Um brasileiro que fala um alemão macarrônico chega a Frankfurt sem saber nem mesmo onde vai morar... Aqui narro minhas aventuras nesta temporada germânica: lugares interessantes, enrascadas em que me meto, esquisitices que percebo a cada dia. O nome do blog é uma analogia aos irmãos Grimm, alemães que compilaram muitas dezenas de contos de fada tradicionais, como Branca de Neve, João e Maria, Rapunzel, a Gata Borralheira, o Músico Maravilhoso, Chapeuzinho Vermelho, e a Bela Adormecida (mais detalhes em Vorstellung).

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Centenas de fotos disponíveis em Ilustrações.


segunda-feira, 12 de julho de 2010

Kapitel XCII – A Rede e o Polvo

Neste domingo, Jürgen, professor da Universidade de Frankfurt, comemoraria seu aniversário, e fui convidado. Seria em sua casa, que não fica em Frankfurt, mas em Bad Nauheim, cidadezinha de 30 mil habitantes localizada 35 quilômetros a norte. Peguei o trem para lá na estação West com Bertram e Marion Reiser. Jens chegou em Bad Nauheim um pouco depois, com Suzanne e Leon.

Os últimos dias tinham sido de correria: cheguei de viagem da França, tive aulas, joguei futebol... Este domingo era tudo o que eu precisava. Descanso! Ficamos todos no jardim, neste dia ensolarado, comendo bolos e, depois, um delicioso churrasco alemão. Fora isso, muita cerveja: primeiro uma Paulaner, depois uma Licher, depois uma Franziskaner. Foi tudo ótimo e tranqüilo. Para completar, deitei-me em uma rede. Até cochilei!

Quando chegou a hora da final da Copa, assistimos ali mesmo. Vestido com uma camisa laranja de goleiro do Brasil, eu não escondia minha preferência para aquela partida. O gol espanhol na prorrogação não estava nos meus planos. Nem nos do Bertram, que também preferia a Holanda e reclamou: “merda de polvo!” Pois é, o polvo-oráculo alemão acertou todos os seus palpites de quem venceria partidas da Copa, inclusive que os espanhóis derrotariam os holandeses. Eu, sinceramente, não imaginava que algum dia a Espanha poderia ficar com a taça. Mas é bem verdade que também nunca imaginei que algum dia assistiria à final de uma Copa do Mundo em Bad Nauheim.

Mais imagens aqui.

domingo, 11 de julho de 2010

Kapitel XCI – O Campeão

A Copa do Mundo só se define neste domingo, na final entre Holanda e Espanha, mas neste sábado já tivemos um campeão, aqui em Frankfurt. É que foi organizado um torneio de futebol institucional, com professores, pesquisadores e alguns alunos da Universidade de Frankfurt e até de universidades de outras cidades, como Munique e Mainz/Mogúncia.

O torneio Institutsbolz Weltmeister-schaft aconteceria todo neste sábado, no Real Sport Entertainment GmbH (em Frankfurt, mas em um lugar bem afastado), de meio-dia até umas oito da noite (quando ainda está claro, pois aqui só escurece bem depois das nove!). Era um torneio misto, em grama sintética, com algumas regras bastante específicas. Jogavam times de quatro jogadores, podendo-se fazer quantas substituições desejássemos.

Nossa equipe, que reunia o pessoal que trabalha com o Jens e era organizada por Florian e Marion Reiser, tinha quatorze jogadores e sempre substituímos de três em três (o goleiro húngaro Christian nunca saía, é claro). Para garantir que nenhum time tivesse mulheres apenas para constar, todos deveriam ter pelo menos uma mulher em campo. A bola nunca saía pela lateral ou pela linha de fundo (havia parede) e uma das poucas regras era a de que só se podia fazer gol a partir da linha de meio de campo. O absurdo, no entanto, era que não havia árbitro, o que, é claro, pode gerar muitos problemas (e gerou).

Nosso time jogava de camisas azul-celeste (é bem verdade que não havia muito padrão, e alguns foram com camisas bastante escuras, mas a ideia era ser azul claro) em referência ao estilo uruguaio com que pretendíamos jogar. O nome da equipe, nascido acidentalmente em uma conversa de bar no Albatros após a minha palestra na universidade (ver Kapitel LXXIX) era FLATmengo. O prédio onde ficam nossos escritórios e algumas salas de aula no campus de Bockenheim se chama FLAT e, claro, todos já estavam cansados de me ouvir falar sobre o Flamengo. Daí o nome, que os alemães têm enorme dificuldade de pronunciar, sempre falando “Flatmenco”, provavelmente por causa da dança.

A competição reuniu doze equipes, divididas em dois grupos de seis. Os quatro primeiros se classificavam para as quartas-de-final, em que jogariam o primeiro de cada grupo contra o quarto da outra chave, e os segundos contra os terceiros. Os jogos duravam doze minutos na primeira fase em um único tempo, e dezesseis minutos em dois tempos no mata-mata. Estreamos com uma derrota, por 2 a 0 para os United Brühls, que jogavam com camisas brancas confeccionadas para o torneio, com alusão às Nações Unidas. O pior é que entrei no final, o time perdia por 1 a 0, eu estava correndo muito para tentar o empate e, numa extrema infelicidade, chutaram uma bola em mim e ela foi parar no fundo da rede. Do nosso lado. Fiz um gol contra. Dois a zero para eles. Lamentável e frustrante.

A sorte, no entanto, estaria do nosso lado. Os United Brühls venceriam ainda três partidas seguidas, só perderiam a última na primeira fase, e acabariam em primeiro no grupo A, de modo que nossa derrota não foi tão ruim assim. Depois, vencemos o Cluster of Mediocrity por 1 a 0 e o Turmhoch Überlegen por 3 a 0. O segundo gol foi meu (a favor!), em um chute de média distância no canto direito do goleiro. Foi bom ter podido zerar meu saldo, que estava negativo com aquele gol contra do primeiro jogo.

Nem tudo, no entanto, correu bem neste jogo. Martina, nossa melhor jogadora feminina, que inclusive tinha feito de cabeça o terceiro gol, levou uma forte bolada e quebrou o pulso! Teve que ser atendida, foi triste. Os últimos minutos de jogo nem foram realizados. Marion Reiser foi com ela para o hospital. Ou seja, ainda perdemos uma segunda mulher. Só tínhamos, a partir de então, duas mulheres para se revezarem, Janeth e Dana, o que seria exaustivo para elas. Duas que faziam parte de equipes já eliminadas, Katja e Mona, entretanto, reforçaram nosso time e pudemos seguir no torneio sem esse problema.

Derrotaríamos ainda o Team HSFK II, de Mogúncia, por 3 a 1, com incríveis dois gols de Florian e garantimos nossa classificação. Acabamos, no entanto, caindo de segundo para terceiro lugar no grupo por causa do saldo de gols, devido à derrota para o Team Augsburg por 5 a 2. O mais triste é que o último gol deles saiu no finalzinho, quando eles já estavam brincando, sem levar o jogo a sério: um cara chutou a bola de letra para o lado, o outro chutou também de letra e a bola entrou.

Teríamos que encarar nas quartas-de-final o segundo colocado do grupo B, o Master ISFK. O primeiro do grupo B havia sido o Team Forst, do qual faziam parte meus amigos Filipe, Julian e Vítor. Este último, aliás, também se contundiu. Torceu feio o tornozelo e não pôde seguir na competição. O Team Forst, assim como o United Brühls no nosso grupo, tinha feito uma campanha quase perfeita, de quatro vitórias e uma derrota. O inusitado é que tinham perdido apenas para o (até então) saco de pancadas do grupo B, o Team Naase.

Não seria o fato mais inusitado do campeonato. Vi a mais cristalina confirmação da lei-de-ferro do ludopédico: “o futebol é uma caixinha de surpresas”. Os dois primeiros da primeira fase e os dois segundos colocados foram derrotados nas quartas-de-final pelos terceiros e quartos. Os quatro times que, em tese, eram os melhores, estavam eliminados. A semifinal envolveria, portanto, os times que tinham ficado em terceiro e quarto, com campanhas bem menos brilhantes, com números equivalentes de vitórias e derrotas.

Vencemos o Master ISFK por 2 a 1. Filipe, Julian e companhia seriam eliminados com o seu Team Forst ao perder por 2 a 0 para o Turmhoch Überlegen, que mais cedo nosso FLATmengo tinha goleado. O bicho-papão do nosso grupo, o United Brühls, caiu por 2 a 1 diante dos bávaros do Stella Rossa Monaco. E o Team Augsburg, que tinha feito um monte de palhaçada na partida contra a nossa equipe, apanhou de 5 a 2 para o HSFK.

A semifinal foi tensa. Os azuis do Turmhoch Überlegen não demonstravam muito fair play. Quando o placar estava 1 a 1, marcaram um gol que pessoas do meu time alegaram ter sido feito de trás da linha do meio de campo (a proibição disso era uma das raras regras do torneio). Eles insistiram e acabamos considerando, a contragosto, o gol deles. Por sorte, Jonas, um grandalhão do nosso time, estava destinado a fazer gols nos momentos mais difíceis e, imediatamente em seguida, empatou a partida.

No finalzinho, o goleiro pulou em cima da Florian para pegar a bola e o derrubou na área. Nosso time pediu pênalti, e eles recusaram. Era a segunda vez no jogo em que a falta de um árbitro neutro se mostrava um problema, e a segunda vez em que eles se beneficiaram com isso. A decisão foi para os pênaltis. Nosso supergoleiro Christian defendeu a primeira cobrança, mas Fabian também perdeu a dele. Eles converteram a segunda, mas Robert, nosso artilheiro junto com Florian, também cobrou bem e marcou. O terceiro batedor deles chutou para fora, e nosso heroico guardarredes Christian acertou a última cobrança.

Incrivelmente e contra todos os prognósticos, estávamos na final. Nosso adversário seria o HSFK, onde jogava Jonas Wolf, um alemão gente-boa que conheci no congresso de Toulouse. Ele fala muito bem espanhol e é pesquisador em uma instituição na cidade de Frankfurt. A final foi tranqüila. Goleamos por 4 a 1. O primeiro gol foi do sempre decisivo Jonas, é claro. Jens, que tinha feito o passe para o segundo gol (que foi do Fabian), marcou o terceiro em um lance de muito oportunismo. O FLATmengo certamente não era o time com os melhores jogadores, mas era o legítimo campeão do Institutsbolz Weltmeistershcaft, torneio que tinha um formato parecido com o da Copa do Mundo.

Já com nossas medalhas e troféus, pudemos comer nosso churrasco alemão (muito porco e salsichas), beber cervejas Licher e Franziskaner e assistir à decisão de terceiro lugar entre Alemanha e Uruguai, vencida pelos germânicos por 3 a 2 em partida equilibrada. Vestidos como uruguaios, terminamos mais bem colocados que o Uruguai original. Hoje, meu corpo todo dói, mas foi bem melhor do que eu podia esperar. FLAT-MEN-GOOOO!


As imagens do título.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Kapitel XC – A Princesa e o Palácio

Comecei meu segundo dia em Paris, finalmente, conhecendo o Champs-Élysées (ver Kapitel anterior), e o Arco do Triunfo, é claro. Depois, fui me encontrar com uma encantadora francesa chamada Julie e sua mãe, Catherine. Não as conheci nesta viagem, a história é mais longa. Nós nos conhecemos em Santiago do Chile, no ano passado, quando fui ao Congresso Mundial de Ciência Política e, por acaso, elas estavam no mesmo albergue. Mantivemos contato e, apesar de elas serem de Toulouse, acabamos nos encontrando em Paris, que é onde Julie trabalha, como professora de espanhol.

Foi um dia formidável! Marcamos o encontro na praça de St-Michel, almoçamos no Marais (comi um confit de canard), passeamos pelo bairro judeu, Cathedral de Notre Dame, Jardin du Luxembourg, Pantheon, Senado, Odéon, praça da Sorbonne, e vários outros lugares até, por fim, irmos a Montmartre, onde passamos pelo Moulin Rouge, pela Rue Lepic – onde se ambientou parte do filme de Amélie Poulain – e, claro, subimos até a Basilique du Sacre Cœur.

No dia seguinte, havia coisas que eu não podia deixar de fazer. Como ir à Torre Eiffel, por exemplo! E foi essa a minha missão pela manhã. Sim, porque as quilométricas filas tomam um tempo considerável. Minha ideia era subir a pé, pois não me lembro se foi o Cattapa ou a Joana que me disse que era mais barato e as filas eram menores. Pois quando percebi, após muito esperar na fila, eu estava em uma para o elevador. Dados o tempo já gasto e a quantidade de pessoas que chegaram depois de mim, resolvi ficar ali mesmo e subir de elevador.

Lá em cima, enquanto via a bela vista e tentava não me irritar com a enorme quantidade de pessoas atravan-cando a passagem, eu não conseguia parar de me questionar sobre a freqüência em que câmeras que caem lá de cima da torre. Todo mundo tira fotos colocando as mãos por fora da grade; é, portanto, impossível que nunca aconteça de a câmera escorregar e se espatifar lá embaixo. Portanto, deixo aqui a dica: evitem ao máximo ficar passeando na área debaixo da Torre Eiffel!

À tarde, fui dar uma última passeada pela cidade. Era o dia perfeito para ir a um museu, mas o Louvre estava fechado. Joana me indicou um menor, o Musée de l’Orangérie, onde há várias pinturas impressionistas, mas também fecha às terças. Eu já havia desistido e caminhava a esmo quando vi uma placa para o Museu Rodin. E não é que estava aberto? Passei algumas horas vendo o Pensador e companhia antes de voltar para a casa da minha querida anfitriã Joana, que acabei não podendo encontrar. Ela só voltaria de um casamento em Marselha à meia-noite e, como trabalharia durante todo o dia seguinte, não pude estar com ela.

Preparei minhas coisas e fui à casa de Julie, situada em um lindo vilarejo medieval a quarenta minutos de Paris chamado Moret-sur-Loing. Lá, passei um bom momento com ela e Catherine, jantamos um delicioso pato e bebemos vinho. No dia seguinte, passeei pela cidadezinha com Catherine. Na antiga igreja de Notre Dame de la Nativité, fomos surpreendidos por uma exibição privada de música sacra no órgão do século XVI.




Depois, fomos os três a Fontainebleau e, em seguida, ao palácio de Versalhes. Encaramos uma fila com sol de rachar e, então, visitamos as inúmeras salas, vimos os jardins e obras-de-arte. Depois, almoçamos em um restaurante próximo, onde comi um bom prato de carne crua, chamado tartare de bœuf. Com isso, em dez dias eu conheci sete cidades na França! Impressionante!

Voltamos a Paris, onde peguei o metrô para o aeroporto. Ainda
cheguei a tempo de ver, lá no Charles de Gaulle mesmo, o segundo tempo da derrota alemã para a Espanha.

Estou pior que o Mick Jagger: todos os times pelos quais eu torço vão sendo eliminados na Copa do Mundo. Foi assim com o Brasil, Portugal, Paraguai, Gana, Uruguai e, claro, a Alemanha.

Foi uma viagem inesquecível. E os últimos dias foram mesmo especiais. Mas antes que os leitores imaginem coisas, não aconteceu nada do que alguns podem estar pensando. A encantadora Julie tem namorado. Contos de fada não existem na vida real... Nem mesmo em um lindo passeio pela França.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Kapitel LXXXIX – A Corrida para a Luz

O domingo começou com fortes emoções. Acordei cedo, para não haver risco de me atrasar para o trem rumo a Paris. Mas queria aproveitar os últimos momentos de internet gratuita no albergue. Então, respondi e-mails, pesquisei a localização exata do prédio da minha amiga Joana, onde eu ia me hospedar, e esvaziei as fotos da câmera. Saí tranqüilo, comprei uma garrafa d´água, um croissant e um pain au chocolat e fui caminhando rumo à estação. De repente, ocorreu-me que eu estava fazendo uma confusão: o trem chegaria a Paris às 14h40 e não sairia de Toulouse às 9h40; sairia às 9h22! Logo, eu estava, sim, atrasado!

Comecei a correr desesperadamente. Não há táxis andando por toda parte em Toulouse, como há em outras cidades. Foi preciso um esforço hercúleo para correr metade do caminho com um mochilão pesadíssimo e uma bolsa com quase um litro de água, um laptop e dois livros.

Cheguei à estação às 9h25, ouvi um apito, corri na direção, vi uma porta aberta, entrei e perguntei: “À Paris?” Sim, era o meu trem. Partiu menos de um minuto depois. Ufa! Eu me senti o próprio Indiana Jones. Levei tempo para parar de suar e respirar normalmente de novo. Li um pouco, dormi muito, e cheguei à cidade-luz. Precisava telefonar e só conseguir achar um cartão de telefone com 120 créditos. O que vou fazer com 120 créditos?! Assim, o dinheiro vai embora.

E vai mesmo. Paris é muito mais cara que Toulouse, que é muito mais cara que Frankfurt. Fui provar o crêpe (pedi um doce, de licor Grand Marnier) e, sem recheio algum, só massa, era quatro euros. Depois de comprar o crédito e não conseguir telefonar, fui procurar no mapa a localização e constatei que a Joana mora razoavelmente perto da estação de trem de Montparnasse. Desisti do metrô e fui a pé mesmo. Para quem correu com a mochila, essa caminhada seria fichinha.

Ao chegar ao prédio, fui pegar a chave com a vizinha, conforme o combinado. Pois se existisse uma copa do mundo de vizinhas simpáticas, dona América seria seriíssima candidata ao caneco. Cubana (mas com sotaque compreensível, pois não fala correndo como os cubanos em geral), casada com um francês, mãe de um egiptólogo e moradora de Paris há meio século, ela é incrivelmente gentil e prestativa. Não bastasse ter ficado à disposição para me dar a chave, deu para mim também um mapa de Paris, me mostrou a localização dos lugares e as linhas de metrô, e ainda ofereceu cafezinho. Apesar de nunca recusar café, abri uma exceção, pois já estava com vergonha.

Parti, então, para minha primeira exploração de Paris. A ideia era atravessar os Champs-Élysées, mas, saltando na respectiva estação de metrô, andei para o lado errado. Os Champs-Élysées ficaram, portanto, para o dia seguinte. Conheci o rio Sena, o Jardim das Tulherias, a Assembleia Nacional, a praça da Sorbonne, o Louvre (só o exterior e a parte central interna, pois as exposições já estavam fechadas), entre outros lugares. A Torre Eiffel eu vi de longe, de vários ângulos, tanto de dia como, iluminada, à noite.

É interessante como Paris, Toulouse, Bordéus/Bordeaux e Carcassonne são cidades totalmente diferentes. Enquanto Paris tem prédios grandes como uma grande cidade, mas tem espalhados pela cidade muitas grandiosas obras arquitetônicas evocando às antigas civilizações e outras aos heróis da Segunda Guerra, com muito branco e dourado, Toulouse se caracteriza pela simplicidade, com um ar simpático de tudo o que imaginamos ver em uma antiga cidade francesa. Carcassone, por outro lado, preserva ao máximo uma atmosfera anterior, medieval, enquanto Bordéus também tem grandes espaços e grandiosidade, como Paris, mas é mais sóbria. Estou gostando de minha passagem francesa neste período da Europa.

domingo, 4 de julho de 2010

Kapitel LXXXVIII – A Última Volta

Acabou o congresso. Pedi meu certificado e ganhei um em branco, assinado, para que eu mesmo preenchesse. Ou seja, qualquer um que chegasse lá e dissesse que tinha apresentado um trabalho conseguiria um certificado. Uma zona! Mas valeu a pena, de todo modo.

Saindo de lá, aproveitei para conhecer todos os cantos de Toulouse aonde ainda não tinha ido! Conheci o lindo Jardin des Plantes, a antiqüíssima igreja de Notre Dame Du Taur (séculos XIII e XIV) e muitos outros lugares. E finalmente consegui encontrar aberta a igreja de Saint-Sérin, que fica perto do albergue. Já estava desconfiando que ela era só fachada que não tinha nada por dentro.


Aproveitei e comprei minha passagem de trem para Paris. Parto na próxima manhã. Saiu o dobro do preço da passagem de avião de Paris para Toulouse, que comprei adiantado. Fazer o quê? Em seguida, parei em um bar perto da estação de trem e assisti ao jogo da Alemanha com a Argentina bebendo cerveja Leffe. Não achei graça fiquei com pena dos argentinos. Quatro a zero é um exagero!

Depois, comi um pain au chocolat e, quando minha peregrinação já terminava e eu estava prestes a voltar para o albergue, ouvi: “Brasileiro! Brasileiro!” Era um pessoal do congresso, que não sabia meu nome mas tinha me reconhecido. Fomos comer uma pizza e tomar vinho rosé, que, segundo Manuel, o chileno, é típico da região.

Em seguida, fomos a outro bar assistir ao último jogo das quartas-de-final (e lamentar a eliminação paraguaia para a Espanha). Bebemos a cerveja Kronembourg, mas no meu segundo copo resolvi inovar e provar algo que é popular entre os franceses e que meu amigo Cattapa, que morou em Paris, disse que era horrível: Monaco. Trata-se da mistura de cerveja com um xarope chamado grenadine. Não é ruim. Mas é doce, cerveja pura é melhor e, principalmente, parece que se está bebendo suco de chiclete.

E assim acabou minha temporada em Toulouse. Que venha a cidade-luz!

sábado, 3 de julho de 2010

Kapitel LXXXVII – A Realidade é Laranja

Esta sexta-feira era um dia que prometia emoções. O clássico entre Brasil e Holanda definiria uma das equipes semifinalistas da copa. Minha apresentação de trabalho no congresso em Toulouse seria entre sexta à tarde e sábado de manhã. Morri de medo de ser na hora da partida Acabou que foi marcada para o horário entre as duas e as quatro horas. Daria para apresentar e ver o jogo em seguida!

Com atrasos, pessoas falando muito mais do que os quinze minutos, e um comparecimento de todos os inscritos na seção (isso não aconteceu em quase nenhuma outra seção), o tempo passou e só pude apresentar bem tarde. Eu me saí bem, fiz a apresentação em espanhol, e o meu trabalho foi o que gerou maior polêmica, suscitando perguntas e dividindo a sala entre olhares entusiasmados de aprovação e não disfarçadas expressões de contrariedade. O mais pitoresco foi a presença, na sala, do segundo colocado na eleição para presidente da Colômbia, Antanas Mockus, que havia dado uma palestra pela manhã. Ele até perguntou para mim, após minha apresentação, como eu entendia o conceito de desmercantilização.

No intervalo, saí desesperado para ver o jogo. Troquei a camisa azul de pano de mangas compridas da apresentação pela amarelinha da seleção. Já havia perdido todo o primeiro tempo e logo soube que o Brasil ganhava por 1 a 0. Minha intenção de ir a um bar ver a partida foi pelos ares, mas eu tinha um laptop e o local do congresso tinha internet wireless gratuita. Combinação perfeita!

Conectei na transmissão francesa da partida e logo começou a juntar gente para assistir. Entre eles, Rodrigo, um chileno que estava no mesmo quarto que eu no albergue e, pelo que soube com ele depois, estavam também vários outros hóspedes, que eu nunca tinha visto. Logo arrumaram uma sala vazia do congresso para assistirmos. Um sujeito da organização tentou até plugar o laptop para transmitir a imagem grande, pelo projetor, mas infelizmente não funcionou. Todos torciam para o Brasil. Quando tirávamos fotos em diferentes câmeras, eis que a Holanda empatou, em uma incomum falha do goleiraço Júlio César. A fotografia que ilustra este Kapitel foi tirada segundos antes (mas a do momento do gol foi a da máquina do Rodrigo!).

A situação piorou com a virada holandesa e degringolou com a estúpida expulsão de Felipe Melo, que pisou um adversário. O Brasil está fora da Copa. Saí frustrado e voltei para o albergue. Comi um pouco de pão com patê (é o que mais tenho comido nos últimos dois dias, pois comprei no Carrefour uma mousse de foi gras e uma mousse de canard au Porto). Depois fui ver a outra partida do dia, pois o Brasil está eliminado mas a Copa do Mundo continua.

Fui ao bar argelino (ver Kapitel LXXXII), onde há uma tevê com a transmissão dos jogos e lá vi o primeiro tempo da excelente partida entre Gana e Uruguai. Enquanto comia um sanduíche da lingüiça árabe merguez e tomava dois copos do típico chá com menta argelino, vi o belo gol ganês e muito equilíbrio entre as duas equipes. No intervalo, até para fugir do calorão que fazia lá dentro (Toulouse já está um forno, imaginem dentro de um minúsculo bar onde há chapas esquentando sanduíches!), resolvi dar uma volta.

Andei em busca do ótimo bar em que eu tinha ido dois dias antes (ver Kapitel anterior), mas nada de achá-lo. Vi, ao longe uma torre de igreja, e resolvi ir até lá. Chegando lá. Pareceu-me uma igreja sem nada de muito especial, mas, prudentemente refleti: não devo fazer pouco caso dela, pois, de repente, ela é antiga para caramba. Não deu outra. A igreja de Minimes é do século XVI! Isto é Europa...

Andei mais, passei por criancinhas árabes com a camisa do Brasil, continuei em busca do bar Musical Ralimera, e o encontrei! Bebendo, mais uma vez, chope Karlsbräu, vi o segundo tempo, o golaço do craque Forlán, a prorrogação, o incrível lance em que Gana quase marcou duas vezes o gol mas os uruguaios salvaram na linha, só que o segundo deles com a mão, o pênalti no último minuto batido pelo ganense no travessão. Aí, na disputa de pênaltis, a fênix celeste acabou com a última esperança africana.

Se o goleiro de Gana tivesse assistido aos jogos do Uruguai, teria mais chances. Arriscou o canto e não defendeu nenhuma cobrança. Só que uruguaios – especialmente os defensores e à exceção de craques como Forlán – têm uma incrível tendência a mandar um canhão bem no meio do gol. É só o goleiro não sair do lugar que suas chances aumentam consideravelmente. Mas ele sempre pulou e Gana está eliminada. Para alegria de meus amigos uruguaios, a celeste olímpica volta a uma semifinal de Copa do Mundo. Pena que contra a Holanda.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Kapitel LXXXVI – Horários Errados, Viajantes Errantes

Ontem, voltei à Universidade de Toulouse 2 – Le Mirail para o congresso. Diferentemente do dia anterior (ver Kapitel anterior), desta vez havia cartazes indicando aonde deveríamos ir. O credenciamento foi confuso, mas foi feito. O mais bizarro é que o material do congresso que nos entregaram tem um monte de papel, com gramatura grossa, informações turísticas mas... não tem os horários das apresentações! Isso é preciso copiar à mão de um mural na parede.

Enquanto eu tentava analisar a que e quando assistir, eis que sou surpreendido pela presença de iuperjianas! Regina e Daniela também vão apresentar trabalho, assim como Maíra, que chegou mais tarde e se encontrou conosco à noite.

Comentamos sobre os horários do congresso e uma triste constatação. Regina terá que fazer sua apresentação no horário do jogo entre Brasil e Holanda. Tanto eu como Daniela faremos nesse mesmo dia ou no dia seguinte, mas ainda não sabemos exatamente, nem qual será a hora. Ou seja, há alguma chance de o mesmo problema acontecer conosco. Atabalhoadamente, já perdi a vitória das oitavas-de-final contra o Chile (ver Kapitel LXXXIV), não posso perder o clássico confronto entre Brasil e Holanda nas quartas! Estou tenso com a possibilidade.

Matei a seção a que, sem muita empolgação, eu iria assistir e fomos eu, Regina e Daniela dar uma volta pela cidade. Elas chegaram no dia anterior e estão hospedadas mais longe, de modo que não conheciam nada de Toulouse ainda. Como eu tinha passeado muito na véspera, fui nomeado guia. Só que, como todos os que leem estes Contos Fantásticos sabem, tenho um catastrófico senso de direção. E um guia sem senso de direção é, necessariamente, um guia fajuto. Mas é melhor um guia fajuto na mão do que dois bons guias voando.

Combinamos de, às nove horas, ir a um coquetel na bela sede da prefeitura, o Capitole, que fazia parte do evento. Eis que, quando nos encaminhá-vamos para lá, a Daniela conferiu o convite e constatou que não era às nove, como pensávamos (e, creio, fui eu o primeiro a dizer que era), mas às dezenove! Ou seja, perdemos a boca-livre! Restou-nos dar mais uma volta e, depois, ir a algum bar.

No caminho, na Place des Tiercerettes, bem pertinho do meu albergue, uma incrível percussão nos chamou a atenção. Oito músicos africanos tocavam animadamente, enquanto a francesada estava em polvorosa, sacudindo o esqueleto.



Depois seguimos em busca de um lugar para comer. Daniela não gosta de carneiro e perdeu o delicioso sanduíche árabe shawarma que eu e Regina devoramos. Em seguida, fomos ao bar Musical Ralimera, não longe dali. Bebemos uns chopes Karlsbräu e falamos sobre viagens, Iuperj, França, nossas vidas... não necessariamente nesta ordem. O garçom, extremamente simpático e atencioso, não só fez várias piadinhas como serviu pão com queijo de cabra de cortesia.

Aliás, simpatia, gentileza e educação parecem ser uma marca do sul da França. Tanto em Toulouse, como em Carcassonne e Bordéus (Bordeaux), fiquei impressionado como todos pedem licença, agradecem, trocam sorrisos com pessoas desconhecidas. Quando se pede alguma informação em Toulouse, o cidadão local vai explicar pacientemente, e se não souber tentará descobrir, e se não estiver muito ocupado vai acompanhá-lo até um local mais próximo onde a indicação ficará mais fácil. Depois de Toulouse, vou a Paris. Não ouço que os parisienses costumam ser assim. Em alguns dias saberei empiricamente se poderei generalizar esses elogios para a França como um todo.