Um brasileiro que fala um alemão macarrônico chega a Frankfurt sem saber nem mesmo onde vai morar... Aqui narro minhas aventuras nesta temporada germânica: lugares interessantes, enrascadas em que me meto, esquisitices que percebo a cada dia. O nome do blog é uma analogia aos irmãos Grimm, alemães que compilaram muitas dezenas de contos de fada tradicionais, como Branca de Neve, João e Maria, Rapunzel, a Gata Borralheira, o Músico Maravilhoso, Chapeuzinho Vermelho, e a Bela Adormecida (mais detalhes em Vorstellung).

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domingo, 3 de outubro de 2010

Kapitel CXV – Trilogia: As Duas Bruxelas

Enfim, cheguei a Bruxelas. O aeroporto é estranho, parece um labirinto. É preciso andar muito lá dentro, subir escadas, descer escadas, dar voltas e mais voltas em caracol... tudo bem pouco racional. Fui seguindo outros passageiros, é claro, para achar o lugar de pegar a bagagem. Só que, quando percebi, eu já estava na área de saída do aeroporto. Precisei pedir ajuda para o pessoal da segurança para entrar novamente e pegar minha bagagem.

Bruxelas é uma cidade bem maior do que eu esperava. Capital da União Europeia e sede da OTAN, tem grande quantidade de estrangeiros. Por esse motivo e pela combinação de casas antigas com prédios modernos, era inevitável que eu a comparasse com Frankfurt, e a visse como uma versão belga da cidade onde estou morando. Só que não apenas achei as distâncias maiores em Bruxelas como a sua população é uns 30% mais numerosa do que a de Frankfurt.

Logo me chamaram a atenção os prédios antigos, com amplo predomínio das cores bege e cinza, as impressio- nantes seqüencias de casas conjugadas (sem nenhum espaço entre elas), também a presença de muitas casinhas de tijolos, e as amplas áreas das praças e prédios públicos, em contraste com a aglomeração das velhas casas “amontoadas”. Não faltam estátuas, principalmente de homens montados em cavalos, como chamou a atenção minha mãe. O pior da cidade é a antipatia da maioria dos garçons e dos funcionários dos transportes públicos. Um aspecto extremamente charmoso são as cenas de quadrinhos pintadas em grandes dimensões nas paredes de vários prédios; adorei, e fotografei várias.

Há algo, no entanto, bem mais pitoresco na cidade, e na Bélgica como um todo. É um país que não é bem um país. É dividido em duas regiões, uma em que se fala holandês – Flandres – e outra em que se fala francês – Valônia. Não é incomum que flamengos não saibam falar francês e que valões desconheçam o holandês. Enquanto os flamengos aprendem francês no colégio mas depois pouco o usam, inclusive podendo se ofender se você se dirigir a eles na língua francesa (é melhor usar com eles o inglês), os valões podem não ter nem mesmo o menor conhecimento da língua holandesa, pois têm a opção de estudar na escola holandês ou inglês, como preferirem.

O país tem as duas regiões e, no seu centro, fica a capital, Bruxelas. Trata-se de uma área bilíngüe, localizada próxima ao limite entre as duas regiões mas dentro de Flandres. Originalmente uma cidade flamenga, acabou, por sua importância, recebendo tantos valões que, hoje, a língua predominante, que se ouve sempre nas ruas, é o francês.

Só que no país tudo tem que ser dividido em cada uma das culturas lingüísticas. Todas as ruas de Bruxelas têm um nome em cada idioma, os partidos políticos são sempre dois de cada ideologia (há um socialista flamengo e um socialista valão, um liberal de Flandres e um liberal da Valônia, etc.) e até a universidade é, na verdade, duas. Meu curso de verão sobre partidos políticos durou uma semana, acontecendo primeiro no campus valão (Université Libre de Bruxelles) e, nos últimos cinco dias, no flamengo (Vrije Universiteit Brussel).

Acabei chegando tarde ao hotel que estava reservado para os estudantes do curso de verão. Tomei um banho e fui à universidade. Não tinha levado o mapa e custei muito a achar o local, que era o instituto de investigações europeias. Cheguei uma hora depois ao coquetel de inauguração (que, a propósito, foi bem mixuruca). Fui o último não desistente a chegar: os demais participantes ou chegaram muito mais cedo ou não foram nesse dia. Aquele primeiro momento foi meio frio. Eu tentava fazer piada, puxar assunto, mas todos estavam meio tímidos e retraídos. Mas era apenas o “gelo” inicial. A turma tinha muita gente legal e nos divertiríamos bastante.


Eu era o único latino-americano do curso, cujo corpo discente se destacava pelo fato incomum de, entre quinze alunos, três serem portugueses. Eles, aliás, se tornaram meus melhores amigos lá, junto com a italiana Luana, sulista de sangue quente nascida em Puglia. João, sempre muito engraçado, nasceu em Évora e é filho de pais alentejanos. Estuda na Universidade de Aveiro com Patrícia, que vem dessa cidade mesmo. Edalina nasceu na Espanha, filha de pais cabo-verdianos, mas foi novinha para a Terrinha e também é “tuga”.

A turma tinha ainda três estadunidenses: uma judia de Ohio chamada Sarah, que sempre falava alto, rápido e com muita gesticulação; um chinês de Taiwan que se mudou criança para a Califórnia e adquiriu nacionalidade ianque (chama-se Willy e foi meu companheiro de quarto); e uma estudante de relações internacionais radicada na Alemanha. Alás, havia também uma alemã da Baviera, uma coreana que mora no Texas, um romeno meio doido, o francês Matthieu (que não fala português mas tem pai lusitano; eu e João começamos a chamá-lo de Mateus) e três belgas.

Entre os belgas não havia nenhum valão. Maïté, que pouco fala holandês e é francófona (e fuma como uma francesa), reclamou quando eu disse que ele era da Valônia. Observou que era de Bruxelas, e que, apesar de falarem francês, bruxelenses e valões são completamente diferentes. Ah, bom. A propósito, ela é também, provavelmente, o único caso do mundo de alguém que foi à Polônia com a motivação de aprender a falar inglês (?!).

Os demais belgas da turma eram flamengos. Um era Tom, que era gente-boa mas deu uma declaração tão equivocada como infeliz: disse que o único time de futebol brasileiro que conhecia era o Boca Juniors. Lamentável e imperdoável! A outra belga, que foi a que ficou mais próxima dos luso-ítalo-brasileiros, especialmente no final, era Sofie. Alta, loira, magra, bonita, simpática, elegante, delicada e sorridente, ganhou o apelido de “princesa da Disney”. Cinderelamente, aliás, deixou o sapato cair enquanto andava conosco em uma rua de Bruxelas, mas eu bobeei e não peguei a tempo.

Eu, João, Patrícia, Edalina e Luana saímos vários dias juntos, depois da aula da tarde, passeando pela cidade, conhecendo os lugares turísticos, jantando e bebendo cerveja. Às vezes alguma outra pessoa ia conosco, às vezes algum deles ficava no hotel para descansar ou preparar alguma coisa relacionada os estudos. Eu fui o único que saí todos os dias, sem exceção, inclusive na véspera da minha apresentação. Foram saídas leves, voltando cedo, mas me recusei a passar algum dia trancafiado no hotel. Além disso, sempre quando eu voltava, ainda tinha pique para ir para a internet. Como as aulas começavam às nove da manhã e as universidades (sim, os dois campus) não ficavam perto do hotel, passei duas semanas dormindo seis horas ou menos todos os dias.

A Bélgica é a grande rival da Alemanha na disputa pelo posto de país com as melhores cervejas do mundo. Tive seis meses na Alemanha para provar várias cervejas. Como só estive duas semanas na Bélgica, precisava ser rápido para ter base para comparação. E provei várias cervejas: Westmalle Trappist, Leffe Brüne, Leffe Blonde, Chimay Blue, Duvel, Waterloo, Judas, Vedett, Grimbergen Dubbel, Jupiler, Orval, Trappistes Rochefort e até a não-alcoólica Tourtel (essa por acidente, porque o Tom me disse equivocadamente que era uma stout).

Provei ainda cervejas lambic (de trigo, com fermentação espontânea), faro (versão mais adocicada da lambic), gueuze Mort Subite Framboise (lambic misturada com framboesa; não é ruim, mas prefiro cerveja normal) e St Lamvinus Cantillon (lambic misturada com uva, lembra um vinho beeeem doce, argh!). Como não anotei, no entanto, não tenho certeza se realmente bebi todas essas e provavelmente estou me esquecendo de alguma.

Cheguei à conclusão de que certamente prefiro as alemãs. Se fizermos uma comparação com os vinhos (não sei se é uma boa comparação, mas acho que possibilita expressar minha avaliação), as cervejas alemãs são como vinhos secos e as da Bélgica como vinhos suaves. As cervejas belgas têm em geral um gosto mais frutado e, apesar de terem alto teor alcoólico, não são encorpadas como as germânicas. Minha cerveja preferida entre as que eu provei lá foi justamente a que mais me lembrou as boas alemãs: a ótima Chimay Blue. Ah, e valeu a pena prová-las, só para conhecer, mas não achei nada saborosas as lambic e as faro; prefiro inclusive o “suquinho de framboesa” gueuze a elas.

Nem só de bebida vive a Bélgica, é claro. Os belgas são especialistas em batatas fritas, o que não como, mas também têm enorme tradição nos waffles (ou gauffres, em francês). Comemos as duas versões com chocolate (de que também são exímios produtores): o de Liège, que é mais durinho, e o de Bruxelas, mais mole. Não sei qual é melhor, mas são ambos muito tradicionais no país.

Um dia, fomos a um restaurante português assistir ao clássico lisboeta entre Benfica e Sporting, o Fla-Flu da capital lusa. E para a alegria de Edalina, que estava tensa, e para leve decepção de Patrícia (bem leve mesmo, aliás, pois não estava lá muito preocupada), deu vitória “encarnada”: fácil, fácil, dois a zero para o Benfica. Comemos bifanas, uns sanduíches de carne de porco, e, lá, nossas cervejas eram lusas: Sagres e Superbock.

O restaurante aonde fomos mais vezes, no entanto, foi um que tinha uma ótima sopa de lentilhas. Foi sugestão de Luana, que ficou viciada no lugar. Tomei a sopa em dois dias, e em outros dois comi um gostoso crepe com diferentes queijos. Aliás, Luana merece um comentário adicional em relação à culinária: disse que adora comida inglesa e que está cansada de ver restaurante italiano por todos os lados. Como assim? Está cansada de comer massa e acha a culinária inglesa boa?! Bizarro. Ela mesma já contou que dizem que é uma italiana fake: também não gosta de café, nem de futebol. Mas após duas semanas deu para ver que não é completamente “falsificada”: fala com as mãos, tem sangue quente e não admite que a massa não esteja al dente.

Houve um dia que fomos todos convidados pela organização do curso para ir a um restaurante típico belga. Lá, comi um filet americaine tartar (foi a segunda vez que comi esse prato; a primeira, em Paris, está descrita no Kapitel XC). De sobremesa, mandei ver em uma dame blanche, um sorvete de creme com calda quente de chocolate; o gosto lembrava o do profiterole e é uma sobremesa popular no país.

Também houve dia em que fomos a um restaurante italiano, a um tailandês, e em que comemos pizza. O mais inusitado certamente foi a vez em que comi canguru. Nunca imaginei que provaria tal carne na Bélgica. É boa, mas lembra muito a bovina, não sendo, portanto, muito diferente do trivial. E a carne de canguru estava macia, diferentemente do que, no passado, eu tinha ouvido falar sobre ela.

O bandejão dos dois campus também não era ruim – aliás, era bem melhor do que o Mensa da Universidade de Frankfurt. O que era complicado era encarar as enormes filas. É claro que houve dias sofríveis, como uma péssima sopa ou falta de acompanhamentos razoáveis, mas no geral havia boas opções. Inclusive pratos típicos belgas, como os boulettes à la liégeoise e o vol-au-vent.

Mas não pensem que nossos passeios se resumiam à comilança. Desbravamos a cidade por vários dias, especialmente no domingo, quando a maioria das ruas estava fechada para os carros. Fomos algumas vezes à bela Grand Place, inclusive presenciando o lindo espetáculo de luzes no prédio da prefeitura. Também fomos ao Atomium, visitamos o Parlamento Europeu, e passamos a mão em uma imagem de Jesus que dizem que dá sorte.


Cruzamos outras tantas oportuni- dades com o conhecido Maneken Pis. É a famosa fonte em forma de um menino fazendo xixi. Quando visitas ilustres vêm de outros países, costuma-se vesti-lo com trajes que homenageiem o visitante. É uma cópia dele o Manequinho, que, localizado no Rio de Janeiro, tornou-se um símbolo do Botafogo. Todas as pessoas ficam decepcionadas com o Maneken Pis, por ser muito menor do que se imagina. De fato, é pequenino, parecendo ainda menor pelo contraste com a grande estrutura atrás dele.

Mas é um ponto inevitável de visitação, justificando a estampa de uma camiseta que eu vi, com o desenho dele e a inscrição “eu sou pequeno mas sou o dono do pedaço”. Há na cidade também a versão feminina e a versão canina do Maneken Pis: a menina, Jeanneke Pis, está agachada urinando, e o cão tem até a perninha levantada. Só que, se o Maneken Pis tem sua importância pelo fato de ser a primeira fonte da cidade, instalada no século XVII, a menina e o cachorro não têm nem de longe o mesmo destaque, até porque têm poucas décadas de existência.

Um dia, fomos ao museu histórico, que abriu à noite, gratuitamente. Mas funcionava de um modo diferente: estava com as luzes apagadas e lanternas eram distribuídas para as pessoas. A ideia era divertida, apesar de, obviamente, não motivar muito a ler textos mais extensos. Havia algumas coisas bem interessantes, como cartazes políticos. O que mais gostei foi a antiga charge “Pyramide a Renverser”. Com o desenho de uma pirâmide em que o rei estava no topo, localizando-se abaixo dele, nesta ordem, clérigos, militares, burgueses e, em sua base, os populares, a charge tinha as seguintes inscrições ao lado dos respectivos personagens: “A Realeza – Eu reino sobre vocês; O Clericalismo – Eu oro para vocês; O Militarismo – Eu atiro em vocês; O Capitalismo – Eu como para vocês; O Povo – Eu trabalho para vocês.” Simplesmente brilhante.

No sábado, viajei com Patrícia, Edalina, Luana, João e a coreana para Gent e Brugges. A ideia original era ir a Brugges, mas quando Patrícia consultou Tom, ele disse que a cidade era uma farsa. Ela perguntou se não era interessante ir lá e ele respondeu: “se você gosta de Disneylândia”. Obviamente era um exagero, mas de fato a dica de ir antes a Gent foi ótima. É uma cidade tão medieval quanto Brugges, só que mais bonita e menos turística. Basicamente é a mesma coisa sem aquele monte de propaganda em cima.

Só me irritou o fato de que cobravam para ver a Catedral. Eu já tinha ido a igrejas que deixavam ver de graça, já vi cobrarem só para conhecer as catacumbas ou alguma sala com relíguias. Já tinha visto até a parte cobrada ser um terço da igreja, o que já me parecia um excesso. Mas o que presenciamos em Gent foi ridículo: simplesmente um pedaço minúsculo depois da porta estava com acesso liberado, e uma cortina preta cobria a visão da igreja inteira, incluindo o altar. Como se não bastasse, uma leva de turistas saía irritada de lá reclamandado que não havia nada para ver e que tinham jogado quatro euros fora. Obviamente não vimos a igreja, portanto. Mas a cidade é bonita, e valeu a pena pagarmos para subir em uma torre, que tem vista panorâmica.

Minha estadia na Bélgica foi proveitosa. Não apenas porque participei de um bom curso, mas porque me diverti um bocado e fiz ótimos amigos: Patrícia, sempre boazinha e perita em imitar sotaque brasileiro do interior; Luana, a italiana algo reclamona e gente-finíssima; João, o camarada com quem dei muitas gargalhadas; e Edalina, que sempre brincava que eu e ele éramos “os piores” por causa da bagunça que aprontamos na cidade (vários garçons pediram, com educação ou com grosseria, para falarmos baixo); sem falar na princesa belga Sofie. Amigos que não esquecerei. Os “piores”, sem dúvida. Como dissemos: “os piores serão os melhores”.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Kapitel CIV – O Pacote pro Lugar

Nos últimos dias, vários problemas se solucionaram. Minha bolsa de estudos dos próximos três meses foi paga, o que significa que meus tempos de dureza na Europa acabaram. Poucos dias depois, fui avisado de que o dinheiro dos dois meses anteriores da minha bolsa, que não tinha ido parar na minha conta corrente, finalmente foi extornado (sobre o drama, ver Kapitel XCIV).

O dinheiro tinha sido depositado com o código IBAN errado, e, por isso, não foi parar na minha conta. O código foi fornecido em uma carta do Postbank para mim – não entendi por que colocam um outro código bancário que não o meu, sem explicar isso, justamente na correspondência onde me informaram o número do banco e da minha conta corrente. Eu não tinha por que deduzir que o código não era o meu e o forneci ao CNPq (só fui saber o código certo muito depois, quando fui reclamar no banco e o funcionário o buscou no meu cartão).

Depois vim a saber que cada cliente tem o seu próprio código IBAN – como não trabalho com isso, imaginei que o código era o mesmo para o banco todo. Alguém que lide com isso sabe que o final do código IBAN é idêntico ao da conta corrente. Logo, o pessoal da minha bolsa deveria ter percebido que o número da conta corrente e o IBAN fornecidos eram incompatíveis. Mas não viu, e enviou o dinheiro. O banco, por sua vez, recebeu o montante e não procurou saber de quem era. Eu receberia esse valor depois que o Banco do Brasil investigasse para onde tinha ido a quantia. Ou seja, houve um monte de trapalhadas, que fez com que minha conta ficasse zerada ou no negativo por meses. Mas isso é passado. O problema da minha bolsa foi totalmente resolvido!

Com isso, pude também efetuar o pagamento do curso de verão sobre partidos políticos que farei no próximo mês, na Bélgica. Outras complicações tinham surgido: em meio ao acúmulo de problemas que me assolou e com a perda do e-mail institucional @iuperj.br por causa da crise que se abateu sobre o lugar onde faço meu doutorado, acabei perdendo o prazo para a inscrição em um importante congresso no Brasil. Também já resolvi isso, paguei a inscrição e participarei normalmente do evento. Outra encrenca solucionada foi a do banco, que finalmente me devolveu o dinheiro descontado por causa do envio do segundo cartão, apesar de eu não ter chegado a receber o primeiro (ver Kapitel LXXVIII).

Entretanto, é claro que esse ciclo virtuoso teria que parar. Há um problema que parece insolúvel: a péssima qualidade do correio alemão (ver, por exemplo, os Kapitel LIV e LXVIII). E ficou bem claro que o problema não é simplesmente do carteiro incompetente que entrega as cartas aqui na minha área. A ineficiência é muito mais generalizada. Vamos à história!

Encomendei dois livros na Amazon.de, para aproveitar os baixos preços do frete. Pensei duas vezes antes de escolher o endereço para postagem. Cogitei a possibilidade de pedir para enviarem para a universidade, ou de colocar o pedido no nome do Manfred, ou ainda de solicitar que o enviassem para a casa do Jens ou de algum outro amigo. Mas cometi o grave erro de pensar assim: “ah... eu recebi as últimas cartas, acho que devo dar esse voto de confiança, eles não podem ser tão incompetentes...”. Agora eu sei que podem sim!

Na sexta-feira, já estava quase pondo o pé na rua para ir ao correio reclamar que meu livro deveria ter chegado, quando Manfred me mostrou um site – DHL – onde podemos rastrear em que etapa está o envio de pacotes que encomendamos aqui na Alemanha. De fato, o meu ainda estava a caminho. Seria impossível, portanto, que o livro já estivesse em minha casa. O prazo para a chegada seria algumas horas mais tarde.

O fim de semana passou e é claro que, nesta segunda-feira, ainda não havia livro algum em minha caixa postal. Desta vez, não houve jeito: parti para o correio, para reclamar do mau serviço e, quem sabe, voltar com o meu livro (às vezes sou ingênuo, não?). Chegando lá, mostrei para o atendente que o endereço que forneci estava correto e que eu já tinha recebido outras cartas (logo, a culpa não era minha, mas do carteiro). Passei para ele o número do envio do pacote e ele verificou no sistema que, como eu temia, o entregador não identificou meu endereço como sendo meu e mandou o pacote de volta para a Amazon.

Eu disse, então, que não era a primeira vez que isso me ocorria, que já tinha perdido várias cartas por causa da incompetência do carteiro, que – não sei por que raios – ele não lê o meu nome na caixa postal. O funcionário me respondeu, então, que pacotes não eram cartas. Eu não entendi o que ele quis dizer com isso, e perguntei se eles não poderiam, pelo menos, reclamar com o carteiro, para que ele parasse de não entregar minhas correspondências. Aí, explicou-me que “infelizmente não”, porque os pacotes não são entregues pelo carteiro da região. Diferentemente das cartas, os pacotes são entregues a partir de outra sede dos correios, por outra equipe – quer dizer, no meu caso, eles não são entregues por outra equipe.

Fiz minha reclamação, o atendente preencheu o formulário e recomendou que eu mandasse uma mensagem para a Amazon explicando o que ocorreu e pedindo que me enviassem a encomenda novamente. Manfred me disse que os carteiros simplesmente têm dificuldade de entender o meu nome, que se eu me chamasse Wilhelm Reis (pronuncia-se “ráiss”, e significa arroz em alemão) seria mais fácil, mas que Guilherme Simões Reis, em português, é muito complicado. Ele revelou que a Janine, que mora aqui no apartamento, sempre se refere a mim como Wilhelm, porque acha “Guilherme” muito difícil de dizer.

É claro que tal explicação foi mais uma brincadeira, e que não justifica a incompetência do correio alemão. Tudo o que eu queria era que enviassem o pacote para o lugar certo! Manfred me deu algumas sugestões, como usar a caixa postal dele ou pedir que entreguem o livro na agência dos correios para que eu o pegue lá. Vou pensar em qual é a melhor alternativa e enviar a mensagem para a Amazon. Já sei que solicitar que mandem o livro para minha residência novamente não é uma alternativa muito confiável. O pior é que isto foi apenas com o primeiro livro, pois o outro ainda deve ser entregue daqui a duas semanas... Será que em algum momento eu não terei nenhum problema aqui na Alemanha?

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Kapitel CIII – Comi e Duas Noites

Não sei se são preocupações, ou se é o excesso de Coffea arabica, mas tenho tido um sério problema para dormir cedo. Em um desses dias até veio a calhar, pois, depois de um bom tempo, voltei a sair à noite. Meus camaradas Bertram e Florian combinaram de nos encontrarmos no rio Main, perto de uma ponte que eu não sabia qual era. Peguei as instruções com eles e fui. Mas nada de encontrá-los. Andei muito, passei por várias pontes, e nada. Até que, em algum momento, pegando as orientações com o Bertram por telefone, finalmente entendi uma coisa: eu tinha atravessado para o outro lado do rio, enquanto que eles não. Ou seja, eu não os encontraria nunca!

Julguei que seria do outro lado porque todas as vezes que marquei com qualquer pessoa no rio (eles, inclusive), era do outro lado. Nem perguntei, portanto. Enfim, o importante é que os achei. Havia muito mais gente lá. Katja e Mona – as duas garotas que reforçaram o FLATmengo no campeonato de futebol após a contusão de Martina (ver Kapitel XCI), também estavam – mas o grupo era bem maior. Ficamos bebendo cerveja e, dentro do possível, conversando. Estava realmente difícil entender o alemão, até porque, à medida que bebíamos, não só minha compreensão piorava como os demais conversavam com ainda menos preocupação de serem claros. Mas uma coisa é certa: eu realmente aprendi a abrir garrafas usando o isqueiro em vez do abridor (ver Kapitel LXX e LXXIX).

Depois, nós cinco e mais uma loirinha e um cara fomos a uma boate chamada Nachtleben (ou “vida noturna”). E mais cerveja! Era claramente uma boate mais em conta do que aquela a que eu tinha ido da outra vez (ver Kapitel LI). A música não era grande coisa, mas me pareceu aceitável. Não sei se Florian concordou muito, pois disse: “this music is shit”. Naquele dia, portanto, dormir tarde foi justificável.

Mas nem sempre isso ocorre... Em geral, é no meu quarto (sozinho, é bom esclarecer) que as horas avançam e me atormentam com a falta de sono. A insônia atingiu seu grau máximo na noite do dia 9, quando dormi aproximadamente às 7h30 da manhã (do dia 10, é claro)! Eu me deitei já pelas três da madrugada, e de duas em duas horas em média eu ficava de saco cheio de não conseguir dormir e ligava o computador. Pelo menos serviu para assistir pela internet ao bom desempenho da Dilma Rousseff na hostil entrevista do Jornal Nacional. Lá pelas seis da manhã, o céu já claro, eu ainda conversava pelo chat com minha irmã no Facebook.

Estou tentando dormir e acordar mais cedo, acabar com esse ciclo vicioso. Ontem, consegui dormir à uma, o que foi uma vitória! Anteontem, dormi tarde, mas pelo menos consegui acordar a tempo de ir à universidade. Como eu sempre acordava muito tarde – e, quando eu estava plenamente desperto, boa parte do dia já tinha se passado – acabava me parecendo totalmente improdutivo ir até lá. Mas finalmente consegui quebrar esse jejum.

Por falar em jejum, a ida à universidade me proporcionou romper com outro ciclo: comi uma refeição decente. Por preguiça de me aventurar na cozinha e sem vontade de ir a algum restaurante próximo de casa, tenho comido mal. Há alguns dias em que todas as minhas poucas refeições são sanduíches de pão de forma. Manfred sempre brinca que minha bolsa-sanduíche me dá direito a comer apenas um sanduíche, e que eu devo, portanto, comer ainda menos.

Ontem, para encontrar um lugar para comer tal refeição decente lá no bairro de Bockenheim, no entanto, não foi tão fácil. Andei um bocado, até por áreas que não conhecia, e nada de achar um restaurante que me atraísse. É surpreendentemente difícil achar lugares que não girem em torno de döner, carne de porco, culinária oriental (não só chinesa e japonesa, mas também muita tailandesa) ou massas e pizzas. E eu não queria nada disso (minhas últimas duas refeições decentes tinham sido, inclusive, em restaurantes tailandeses, onde provei boas cervejas da Tailândia: Chang e Singha).

Acabei encontrando um bom e velho galeto (Hännchen, como chamam em alemão) com salada. Pedi a salada pequena, que simplesmente significou um prato cheio. Fiquei imaginando como seria a salada grande, mas tive até medo de perguntar. Bem, por ora é isso o que eu tinha a lhes dizer. Agora, vou esquentar uma pizza pronta. Ou, quem sabe, preparar um sanduíche de pão de forma...

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Kapitel CII – A Casa do Urso

Depois de vários dias só comendo besteira, tive hoje minha primeira refeição decente em bastante tempo. Comi um prato de frango com molho de leite de coco e curry e bebi a cerveja tailandesa (?!) chamada Chang, no ótimo resturante Krua Thai. Já almocei lá outras vezes antes. Fica no bairro de Bockenheim, perto da universidade, para onde fui em seguida, usar o programa de estatística SPSS e dar uma olhada em um livro.

Minha ida à universidade marcou o fim de uma seqüência de três dias enfurnado em casa, de onde só saí para fazer compras no supermercado e colocar o lixo para fora. Esse período restrito ao circuito quarto-banheiro-cozinha me alertou para uma coisa: eu ainda não tratei nestes Contos Fantásticos, com a devida profundidade, do lugar onde moro. Pois corrigirei essa falha agora.

Moro em um WG (sigla para Wohngemeinschaft), que é um apartamento compartilhado. Comigo moram o já famoso (São) Manfred, muitas vezes citado aqui, e duas meninas, também alemãs: Suzanne e Janine. Este seria o último mês das duas antes de voltarem para suas cidadezinhas, mas parece que estão negociando com Mario (que Mario? o espanhol que aluga o apartamento, é claro) para prorrogarem o aluguel. Elas não são más pessoas, mas há muito pouco diálogo com elas. São muito amigas entre si, mas não demonstram qualquer interesse em se aproximar de nós dois (tratei disso no Kapitel XLV). Já Manfred é um cara legal, que me ajudou várias vezes. Mas não tem paciência de me ajudar no alemão e sempre zomba das minhas trapalhadas. Que não são poucas.

O WG fica no bairro de Dornbush. Está longe de ser badalado como Sachsenhausen ou bonitinho como Bockenheim, mas é um bom lugar. Como disse no Kapitel II, tem boas opções de transporte e seviços. Vivo a umas duas quadras da estação de metrô Dornbush, que é a primeira no sentido Sul-Norte que não é subterrânea (tipo linha 2 do metrô carioca, na superfície).

Além disso, o maior supermercado da cidade fica perto da estação anterior, a Miquel-/ Adickes- allee/Polizei- präsidium (vocês não imaginam o quanto é viciante ficar repetindo esse nome enorme quando ele é anunciado no metrô). Perto da minha casa ficam ainda o restaurante italiano Cosi Cosi, um oriental, uma padaria, uma loja que vende embutidos onde também já almocei algumas vezes, um banco (onde saquei dinheiro do Banco do Brasil várias vezes), o escritório da administração da região (o Bürgeramt)...

Meu endereço diz que moro na Eschersheimer Landstraße, mas é mentira. O meu número ocupa o quarteirão inteiro, e é um número comercial. Depois, virando-se a esquina, o número se repete, mas com as letras A, B, C... Pois é em um desses que eu vivo. Só que aí já não é mais, realmente, na Eschersheimer Landstraße. O nome da rua é Carl-Goerdeler str.

Uma vez, de curiosidade, fiz uma pesquisa na Wikipedia e descobri que o tal do Carl Goerdeler era um político monarquista conservador, que, inicialmente, considerou Hitler um ditador ilustrado, com potencial para fazer o bem. A partir de 1933, mudou de ideia, e passou a fazer oposição a ele e a tentar ajudar comerciantes judeus perseguidos. Se uma tentativa de matar Hitler em 1944 tivesse dado certo, ele seria o novo chanceler. Como ela falhou e descobriram que ele estava envolvido, foi preso e torturado por meses e, depois, executado.

Mas é na Eschersheimer Landstraße que eu ando sempre. Pelo que me explicaram, várias ruas em Frankfurt levam o nome de outras cidades porque eram, originalmente, as rotas para viajar para tais lugares. A tal da Eschersheim, bem ao norte e onde nunca estive, originalmente era uma cidade independente, mas foi anexada a Frankfurt em 1910. Frankfurt cresceu muito incorporando cidades vizinhas, entre elas Bockenheim, bairro onde fica o campus onde eu tive aulas de política. As belas – e parecidas entre si – Warte (Bockenheimer Warte, Galluswarte, Friedberger Warte, Sachsenhäuser Warte) eram torres de guarda que ficavam nos antigos limites de Frankfurt, mas, com a expansão, hoje ficam bem no meio da cidade (ver Kapitel LX).

Vivo no quarto andar, mas isso não significa nada. Na Alemanha, bizarramente, os apartamentos não têm numeração, e as referências são simplesmente o número do prédio e o seu sobrenome. Ou seja, trata-se de um prato cheio para um correio ineficiente como o alemão. Isso me causou muita dor de cabeça, como já praguejei nos Kapitel LIV e LXVIII.

Meu apartamento tem uma sala pequena, uma cozinha idem, mas quartos bastante espaçosos (o meu é enorme!). Além disso, há dois banheiros com chuveiro, o que diminui consideravelmente a possibilidade de conflitos entre nós quatro. A sala para pendurar a roupa para secar fica fora do apartamento, no subsolo do edifício e, bizarramente (levando-se em conta que roupas secam melhor no calor), está sempre muitos graus mais fria do que em qualquer outro lugar que não a geladeira. O local para colocar o lixo fica fora do prédio e atende a todos os edifícios que usam a mesma numeração. Lá, há lixeiras para plástico e embalagens, outras para papel e duas para lixo orgânico. Tudo bastante alemão (o sistema está explicado no Kapitel XXX).

O meu quarto tem 25 metros quadrados, se o anúncio dizia a verdade (eu nunca o medi, mas é grande). Tem um bom armário, uma cômoda, uma pequena mesa, uma cama meio desconfortável, uma mesa de cabeceira moderninha, uma estante com cara de escada em que não cabe quase nada (mas ponho livros lá assim mesmo), um sofá-cama e uma televisão miúda que pega poucos canais (nunca asssisti a ela e, quando tentei, não achei a transmissão de nenhuma partida da Copa).

O que mais chama a atenção, no entanto, é um imenso ursão de pelúcia (escrevi sobre ele no Kapitel II; continua na mesma posição e no mesmo lugar). Não é meu, nem comprei para dar de presente. Parece que Manfred ganhou há muito tempo e, como não tem onde colocá-lo, deixou-o aqui. Simplesmente aqui já estava quando cheguei, a aqui ficou, pois não me atrapalha e não quis ser chato. É um tanto bizarro ver um ursão no canto do quarto, mas já me acostumei. Pena que ele só divide o espaço comigo, não os custos do aluguel. Aliás, debaixo dele há uma gaveta cheia de tralha que também não é minha: sacos plásticos, parafusos, lâmpadas... Ou seja, é melhor deixar o urso lá; pelo menos esconde a tranqueira toda.

O urso não é a única peça de “decoração” que chama a atenção em meu quarto. Há também um enorme mapa-múndi em alemão atrás da minha cama. É interessante que posso olhar para “Die Welt”, o mundo, e ver como se chamam os países nesta língua que tanto custo a aprender. Vereinigte Staaten Von Amerika, Gross Britannien, Schweden, Weiss-Russland, Aserbaischan, Ägypten, Elfenbeinküste (este eu aprendi na Copa!), Simbabwe... Legal, né?

Mas o fato de eu gostar de geografia é apenas uma coincidência. Mario colocou o mapa lá para esconder umas manchas na pintura da parede. É que o antigo morador deixou a roupa secando no interior do quarto e criou mofo. Aí, antes de eu me mudar, Mario pintou as partes afetadas e ficou de fazer uma pintura geral quando eu me ausentasse por mais tempo. Bem... passei duas semanas na França e continua na parede, ali atrás da China, da Mongólia e da Indochina, uma baita mancha mais clara.

Parece que estou reclamando, mas não estou não. Não tenho motivos para isso. O urso e as manchas são mais casos pitorescos do que realmente problemas. Além disso, o Mario é gente-boa e compreensivo, não tem rigor excessivo com o prazo do pagamento do aluguel e, assim como Manfred, já me deu várias dicas da vida em Frankfurt. E meu quarto é realmente espaçoso. Tanto que é possível ficar três dias enfurnado nele. Mesmo tendo que dividi-lo com um urso tamanho família.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Kapitel CI – O Anjo

Muita coisa aconteceu nos útimos três dias. Fizemos no bar Albatros a despedida da universidade de alguns estudantes – Fabian, Janeth e Dana – que terminaram seus períodos de pesquisa com Jens e Marion Reiser e passarão meses em outros países (Fabian vai pra a Letônia). Fui ao Museu de caricatura, onde estavam expostas tirinhas feninistas de Franziska Becker.

Fui com Gilberto, Letice e Julian a um festival na orla do rio Main. Lá, encontrei-me com meu amigo pernambucano João Guilherme, de quem me despedi, pois volta ao Recife após cinco meses em Frankfurt. Fui com Bertram e Gilberto ver um amistoso no estádio, em que o Eintracht Frankfurt derrotou o Chelsea por 2 a 1. Segui com Gilberto para uma casa chamada Jazzkeller, onde assisitmos a um excelente show, de Ivan Santos & Band.

Eu poderia dar mais detalhes de todos esses acontecimentos, mas não quero. Soube de outro acontecimento que abafou todos os demais. Uma das pessoas que mais amo na minha vida foi agraciar aos que a rodeiam, com sua pureza, bondade e generosidade, em outra dimensão (o céu, certamente, nos termos dela).

Sua alegria de viver, que demonstrou nos últimos 96 anos, nunca será esquecida. O nosso amor nunca sairá dos nossos corações. Infelizmente, as pessoas que estiverem por perto tristes e aborrecidas não terão mais a luz da minha vovó para fazê-las mudarem e abrirem um sorriso. Isso sempre acontecia. Todo mundo que convivia com ela perde muito.

Sua alegria de viver sempre foi um exemplo para todos. A cada ano alimentávamos um sonho. O sonho de que a vovó seria eterna. Cada ano era mais um rumo à barreira centenária, que parecia que seria ultrapassada com facilidade. Parecia que ficaria pequena conforme outra década se passaria. E ela sempre estaria conosco, conhecendo os bisnetos, acompanhando os rumos que nossas vidas adultas fossem tomando.

Mas não era eterna. Não seu corpo vaidoso, sempre permufado, bem-vestido, e com brincos vistosos adornando um ouvido que pouco ouvia. Este era, aliás, o único problema daquele corpo que bem andava, bem enxergava, esbanjava saúde. Mas eternos são sua lembrança e nosso amor. Tchau, vovó querida. Amo muito você. Todos a amamos. Para sempre.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Kapitel C – A Torre, os Tomos e o Baile

Este é o centesimo Conto Fantástico. Trata de terça-feira, um dia de busca na biblioteca em que acabei dançando. Literalmente, aliás. Acabaram minhas aulas na Universidade de Frankfurt, mas isso não significa que terminaram minhas obrigações acadêmicas. Terei um curso de verão em Bruxelas em setembro, para o qual preciso enviar um artigo até o final de agosto.

Resolvi, então, buscar alguns textos na biblioteca da universidade, para ver se me davam pistas sobre que tipo de dados seria interessante de se obter. Procurei no sistema on-line da biblioteca textos do dinamarquês Esping-Andersen e do catalão Carles Boix. Encontrei os três livros do Esping-Andersen que eu buscava, além de um do Boix.

Este último eu deveria pedir on-line, e, algumas horas mais tarde, passar lá para pegar, no prédio da biblioteca perto de Bockenheimer Warte. Já os de Esping-Andersen não poderiam ser retirados, mas eu poderia ir consultá-los na “torre”, edifício onde tive aulas de Politica Comparada, que fica ao lado de onde estão localizadas as salas do instituto de ciência política (ou seja, ao lado do prédio FLAT, que deu o nome ao nosso vitorioso time de futebol; ver Kapitel XCI).

Parti, então, inicialmente para o décimo-sétimo andar da “torre”. Li no balcão da entrada um aviso aparentemente sobre alguma proibição relacionada ao laptop, que não entendi bem. Não compreendi perfeitamente, mas o suficiente... Como eu já tinha apurado antes, pode-se ir lá sem problemas com o laptop, mas, para minha desagradável surpresa, o aviso indicava que o mesmo não valia para a bolsa do laptop.

Isso tem a ver com uma coisa que me chocou logo de cara aqui na Alemanha (tanto que abordei tal fato no Kapitel IX): enquanto, por um lado, eles não fiscalizam um monte de coisa, supostamente por confiarem uns nos outros, por outro às vezes se preocupam com besteira. É o medo de roubarem a caneca na cafeteria, é a preocupação que os alunos furtem livros da biblioteca escondendo-os na bolsa do laptop... É tão mesquinho isso!

Eu não tinha uma bolsa, apenas uma capa de proteção para o computador. O funcionário da biblioteca disse que ela também não podia, e que eu precisaria guardá-la no locker. Fui colocá-la, então, mas ele não fechava. O rapaz disse que era preciso pagar dois euros para fechá-lo. Naquele momento eu fiquei realmente contrariado. Cheguei a pensar em ir embora da biblioteca. Dois euros para guardar uma capinha fininha de laptop porque suspeitam que vamos roubar livros?! Perguntei: “Preciso mesmo colocar ali a capa?!” O funcionário, sem-graça com o absurdo da situação, mudou de opinião e disse que eu não precisaria, que bastava colocá-la numa cestinha.

Enfim, consegui entrar na biblioteca! Mas a saga apenas começava. Um dos livros estaria naquele andar, enquanto para ver os outros dois eu precisaria subir uma escada. Lá, cada um procura os livros com os respectivos códigos por conta própria, e eu não conseguia encontrar o primeiro deles de forma alguma. Fui, então, para o outro andar e, após algum esforço, encontrei os dois livros, que fiquei pesquisando. Acabada essa missão, desci as escadas e pedi àquele funcionário para encontrar o livro para mim. Ficou claro que não era desatenção minha: ele buscou em cinco estantes diferentes, e nada. Depois, olhou uma pilha de livros no balcão, e também não estava lá.

Ele me disse, então, que o livro estava emprestado. Mas espera aí! Esse não era um dos livros que não podem ser emprestados, que não podem sair da biblioteca? Além disso, por que ele foi concluir que estava emprestado não depois de consultar o sistema, mas depois de procurá-lo e não achá-lo? Tudo muito esdrúxulo.

Restou-me, então, ir à biblioteca perto da Bockenheimer Warte, para pegar o quarto livro, aquele que eu tinha clicado no botão do site para reservá-lo. Ao chegar lá, a funcionária me disse que já estava reservado. Imaginei que fosse a minha reserva, por ter solicitado o livro pelo site, e pedi para que ela conferisse. Pois não era. Apesar de o site indicar que o livro estava livre e ter mudado de status somente depois que eu cliquei, a reserva estava em nome de outro. E pior: até janeiro! Mais de uma pessoa já me perguntou, assombrada: e se pode reservar por tanto tempo? Bem... pelo visto, pode... não sei se todo mundo, mas alguém pode...

A biblioteca, portanto, foi menos proveitosa do que eu esperava. E mais uma vez a burocracia alemã mostrou suas peculiaridades. Tentei reservar o livro mas acabei dançando. Aliás, horas depois seria a vez de dançar literalmente. Marhyen, a venezuelana, e Lara, a alemã que fala um perfeito português da Bahia, me chamaram para ir a um bar onde tocam salsa, bachata e merengue. Já era a terceira vez que me convidavam; na primeira eu não tinha ouvido o celular e só fui ver o recado dois dias depois, e na última eu estava em Berlim. Desta vez, não havia escapatória: teria que medir quão vexatório seria o meu desempenho na pista.

Até que não foi dos piores. Danço mal, mas dançar mal para um brasileiro é equivalente a dançar razoavelmente para um alemão. Os caras, em geral, são muito duros, passam mais tempo contando os passos do que ouvindo a música. O bar estava cheio de estrangeiros, muitos deles latino-americanos. E os que dançavam melhor eram os que menos pareciam alemães. Do nosso pessoal, estavam lá também o namorado de Marhyen (chamado Jens; não confundir com meu professor e amigo), Xenia, Lucia e Nikolai.

Um suposto minicurso de dança, que durou cinco minutos e com o qual não aprendemos nada, custou três euros de cada um. Mas está tudo bem, cada dia o bar inventa uma desculpa diferente para cobrar os três euros; na verdade, é o preço da entrada, mas eles não querem dizer. O bar nem foi tão caro, e os coquetéis estavam a quatro euros, 2,50 abaixo do valor do cardápio.

Acho, sim, que o bar devia ser menos quente e, claro, falhas no som, como as que aconteceram, não são aceitáveis em um bar de dança. Mas como posso reclamar? Pelo menos ninguém ficou desconfiando, como na biblioteca com os livros, que esconderíamos os copos ou as caixas de som dentro da bolsa...

domingo, 18 de julho de 2010

Kapitel XCV – Antes de Partir

A última sexta-feira foi um dia de encerramentos. Primeiro, pela manhã, após faltar, por diferentes razões, as últimas cinco ou seis aulas de alemão, fui ao campus de Westend para assistir à última. A aula foi curta e, ainda assim, entendi tanto quanto na maioria das aulas anteriores: ou seja, não entendi nada! O professor distribuiu certificados; os alunos os pegavam em branco, preenchiam seus nomes e os davam para que ele assinasse. Eu não quis o meu. Não preciso de nenhum comprovante de proficiência em alemão, sigo longe de tê-la, não aprendi basicamente nada no curso e ainda faltei à beça no final.

Depois da aula, estudei um pouco e almocei com João Guilherme, o italiano Jan e outros amigos deles. Os dois me chamaram para um piquenique que ocorreria no Grüneburg-park, à noite. Segundo João, seria mais um “Trinknik”, pois beberíamos (“trinken”) muito mais do que comeríamos.

Tomei um café com o pessoal – pelo menos o que sobrou depois que deixei um bocado do meu cair no chão – e segui para o outro campus, o de Bockenheim. Seria a última aula do curso Politik und Gesellschaft in Brasilien, em que fui assistente do Jens. Não sei se por estar cansado, mas, apesar da afinidade com o tema, entendi ainda menos do que de costume o que todo mundo dizia. O resultado foi que entrei mudo e saí calado dessa última aula de política brasileira. No balanço do final do curso, um dos alunos chegou a comentar que achou muito bom haver um brasileiro ajudando na aula, e todos os alunos demonstraram concordar com ele. Isso é legal, mas sei que certamente eu teria sido muito mais útil e ajudado bem mais se compreendesse tudo o que foi dito na aula ao longo do semestre. Mas tudo bem, nada é perfeito, fiz o melhor que pude.

Depois da aula, Jens convidou a todos para irmos ao bar Albatros para bebermos alguma coisa e conversarmos. Foi ótimo, uma parte considerável da turma compareceu, inclusive alguns alunos com quem não tive contato – os sempre presentes Lara, Xenia, Lucia, Nikolai e Maryhen também foram, é claro. E, como descobriram recentemente a existência destes Contos Fantásticos, devem estar comentando o fato de seus nomes terem sido mais uma vez mencionados.

Voltei para casa, tomei um banho e, obviamente, eu me atrasei. Havia marcado de me encontrar com João Guilherme às 8h20 na estação de metrô da Hauptwache para, de lá, irmos nos encontrar com os demais em Bockenheim – exatamente o bairro onde eu havia estado uma hora mais cedo! Eram umas 8h15 e eu ainda estava em casa. Telefonei avisando que não chegaria a tempo; ele disse que esperaria e brincou que estava com saudade da pontualidade brasileira.

Nós nos juntamos ao Jan e, depois, aos demais. Os planos foram mudando. Ninguém foi a parque algum, acabamos todos ficando mesmo no pátio do alojamento universitário. Também não era propriamente o que eu chamaria de piquenique. Era o que, no termo técnico utilizado no Brasil, denominaríamos “farofada”. Além de muita cerveja, o povo chegava com vasilhas cheias de comida, com uma misturança danada.

Esta foi, possivelmente, a maior aglomeração de pessoas que se conheciam que eu vi desde que cheguei na Alemanha. Estavam lá todos os milhões de italianos do curso de alemão, além de pessoas das mais variadas partes, como Hungria, Polônia, França, Coreia do Sul... O motivo da reunião era a despedida de um dos italianos, Paolo, que voltaria no sábado para seu país. Até o hino da Itália o pessoal cantou!

O plano era, depois, irem a uma boate, CafeKoz. Desde o início decidi que eu não iria, pois viajaria para Berlim no sábado de manhã. Na verdade, só saí naquela noite porque imaginei que seria algo leve e que acabaria cedo. Só que saí bem tarde, fiquei lá até uma e meia. Fui embora preocupado se ainda haveria metrô funcionando. Não havia. Desde que comecei a comprar os bilhetes mensais de transporte público, fiquei mais preguiçoso e faço muito menos coisas a pé, sempre pegando o metrô. Fazia tempo, portanto, que não trilhava a pé o percurso de Bockenheim até Dornbush, onde moro. Coube-me fazê-lo de madrugada. Por sorte Frankfurt é uma cidade muito segura e, apesar de minha lendária desorientação, consegui me lembrar de várias referências e achei o caminho até minha casa.

Não sei por que, quando tenho uma viagem, tendo a, em vez de descansar na véspera, dormir pouco. O resultado é que faço várias coisas nas viagens já com o corpo cansado e, como não quero perder tempo descansando quando estou fora, na volta eu estou sempre completamente estragado. Fui dormir a umas duas e meia e acordei às sete. Mas isso não importa; finalmente vou conhecer Berlim. Meu amigo Florian tem casa na cidade e me ofereceu para ficar lá.

Florian fez ainda mais: como aqui há um sistema institucionalizado de caronas – Mitfahrgelgenheit –, que sai muito mais barato do que viajar de trem ou avião, ele marcou uma para mim. Sairia a 25 euros apenas, para uma viagem de quatro horas. Nada mal. Mas conheci um possível efeito colateral do Mitfahrgelgenheit: as caronas têm muito mais chance de furar do que os trens. E foi o que aconteceu. Quarenta e cinco minutos antes da hora marcada – 8h30 na estação central de trem – o sujeito me mandou um torpedo desculpando-se que não poderia ir a Berlim. Minhas opções seriam, portanto, tentar marcar outra carona e, portanto, perder pelo menos um dia, ou ir de trem. Fui de trem. A diferença? A passagem me custou absurdos 113 euros! Quase noventa a mais do que sairia a carona... Vejamos se, na volta, o motorista não vai dar para trás e conseguirei economizar na passagem.

No trem, eu escrevia este “conto fantástico” que vocês estão lendo e um garoto, que estava sentado ao meu lado, perguntou se o idioma era espanhol. Expliquei que era português, e que eu era brasileiro, e isso foi suficiente para seguirmos a viagem conversando até Berlim. Era um garoto novo, ainda a quatro anos de terminar o colégio, que quer ser cirurgião e estudar medicina, mas, no momento, parece estar mais interessado em música e em jogos de computador. Mas foi muito interessante porque conversamos muito mais em alemão do que em inglês, e ele pacientemente falava devagar, repetia quando eu não entendia e traduzia as palavras que véu não conhecia. Meu alemão continua fraco, mas talvez estejam ocorrendo progressos. Quem sabe também falarei em alemão na carona de volta para Frankfurt, não é?

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Kapitel XCIII – Era Outra Vez...

Pela terceira vez consecutiva, meu despertador não tocou. Descobri que nas duas primeiras, isso havia acontecido porque marquei a hora P.M., ou seja, à tarde, quando queria marcar A.M., de manhã. Ontem, antes de dormir, marquei a hora certa, mas me esqueci do trivial detalhe de que precisava travar o relógio para ligar o alarme. Das três vezes, uma delas apenas me fez acordar uma hora mais tarde, sem qualquer problema prático. Nas outras duas, uma na sexta-feira passada e a outra hoje, acordei aproximadamente às 9h40, sendo que minha aula de alemão começa às 9 horas e dura apenas uma hora e meia. Juntando-se tal descuido a minha viagem de dez dias à França, isso significa que não vou à aula de alemão há muito tempo. E o pior é que tenho que pagar dez euros pelo bolão (que, obviamente, perdi) para o João Guilherme, e uma cerveja para o Dritan por ter apostado que a Espanha não passaria da primeira fase (e acabou campeã, tsc tsc tsc).

Minha irmã e minha mãe têm a teoria de que, na verdade, é meu subconsciente que me faz marcar errado o despertador, porque não tenho efetivamente vontade de ir à aula de alemão. Eu não chegaria a tanto, mas, de fato, trata-se de uma aula muito desestimulante, em que não aprendo nada. O que Frau Ännchen competentemente me ensinou no Brasil, eu reconheço nas aulas daqui; o que meus dez meses de estudo no Rio foram insuficientes para que eu chegasse a saber, continuo sem entender (sobre meu drama lingüístico, ver os Kapitel XXXV e XLV).

O dia continuaria bem pouco emocionante. No auge do meu cansaço, com braços, pernas e costas doloridos do futebol de dois dias antes, eis que era meu dia de faxina. Na verdade, era minha semana. Cada um de nós aqui no apartamento precisa fazer uma por mês. Em geral é no fim-de-semana, mas por causa do torneio de futebol de sábado (Kapitel XCI) e do aniversário do Jürgen (Kapitel XCII) no domingo, sobrou para esta segunda. Enrolei, fiz várias pausas, mas cumpri minha obrigação mensal.

Hora de descansar? Que nada. A geladeira vazia, sem nem mesmo uma garrafinha de água mineral, não me dava alternativa a não ser ir ao supermercado (bem, beber café ou cerveja no lugar seria uma alternativa, mas achei mais saudável ir ao mercado). Quando desço o elevador, eu me deparo com uma baita chuva que há tempos não via. Volto para pegar o guarda-chuva, e não encontro. O som da chuva fica mais forte. Tenho que esperar.

Finalmente pude ir. De mochila cheia de garrafas vazias fui de metrô ao supermercado. Estava morrendo de fome, já que passava das dezoito e eu só tinha comido um sanduichinho no café-da-manhã. Lá no supermercado Rewe pode-se pedir comida alemã quente a bons preços. Comprei um Scheinehaxen, joelho de porco. Só que há um detalhe: eles dão talheres de plástico para quem come lá. Já experimentaram desossar um joelho de porco com garfo e faca de plástico? Lamentável. Foi tanto esforço que, no fim, eu já nem estava mais com muita vontade de comer.

Trouxe para casa a pesada mochila com as compras, incluindo três litros de leite achocolatado e nove de água com gás. Depois de guardar tudo, enfim estava livre para tomar meu banho. Talvez eu ainda assista a um filminho no computador... Mas não sei, são dez horas, o dia já está acabando. Nem tive tempo para descansar. É incrível como há dias em que não se faz nada de mais que cansam muito mais do que outros em que estamos cheios de ocupações. Pelo menos amanhã não tenho hora para acordar. E que se dane o despertador!

domingo, 11 de julho de 2010

Kapitel XCI – O Campeão

A Copa do Mundo só se define neste domingo, na final entre Holanda e Espanha, mas neste sábado já tivemos um campeão, aqui em Frankfurt. É que foi organizado um torneio de futebol institucional, com professores, pesquisadores e alguns alunos da Universidade de Frankfurt e até de universidades de outras cidades, como Munique e Mainz/Mogúncia.

O torneio Institutsbolz Weltmeister-schaft aconteceria todo neste sábado, no Real Sport Entertainment GmbH (em Frankfurt, mas em um lugar bem afastado), de meio-dia até umas oito da noite (quando ainda está claro, pois aqui só escurece bem depois das nove!). Era um torneio misto, em grama sintética, com algumas regras bastante específicas. Jogavam times de quatro jogadores, podendo-se fazer quantas substituições desejássemos.

Nossa equipe, que reunia o pessoal que trabalha com o Jens e era organizada por Florian e Marion Reiser, tinha quatorze jogadores e sempre substituímos de três em três (o goleiro húngaro Christian nunca saía, é claro). Para garantir que nenhum time tivesse mulheres apenas para constar, todos deveriam ter pelo menos uma mulher em campo. A bola nunca saía pela lateral ou pela linha de fundo (havia parede) e uma das poucas regras era a de que só se podia fazer gol a partir da linha de meio de campo. O absurdo, no entanto, era que não havia árbitro, o que, é claro, pode gerar muitos problemas (e gerou).

Nosso time jogava de camisas azul-celeste (é bem verdade que não havia muito padrão, e alguns foram com camisas bastante escuras, mas a ideia era ser azul claro) em referência ao estilo uruguaio com que pretendíamos jogar. O nome da equipe, nascido acidentalmente em uma conversa de bar no Albatros após a minha palestra na universidade (ver Kapitel LXXIX) era FLATmengo. O prédio onde ficam nossos escritórios e algumas salas de aula no campus de Bockenheim se chama FLAT e, claro, todos já estavam cansados de me ouvir falar sobre o Flamengo. Daí o nome, que os alemães têm enorme dificuldade de pronunciar, sempre falando “Flatmenco”, provavelmente por causa da dança.

A competição reuniu doze equipes, divididas em dois grupos de seis. Os quatro primeiros se classificavam para as quartas-de-final, em que jogariam o primeiro de cada grupo contra o quarto da outra chave, e os segundos contra os terceiros. Os jogos duravam doze minutos na primeira fase em um único tempo, e dezesseis minutos em dois tempos no mata-mata. Estreamos com uma derrota, por 2 a 0 para os United Brühls, que jogavam com camisas brancas confeccionadas para o torneio, com alusão às Nações Unidas. O pior é que entrei no final, o time perdia por 1 a 0, eu estava correndo muito para tentar o empate e, numa extrema infelicidade, chutaram uma bola em mim e ela foi parar no fundo da rede. Do nosso lado. Fiz um gol contra. Dois a zero para eles. Lamentável e frustrante.

A sorte, no entanto, estaria do nosso lado. Os United Brühls venceriam ainda três partidas seguidas, só perderiam a última na primeira fase, e acabariam em primeiro no grupo A, de modo que nossa derrota não foi tão ruim assim. Depois, vencemos o Cluster of Mediocrity por 1 a 0 e o Turmhoch Überlegen por 3 a 0. O segundo gol foi meu (a favor!), em um chute de média distância no canto direito do goleiro. Foi bom ter podido zerar meu saldo, que estava negativo com aquele gol contra do primeiro jogo.

Nem tudo, no entanto, correu bem neste jogo. Martina, nossa melhor jogadora feminina, que inclusive tinha feito de cabeça o terceiro gol, levou uma forte bolada e quebrou o pulso! Teve que ser atendida, foi triste. Os últimos minutos de jogo nem foram realizados. Marion Reiser foi com ela para o hospital. Ou seja, ainda perdemos uma segunda mulher. Só tínhamos, a partir de então, duas mulheres para se revezarem, Janeth e Dana, o que seria exaustivo para elas. Duas que faziam parte de equipes já eliminadas, Katja e Mona, entretanto, reforçaram nosso time e pudemos seguir no torneio sem esse problema.

Derrotaríamos ainda o Team HSFK II, de Mogúncia, por 3 a 1, com incríveis dois gols de Florian e garantimos nossa classificação. Acabamos, no entanto, caindo de segundo para terceiro lugar no grupo por causa do saldo de gols, devido à derrota para o Team Augsburg por 5 a 2. O mais triste é que o último gol deles saiu no finalzinho, quando eles já estavam brincando, sem levar o jogo a sério: um cara chutou a bola de letra para o lado, o outro chutou também de letra e a bola entrou.

Teríamos que encarar nas quartas-de-final o segundo colocado do grupo B, o Master ISFK. O primeiro do grupo B havia sido o Team Forst, do qual faziam parte meus amigos Filipe, Julian e Vítor. Este último, aliás, também se contundiu. Torceu feio o tornozelo e não pôde seguir na competição. O Team Forst, assim como o United Brühls no nosso grupo, tinha feito uma campanha quase perfeita, de quatro vitórias e uma derrota. O inusitado é que tinham perdido apenas para o (até então) saco de pancadas do grupo B, o Team Naase.

Não seria o fato mais inusitado do campeonato. Vi a mais cristalina confirmação da lei-de-ferro do ludopédico: “o futebol é uma caixinha de surpresas”. Os dois primeiros da primeira fase e os dois segundos colocados foram derrotados nas quartas-de-final pelos terceiros e quartos. Os quatro times que, em tese, eram os melhores, estavam eliminados. A semifinal envolveria, portanto, os times que tinham ficado em terceiro e quarto, com campanhas bem menos brilhantes, com números equivalentes de vitórias e derrotas.

Vencemos o Master ISFK por 2 a 1. Filipe, Julian e companhia seriam eliminados com o seu Team Forst ao perder por 2 a 0 para o Turmhoch Überlegen, que mais cedo nosso FLATmengo tinha goleado. O bicho-papão do nosso grupo, o United Brühls, caiu por 2 a 1 diante dos bávaros do Stella Rossa Monaco. E o Team Augsburg, que tinha feito um monte de palhaçada na partida contra a nossa equipe, apanhou de 5 a 2 para o HSFK.

A semifinal foi tensa. Os azuis do Turmhoch Überlegen não demonstravam muito fair play. Quando o placar estava 1 a 1, marcaram um gol que pessoas do meu time alegaram ter sido feito de trás da linha do meio de campo (a proibição disso era uma das raras regras do torneio). Eles insistiram e acabamos considerando, a contragosto, o gol deles. Por sorte, Jonas, um grandalhão do nosso time, estava destinado a fazer gols nos momentos mais difíceis e, imediatamente em seguida, empatou a partida.

No finalzinho, o goleiro pulou em cima da Florian para pegar a bola e o derrubou na área. Nosso time pediu pênalti, e eles recusaram. Era a segunda vez no jogo em que a falta de um árbitro neutro se mostrava um problema, e a segunda vez em que eles se beneficiaram com isso. A decisão foi para os pênaltis. Nosso supergoleiro Christian defendeu a primeira cobrança, mas Fabian também perdeu a dele. Eles converteram a segunda, mas Robert, nosso artilheiro junto com Florian, também cobrou bem e marcou. O terceiro batedor deles chutou para fora, e nosso heroico guardarredes Christian acertou a última cobrança.

Incrivelmente e contra todos os prognósticos, estávamos na final. Nosso adversário seria o HSFK, onde jogava Jonas Wolf, um alemão gente-boa que conheci no congresso de Toulouse. Ele fala muito bem espanhol e é pesquisador em uma instituição na cidade de Frankfurt. A final foi tranqüila. Goleamos por 4 a 1. O primeiro gol foi do sempre decisivo Jonas, é claro. Jens, que tinha feito o passe para o segundo gol (que foi do Fabian), marcou o terceiro em um lance de muito oportunismo. O FLATmengo certamente não era o time com os melhores jogadores, mas era o legítimo campeão do Institutsbolz Weltmeistershcaft, torneio que tinha um formato parecido com o da Copa do Mundo.

Já com nossas medalhas e troféus, pudemos comer nosso churrasco alemão (muito porco e salsichas), beber cervejas Licher e Franziskaner e assistir à decisão de terceiro lugar entre Alemanha e Uruguai, vencida pelos germânicos por 3 a 2 em partida equilibrada. Vestidos como uruguaios, terminamos mais bem colocados que o Uruguai original. Hoje, meu corpo todo dói, mas foi bem melhor do que eu podia esperar. FLAT-MEN-GOOOO!


As imagens do título.

domingo, 4 de julho de 2010

Kapitel LXXXVIII – A Última Volta

Acabou o congresso. Pedi meu certificado e ganhei um em branco, assinado, para que eu mesmo preenchesse. Ou seja, qualquer um que chegasse lá e dissesse que tinha apresentado um trabalho conseguiria um certificado. Uma zona! Mas valeu a pena, de todo modo.

Saindo de lá, aproveitei para conhecer todos os cantos de Toulouse aonde ainda não tinha ido! Conheci o lindo Jardin des Plantes, a antiqüíssima igreja de Notre Dame Du Taur (séculos XIII e XIV) e muitos outros lugares. E finalmente consegui encontrar aberta a igreja de Saint-Sérin, que fica perto do albergue. Já estava desconfiando que ela era só fachada que não tinha nada por dentro.


Aproveitei e comprei minha passagem de trem para Paris. Parto na próxima manhã. Saiu o dobro do preço da passagem de avião de Paris para Toulouse, que comprei adiantado. Fazer o quê? Em seguida, parei em um bar perto da estação de trem e assisti ao jogo da Alemanha com a Argentina bebendo cerveja Leffe. Não achei graça fiquei com pena dos argentinos. Quatro a zero é um exagero!

Depois, comi um pain au chocolat e, quando minha peregrinação já terminava e eu estava prestes a voltar para o albergue, ouvi: “Brasileiro! Brasileiro!” Era um pessoal do congresso, que não sabia meu nome mas tinha me reconhecido. Fomos comer uma pizza e tomar vinho rosé, que, segundo Manuel, o chileno, é típico da região.

Em seguida, fomos a outro bar assistir ao último jogo das quartas-de-final (e lamentar a eliminação paraguaia para a Espanha). Bebemos a cerveja Kronembourg, mas no meu segundo copo resolvi inovar e provar algo que é popular entre os franceses e que meu amigo Cattapa, que morou em Paris, disse que era horrível: Monaco. Trata-se da mistura de cerveja com um xarope chamado grenadine. Não é ruim. Mas é doce, cerveja pura é melhor e, principalmente, parece que se está bebendo suco de chiclete.

E assim acabou minha temporada em Toulouse. Que venha a cidade-luz!

sábado, 3 de julho de 2010

Kapitel LXXXVII – A Realidade é Laranja

Esta sexta-feira era um dia que prometia emoções. O clássico entre Brasil e Holanda definiria uma das equipes semifinalistas da copa. Minha apresentação de trabalho no congresso em Toulouse seria entre sexta à tarde e sábado de manhã. Morri de medo de ser na hora da partida Acabou que foi marcada para o horário entre as duas e as quatro horas. Daria para apresentar e ver o jogo em seguida!

Com atrasos, pessoas falando muito mais do que os quinze minutos, e um comparecimento de todos os inscritos na seção (isso não aconteceu em quase nenhuma outra seção), o tempo passou e só pude apresentar bem tarde. Eu me saí bem, fiz a apresentação em espanhol, e o meu trabalho foi o que gerou maior polêmica, suscitando perguntas e dividindo a sala entre olhares entusiasmados de aprovação e não disfarçadas expressões de contrariedade. O mais pitoresco foi a presença, na sala, do segundo colocado na eleição para presidente da Colômbia, Antanas Mockus, que havia dado uma palestra pela manhã. Ele até perguntou para mim, após minha apresentação, como eu entendia o conceito de desmercantilização.

No intervalo, saí desesperado para ver o jogo. Troquei a camisa azul de pano de mangas compridas da apresentação pela amarelinha da seleção. Já havia perdido todo o primeiro tempo e logo soube que o Brasil ganhava por 1 a 0. Minha intenção de ir a um bar ver a partida foi pelos ares, mas eu tinha um laptop e o local do congresso tinha internet wireless gratuita. Combinação perfeita!

Conectei na transmissão francesa da partida e logo começou a juntar gente para assistir. Entre eles, Rodrigo, um chileno que estava no mesmo quarto que eu no albergue e, pelo que soube com ele depois, estavam também vários outros hóspedes, que eu nunca tinha visto. Logo arrumaram uma sala vazia do congresso para assistirmos. Um sujeito da organização tentou até plugar o laptop para transmitir a imagem grande, pelo projetor, mas infelizmente não funcionou. Todos torciam para o Brasil. Quando tirávamos fotos em diferentes câmeras, eis que a Holanda empatou, em uma incomum falha do goleiraço Júlio César. A fotografia que ilustra este Kapitel foi tirada segundos antes (mas a do momento do gol foi a da máquina do Rodrigo!).

A situação piorou com a virada holandesa e degringolou com a estúpida expulsão de Felipe Melo, que pisou um adversário. O Brasil está fora da Copa. Saí frustrado e voltei para o albergue. Comi um pouco de pão com patê (é o que mais tenho comido nos últimos dois dias, pois comprei no Carrefour uma mousse de foi gras e uma mousse de canard au Porto). Depois fui ver a outra partida do dia, pois o Brasil está eliminado mas a Copa do Mundo continua.

Fui ao bar argelino (ver Kapitel LXXXII), onde há uma tevê com a transmissão dos jogos e lá vi o primeiro tempo da excelente partida entre Gana e Uruguai. Enquanto comia um sanduíche da lingüiça árabe merguez e tomava dois copos do típico chá com menta argelino, vi o belo gol ganês e muito equilíbrio entre as duas equipes. No intervalo, até para fugir do calorão que fazia lá dentro (Toulouse já está um forno, imaginem dentro de um minúsculo bar onde há chapas esquentando sanduíches!), resolvi dar uma volta.

Andei em busca do ótimo bar em que eu tinha ido dois dias antes (ver Kapitel anterior), mas nada de achá-lo. Vi, ao longe uma torre de igreja, e resolvi ir até lá. Chegando lá. Pareceu-me uma igreja sem nada de muito especial, mas, prudentemente refleti: não devo fazer pouco caso dela, pois, de repente, ela é antiga para caramba. Não deu outra. A igreja de Minimes é do século XVI! Isto é Europa...

Andei mais, passei por criancinhas árabes com a camisa do Brasil, continuei em busca do bar Musical Ralimera, e o encontrei! Bebendo, mais uma vez, chope Karlsbräu, vi o segundo tempo, o golaço do craque Forlán, a prorrogação, o incrível lance em que Gana quase marcou duas vezes o gol mas os uruguaios salvaram na linha, só que o segundo deles com a mão, o pênalti no último minuto batido pelo ganense no travessão. Aí, na disputa de pênaltis, a fênix celeste acabou com a última esperança africana.

Se o goleiro de Gana tivesse assistido aos jogos do Uruguai, teria mais chances. Arriscou o canto e não defendeu nenhuma cobrança. Só que uruguaios – especialmente os defensores e à exceção de craques como Forlán – têm uma incrível tendência a mandar um canhão bem no meio do gol. É só o goleiro não sair do lugar que suas chances aumentam consideravelmente. Mas ele sempre pulou e Gana está eliminada. Para alegria de meus amigos uruguaios, a celeste olímpica volta a uma semifinal de Copa do Mundo. Pena que contra a Holanda.