Um brasileiro que fala um alemão macarrônico chega a Frankfurt sem saber nem mesmo onde vai morar... Aqui narro minhas aventuras nesta temporada germânica: lugares interessantes, enrascadas em que me meto, esquisitices que percebo a cada dia. O nome do blog é uma analogia aos irmãos Grimm, alemães que compilaram muitas dezenas de contos de fada tradicionais, como Branca de Neve, João e Maria, Rapunzel, a Gata Borralheira, o Músico Maravilhoso, Chapeuzinho Vermelho, e a Bela Adormecida (mais detalhes em Vorstellung).

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Centenas de fotos disponíveis em Ilustrações.


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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Kapitel CXIX – A Longa Noite Hamburguesa

Voltei ao Brasil há quatro meses, aproximadamente. Minha intenção era continuar narrando as derradeiras aventuras de minha temporada germânica, mas meus últimos dias no Velho Mundo foram muito corridos. A atualização dos Contos Fantásticos ficaria para o meu retorno, mas continuei sem tempo. Com apenas uma semana no Rio de Janeiro, já arrumei as malas para Caxambu, onde participei de um congresso. Dias após meu retorno, vivi a maior tristeza de minha vida: minha mãe faleceu. Foi difícil seguir em frente. A dor persiste forte, lá dentro.


Mas nunca desisti de completar os Contos Fantásticos do Irmão Gui, de escrever sobre cada um dos momentos que não pude romancear antes de meu voo de volta sobre o Atlântico. A falta de vontade, de ânimo, e por vezes até de tempo, foi atrasando o projeto. Corrigirei isso a partir de agora, na periodicidade que se apresentar conveniente. As lembranças não estão mais tão vivas, mas vasculharei as profundezas de minha memória (bem como as fotos do meu álbum e os mapas que eu trouxe...) para trazer todos os detalhes que conseguir. Só é muito triste que minha leitora preferida e número 1, de quem sinto tantas saudades, não está mais aqui para comentar os próximos Kapitel.


Hoje é a vez de tratar do meu último dia e meio em Hamburgo. Comecei aquele já distante 8 de outubro dando uma volta pelos lugares da cidade que ainda não havia conhecido. Andei um bocado – sem nenhuma segurança de estar no caminho certo, naturalmente – em torno dos bonitos lagos Binnenalster e Außenalster – que, na verdade, são formados artificialmente pelo represamento do rio Alster, tributário do Elba. Tomei uma cerveja escura Flensburger Dunkel – só conhecia a versão clara – e um sorvete (acho que de café, o meu preferido) de casquinha. A caminhada era muita e... sabem como é... dava sede. Fui obrigado a continuar a experimentação de cervejas: foi a vez, então, da escura de trigo König Ludwig. O bar, tipicamente alemão, era atulhado de quinquilharias, objetos antigos, copos e garrafas, postais, e artigos dos dois clubes de futebol da cidade: o HSV (que aqui no Brasil é chamado de Hamburgo mesmo) e o St. Pauli.

Segui caminhando até chegar a uma parte do bairro de Sankt Pauli que eu ainda não conhecia. Passei por belas construções, como a igreja ortodoxa russa Kirche des Heiligen Johannes von Kronstadt e a Alta Corte Regional Haneática, uma de frente para a outra. De lá, segui para conhecer o clube St. Pauli. Apesar de ser uma equipe pequena, que vive caindo para a segunda divisão, tem uma grande torcida espalhada por todo o país – é a quinta ou sexta maior –, não se limitando à cidade de Hamburgo.

Isso acontece porque sua camisa marrom não é o seu único diferencial. É tido como um time alternativo e de esquerda. Fundado em um bairro proletário que se tornou o maior centro de prostituição da Alemanha, foi o primeiro a proibir neonazistas na torcida e tem um presidente homossexual assumido. Assim, mesmo torcedores de outros times – tirando o rival HSV, é claro – acabam simpatizando com o St. Pauli e torcendo por ele quando não é contra sua própria equipe do coração. O caráter alternativo, no entanto, não aparece na hora de vender camisas: sua lojinha, supercheia, não vendia artigos mais em conta do que os dos outros clubes alemães. Ainda assim eu não resisti, e saí de lá com duas camisas marrons, uma desta temporada e outra retrô, comemorativa do centenário.

Segui para o bairro de Neustadt e passeei pelo belo parque Planten un Blomen, que no dialeto nortista local significa “plantas e flores”. De lá se podia avistar o imponente relógio de torre da igreja barroca de São Miguel (Hauptkirche St. Michaelis), um famoso ponto turístico da cidade. Continuei caminhando pelo centro de Hamburgo e ainda tive tempo de provar mais uma cervejinha – Ratsherrn – e ver o pôr-do-sol no porto antes de voltar para o albergue.

Naquela noite eu ia reencontrar Franco, um argentino radicado em Hamburgo que eu tinha conhecido em um congresso alemão sobre América Latina (ver Kapitel LXII) em Eschborn, cidadezinha próxima a Frankfurt. Se não fosse por não dar bola para futebol, Franco seria um perfeito estereótipo do argentino: cabeludo, dramático, dançarino (professor!) de tango. Fomos a Sternschanze, o bairro onde havia a maior concentração de mulheres bonitas que vi na Europa, e lá comemos um delicioso Schnitzel, o filé de porco empanado, com Käsespätzle, uma massa alemã (ver Kapitel VII). Era o prato mais parecido com bife à milanesa. Sim, Franco também gostava de milanesa... É quase o estereótipo do argentino, como eu disse.

De lá, fomos a um restaurante especializado em vinhos para nos encontrarmos com uma antiga amiga dele, também argentina, chamada Candelaria. Rimos muito, demais. Cande é uma figuraça, totalmente agitada, hiperativa. Bebemos um bocado, mas a noite não acabou lá. Fomos a uma boate que não cobrava entrada. Não era uma boa ideia, já estávamos arrasados. Mas não fomos embora sem arrematar com uma cuba libre.

Após sairmos de lá, fui dormir no albergue, certo? Errado! Era muito mais tarde do que eu imaginava que voltaria, e precisaria fazer o check-out do albergue relativamente cedo. Franco e Cande me sugeriram, então, sair naquela madrugada e ir para a casa dela, onde eu poderia acordar mais tarde. E assim fizemos. Eles ainda agüentaram um último vinho. Eu capotei no quarto.

No dia seguinte, fui com Cande dar meu último passeio pela cidade antes de voltar a Frankfurt. Já estava com passagem de trem comprada para umas seis ou sete da noite. Passamos pela Spitalerstraße, a rua comercial “cult-bacaninha” de que falei no Kapitel anterior, onde havia uma manifestação contra não sei o quê, cheia de gente deitada no chão. Depois, fomos aonde eu só havia estado à noite: a área portuária onde fica o Mercado de Peixe (Fischmarkt). Não havia, àquela hora, peixe algum, mas o lugar é bonito e foi bom vê-lo no claro.

Voltamos para a casa dela, eu peguei minha mochila e zarpei. Muito gentil, ela me deu todas as coordenadas para chegar ao metrô e, de lá, à estação ferroviária. Quem acompanha estes Contos Fantásticos sabe que isso não garante nada. Afinal, senso de direção não é, definitivamente, o meu forte. Havia, portanto, uma tensão no ar... Mas deu tudo certo, consegui pegar o trem e chegar tranqüilo – e bem tarde – a Frankfurt. Terminava, assim, minha última viagem de mais de um dia de duração antes de retornar ao Brasil.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Kapitel CXVII – Telas e Trilhos

Falta pouco tempo para eu voltar para o Rio. Dizem que brasileiro deixa tudo para última hora. Não é que seja o meu caso, pois acho que fiz muita coisa ao longo destes seis meses, mas de fato estou mantendo um ritmo alucinante de atividades nesta reta final. Dois dias depois que voltei de viagem da Bélgica, fui comer um Spätzle e tomar uma cerveja com o Jens, em um bom restaurante no bairro de Bockenheim.

No dia seguinte, fomos ao bar Wirtschaft, também em Bockenheim, ver o jogo entre o Hannover 96, o time dele, e o St. Pauli, equipe alternativa e proletária da cidade de Hamburgo. Dois a zero para a equipe marrom do St. Pauli, que era visitante. Apesar de minhas simpatias por ela, eu preferiria outro resultado, já que se tratava do time do Jens. Em seguida, fui diretamente ao Balalaika, o bar musical do bairro de Sachsenhausen, para me encontrar com Gilberto e Letice. Coincidentemente, cruzei no meio do caminho com Lara e Xenia, assim que atravessei a ponte sobre o rio Main. Elas iam a uma festa. Nós nos despedimos mas a festa delas não estava lá essas coisas e, mais tarde, não é que elas também apareceram no Balalaika?!

Um dia depois, sábado, fui à casa do Gilberto e da Letice, onde assistimos a um filme brasileiro: “Árido Movie”. Ele comprou um projetor e um telão, e foi ótimo ver a imagem como no cinema. Foi bem legal também reencontrar Felipe e Fiorina, que também foram. E isso tudo regado a vinho.

No domingo, dia da votação, Gilberto foi ao consulado exercer seu dever cívico. Eu não pude votar porque não transferi meu título, já que queria poder dar meu apoio à Dilma caso houvesse segundo turno. Depois, no entanto, eu e ele fizemos uma rápida viagem. Fomos a Fulda, cidade a menos de uma hora de Frankfurt.

Antes, na estação de trem Hauptbahnhof, foi engraçado ver torcedores do pequeno Energie Cottbus. Logo reconheci que era o time do meu amigo Bertram. Aliás, ele comentou que vários times do leste da Alemanha têm nomes típicos da cortina de ferro, como Energie, Dinamo etc. Aqueles torcedores, que gritavam muito com suas camisas vermelhas, estavam lá porque sua equipe foi a Frankfurt enfrentar o segundo time local, o FSV Frankfurt, em partida válida pelo seguinda divisão alemã. E, assim como o time do Jens, a equipe do Bertram também perdeu: 3 a 2.

Fulda é uma cidade bonitinha, apesar de pouco badalada. E impressionante- mente organizada para o turismo: há numeração para explicações em áudio em frente aos prédios históricos no meio da rua, tal como é comum no interior de museus. Além de charmosas casas antigas, e igrejas imponentes, há um belo castelo com um não menos bonito jardim em frente a ele. Infelizmente, como fomos tarde, começou a escurecer. Como a cidade é pequena, no entanto, acho que deu para ver tudo. Ficamos apenas umas duas horas lá e voltamos.

À noite, foi a vez de aproveitar uma promoção do serviço de trens alemão, que acabava naquele dia: passagem para qualquer cidade dentro do território alemão por apenas 20 euros. Comprei pela internet uma passagem de ida para Hannover, para ir com o Jens, que é de lá, e uma de volta de Hamburgo, que fica ainda mais a norte e eu querida visitar em seguida.

Na segunda-feira, recebi em casa Lara, Xenia, Lucia e Nikolai para vermos outro filme brasileiro, que acho que eles nunca teriam a oportunidade de ver de outra forma: “Cinema, aspirinas e urubus”. Antes, mostrei um curta-metragem alemão que venceu o Oscar: “Spielzeugland”. Depois, ouvimos músicas brasileiras de todo tipo. Foi divertido.

Quarta-feira, parti de viagem com Jens para Hannover. Também não é uma cidade badalada pelos turistas, mas tem muitos lugares interessantes. No imponente prédio da prefeitura, surpreendentemente tranqüilo em relação à vigilância, há quatro maquetes mostrando a cidade em diferentes épocas: em 1689, às vésperas da Segunda Guerra (1939), após ser destruída pelos bombardeios aliados (1945), e hoje em dia. Bem impressionante, mas não tanto quanto a igreja de Santo Egídio, que, quase toda destruída, não foi recontruída; mantiveram o que restou, como monumento à paz (semelhante ao que fizeram com a Kaiser-Wilhelm-Gedächtniskirche, em Berlim; ver Kapitel XCVIII).

Vimos ainda um lago totalmente artificial, em frente ao qual está o estádio do Hannover 96. Visitamos a igreja protestante Markkirche, onde havia dentro uma exposição de arte moderna. Aliás, a cidade gosta de arte moderna, e três esculturas muito loucas – que são uma bandeira para as feministas – são um símbolo da cidade, quase tão importantes quanto o cavalo rampante e a dupla de leões que guarda a entrada de diferentes prédios públicos, como a prefeitura e a universidade. Almoçamos num bom restaurante grego, onde comi um ensopado de carneiro com um enorme feijão branco e vegetais. Para beber, uma cerveja escura tcheca levemente doce chamada Staropramen. Mais tarde, provei uma cerveja local, Gilde.


Achei bem bonita uma parte do centro da cidade cheia de prédios antigos. Jens contou que, nos anos 1920, era uma área caótica, com muita criminalidade, cheia de mosquitos, onde viviam as prostitutas e os marginais, por ser a área mais desvalorizada. Após o bombardeio da Segunda Guerra, toda a área foi devastada. Reconstruíram a região de uma forma totalmente diferente, com prédios em estilo antigo que só existiam em outras partes da cidade. Isso significa que o que existe hoje lá é artificial; mas levando-se em conta que é uma das áreas mais bonitas e que antes era uma das mais feias, acho que fizeram bem em não ser tão fiéis à arquitetura original.

Também lindo é o parque Herrenhäuser Gärten, dividido em vários subjardins, com chafarizes, flores e estátuas brancas, de frente para um palacete. É impossível visitá-lo e não pensar em Versalhes ou Fontainebleau (sobre eles, ver Kapitel XC). Pouco depois das sete, voltamos à estação de trem de Hannover, tomamos um sorvete e cada um foi para seu canto. Jens voltou para Frankfurt. Eu segui para Hamburgo, cidade que todo mundo elogia muito. É o ponto mais setentrional em que estive até hoje. Depois contarei como foi lá. E aí faltará apenas uma semana para voltar para a Cidade Maravilhosa.

domingo, 3 de outubro de 2010

Kapitel CXV – Trilogia: As Duas Bruxelas

Enfim, cheguei a Bruxelas. O aeroporto é estranho, parece um labirinto. É preciso andar muito lá dentro, subir escadas, descer escadas, dar voltas e mais voltas em caracol... tudo bem pouco racional. Fui seguindo outros passageiros, é claro, para achar o lugar de pegar a bagagem. Só que, quando percebi, eu já estava na área de saída do aeroporto. Precisei pedir ajuda para o pessoal da segurança para entrar novamente e pegar minha bagagem.

Bruxelas é uma cidade bem maior do que eu esperava. Capital da União Europeia e sede da OTAN, tem grande quantidade de estrangeiros. Por esse motivo e pela combinação de casas antigas com prédios modernos, era inevitável que eu a comparasse com Frankfurt, e a visse como uma versão belga da cidade onde estou morando. Só que não apenas achei as distâncias maiores em Bruxelas como a sua população é uns 30% mais numerosa do que a de Frankfurt.

Logo me chamaram a atenção os prédios antigos, com amplo predomínio das cores bege e cinza, as impressio- nantes seqüencias de casas conjugadas (sem nenhum espaço entre elas), também a presença de muitas casinhas de tijolos, e as amplas áreas das praças e prédios públicos, em contraste com a aglomeração das velhas casas “amontoadas”. Não faltam estátuas, principalmente de homens montados em cavalos, como chamou a atenção minha mãe. O pior da cidade é a antipatia da maioria dos garçons e dos funcionários dos transportes públicos. Um aspecto extremamente charmoso são as cenas de quadrinhos pintadas em grandes dimensões nas paredes de vários prédios; adorei, e fotografei várias.

Há algo, no entanto, bem mais pitoresco na cidade, e na Bélgica como um todo. É um país que não é bem um país. É dividido em duas regiões, uma em que se fala holandês – Flandres – e outra em que se fala francês – Valônia. Não é incomum que flamengos não saibam falar francês e que valões desconheçam o holandês. Enquanto os flamengos aprendem francês no colégio mas depois pouco o usam, inclusive podendo se ofender se você se dirigir a eles na língua francesa (é melhor usar com eles o inglês), os valões podem não ter nem mesmo o menor conhecimento da língua holandesa, pois têm a opção de estudar na escola holandês ou inglês, como preferirem.

O país tem as duas regiões e, no seu centro, fica a capital, Bruxelas. Trata-se de uma área bilíngüe, localizada próxima ao limite entre as duas regiões mas dentro de Flandres. Originalmente uma cidade flamenga, acabou, por sua importância, recebendo tantos valões que, hoje, a língua predominante, que se ouve sempre nas ruas, é o francês.

Só que no país tudo tem que ser dividido em cada uma das culturas lingüísticas. Todas as ruas de Bruxelas têm um nome em cada idioma, os partidos políticos são sempre dois de cada ideologia (há um socialista flamengo e um socialista valão, um liberal de Flandres e um liberal da Valônia, etc.) e até a universidade é, na verdade, duas. Meu curso de verão sobre partidos políticos durou uma semana, acontecendo primeiro no campus valão (Université Libre de Bruxelles) e, nos últimos cinco dias, no flamengo (Vrije Universiteit Brussel).

Acabei chegando tarde ao hotel que estava reservado para os estudantes do curso de verão. Tomei um banho e fui à universidade. Não tinha levado o mapa e custei muito a achar o local, que era o instituto de investigações europeias. Cheguei uma hora depois ao coquetel de inauguração (que, a propósito, foi bem mixuruca). Fui o último não desistente a chegar: os demais participantes ou chegaram muito mais cedo ou não foram nesse dia. Aquele primeiro momento foi meio frio. Eu tentava fazer piada, puxar assunto, mas todos estavam meio tímidos e retraídos. Mas era apenas o “gelo” inicial. A turma tinha muita gente legal e nos divertiríamos bastante.


Eu era o único latino-americano do curso, cujo corpo discente se destacava pelo fato incomum de, entre quinze alunos, três serem portugueses. Eles, aliás, se tornaram meus melhores amigos lá, junto com a italiana Luana, sulista de sangue quente nascida em Puglia. João, sempre muito engraçado, nasceu em Évora e é filho de pais alentejanos. Estuda na Universidade de Aveiro com Patrícia, que vem dessa cidade mesmo. Edalina nasceu na Espanha, filha de pais cabo-verdianos, mas foi novinha para a Terrinha e também é “tuga”.

A turma tinha ainda três estadunidenses: uma judia de Ohio chamada Sarah, que sempre falava alto, rápido e com muita gesticulação; um chinês de Taiwan que se mudou criança para a Califórnia e adquiriu nacionalidade ianque (chama-se Willy e foi meu companheiro de quarto); e uma estudante de relações internacionais radicada na Alemanha. Alás, havia também uma alemã da Baviera, uma coreana que mora no Texas, um romeno meio doido, o francês Matthieu (que não fala português mas tem pai lusitano; eu e João começamos a chamá-lo de Mateus) e três belgas.

Entre os belgas não havia nenhum valão. Maïté, que pouco fala holandês e é francófona (e fuma como uma francesa), reclamou quando eu disse que ele era da Valônia. Observou que era de Bruxelas, e que, apesar de falarem francês, bruxelenses e valões são completamente diferentes. Ah, bom. A propósito, ela é também, provavelmente, o único caso do mundo de alguém que foi à Polônia com a motivação de aprender a falar inglês (?!).

Os demais belgas da turma eram flamengos. Um era Tom, que era gente-boa mas deu uma declaração tão equivocada como infeliz: disse que o único time de futebol brasileiro que conhecia era o Boca Juniors. Lamentável e imperdoável! A outra belga, que foi a que ficou mais próxima dos luso-ítalo-brasileiros, especialmente no final, era Sofie. Alta, loira, magra, bonita, simpática, elegante, delicada e sorridente, ganhou o apelido de “princesa da Disney”. Cinderelamente, aliás, deixou o sapato cair enquanto andava conosco em uma rua de Bruxelas, mas eu bobeei e não peguei a tempo.

Eu, João, Patrícia, Edalina e Luana saímos vários dias juntos, depois da aula da tarde, passeando pela cidade, conhecendo os lugares turísticos, jantando e bebendo cerveja. Às vezes alguma outra pessoa ia conosco, às vezes algum deles ficava no hotel para descansar ou preparar alguma coisa relacionada os estudos. Eu fui o único que saí todos os dias, sem exceção, inclusive na véspera da minha apresentação. Foram saídas leves, voltando cedo, mas me recusei a passar algum dia trancafiado no hotel. Além disso, sempre quando eu voltava, ainda tinha pique para ir para a internet. Como as aulas começavam às nove da manhã e as universidades (sim, os dois campus) não ficavam perto do hotel, passei duas semanas dormindo seis horas ou menos todos os dias.

A Bélgica é a grande rival da Alemanha na disputa pelo posto de país com as melhores cervejas do mundo. Tive seis meses na Alemanha para provar várias cervejas. Como só estive duas semanas na Bélgica, precisava ser rápido para ter base para comparação. E provei várias cervejas: Westmalle Trappist, Leffe Brüne, Leffe Blonde, Chimay Blue, Duvel, Waterloo, Judas, Vedett, Grimbergen Dubbel, Jupiler, Orval, Trappistes Rochefort e até a não-alcoólica Tourtel (essa por acidente, porque o Tom me disse equivocadamente que era uma stout).

Provei ainda cervejas lambic (de trigo, com fermentação espontânea), faro (versão mais adocicada da lambic), gueuze Mort Subite Framboise (lambic misturada com framboesa; não é ruim, mas prefiro cerveja normal) e St Lamvinus Cantillon (lambic misturada com uva, lembra um vinho beeeem doce, argh!). Como não anotei, no entanto, não tenho certeza se realmente bebi todas essas e provavelmente estou me esquecendo de alguma.

Cheguei à conclusão de que certamente prefiro as alemãs. Se fizermos uma comparação com os vinhos (não sei se é uma boa comparação, mas acho que possibilita expressar minha avaliação), as cervejas alemãs são como vinhos secos e as da Bélgica como vinhos suaves. As cervejas belgas têm em geral um gosto mais frutado e, apesar de terem alto teor alcoólico, não são encorpadas como as germânicas. Minha cerveja preferida entre as que eu provei lá foi justamente a que mais me lembrou as boas alemãs: a ótima Chimay Blue. Ah, e valeu a pena prová-las, só para conhecer, mas não achei nada saborosas as lambic e as faro; prefiro inclusive o “suquinho de framboesa” gueuze a elas.

Nem só de bebida vive a Bélgica, é claro. Os belgas são especialistas em batatas fritas, o que não como, mas também têm enorme tradição nos waffles (ou gauffres, em francês). Comemos as duas versões com chocolate (de que também são exímios produtores): o de Liège, que é mais durinho, e o de Bruxelas, mais mole. Não sei qual é melhor, mas são ambos muito tradicionais no país.

Um dia, fomos a um restaurante português assistir ao clássico lisboeta entre Benfica e Sporting, o Fla-Flu da capital lusa. E para a alegria de Edalina, que estava tensa, e para leve decepção de Patrícia (bem leve mesmo, aliás, pois não estava lá muito preocupada), deu vitória “encarnada”: fácil, fácil, dois a zero para o Benfica. Comemos bifanas, uns sanduíches de carne de porco, e, lá, nossas cervejas eram lusas: Sagres e Superbock.

O restaurante aonde fomos mais vezes, no entanto, foi um que tinha uma ótima sopa de lentilhas. Foi sugestão de Luana, que ficou viciada no lugar. Tomei a sopa em dois dias, e em outros dois comi um gostoso crepe com diferentes queijos. Aliás, Luana merece um comentário adicional em relação à culinária: disse que adora comida inglesa e que está cansada de ver restaurante italiano por todos os lados. Como assim? Está cansada de comer massa e acha a culinária inglesa boa?! Bizarro. Ela mesma já contou que dizem que é uma italiana fake: também não gosta de café, nem de futebol. Mas após duas semanas deu para ver que não é completamente “falsificada”: fala com as mãos, tem sangue quente e não admite que a massa não esteja al dente.

Houve um dia que fomos todos convidados pela organização do curso para ir a um restaurante típico belga. Lá, comi um filet americaine tartar (foi a segunda vez que comi esse prato; a primeira, em Paris, está descrita no Kapitel XC). De sobremesa, mandei ver em uma dame blanche, um sorvete de creme com calda quente de chocolate; o gosto lembrava o do profiterole e é uma sobremesa popular no país.

Também houve dia em que fomos a um restaurante italiano, a um tailandês, e em que comemos pizza. O mais inusitado certamente foi a vez em que comi canguru. Nunca imaginei que provaria tal carne na Bélgica. É boa, mas lembra muito a bovina, não sendo, portanto, muito diferente do trivial. E a carne de canguru estava macia, diferentemente do que, no passado, eu tinha ouvido falar sobre ela.

O bandejão dos dois campus também não era ruim – aliás, era bem melhor do que o Mensa da Universidade de Frankfurt. O que era complicado era encarar as enormes filas. É claro que houve dias sofríveis, como uma péssima sopa ou falta de acompanhamentos razoáveis, mas no geral havia boas opções. Inclusive pratos típicos belgas, como os boulettes à la liégeoise e o vol-au-vent.

Mas não pensem que nossos passeios se resumiam à comilança. Desbravamos a cidade por vários dias, especialmente no domingo, quando a maioria das ruas estava fechada para os carros. Fomos algumas vezes à bela Grand Place, inclusive presenciando o lindo espetáculo de luzes no prédio da prefeitura. Também fomos ao Atomium, visitamos o Parlamento Europeu, e passamos a mão em uma imagem de Jesus que dizem que dá sorte.


Cruzamos outras tantas oportuni- dades com o conhecido Maneken Pis. É a famosa fonte em forma de um menino fazendo xixi. Quando visitas ilustres vêm de outros países, costuma-se vesti-lo com trajes que homenageiem o visitante. É uma cópia dele o Manequinho, que, localizado no Rio de Janeiro, tornou-se um símbolo do Botafogo. Todas as pessoas ficam decepcionadas com o Maneken Pis, por ser muito menor do que se imagina. De fato, é pequenino, parecendo ainda menor pelo contraste com a grande estrutura atrás dele.

Mas é um ponto inevitável de visitação, justificando a estampa de uma camiseta que eu vi, com o desenho dele e a inscrição “eu sou pequeno mas sou o dono do pedaço”. Há na cidade também a versão feminina e a versão canina do Maneken Pis: a menina, Jeanneke Pis, está agachada urinando, e o cão tem até a perninha levantada. Só que, se o Maneken Pis tem sua importância pelo fato de ser a primeira fonte da cidade, instalada no século XVII, a menina e o cachorro não têm nem de longe o mesmo destaque, até porque têm poucas décadas de existência.

Um dia, fomos ao museu histórico, que abriu à noite, gratuitamente. Mas funcionava de um modo diferente: estava com as luzes apagadas e lanternas eram distribuídas para as pessoas. A ideia era divertida, apesar de, obviamente, não motivar muito a ler textos mais extensos. Havia algumas coisas bem interessantes, como cartazes políticos. O que mais gostei foi a antiga charge “Pyramide a Renverser”. Com o desenho de uma pirâmide em que o rei estava no topo, localizando-se abaixo dele, nesta ordem, clérigos, militares, burgueses e, em sua base, os populares, a charge tinha as seguintes inscrições ao lado dos respectivos personagens: “A Realeza – Eu reino sobre vocês; O Clericalismo – Eu oro para vocês; O Militarismo – Eu atiro em vocês; O Capitalismo – Eu como para vocês; O Povo – Eu trabalho para vocês.” Simplesmente brilhante.

No sábado, viajei com Patrícia, Edalina, Luana, João e a coreana para Gent e Brugges. A ideia original era ir a Brugges, mas quando Patrícia consultou Tom, ele disse que a cidade era uma farsa. Ela perguntou se não era interessante ir lá e ele respondeu: “se você gosta de Disneylândia”. Obviamente era um exagero, mas de fato a dica de ir antes a Gent foi ótima. É uma cidade tão medieval quanto Brugges, só que mais bonita e menos turística. Basicamente é a mesma coisa sem aquele monte de propaganda em cima.

Só me irritou o fato de que cobravam para ver a Catedral. Eu já tinha ido a igrejas que deixavam ver de graça, já vi cobrarem só para conhecer as catacumbas ou alguma sala com relíguias. Já tinha visto até a parte cobrada ser um terço da igreja, o que já me parecia um excesso. Mas o que presenciamos em Gent foi ridículo: simplesmente um pedaço minúsculo depois da porta estava com acesso liberado, e uma cortina preta cobria a visão da igreja inteira, incluindo o altar. Como se não bastasse, uma leva de turistas saía irritada de lá reclamandado que não havia nada para ver e que tinham jogado quatro euros fora. Obviamente não vimos a igreja, portanto. Mas a cidade é bonita, e valeu a pena pagarmos para subir em uma torre, que tem vista panorâmica.

Minha estadia na Bélgica foi proveitosa. Não apenas porque participei de um bom curso, mas porque me diverti um bocado e fiz ótimos amigos: Patrícia, sempre boazinha e perita em imitar sotaque brasileiro do interior; Luana, a italiana algo reclamona e gente-finíssima; João, o camarada com quem dei muitas gargalhadas; e Edalina, que sempre brincava que eu e ele éramos “os piores” por causa da bagunça que aprontamos na cidade (vários garçons pediram, com educação ou com grosseria, para falarmos baixo); sem falar na princesa belga Sofie. Amigos que não esquecerei. Os “piores”, sem dúvida. Como dissemos: “os piores serão os melhores”.

sábado, 4 de setembro de 2010

Kapitel CXII – O Boi Adormecido

A noite de ontem foi divertida. Fui ao bairro de Sachsenhausen, do outro lado do rio Main, para assistir em um bar com Florian ao jogo de futebol entre as seleções da Alemanha e da Bélgica. Depois da partida, nós nos encontramos ali perto com Vítor, Julian, Filipe e Fiorina e fomos a outro bar, numa área conhecida como a “antiga” Sachsenhausen, ou Alt Sachsenhausen.

Lá, bebemos “cerveja de litro”, que, diferentemente de como ocorre no Brasil, era medida horizontalmente e não verticalmente: vinha um suporte de madeira com vários copinhos de uns 200 ml. Parecia muito, mas em cinco ou dez minutos estavam todos os copos vazios. Uma segunda rodada foi necessária. Rimos muito, falamos muita bobagem, e voltei tarde para a casa, no ônibus noturno, já que o metrô tinha parado de funcionar uma hora mais cedo.

Quanto à partida da Alemanha, a seleção germânica venceu bem, por 1 a 0, fora de casa. Superou a Bélgica, que, se não é um timaço, tampouco é uma Ilha Farö ou Liechtenstein da vida, configurando-se em uma das seleções competitivas do grupo. A partida não era um amistoso, como eu supunha, mas o primeiro jogo das eliminatórias para a Eurocopa de 2012. O gol foi marcado por Klose, após uma roubada de bola de Schweinsteiger, aproveitando um cochilo da defesa belga. Na mesma rodada, a França, por exemplo, passou vexame, perdendo em casa para Belarus.

Este jogo da Alemanha me motivou a escrever aqui um conto fantástico que há tempos eu pretendia, mas sobre o qual, com a minha viagem para a França e, depois, a eliminação da Alemanha no mundial e o fim da Copa do Mundo, acabei perdendo o gancho. Trata-se da seleção “multicultural” da Alemanha. Durante a Copa, era impressionante o volume das reportagens e comentários exaltando o fato de haver no time jogadores de diferentes origens e nacionalidades. Até pelo horror que os alemães sentem do passado nazista, há um sentimento muito positivo pelo fato de haver negros e turcos na seleção. Historicamente, a Alemanha costumava ser um time branco, diferentemente do que já ocorria há mais tempo em outras eleções europeias, como Inglaterra, Holanda, Portugal e França.

De fato, a seleção da Alemanha que jogou uma boa Copa e que, em minha opinião, merecia ser a campeã (e teria sido, se não tivesse caído tanto de rendimento no jogo contrea os espanhóis), tinha gente de todas as partes. Miroslav Klose e Lukas Podolski, contestados e vitoriosos jogadores com um longo histórico na seleção, vêm, como se sabe, da Polônia. Os poloneses não gostam muito e os consideram traidores (isso me disseram os polacos no albergue em que fiquei em meus primeiros dias de Frankfurt; sobre eles, ver Kapitel II), mas eles de fato cresceram na Alemanha. Klose se mudou para o país aos sete anos e Podolski, aos dois.

Há outros estrangeiros nessa situação entre os participantes da Copa do Mundo. Andreas Beck mudou-se com sua família aos três anos de idade da União Soviética para a Alemanha. Marko Marin fez o mesmo, aos dois anos, vindo da Bósnia Herzegovina. Piotr Trochowski, nascido na Polônia, foi para a Alemanha aos cinco anos de idade. Há ainda jogadores com sobrenomes e aparência bem diferentes do alemão típico, mas que nasceram no país. Dennis Aogo é alemão de Karlsruhe, mas filho de pai nigeriano. O berlinense Jerome Boateng é filho de pai ganês. O ídolo Mesut Özil e Serdar Taşçı são ambos filhos de imigrantes turcos mas que nasceram na Alemanha. Sami Khedira é alemão filho de pai tunisiano, e Mario Gómez, de pai espanhol.

Considero muito positivo isso. Acredito que, em umas duas décadas, não só a Alemanha mas a maior parte da Europa serão como o Brasil, um lugar de muita mistura, em que não será possível identificar um rosto típico. Loiros, negros, pessoas de olhos puxados, árabes, indianos, todos os rostos poderão ser de cidadãos locais, nascidos e criados ali. Entretanto, acho que uma coisa é um jogador nascer na Alemanha filho de pais estrangeiros, ou mesmo se mudar ainda criança e crescer no país, e outra bem diferente é, depois de adulto, ele se naturalizar e jogar pela seleção alemã. E o clima no país é o de apresentar Cacau como se estivesse na mesma situação de Özil, Podolski ou Marin.

Cacau, ou Claudemir Jerônimo Barreto, é paulista de Mogi das Cruzes. Trilhou o mais improvável caminho em sua bem-subcedida carreira futebolística. Foram várias tentativas frustradas de decolar no futebol no Brasil. Diante dos insucessos, trabalhou como assistente de pedreiro e vendeu refrigerantes e salgadinhos. Em 2000, começou a jogar em um time da quinta divisão alemã, chamado Türk Gücü München. Depois, foi contratado para jogar no time B do FC Nürnberg. Agradou e passou para o time principal, jogando na Bundesliga. Transferiu-se, então, em 2003, para um clube mais importante, o Stuttgart, pelo qual jogou a Copa dos Campeões da Europa no mesmo ano e, depois, novamente na temporada de 2007-2008. Tem contrato com o Stuttgart até 2013.

Sem jamais ter sido chamado para a seleção brasileira, obteve o passaporte alemão em 2009, após oito anos vivendo no país, e foi convocado para a equipe nacional, onde é ídolo incontestável. Apesar de não ser titular, é incrível como é unânime a vibração da torcida quando ele entra em campo. Isso não me contaram; eu vi em cada jogo na Copa do Mundo. O atacante substitui algum titular e as pessoas sorriem, comentam, festejam, torcem.

Florian, certa vez, perguntou: “Cacau é meio-brasileiro, não é?” Eu respondi: “Não, Kurányi é meio-brasileiro. Cacau é completamente brasileiro!” Kevin Kurányi, atacante que não esteve na última Copa, nasceu no Rio de Janeiro, filho de pai húngaro criado na Alemanha e de mãe panamenha. Jogou dos seis aos 13 anos de idade no Serrano, de Petrópolis, com um período de um ano no clube panamenho Las Promesas, para onde voltou em 1996. Apenas em 1997, aos quinze anos, ele se mudou para a Alemanha, para jogar nos juvenis da equipe B do Stuttgart.

Minha brincadeira foi, justamente, uma crítica a essa ideia de que a situação é a mesma. Cacau é um batalhador, merece ter sucesso na carreira, mas me agrada este fenômeno, comum em todo o mundo, de os times naturalizarem estrangeiros para compensarem deficiências de sua equipe. Já cansei de ver braisleiros, que no máximo moram há muito tempo fora, defenderem seleções como a do Japão, de Portugal, da Tunísia, da Espanha, da Bélgica... O mesmo ocorre com africanos, surinameses, argentinos... Acho que nascer ou crescer em um país é motivo forte o suficiente para jogar pela seleção desse país; mudar-se para lá já adulto, com outra cultura, e viver lá por uma década não é, por mais que goste de lá e tenha se ambientado bem.

Não é o primeiro caso na Alemanha. Outro brasileiro, Paulo Rink, jogou pela seleção há algum tempo, sem qualquer ligação prévia com o país. O ganês Asamoah, que jogou por vários anos na seleção alemã, foi para lá aos 12 anos. É mais legítimo do que a situação de Cacau e Paulo Rink, ainda que eu tenha alguma dúvida (sim, é uma dúvida, também não tenho certeza se mereceria ser criticado) se é o mesmo caso de estrangeiros que imigraram quando eram crianças bem mais jovens, entre dois e sete anos de idade.

Enfim, cada caso é um caso. Mas, em linhas gerais, o que quero dizer é que, se é fantástico – não apenas futebolisticamente, mas também (bem mais importante) socialmente e humanitariamente – que não haja restrições para a participação de alemães com as mais variadas origens étnicas e culturais na seleção nacional, por outro lado, convocar jogadores que não são alemães não tem nada a ver com isso. Trata-se de um mero artifício para tornar a equipe tecnicamente mais competitiva. Neste caso, a história da seleção multicultural deixa de ser uma bela transformação social e passa a ser mera conversa para boi dormir.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Kapitel CVIII – O Gato de Botas e o Suspensório

Munique é uma cidade bonita, mas não é tão limpa e neuroticamente certinha como tinham me falado. Vi guimbas de cigarros no chão e muitos playboys correndo de carro. Florian tinha dito que é bem mais cara do que as outras cidades alemãs, mas vi camisas, bermudas e camisetas na promoção que eram muito baratas (comprei uma por três euros). De todo modo, a informação dada por meu amigo talvez tenha fundamento. Afinal, dá razão a ele o meu virtualmente infalível método de avaliar o quão careira é uma cidade europeia: o preço da bola de sorvete na casquinha (ver Kapitel XLVII e LXXXIV). Em Frankfurt, ela costuma custar oitenta cêntimos, sendo um euro o da Mövenvick. Pois em Munique custou 1,20. O sorvete de pistache estava ótimo, mas não nega que Munique é mais cara.

Além desse sorvete, comi em Munique um salgado turco que era um pão com carne que veio fatiado e não entendi o nome (“bire”, “bude”, não sei...) e provei várias especialidades bávaras: pretzel (Bretzel em alemão e Brezn no dialeto bávaro), as já conhecidas salsichinhas brancas com mostarda doce (ver Kapitel VII), uma estranha mas boa Bayerische Festagssuppe (com bolinhos de semolina, bolinhos de fígado, tiras de panqueca e Markklößchen, que acho que é tutano, mas não tenho certeza), e um porco enrolado (Roll-qualquer-coisa-shwein; não anotei o nome, e este era comprido) acompanhado de chucrute. Só provei cervejas que ainda não conhecia: Franziskaner Dunkel Hefe-Weisse, Augustiner Dunkel, Augustiner Lagerbier Hell, uma ótima Ayinger Kellerbier (não filtrada), a também boa Ayinger Jahrhundert (clara), Hofbräu Urbock (forte). Nenhuma cerveja mais ou menos; todas aprovadas!

Por falar em comidas e bebidas, o atendimento nos bares de cerveja em Munique é péssimo (exceção para o Ayingers Wirtshaus). No que fica perto do albergue, que serve Augustiner, eu fiquei um tempão esperando e nada de me atenderem. Fui, então, ao bar, supondo que era preciso pedir lá. Ao me ouvir falando com o funcionário do bar, um garçom respondeu que eu tinha que pedir na mesa, pois lá não funciona self-service.

No dia seguinte, fui ao Biergarten (jardim de cerveja) da Torre Chinesa, localizada no parque Jardim Inglês. Lá, há uma grande fila onde cada um, com sua bandeja, vai pedindo o que quer e, depois, paga no caixa. Primeiro, vi uma costela grande e uma carne de porco enrolada. Perguntei ao sujeito do balcão o que era – porque eu queria saber os nomes – e ele me respondeu, impaciente: porco e porco, os dois são porco.

Depois, quando fui pagar, a mulher do caixa perguntou se eu não tinha cinqüenta cêntimos, e eu fiquei procurando, mas nada de encontrá-los. Estava tão difícil que até uma moeda de um euro caiu no meu prato (eca!). E não é que a salafrária ficou resmungando? Quem tinha a obrigação de ter troco era ela, eu estava fazendo uma gentileza de tentar encontrar. Esse povo está assoberbado de trabalho, eu sei, é muita gente enchendo a cara de cerveja, mas não pode atender mal desse jeito... Além de tudo, é cobram caro!

No meu primeiro dia em Munique, passeei principal- mente pelo centro histórico, onde vi muitas construções bonitas, como as igrejas St. Paul’s Kirche e Freuen Kirche, o Neues Rathaus e toda a área da Marienplatz. No segundo, também passei por lá mas procurei ver os marcos presentes no mapa que estavam mais afastados, como o Maximilianeum. Quando eu procurava o Deutsches Museum, que fica mais a sudeste, acabei me deparando, sem querer, com o rio Isar. Muito bonito. Eu já estava estranhando estar em uma cidade grande na Europa em que não via um rio bem no meio onde as pessoas se encontram. Foi uma grata surpresa...

Faz um calor toulousiano em Munique (quando fui a Toulouse, estava tão quente que comecei o Kapitel LXXXII dizendo isso), mas a população descobriu um jeito fantástico de resolver o problema: ir à praia! Munique está londe do mar, mas as pessoas vão com trajes de banho (sunga, calção, biquíni, até topless eu vi!) para a beira do rio Isar. Eu não estava preparado para isso, mas não resisti. Tirei camisa, óculos, relógio, e, na beira, tomei o chamado “banho de gato”, de calça comprida e botina mesmo. Excelente! Se mais tempo eu ficasse, é certo que tiraria uma manhã ou tarde para nadar!

Depois, fui ao Deutsches Museum, uma dica do Marlos. Ele fica, a exemplo dos principais museus de Berlim, em uma ilha, também chamada pelo convencional nome de Museumsinsel. O museu é enorme, são muitas salas e muita coisa exposta. Para fazer uma visita detalhada e completa, são necessários pelo menos quatro ou cinco horas. Eu estava cansado de tanto caminhar e, por isso, uma olhada despretensiosa durante duas horas foi satisfatória. E, apesar de não ter sido tão minuciosa, ainda assim não consegui ver tudo e faltaram várias salas, como a dos instrumentos musicais e a das telecomunicações.

O museu é dedicado à tecnologia, mas a aborda de maneira bem abrangente. É um prato cheio para engenheiros, físicos, aficionados por automóveis ou por aviação. Mas é interessante para outras pessoas também. Há motores, hélices, turbinas, altímetros, robôs, tratores, muitos aviões e helicópteros, carros, moinhos e várias outras máquinas. Além disso, há criaturas abissais submarinas, um modelo que simula o diferente funcionamento da físico-química para dimensões muito microscópicas, e por aí vai.

Na saída do albergue, antes de ir a Regensburg, ouvi reclamação de montão porque fiz o check-out à uma quando o certo seria às dez. Eu não me lembro de terem me dado tal informação e, se deram, eu não devo ter entendido. Senti no ar uma intenção de me cobrarem outra diária, o que obviamente não ia rolar. Fiquei repetindo “mas eu não sabia, mas eu não sabia”, até que deixassem para lá. De todo modo, o albergue – Meininger City Hostel – era bom. É limpo, fica não longe da Hauptbahnhof, e tem um bar que, se não é animado, pelo menos serve cerveja boa. No hall, tinha internet wireless, que era meio lerda, mas era gratuita (havia internet nos computadores do hall e wireless nos quartos, mas aí era cara e não sei se menos lenta, pois obviamente não a usei).

Apesar de estar próximo à estação ferroviária, custei a encontrar o albergue quando cheguei à cidade. É que sou enrolado, não conhecia Munique, não tinha ainda um mapa e não segui as instruções do site: ele dizia para pegar o trem urbano S-bahn e andar uma estação; ora, são muito preguiçosos, não querem caminhar nada... Eu quis ir a pé. Foi meio cansativo, até porque andei um pouco mais do que precisava, mas não me arrependo. Aliás, nem sei se o transporte público em Munique é bom, porque fiz tudo a pé.

Uma coisa que me chamou muito a atenção logo que cheguei a Munique é que há vários lugares vendendo as roupas típicas dos bávaros, provavelmente devido à proximidade da Oktoberfest. A brincadeira não sai por menos de uns 140 euros. A roupa típica consiste em um vestido característico para as mulheres, e em berbudas e suspensórios de couro para os homens.

O mais engraçado é que vi um homem andando na rua vestido assim! E não era nenhum garotão fazendo piada não, era um senhor de idade. Só não sei se ele era um orgulhoso entusiasta das tradições bávaras ou se precisava se vestir assim para trabalhar. Por exemplo, as garçonetes de vários restaurantes usam vestidos típicos da Baviera, e na Torre Chinesa uma banda tocava, lá no alto, com todos os seus componentes devidamente paramentados com a bermuda e o suspensório de couro.

Essa roupa é tão característica desta região da Alemanha que, conforme Bertram me contou, os torcedores de outros times costumam cantar a seguinte canção para o Bayern de Munique quanto sua equipe o enfrenta: “Zieht den Bayern die Lederhosen aus, Lederhosen aus, Lederhosen aus!” Significa nada menos do que: “Tire fora as bermudas de couro do Bayern, fora as bermudas de couro, fora as bermudas de couro!” É engraçado, mas, por favor, façam isso longe de mim. Prefiro ser poupado dessa visão do inferno. Se ainda fosse para tirar os vestidos de belas bávaras...


Vídeo de Munique

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Kapitel CI – O Anjo

Muita coisa aconteceu nos útimos três dias. Fizemos no bar Albatros a despedida da universidade de alguns estudantes – Fabian, Janeth e Dana – que terminaram seus períodos de pesquisa com Jens e Marion Reiser e passarão meses em outros países (Fabian vai pra a Letônia). Fui ao Museu de caricatura, onde estavam expostas tirinhas feninistas de Franziska Becker.

Fui com Gilberto, Letice e Julian a um festival na orla do rio Main. Lá, encontrei-me com meu amigo pernambucano João Guilherme, de quem me despedi, pois volta ao Recife após cinco meses em Frankfurt. Fui com Bertram e Gilberto ver um amistoso no estádio, em que o Eintracht Frankfurt derrotou o Chelsea por 2 a 1. Segui com Gilberto para uma casa chamada Jazzkeller, onde assisitmos a um excelente show, de Ivan Santos & Band.

Eu poderia dar mais detalhes de todos esses acontecimentos, mas não quero. Soube de outro acontecimento que abafou todos os demais. Uma das pessoas que mais amo na minha vida foi agraciar aos que a rodeiam, com sua pureza, bondade e generosidade, em outra dimensão (o céu, certamente, nos termos dela).

Sua alegria de viver, que demonstrou nos últimos 96 anos, nunca será esquecida. O nosso amor nunca sairá dos nossos corações. Infelizmente, as pessoas que estiverem por perto tristes e aborrecidas não terão mais a luz da minha vovó para fazê-las mudarem e abrirem um sorriso. Isso sempre acontecia. Todo mundo que convivia com ela perde muito.

Sua alegria de viver sempre foi um exemplo para todos. A cada ano alimentávamos um sonho. O sonho de que a vovó seria eterna. Cada ano era mais um rumo à barreira centenária, que parecia que seria ultrapassada com facilidade. Parecia que ficaria pequena conforme outra década se passaria. E ela sempre estaria conosco, conhecendo os bisnetos, acompanhando os rumos que nossas vidas adultas fossem tomando.

Mas não era eterna. Não seu corpo vaidoso, sempre permufado, bem-vestido, e com brincos vistosos adornando um ouvido que pouco ouvia. Este era, aliás, o único problema daquele corpo que bem andava, bem enxergava, esbanjava saúde. Mas eternos são sua lembrança e nosso amor. Tchau, vovó querida. Amo muito você. Todos a amamos. Para sempre.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Kapitel XCIII – Era Outra Vez...

Pela terceira vez consecutiva, meu despertador não tocou. Descobri que nas duas primeiras, isso havia acontecido porque marquei a hora P.M., ou seja, à tarde, quando queria marcar A.M., de manhã. Ontem, antes de dormir, marquei a hora certa, mas me esqueci do trivial detalhe de que precisava travar o relógio para ligar o alarme. Das três vezes, uma delas apenas me fez acordar uma hora mais tarde, sem qualquer problema prático. Nas outras duas, uma na sexta-feira passada e a outra hoje, acordei aproximadamente às 9h40, sendo que minha aula de alemão começa às 9 horas e dura apenas uma hora e meia. Juntando-se tal descuido a minha viagem de dez dias à França, isso significa que não vou à aula de alemão há muito tempo. E o pior é que tenho que pagar dez euros pelo bolão (que, obviamente, perdi) para o João Guilherme, e uma cerveja para o Dritan por ter apostado que a Espanha não passaria da primeira fase (e acabou campeã, tsc tsc tsc).

Minha irmã e minha mãe têm a teoria de que, na verdade, é meu subconsciente que me faz marcar errado o despertador, porque não tenho efetivamente vontade de ir à aula de alemão. Eu não chegaria a tanto, mas, de fato, trata-se de uma aula muito desestimulante, em que não aprendo nada. O que Frau Ännchen competentemente me ensinou no Brasil, eu reconheço nas aulas daqui; o que meus dez meses de estudo no Rio foram insuficientes para que eu chegasse a saber, continuo sem entender (sobre meu drama lingüístico, ver os Kapitel XXXV e XLV).

O dia continuaria bem pouco emocionante. No auge do meu cansaço, com braços, pernas e costas doloridos do futebol de dois dias antes, eis que era meu dia de faxina. Na verdade, era minha semana. Cada um de nós aqui no apartamento precisa fazer uma por mês. Em geral é no fim-de-semana, mas por causa do torneio de futebol de sábado (Kapitel XCI) e do aniversário do Jürgen (Kapitel XCII) no domingo, sobrou para esta segunda. Enrolei, fiz várias pausas, mas cumpri minha obrigação mensal.

Hora de descansar? Que nada. A geladeira vazia, sem nem mesmo uma garrafinha de água mineral, não me dava alternativa a não ser ir ao supermercado (bem, beber café ou cerveja no lugar seria uma alternativa, mas achei mais saudável ir ao mercado). Quando desço o elevador, eu me deparo com uma baita chuva que há tempos não via. Volto para pegar o guarda-chuva, e não encontro. O som da chuva fica mais forte. Tenho que esperar.

Finalmente pude ir. De mochila cheia de garrafas vazias fui de metrô ao supermercado. Estava morrendo de fome, já que passava das dezoito e eu só tinha comido um sanduichinho no café-da-manhã. Lá no supermercado Rewe pode-se pedir comida alemã quente a bons preços. Comprei um Scheinehaxen, joelho de porco. Só que há um detalhe: eles dão talheres de plástico para quem come lá. Já experimentaram desossar um joelho de porco com garfo e faca de plástico? Lamentável. Foi tanto esforço que, no fim, eu já nem estava mais com muita vontade de comer.

Trouxe para casa a pesada mochila com as compras, incluindo três litros de leite achocolatado e nove de água com gás. Depois de guardar tudo, enfim estava livre para tomar meu banho. Talvez eu ainda assista a um filminho no computador... Mas não sei, são dez horas, o dia já está acabando. Nem tive tempo para descansar. É incrível como há dias em que não se faz nada de mais que cansam muito mais do que outros em que estamos cheios de ocupações. Pelo menos amanhã não tenho hora para acordar. E que se dane o despertador!

Kapitel XCII – A Rede e o Polvo

Neste domingo, Jürgen, professor da Universidade de Frankfurt, comemoraria seu aniversário, e fui convidado. Seria em sua casa, que não fica em Frankfurt, mas em Bad Nauheim, cidadezinha de 30 mil habitantes localizada 35 quilômetros a norte. Peguei o trem para lá na estação West com Bertram e Marion Reiser. Jens chegou em Bad Nauheim um pouco depois, com Suzanne e Leon.

Os últimos dias tinham sido de correria: cheguei de viagem da França, tive aulas, joguei futebol... Este domingo era tudo o que eu precisava. Descanso! Ficamos todos no jardim, neste dia ensolarado, comendo bolos e, depois, um delicioso churrasco alemão. Fora isso, muita cerveja: primeiro uma Paulaner, depois uma Licher, depois uma Franziskaner. Foi tudo ótimo e tranqüilo. Para completar, deitei-me em uma rede. Até cochilei!

Quando chegou a hora da final da Copa, assistimos ali mesmo. Vestido com uma camisa laranja de goleiro do Brasil, eu não escondia minha preferência para aquela partida. O gol espanhol na prorrogação não estava nos meus planos. Nem nos do Bertram, que também preferia a Holanda e reclamou: “merda de polvo!” Pois é, o polvo-oráculo alemão acertou todos os seus palpites de quem venceria partidas da Copa, inclusive que os espanhóis derrotariam os holandeses. Eu, sinceramente, não imaginava que algum dia a Espanha poderia ficar com a taça. Mas é bem verdade que também nunca imaginei que algum dia assistiria à final de uma Copa do Mundo em Bad Nauheim.

Mais imagens aqui.

domingo, 11 de julho de 2010

Kapitel XCI – O Campeão

A Copa do Mundo só se define neste domingo, na final entre Holanda e Espanha, mas neste sábado já tivemos um campeão, aqui em Frankfurt. É que foi organizado um torneio de futebol institucional, com professores, pesquisadores e alguns alunos da Universidade de Frankfurt e até de universidades de outras cidades, como Munique e Mainz/Mogúncia.

O torneio Institutsbolz Weltmeister-schaft aconteceria todo neste sábado, no Real Sport Entertainment GmbH (em Frankfurt, mas em um lugar bem afastado), de meio-dia até umas oito da noite (quando ainda está claro, pois aqui só escurece bem depois das nove!). Era um torneio misto, em grama sintética, com algumas regras bastante específicas. Jogavam times de quatro jogadores, podendo-se fazer quantas substituições desejássemos.

Nossa equipe, que reunia o pessoal que trabalha com o Jens e era organizada por Florian e Marion Reiser, tinha quatorze jogadores e sempre substituímos de três em três (o goleiro húngaro Christian nunca saía, é claro). Para garantir que nenhum time tivesse mulheres apenas para constar, todos deveriam ter pelo menos uma mulher em campo. A bola nunca saía pela lateral ou pela linha de fundo (havia parede) e uma das poucas regras era a de que só se podia fazer gol a partir da linha de meio de campo. O absurdo, no entanto, era que não havia árbitro, o que, é claro, pode gerar muitos problemas (e gerou).

Nosso time jogava de camisas azul-celeste (é bem verdade que não havia muito padrão, e alguns foram com camisas bastante escuras, mas a ideia era ser azul claro) em referência ao estilo uruguaio com que pretendíamos jogar. O nome da equipe, nascido acidentalmente em uma conversa de bar no Albatros após a minha palestra na universidade (ver Kapitel LXXIX) era FLATmengo. O prédio onde ficam nossos escritórios e algumas salas de aula no campus de Bockenheim se chama FLAT e, claro, todos já estavam cansados de me ouvir falar sobre o Flamengo. Daí o nome, que os alemães têm enorme dificuldade de pronunciar, sempre falando “Flatmenco”, provavelmente por causa da dança.

A competição reuniu doze equipes, divididas em dois grupos de seis. Os quatro primeiros se classificavam para as quartas-de-final, em que jogariam o primeiro de cada grupo contra o quarto da outra chave, e os segundos contra os terceiros. Os jogos duravam doze minutos na primeira fase em um único tempo, e dezesseis minutos em dois tempos no mata-mata. Estreamos com uma derrota, por 2 a 0 para os United Brühls, que jogavam com camisas brancas confeccionadas para o torneio, com alusão às Nações Unidas. O pior é que entrei no final, o time perdia por 1 a 0, eu estava correndo muito para tentar o empate e, numa extrema infelicidade, chutaram uma bola em mim e ela foi parar no fundo da rede. Do nosso lado. Fiz um gol contra. Dois a zero para eles. Lamentável e frustrante.

A sorte, no entanto, estaria do nosso lado. Os United Brühls venceriam ainda três partidas seguidas, só perderiam a última na primeira fase, e acabariam em primeiro no grupo A, de modo que nossa derrota não foi tão ruim assim. Depois, vencemos o Cluster of Mediocrity por 1 a 0 e o Turmhoch Überlegen por 3 a 0. O segundo gol foi meu (a favor!), em um chute de média distância no canto direito do goleiro. Foi bom ter podido zerar meu saldo, que estava negativo com aquele gol contra do primeiro jogo.

Nem tudo, no entanto, correu bem neste jogo. Martina, nossa melhor jogadora feminina, que inclusive tinha feito de cabeça o terceiro gol, levou uma forte bolada e quebrou o pulso! Teve que ser atendida, foi triste. Os últimos minutos de jogo nem foram realizados. Marion Reiser foi com ela para o hospital. Ou seja, ainda perdemos uma segunda mulher. Só tínhamos, a partir de então, duas mulheres para se revezarem, Janeth e Dana, o que seria exaustivo para elas. Duas que faziam parte de equipes já eliminadas, Katja e Mona, entretanto, reforçaram nosso time e pudemos seguir no torneio sem esse problema.

Derrotaríamos ainda o Team HSFK II, de Mogúncia, por 3 a 1, com incríveis dois gols de Florian e garantimos nossa classificação. Acabamos, no entanto, caindo de segundo para terceiro lugar no grupo por causa do saldo de gols, devido à derrota para o Team Augsburg por 5 a 2. O mais triste é que o último gol deles saiu no finalzinho, quando eles já estavam brincando, sem levar o jogo a sério: um cara chutou a bola de letra para o lado, o outro chutou também de letra e a bola entrou.

Teríamos que encarar nas quartas-de-final o segundo colocado do grupo B, o Master ISFK. O primeiro do grupo B havia sido o Team Forst, do qual faziam parte meus amigos Filipe, Julian e Vítor. Este último, aliás, também se contundiu. Torceu feio o tornozelo e não pôde seguir na competição. O Team Forst, assim como o United Brühls no nosso grupo, tinha feito uma campanha quase perfeita, de quatro vitórias e uma derrota. O inusitado é que tinham perdido apenas para o (até então) saco de pancadas do grupo B, o Team Naase.

Não seria o fato mais inusitado do campeonato. Vi a mais cristalina confirmação da lei-de-ferro do ludopédico: “o futebol é uma caixinha de surpresas”. Os dois primeiros da primeira fase e os dois segundos colocados foram derrotados nas quartas-de-final pelos terceiros e quartos. Os quatro times que, em tese, eram os melhores, estavam eliminados. A semifinal envolveria, portanto, os times que tinham ficado em terceiro e quarto, com campanhas bem menos brilhantes, com números equivalentes de vitórias e derrotas.

Vencemos o Master ISFK por 2 a 1. Filipe, Julian e companhia seriam eliminados com o seu Team Forst ao perder por 2 a 0 para o Turmhoch Überlegen, que mais cedo nosso FLATmengo tinha goleado. O bicho-papão do nosso grupo, o United Brühls, caiu por 2 a 1 diante dos bávaros do Stella Rossa Monaco. E o Team Augsburg, que tinha feito um monte de palhaçada na partida contra a nossa equipe, apanhou de 5 a 2 para o HSFK.

A semifinal foi tensa. Os azuis do Turmhoch Überlegen não demonstravam muito fair play. Quando o placar estava 1 a 1, marcaram um gol que pessoas do meu time alegaram ter sido feito de trás da linha do meio de campo (a proibição disso era uma das raras regras do torneio). Eles insistiram e acabamos considerando, a contragosto, o gol deles. Por sorte, Jonas, um grandalhão do nosso time, estava destinado a fazer gols nos momentos mais difíceis e, imediatamente em seguida, empatou a partida.

No finalzinho, o goleiro pulou em cima da Florian para pegar a bola e o derrubou na área. Nosso time pediu pênalti, e eles recusaram. Era a segunda vez no jogo em que a falta de um árbitro neutro se mostrava um problema, e a segunda vez em que eles se beneficiaram com isso. A decisão foi para os pênaltis. Nosso supergoleiro Christian defendeu a primeira cobrança, mas Fabian também perdeu a dele. Eles converteram a segunda, mas Robert, nosso artilheiro junto com Florian, também cobrou bem e marcou. O terceiro batedor deles chutou para fora, e nosso heroico guardarredes Christian acertou a última cobrança.

Incrivelmente e contra todos os prognósticos, estávamos na final. Nosso adversário seria o HSFK, onde jogava Jonas Wolf, um alemão gente-boa que conheci no congresso de Toulouse. Ele fala muito bem espanhol e é pesquisador em uma instituição na cidade de Frankfurt. A final foi tranqüila. Goleamos por 4 a 1. O primeiro gol foi do sempre decisivo Jonas, é claro. Jens, que tinha feito o passe para o segundo gol (que foi do Fabian), marcou o terceiro em um lance de muito oportunismo. O FLATmengo certamente não era o time com os melhores jogadores, mas era o legítimo campeão do Institutsbolz Weltmeistershcaft, torneio que tinha um formato parecido com o da Copa do Mundo.

Já com nossas medalhas e troféus, pudemos comer nosso churrasco alemão (muito porco e salsichas), beber cervejas Licher e Franziskaner e assistir à decisão de terceiro lugar entre Alemanha e Uruguai, vencida pelos germânicos por 3 a 2 em partida equilibrada. Vestidos como uruguaios, terminamos mais bem colocados que o Uruguai original. Hoje, meu corpo todo dói, mas foi bem melhor do que eu podia esperar. FLAT-MEN-GOOOO!


As imagens do título.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Kapitel XC – A Princesa e o Palácio

Comecei meu segundo dia em Paris, finalmente, conhecendo o Champs-Élysées (ver Kapitel anterior), e o Arco do Triunfo, é claro. Depois, fui me encontrar com uma encantadora francesa chamada Julie e sua mãe, Catherine. Não as conheci nesta viagem, a história é mais longa. Nós nos conhecemos em Santiago do Chile, no ano passado, quando fui ao Congresso Mundial de Ciência Política e, por acaso, elas estavam no mesmo albergue. Mantivemos contato e, apesar de elas serem de Toulouse, acabamos nos encontrando em Paris, que é onde Julie trabalha, como professora de espanhol.

Foi um dia formidável! Marcamos o encontro na praça de St-Michel, almoçamos no Marais (comi um confit de canard), passeamos pelo bairro judeu, Cathedral de Notre Dame, Jardin du Luxembourg, Pantheon, Senado, Odéon, praça da Sorbonne, e vários outros lugares até, por fim, irmos a Montmartre, onde passamos pelo Moulin Rouge, pela Rue Lepic – onde se ambientou parte do filme de Amélie Poulain – e, claro, subimos até a Basilique du Sacre Cœur.

No dia seguinte, havia coisas que eu não podia deixar de fazer. Como ir à Torre Eiffel, por exemplo! E foi essa a minha missão pela manhã. Sim, porque as quilométricas filas tomam um tempo considerável. Minha ideia era subir a pé, pois não me lembro se foi o Cattapa ou a Joana que me disse que era mais barato e as filas eram menores. Pois quando percebi, após muito esperar na fila, eu estava em uma para o elevador. Dados o tempo já gasto e a quantidade de pessoas que chegaram depois de mim, resolvi ficar ali mesmo e subir de elevador.

Lá em cima, enquanto via a bela vista e tentava não me irritar com a enorme quantidade de pessoas atravan-cando a passagem, eu não conseguia parar de me questionar sobre a freqüência em que câmeras que caem lá de cima da torre. Todo mundo tira fotos colocando as mãos por fora da grade; é, portanto, impossível que nunca aconteça de a câmera escorregar e se espatifar lá embaixo. Portanto, deixo aqui a dica: evitem ao máximo ficar passeando na área debaixo da Torre Eiffel!

À tarde, fui dar uma última passeada pela cidade. Era o dia perfeito para ir a um museu, mas o Louvre estava fechado. Joana me indicou um menor, o Musée de l’Orangérie, onde há várias pinturas impressionistas, mas também fecha às terças. Eu já havia desistido e caminhava a esmo quando vi uma placa para o Museu Rodin. E não é que estava aberto? Passei algumas horas vendo o Pensador e companhia antes de voltar para a casa da minha querida anfitriã Joana, que acabei não podendo encontrar. Ela só voltaria de um casamento em Marselha à meia-noite e, como trabalharia durante todo o dia seguinte, não pude estar com ela.

Preparei minhas coisas e fui à casa de Julie, situada em um lindo vilarejo medieval a quarenta minutos de Paris chamado Moret-sur-Loing. Lá, passei um bom momento com ela e Catherine, jantamos um delicioso pato e bebemos vinho. No dia seguinte, passeei pela cidadezinha com Catherine. Na antiga igreja de Notre Dame de la Nativité, fomos surpreendidos por uma exibição privada de música sacra no órgão do século XVI.




Depois, fomos os três a Fontainebleau e, em seguida, ao palácio de Versalhes. Encaramos uma fila com sol de rachar e, então, visitamos as inúmeras salas, vimos os jardins e obras-de-arte. Depois, almoçamos em um restaurante próximo, onde comi um bom prato de carne crua, chamado tartare de bœuf. Com isso, em dez dias eu conheci sete cidades na França! Impressionante!

Voltamos a Paris, onde peguei o metrô para o aeroporto. Ainda
cheguei a tempo de ver, lá no Charles de Gaulle mesmo, o segundo tempo da derrota alemã para a Espanha.

Estou pior que o Mick Jagger: todos os times pelos quais eu torço vão sendo eliminados na Copa do Mundo. Foi assim com o Brasil, Portugal, Paraguai, Gana, Uruguai e, claro, a Alemanha.

Foi uma viagem inesquecível. E os últimos dias foram mesmo especiais. Mas antes que os leitores imaginem coisas, não aconteceu nada do que alguns podem estar pensando. A encantadora Julie tem namorado. Contos de fada não existem na vida real... Nem mesmo em um lindo passeio pela França.