Normais”. Poderia ser ainda mais complicado de se entender, é claro, como, por exemplo, se a ópera fosse cantada em mandarim com legendas em swahili... Mas depois de conhecer gente da Eritreia, de Goa e do Cazaquistão, isso já seria demais, não é mesmo?

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Kapitel CV – A Hora Feliz

Nesta terça-feira fui ao bar onde se dança salsa (foi a segunda vez que fui lá; sobre a primeira, ver Kapitel C). Chama-se Curubar, fica perto da estação Konstablerwache. Quem organizou a saída foi a argentina Xenia, que estaria com outros amigos. Além de mim e da alemã quase baiana Lara, estavam um cara chamado Christian (incrível a quantidade de pessoas com esse nome na Alemanha!) e uma garota chamada Ana, que é filha de pai alemão com mãe recifense. Fala português (não tão bem quanto Lara, mas também fala) com um baita sotaque pernambucano.

Da outra vez em que fomos, havia uma promoção, com as bebidas a um preço mais em conta do que os extorsivos valores do cardápio. Lara perguntou se havia happy-hour, e o garçom respondeu que já tinha acabo, pois ia até as dez horas (eram 10h30). Foi frustrante. Como o lugar não cobra entrada, pagar quatro euros por um coquetel até que acabaria saindo em conta. Mas o valor normal da bebida, oito euros, não motivava nenhum de nós. Já planejávamos passar a noite a seco, até que meu sangue carioca falou mais alto.

Uma garçonete perguntou se queríamos beber alguma coisa e respondi – com aquele malandro tom de brincadeira com fundo de verdade em que somos exímios – que queríamos happy-hour. A garçonete olhou para a minha cara e perguntou: “são quantos drinques?” Naquele momento, estava claro que o jeitinho brasileiro havia funcionado. Respondi que pelo menos quatro (éramos cinco pessoas), e ela avisou ao outro garçom que ele podia nos servir as bebidas como happy-hour, ou seja, pelo preço promocional.

Um alemão perguntaria se há happy-hour, lamentaria que o horário tinha passado, jamais pensaria em consultar os funcionários se, levando-se em conta a quantidade de pessoas interessadas em consumir, não poderiam abrir uma exceção e flexibilizar a regra. Isso é coisa de brasileiro. Eu arrisquei... e petisquei. Posso não ser bom de samba, pode me faltar categoria nos campos de futebol, mas hoje mostrei que sou um brasileiro legítimo.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Kapitel CIII – Comi e Duas Noites

Não sei se são preocupações, ou se é o excesso de Coffea arabica, mas tenho tido um sério problema para dormir cedo. Em um desses dias até veio a calhar, pois, depois de um bom tempo, voltei a sair à noite. Meus camaradas Bertram e Florian combinaram de nos encontrarmos no rio Main, perto de uma ponte que eu não sabia qual era. Peguei as instruções com eles e fui. Mas nada de encontrá-los. Andei muito, passei por várias pontes, e nada. Até que, em algum momento, pegando as orientações com o Bertram por telefone, finalmente entendi uma coisa: eu tinha atravessado para o outro lado do rio, enquanto que eles não. Ou seja, eu não os encontraria nunca!

Julguei que seria do outro lado porque todas as vezes que marquei com qualquer pessoa no rio (eles, inclusive), era do outro lado. Nem perguntei, portanto. Enfim, o importante é que os achei. Havia muito mais gente lá. Katja e Mona – as duas garotas que reforçaram o FLATmengo no campeonato de futebol após a contusão de Martina (ver Kapitel XCI), também estavam – mas o grupo era bem maior. Ficamos bebendo cerveja e, dentro do possível, conversando. Estava realmente difícil entender o alemão, até porque, à medida que bebíamos, não só minha compreensão piorava como os demais conversavam com ainda menos preocupação de serem claros. Mas uma coisa é certa: eu realmente aprendi a abrir garrafas usando o isqueiro em vez do abridor (ver Kapitel LXX e LXXIX).

Depois, nós cinco e mais uma loirinha e um cara fomos a uma boate chamada Nachtleben (ou “vida noturna”). E mais cerveja! Era claramente uma boate mais em conta do que aquela a que eu tinha ido da outra vez (ver Kapitel LI). A música não era grande coisa, mas me pareceu aceitável. Não sei se Florian concordou muito, pois disse: “this music is shit”. Naquele dia, portanto, dormir tarde foi justificável.

Mas nem sempre isso ocorre... Em geral, é no meu quarto (sozinho, é bom esclarecer) que as horas avançam e me atormentam com a falta de sono. A insônia atingiu seu grau máximo na noite do dia 9, quando dormi aproximadamente às 7h30 da manhã (do dia 10, é claro)! Eu me deitei já pelas três da madrugada, e de duas em duas horas em média eu ficava de saco cheio de não conseguir dormir e ligava o computador. Pelo menos serviu para assistir pela internet ao bom desempenho da Dilma Rousseff na hostil entrevista do Jornal Nacional. Lá pelas seis da manhã, o céu já claro, eu ainda conversava pelo chat com minha irmã no Facebook.

Estou tentando dormir e acordar mais cedo, acabar com esse ciclo vicioso. Ontem, consegui dormir à uma, o que foi uma vitória! Anteontem, dormi tarde, mas pelo menos consegui acordar a tempo de ir à universidade. Como eu sempre acordava muito tarde – e, quando eu estava plenamente desperto, boa parte do dia já tinha se passado – acabava me parecendo totalmente improdutivo ir até lá. Mas finalmente consegui quebrar esse jejum.

Por falar em jejum, a ida à universidade me proporcionou romper com outro ciclo: comi uma refeição decente. Por preguiça de me aventurar na cozinha e sem vontade de ir a algum restaurante próximo de casa, tenho comido mal. Há alguns dias em que todas as minhas poucas refeições são sanduíches de pão de forma. Manfred sempre brinca que minha bolsa-sanduíche me dá direito a comer apenas um sanduíche, e que eu devo, portanto, comer ainda menos.

Ontem, para encontrar um lugar para comer tal refeição decente lá no bairro de Bockenheim, no entanto, não foi tão fácil. Andei um bocado, até por áreas que não conhecia, e nada de achar um restaurante que me atraísse. É surpreendentemente difícil achar lugares que não girem em torno de döner, carne de porco, culinária oriental (não só chinesa e japonesa, mas também muita tailandesa) ou massas e pizzas. E eu não queria nada disso (minhas últimas duas refeições decentes tinham sido, inclusive, em restaurantes tailandeses, onde provei boas cervejas da Tailândia: Chang e Singha).

Acabei encontrando um bom e velho galeto (Hännchen, como chamam em alemão) com salada. Pedi a salada pequena, que simplesmente significou um prato cheio. Fiquei imaginando como seria a salada grande, mas tive até medo de perguntar. Bem, por ora é isso o que eu tinha a lhes dizer. Agora, vou esquentar uma pizza pronta. Ou, quem sabe, preparar um sanduíche de pão de forma...

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Kapitel CI – O Anjo

Muita coisa aconteceu nos útimos três dias. Fizemos no bar Albatros a despedida da universidade de alguns estudantes – Fabian, Janeth e Dana – que terminaram seus períodos de pesquisa com Jens e Marion Reiser e passarão meses em outros países (Fabian vai pra a Letônia). Fui ao Museu de caricatura, onde estavam expostas tirinhas feninistas de Franziska Becker.

Fui com Gilberto, Letice e Julian a um festival na orla do rio Main. Lá, encontrei-me com meu amigo pernambucano João Guilherme, de quem me despedi, pois volta ao Recife após cinco meses em Frankfurt. Fui com Bertram e Gilberto ver um amistoso no estádio, em que o Eintracht Frankfurt derrotou o Chelsea por 2 a 1. Segui com Gilberto para uma casa chamada Jazzkeller, onde assisitmos a um excelente show, de Ivan Santos & Band.

Eu poderia dar mais detalhes de todos esses acontecimentos, mas não quero. Soube de outro acontecimento que abafou todos os demais. Uma das pessoas que mais amo na minha vida foi agraciar aos que a rodeiam, com sua pureza, bondade e generosidade, em outra dimensão (o céu, certamente, nos termos dela).

Sua alegria de viver, que demonstrou nos últimos 96 anos, nunca será esquecida. O nosso amor nunca sairá dos nossos corações. Infelizmente, as pessoas que estiverem por perto tristes e aborrecidas não terão mais a luz da minha vovó para fazê-las mudarem e abrirem um sorriso. Isso sempre acontecia. Todo mundo que convivia com ela perde muito.

Sua alegria de viver sempre foi um exemplo para todos. A cada ano alimentávamos um sonho. O sonho de que a vovó seria eterna. Cada ano era mais um rumo à barreira centenária, que parecia que seria ultrapassada com facilidade. Parecia que ficaria pequena conforme outra década se passaria. E ela sempre estaria conosco, conhecendo os bisnetos, acompanhando os rumos que nossas vidas adultas fossem tomando.

Mas não era eterna. Não seu corpo vaidoso, sempre permufado, bem-vestido, e com brincos vistosos adornando um ouvido que pouco ouvia. Este era, aliás, o único problema daquele corpo que bem andava, bem enxergava, esbanjava saúde. Mas eternos são sua lembrança e nosso amor. Tchau, vovó querida. Amo muito você. Todos a amamos. Para sempre.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Kapitel C – A Torre, os Tomos e o Baile

Este é o centesimo Conto Fantástico. Trata de terça-feira, um dia de busca na biblioteca em que acabei dançando. Literalmente, aliás. Acabaram minhas aulas na Universidade de Frankfurt, mas isso não significa que terminaram minhas obrigações acadêmicas. Terei um curso de verão em Bruxelas em setembro, para o qual preciso enviar um artigo até o final de agosto.

Resolvi, então, buscar alguns textos na biblioteca da universidade, para ver se me davam pistas sobre que tipo de dados seria interessante de se obter. Procurei no sistema on-line da biblioteca textos do dinamarquês Esping-Andersen e do catalão Carles Boix. Encontrei os três livros do Esping-Andersen que eu buscava, além de um do Boix.

Este último eu deveria pedir on-line, e, algumas horas mais tarde, passar lá para pegar, no prédio da biblioteca perto de Bockenheimer Warte. Já os de Esping-Andersen não poderiam ser retirados, mas eu poderia ir consultá-los na “torre”, edifício onde tive aulas de Politica Comparada, que fica ao lado de onde estão localizadas as salas do instituto de ciência política (ou seja, ao lado do prédio FLAT, que deu o nome ao nosso vitorioso time de futebol; ver Kapitel XCI).

Parti, então, inicialmente para o décimo-sétimo andar da “torre”. Li no balcão da entrada um aviso aparentemente sobre alguma proibição relacionada ao laptop, que não entendi bem. Não compreendi perfeitamente, mas o suficiente... Como eu já tinha apurado antes, pode-se ir lá sem problemas com o laptop, mas, para minha desagradável surpresa, o aviso indicava que o mesmo não valia para a bolsa do laptop.

Isso tem a ver com uma coisa que me chocou logo de cara aqui na Alemanha (tanto que abordei tal fato no Kapitel IX): enquanto, por um lado, eles não fiscalizam um monte de coisa, supostamente por confiarem uns nos outros, por outro às vezes se preocupam com besteira. É o medo de roubarem a caneca na cafeteria, é a preocupação que os alunos furtem livros da biblioteca escondendo-os na bolsa do laptop... É tão mesquinho isso!

Eu não tinha uma bolsa, apenas uma capa de proteção para o computador. O funcionário da biblioteca disse que ela também não podia, e que eu precisaria guardá-la no locker. Fui colocá-la, então, mas ele não fechava. O rapaz disse que era preciso pagar dois euros para fechá-lo. Naquele momento eu fiquei realmente contrariado. Cheguei a pensar em ir embora da biblioteca. Dois euros para guardar uma capinha fininha de laptop porque suspeitam que vamos roubar livros?! Perguntei: “Preciso mesmo colocar ali a capa?!” O funcionário, sem-graça com o absurdo da situação, mudou de opinião e disse que eu não precisaria, que bastava colocá-la numa cestinha.

Enfim, consegui entrar na biblioteca! Mas a saga apenas começava. Um dos livros estaria naquele andar, enquanto para ver os outros dois eu precisaria subir uma escada. Lá, cada um procura os livros com os respectivos códigos por conta própria, e eu não conseguia encontrar o primeiro deles de forma alguma. Fui, então, para o outro andar e, após algum esforço, encontrei os dois livros, que fiquei pesquisando. Acabada essa missão, desci as escadas e pedi àquele funcionário para encontrar o livro para mim. Ficou claro que não era desatenção minha: ele buscou em cinco estantes diferentes, e nada. Depois, olhou uma pilha de livros no balcão, e também não estava lá.

Ele me disse, então, que o livro estava emprestado. Mas espera aí! Esse não era um dos livros que não podem ser emprestados, que não podem sair da biblioteca? Além disso, por que ele foi concluir que estava emprestado não depois de consultar o sistema, mas depois de procurá-lo e não achá-lo? Tudo muito esdrúxulo.

Restou-me, então, ir à biblioteca perto da Bockenheimer Warte, para pegar o quarto livro, aquele que eu tinha clicado no botão do site para reservá-lo. Ao chegar lá, a funcionária me disse que já estava reservado. Imaginei que fosse a minha reserva, por ter solicitado o livro pelo site, e pedi para que ela conferisse. Pois não era. Apesar de o site indicar que o livro estava livre e ter mudado de status somente depois que eu cliquei, a reserva estava em nome de outro. E pior: até janeiro! Mais de uma pessoa já me perguntou, assombrada: e se pode reservar por tanto tempo? Bem... pelo visto, pode... não sei se todo mundo, mas alguém pode...

A biblioteca, portanto, foi menos proveitosa do que eu esperava. E mais uma vez a burocracia alemã mostrou suas peculiaridades. Tentei reservar o livro mas acabei dançando. Aliás, horas depois seria a vez de dançar literalmente. Marhyen, a venezuelana, e Lara, a alemã que fala um perfeito português da Bahia, me chamaram para ir a um bar onde tocam salsa, bachata e merengue. Já era a terceira vez que me convidavam; na primeira eu não tinha ouvido o celular e só fui ver o recado dois dias depois, e na última eu estava em Berlim. Desta vez, não havia escapatória: teria que medir quão vexatório seria o meu desempenho na pista.

Até que não foi dos piores. Danço mal, mas dançar mal para um brasileiro é equivalente a dançar razoavelmente para um alemão. Os caras, em geral, são muito duros, passam mais tempo contando os passos do que ouvindo a música. O bar estava cheio de estrangeiros, muitos deles latino-americanos. E os que dançavam melhor eram os que menos pareciam alemães. Do nosso pessoal, estavam lá também o namorado de Marhyen (chamado Jens; não confundir com meu professor e amigo), Xenia, Lucia e Nikolai.

Um suposto minicurso de dança, que durou cinco minutos e com o qual não aprendemos nada, custou três euros de cada um. Mas está tudo bem, cada dia o bar inventa uma desculpa diferente para cobrar os três euros; na verdade, é o preço da entrada, mas eles não querem dizer. O bar nem foi tão caro, e os coquetéis estavam a quatro euros, 2,50 abaixo do valor do cardápio.

Acho, sim, que o bar devia ser menos quente e, claro, falhas no som, como as que aconteceram, não são aceitáveis em um bar de dança. Mas como posso reclamar? Pelo menos ninguém ficou desconfiando, como na biblioteca com os livros, que esconderíamos os copos ou as caixas de som dentro da bolsa...

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Kapitel LXIV – Quase, Quase

Meus amigos da universidade Florian e Bertram me convidaram para um inusitado evento. Haveria na noite desta quarta-feira uma festa brasileira em um lugar chamado Club o25, localizado próximo à Ostbanhof, a estação de trem do leste. Seria, segundo o anúncio, uma festa junina, com forró ao vivo e tudo. Telefonei para Vítor para ver se ele também queria ir. Ele me respondeu que seus pais estavam aqui em Frankfurt, e que eles e mais um pessoal iriam se encontrar perto da estação Hauptwache, onde aconteceria uma feira gastronômica. Estava feita minha programação da noite – pelo menos era o que eu pensava.

Encontrei-me com Vítor, seus pais, e um casal de amigos que estava na festa da casa do Filipe (ver Kapitel LVII). Aliás, Filipe e Fiorina, além de Julian, chegaram pouco depois à Hauptwache. Como disse Filipe, aquele evento não parecia coisa de cidade grande, poderia ocorrer em qualquer cidadezinha do interior. De fato, era exatamente o que chamamos de quermesse. Havia barraquinhas vendendo comida árabe, indiana, alemã, crepe, pipoca, espumante, cerveja...

Fui à barraca de tradicional comida alemã e pedi um Leberkäs’ no pão, iguaria bávara. Não percebi nenhuma diferença em relação ao Fleischkäse que eu já havia comido em duas outras oportunidades (ver Kapitel XXIV), e acabo de descobrir após rápida pesquisa o motivo: são sinônimos. Comprei também em uma barraquinha próxima um copão de cerveja de trigo escura Erdinger Dunkel. Com esta alemaníssima refeição, eu estava pronto para toda a noite.

Não fiquei muito tempo lá, afinal, tinha marcado às onze perto da Ostbahnhof com Bertram e Florian. Peguei o metrô e cheguei lá. Pouco depois chegou Florian, que tinha ouvido falar bem do lugar. A expectativa era de que a entrada seria de graça até a meia-noite e que, depois disso (ainda eram onze e pouco), custaria cinco euros. Pois eis a desagradável surpresa: teríamos que pagar dez euros cada para poder entrar. A situação piorou conforme fomos vendo as pessoas chegando. Eram todos brasileiros, e eles não estavam me motivando nem um pouco a entrar. Estava na cara que seria uma roubada! Após rápida deliberação, decidimos seguir um plano B. Só que não tínhamos um, e começamos a pensar a respeito enquanto caminhávamos de volta.

Florian sugeriu um bar no bairro de Ostend, não muito longe dali, chamado Trikhalle. Fomos lá e foi agradável. Conversamos bastante e fizemos nossos prognósticos para a Copa do Mundo. Florian bebeu vinho de maçã (Apfelwein), Bertram preferiu a cerveja Veltins, e eu fiquei em cima do muro: bebi um de cada. Na saída, Florian foi para uma direção, eu e Bertram para a outra.

Nós dois moramos na mesma rua, só que a duas estações de metrô de distância. Ambos precisávamos, portanto, descobrir onde estava ela, a Eschersheimer Landstraße. É claro que foi Bertram, detentor com um senso de direção decente, quem assumiu essa responsabilidade e, após alguma caminhada, estávamos perto da Hauptwache. Eis que escutei um som e, apesar de perceber que não era meu telefone celular, instintivamente coloquei a mão no bolso. E ele não estava lá! Perdi o celular. Muito provavelmente, deslizou do bolso lateral da calça enquanto eu estava sentado no sofá.

É nestas horas que reconhecemos um amigo. Bertram, que já estava fazendo todo o caminho comigo a pé apesar de estar de bicicleta, acompanhou-me de volta até o bar para que eu conferisse se o telefone estava lá. Chegando, apesar da boa vontade da garçonete e do cliente que, àquela hora, ocupava o sofá, a situação não era promissora. Empurramos o móvel, tiramos as almofadas, e nada de encontrar o maldito aparelho. Pedi que Bertram telefonasse para mim, para tentarmos localizá-lo, mas nenhum som foi percebido. A garçonete já havia me passado o telefone da casa, para que eu ligasse no dia seguinte para saber se o pessoal da limpeza tinha encontrado alguma coisa, todos já dávamos a situação por perdida, até que, subitamente, sei lá como, ela achou o dito cujo!

E lá fomos nós, eu e Bertram, fazer todo o caminho de novo. Mais cansados, mas, em meu caso, também muito mais aliviado. Na noite do quase-quase, quase fui a uma festa brasileira e quase perdi meu celular. Em ambos os casos, felizmente, apenas quase. Agora, com licença que vou para a cama, pois já estou aqui há quase duas horas e preciso dormir!

sábado, 22 de maio de 2010

Kapitel LVI – O Som da Balalaika e o Focinho da Vaca

Após a aula desta sexta-feira, conversei com duas alunas do curso sobre política e sociedade no Brasil. Ambas estão muito interessadas em assistir a documentários brasileiros, para que a turma não fique apenas com uma ideia abstrata da realidade do Brasil. Uma delas é uma venezuelana chamada Maryhen , que se mudou para Frankfurt aos 9 anos com os pais, ambos então doutorandos em Direito. Ela se sente muito à vontade na Alemanha, que vê com seu país, mas fica ofendida se dizem que ela é alemã e não venezuelana. É claro que ela sempre será venezuelana para os alemães e sempre será muito alemã aos olhos de seus compatriotas. Ela pretende ainda voltar a viver na América Latina. A outra aluna era Lucia, aquela que estuda português. Fui com ela, em seguida, para o café da universidade, onde demos prosseguimento às nossas aulas poliglotas das línguas de Camões e Goethe (ver Kapitel LI).

Depois, encontrei-me com Jens e fomos até um bar ao ar livre perto da Bockenheimer Warte, pertinho da universidade, aproveitando o bom tempo que já está fazendo novamente por aqui. Experimentei mais uma boa cerveja escura de trigo, chamada König Ludwig. De lá, voltei para casa e tive a grata surpresa de receber a segunda carta do banco. Será que acabou a novela das minhas cartas (ver Kapitel LIV)?

Ao checar meus imêious, vi que meu amigo Vítor estava me chamando para ir a um bar em Sacksenhausen chamado Balalaika. Nós nos encontramos, então, na estação de metrô de Hauptwache, fomos até a de Südbahnhof, e comemos ali perto um shawarma (sanduíche árabe de carne de cordeiro, parecido com o kebap turco e que eu já conhecia no Rio). Foi minha primeira refeição no dia inteiro desde o sanduíche do café-da-manhã, pois eu estava totalmente sem fome ontem ao longo do dia. Em seguida, fomos à Balalaika.

Era um bar meio à luz de velas, estilo pub, onde os próprios clientes levam seus violões, gaitas ou o que quer que seja e fazem um som lá para os demais presentes. É um clima bem legal. A própria dona é uma coroa estadunidense, negra, de volumoso cabelo pintado de castanho claro avermelhado, que é cantora há várias décadas. Muito engraçada, ela também toca seu violão no bar e dá uns esporros naqueles clientes que conversam enquanto ela canta. Quanto à iluminação ambiente, Filipe, que chegou um pouco depois com a mulher dele, Fiorina, disse que a dona do Balailaika contou que, uma vez, um parente dela foi conhecer o bar e perguntou se ela não estava pagando a conta de luz.

Quando chegamos, a maior parte do tempo um grupo de amigos ficou fazendo um som, cuja qualidade não estava agradando muito a todos os presentes. Tudo mudou quando meus camaradas Vítor e Filipe pegaram o violão e tocaram junto com uma cantora paulista conhecida deles, Juliana. Os três arrebentaram, tocando vários sambas, músicas populares brasileiras, bossas-novas e outros sucessos de nosso país. Os caras que tinham tocado antes rapidamente foram embora.

Além deles, é preciso destacar também o excelente pianista romeno com cara de indiano Marius, amigo da Juliana, um outro estadunidense negro com um tremendo vozeirão que também cantava muitíssimo bem, e uns espanhóis que tocavam canções muito divertidas. O tempo passou e cheguei em casa ligeiramente tarde... Fui novamente dormir às seis da manhã! Vejamos a que horas durmo hoje, pois haverá um open-house na casa do Filipe, agora que a Fiorina, chegou para morar com ele em Frankfurt.

É claro que só acordei hoje lá para uma e meia. E só fui ter fome depois das cinco. Em troca de e-mails com minha amiga mineirinha Bárbara, do Iuperj, ela contou que assistiu a um documentário que explicava que todas as partes da vaca que não tinham valor comercial iam para a salsicha. No momento em que disseram que entre essas partes estava o focinho, ela achou melhor mudar de canal. Pois adivinhem o que comi às cinco horas: focinho de vaca, é claro! Afinal, em minhas últimas compras de supermercado trouxe diferentes tipos de salsichas e me esqueci de comprar várias outras comidas, como narrei no Kapitel LV. E tinha comprado a mostarda mais forte que vi no mercado. Exagerei na dose, ardeu a boca toda! Terei que moderar na próxima vez que comer focinho, digo, salsicha.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Kapitel V - O Índio Congelado

Dia 27 de Março fiz meu primeiro programa de índio em Frankfurt. Berê, a quem eu ainda não tinha visto pessoalmente, apenas me comunicado por e-mail, convidou-me para ir com ela e uma amiga a um evento chamado HR3@Night, que aconteceria no zoológico. Não, o evento nada tinha a ver com girafas e elefantes. Era um evento de música, que reunia várias bandas alemãs. A programação inicial era a de assistir aos shows de duas bandas, Revolvenheld e 2 Rauwohnung. Não conhecia nenhuma das duas, mas me pareceria um ótimo programa.

De fato seria um ótimo programa se não fosse por alguns percalços. Primeiramente, um tanto atolado, anotei num papel um hora diferente daquela que Berê marcou comigo. Como ainda cheguei cinco minutos depois da hora que eu achava que era a certa, 19h50, eu cheguei quarenta minutos depois dela. Isso foi o suficiente para eu ter uma péssima noite...

Eu não tinha celular e, portanto, estava incomunicável. Ela chegou, procurou-me, não me encontrou, não tinha como falar comigo e, quando chegou a sua vez na fila, que estava curta, entrou. Quando eu cheguei, a situação era bem outra. Passei uma hora meia de frio, sozinho, sem poder sair para comprar nada para beber ou comer, na fila (o bizarro é que as pessoas não tinham frio aparentemente, e algumas usavam sapato aberto ou blusa curta que, ao levantarem os braços, permitiam ver a barriga; como é possível?!). Quando finalmente chegou minha vez de comprar, soube que, depois, teria que ir para outra fila para entrar, provavelmente muito mais longa ainda (a Berê e sua amiga puderam entrar direto, não tiveram que entrar numa segunda fila). Bem, uma hora e meia de frio era meu limite. Mais duas horas e meia não estavam em minha programação. O pior é que eu não entendia bulhufas do que as pessoas falavam na fila. Talvez, se estivesse entendendo, teria pulado fora mais cedo... Caí fora, comi um kebap (se o kebap que eu comi estava bom, a cerveja Warsteiner poderia estar mais gelada) e voltei pra casa.

Por falar em frio, apesar da temperatura (nenhum dia mais quente do que seria um dia friozinho de inverno carioca), desde 29 de março estamos no horário de verão! Ou seja, aumentou de quatro para cinco horas a diferença entre Frankfurt e o Rio. O bizarro é que, como não leio os jornais nem vejo televisão aqui, não sabia de nada. Cheguei na universidade uma hora mais tarde do que eu planejava, saí de lá uma hora depois do horário que eu imaginava e só fui informado disso à noite!