Um brasileiro que fala um alemão macarrônico chega a Frankfurt sem saber nem mesmo onde vai morar... Aqui narro minhas aventuras nesta temporada germânica: lugares interessantes, enrascadas em que me meto, esquisitices que percebo a cada dia. O nome do blog é uma analogia aos irmãos Grimm, alemães que compilaram muitas dezenas de contos de fada tradicionais, como Branca de Neve, João e Maria, Rapunzel, a Gata Borralheira, o Músico Maravilhoso, Chapeuzinho Vermelho, e a Bela Adormecida (mais detalhes em Vorstellung).

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Centenas de fotos disponíveis em Ilustrações.


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terça-feira, 5 de outubro de 2010

Kapitel CXVI – Trilogia: O Retorno do Reis

Acabou o curso de verão. Passamos de bar em bar a longa noite depois do coquetel de encerramento em Bruxelas e começaram as despedidas. A italiana Luana foi a primeira a ir embora, na véspera. Ainda teríamos o começo de sábado para dar umas voltas. Logo depois do último almoço no restaurante da sopa de lentilha (ver Kapitel anterior), foi a vez de me despedir de Patrícia e João, cujo voo de volta para Portugal seria no meio da tarde. Não muito depois foi a vez de Sofie e, por fim, eu e Edalina nos separamos no metrô. Era minha vez de ir à estação norte para pegar o ônibus baratinho para Amsterdã.

Cheguei no começo da noite. Não havia feito reserva em albergue, mas tinha pegado o endereço de alguns. Entretanto, não tinha um mapa. Estava perdido e me recusei a pagar três euros por um minúsculo mapinha em uma das várias lojas turísticas no centro. Ridículo! Em qualquer cidade europeia se consegue um mapa daqueles gratuitamente e os holandeses ficam metendo a mão!

Andei muito, o mochilão e o laptop pesavam cada vez mais. Os únicos mapas que eu tinha eram os que copiei do Google e colei em um documento de Word com os endereços dos albergues. Para me localizar, portanto, eu precisava, a cada vez, ligar o computador e tentar encontrar em algum dos micromapas a rua onde eu estava. Acabei chegando a uma rua mais residencial, e um senhor de idade viu que eu estava bem perdido.

Pegou um guia de ruas e telefonou para o primeiro albergue da lista. Esdruxula- mente, o atendente falava mal holandês, e ele falava mal inglês. Ainda assim, pôde constatar que eu tinha capturado o mapa errado que aquele albergue ficava muito longe dali. Viu que o segundo albergue da minha lista, no entanto, era ali pertinho, e me acompanhou até lá. Foi muita gentileza.

Tive muita sorte: havia uma (apenas uma!) cama vazia para aquela noite! A sorte só não era maior porque ela ficava em um quarto com 18 camas! Pelo menos as pessoas não eram barulhentas. Talvez porque se tratava de um albergue cristão. Ou seja, tratava-se de um albergue não apenas silencioso como chato, sem qualquer clima; isso em plena louca Amsterdã. Reservei mais duas noites em um quarto com seis camas (que, aliás, nem chegaram a ficar todas ocupadas).

Os funcionários eram gentis e educados, tinham sempre a preocupação de ajudar e impedir que os hóspedes se perdessem ou tivessem problemas (parece até que já me conheciam, não é?). Mas o albergue em si era uma porcaria. A internet wireless não era gratuita, e era preciso pagar para ter acesso mesmo do próprio laptop. O café-da-manhã, incluído, era paupérrimo: quando havia panquecas, estava até bom, mas foi frustrande o dia em que pedi os sanduíches e vi que eles se restringiam a dois pãezinhos com uma única fatia de queijo cada, muito fina e que sequer cobria todo o interior do pão. E ainda tive que comprar um mapa: lá custava menos, um euro, mas eles não forneciam de graça como em outros labergues em que já estive.

No dia seguinte à minha chegada, andei por toda a cidade, tentando cobrir a maioria dos lugares desenhados no mapa. Amsterdã é uma cidade bonita, cheia de antigas casinhas localizadas em ruas inclinadas de pedras, cortadas por belos canais. Aliás, uma aparência que não condiz com seu clima amalucado. As pessoas lá parecem querer ser o mais loucas possível; mesmo o comportamento alternativo não me parecia natural, tive a impressão de ser um pouco forçado. É visível também que há uma enorme quantidade de estrangeiros, seja como turistas, seja como imigrantes, seja como indecisos quanto a qual das duas categorias se enquadrar.

Não demorou muito e, sem querer, eu me encontrei no meio do famoso distrito da luz vermelha. O mais louco é ver crianças pequenas e velhinhos olhando aquele monte de sex shops e de casas de sexo explícito. Alé bichinhos de pelúcia com peru de fora são vendidos aos montes, juntamente com camisetas engraçadas alusivas a sexo e drogas. Não deixa de ser estranho olhar para janelas de frente para a rua, que parecem vitrines de lojas, e constatar que as manequins se mexem e lá o produto à venda não é a roupa, mas sexo. E há de tudo: desde jovens moças até prostitutas bem velhas, desde mulheres tão lindas que não dá nem para acreditar que existem até outras que não dá para acreditar que alguém queira algo com elas (e muito menos que pague para isso!). Não faltam garotas vindas do leste europeu, mas há também orientais, negras etc.

Outra coisa que se encontra por toda parte são os não menos conhecidos coffe-shops. É o local onde é permitida a venda de maconha e haxixe. Quem não fuma, dependendo do lugar, tem a opção de comer um bolinho aditivado. Há desde uns buracos escuros e esfumaçados com música pesada até um charmoso café com cara de limpinho, em frente a uma igreja e com belas garçonetes. No distrito da luz vermelha fica um que se chama Buldog, que se intitula o mais antigo de todos, aberto em 1971, se minha memória não falha (não, não houve nenhuma piada implícita nesta frase).

Apesar de todo o clima de animação e balada, as cervejas não são o forte da Holanda, definitivamente. São muito piores do que as vizinhas belgas. A Amstel, talvez a mais comum, é bem ruinzinha. Vale mais a pena beber uma Jupiler, que conheci em Bruxelas e é fácil de se encontrar em Amsterdã, além de ser uma das opções mais baratas.

No meu segundo dia, choveu o tempo todo. Ainda bem que tirei bastantes fotos na véspera. Aproveitei para fazer algo que eu já pretendia e que dispensa um céu ensolarado: ir a museus (que, aliás, são todos caros). Fui ao Museu Van Gogh e à Rembrandthaus. A Casa de Anne Frank ficava perto do albergue, mas a fila para entrar era tão quilométrica que desisti dela. O Van Gogh tem uma grande coleção de pinturas não apenas dele como também de artistas que o influenciaram ou que foram influenciados por ele. Pude ver Monet, Toulouse-Lautrec, Gauguin e até Gustave Coubert, de quem gosto muito, mas as pinturas que me impressionaram mesmo foram as de Jozef Israëls e de Léon Lhermitte, que eu não conhecia.

A Casa de Rembrandt é, efetivamente, um casarão onde esse mestre das sombras vivia (até que, afundado em dívidas por seu estilo de vida luxuoso, precisou abrir mão dela, terminando seus dias com pouco espaço e pouco dinheiro). Nas paredes, pinturas feitas em seu atelier por ele e por seus aprendizes. Em uma das salas, podíamos ver uma demonstração do processo de litografia.

Como meu voo de Bruxelas para Frankfurt sairia na manhã de quarta-feira, eu precisaria voltar a Bruxelas na terça para passar a noite lá. Então, deixei para ir a um último museu no final da manhã e, em seguida, pegar minhas coisas no albergue e partir de volta para a Bélgica. O museu escolhido foi o meu preferido entre os três que visitei: o Rijksmuseum. Além de ser uma construção linda (que estava, no entanto, parcialmente oculta por uma reforma em seu exterior), tem um grande acervo de brilhantes pintores holandeses, como Rembrandt, Vermeer, Jan Steen e Bosch, além de armas, prataria e porcelana. Adorei a atualíssima pintura “Fishing for Souls”, de Van de Venne, em que católicos e protestantes pescam fiéis no rio.

Peguei minha mochila e parti para a estação Amstel, onde, suposta- mente, pegaria o ônibus baratinho para Bruxelas às três e meia. Suposta- mente, havia o ônibus das três e meia e, se tudo desse errado, ainda havia um às seis e meia, segundo vi na internet. Tudo apenas “supostamente”. Chegando lá, às 3h10, tive a desagradável notícia de que, naquele dia, o último ônibus tinha saído às 2h30. No dia seguinte, sim, haveria esses horários.

Era preciso inventar um plano B. Voltei à estação central e comprei o bilhete de trem. Era bem mais caro, 41 euros, mas ainda um preço viável; no sentido contrário, de Bruxelas para Amsterdã, o preço era surreal: 87 euros! Ainda assim, como não aceitaram meu cartão de crédito, fiquei praticamente seu dinheiro vivo até a volta para a Alemanha. Cheguei à Bélgica com o dia ainda claro. Não havia reservado albergue mas tinha pegado uma lista de três opções com Willy, o sino-californiano que dividira quarto comigo durante o curso de verão. Não haveria de ser difícil encontrar um. Pelo menos, isso era o que eu achava. O avanço das horas e o escurecimento do céu me fariam mudar completamente de opinião.

Fui até a primeira opção, a pé, com todo o peso da mochila e do computador sobre os ombros. Era um albergue bem central, tudo de que eu precisava. Foi muito frustrante ouvir que todos os lugares estavam ocupados. O cara disse que, se eu quisesse, poderia esperar lá para ver se haveria alguma desistência. É claro que não fiquei. Queria achar o quanto antes um albergue para deixar as minhas coisas, e seria bom se fizesse isso ainda de dia. Seria...

Andei muito até chegar a outro albergue da lista. Dos três que eu tinha o endereço, apenas aquele primeiro era bem central. Apesar de afastado e localizado em uma rua meio escura, parecia um lugar legal. Mas isso não faria diferença. Também estava lotado! Exausto e já muito preocupado, perguntei à atendente (que tinha aquele jeitinho charmoso e acelerado de francesinha cool) se ela sabia de algum lugar não muito caro onde eu poderia passar a noite. Gentilíssima, a menina começou a telefonar para outros albergues e, ao encontrar um, fez a reserva para mim e me deu o endereço de lá e um mapa, explicando o caminho mais fácil para chegar lá.

Era, portanto, apenas questão de tempo. Graças às boas indicações, achei o lugar sem maior dificuldade. Havia no meu quarto um figuraça estaduni-dense, com bigode à la Hercule Poirot, chamado Patrick, descendente de escoceses e nascido no dia de São Patrício, que falava pelos cotovelos (e eu só entendia metade do que dizia). O albergue parecia bom e tinha um bom café da manhã. Este começava a ser servido às sete e eu já estava, antes dessa hora, a postos. Tomei o café rápido e saí bem cedo, para não ter problemas. E não teria nenhum se não fosse por alguns percalços...

Se tem algo que não compreendi bem como funciona são os trens em Bruxelas. Perguntei para o controlador se o trem que ia sair era o que iria para o aeroporto e, sem paciência e desatento, ele me deu uma resposta que deu a entender que era. Mas não era. Os controladores não fazem nenhuma questão de orientar os passageiros perdidos. Quando achei estranho e perguntei para outros passageiros, eles me disseram que era no outro sentido.

Saltei naquela cidadezinha-satélite e perguntei para o vendedor da estação ferroviária local como eu poderia ir para a Estação Norte, de onde eu sabia que sairia o trem para o distante aeroporto. Ele me deu a indicação, mas acabei novamente saltando errado. Quando cheguei a Estação Norte, não tive problemas para seguir para o aeroporto. Mas já era praticamente a hora do meu voo.

Quando cheguei ao balcão da Lufthansa, perguntei ao funcionário se ainda era possível ir no voo, porque eu estava atrasado. É claro que não era. Ele me orientou a ir ao balcão de remarcação de viagens. Minha surpresa foi a tranqüilidade do balconista da Lufthansa para remarcar minha viagem para o voo seguinte, menos de duas horas depois, sem cobrar nada por isso. Fiquei totalmente fã da Lufthansa! Isso é que é saber tratar bem os clientes!

As confusões continuariam até o último momento. Chegando ao prédio onde moro, tive a desagradável surpresa de que não havia ninguém em casa. E como fiz um acerto com Mario, que aluga o quarto para mim, para ele alugá-lo nessas duas semanas em que estive fora, eu estava sem a chave. Telefonei para ele e soube que Manfred viria, mas ainda demoraria uns quarenta minutos. Demorou mais. Fiquei uns vinte do lado de fora, na rua, até que enfim algum vizinho chegou. Entrei “de carona” e me sentei na escada.

Peguei meu laptop, consegui captar fraquinho o sinal da internet da minha casa, e lá fiquei esperando, sob olhares desconfiados de vizinhos que entravam ou saíam. Enfim, o final foi feliz e toda a aventura valeu a pena. Não há trilogia sem momentos difíceis e contratempos, não é mesmo?

domingo, 3 de outubro de 2010

Kapitel CXV – Trilogia: As Duas Bruxelas

Enfim, cheguei a Bruxelas. O aeroporto é estranho, parece um labirinto. É preciso andar muito lá dentro, subir escadas, descer escadas, dar voltas e mais voltas em caracol... tudo bem pouco racional. Fui seguindo outros passageiros, é claro, para achar o lugar de pegar a bagagem. Só que, quando percebi, eu já estava na área de saída do aeroporto. Precisei pedir ajuda para o pessoal da segurança para entrar novamente e pegar minha bagagem.

Bruxelas é uma cidade bem maior do que eu esperava. Capital da União Europeia e sede da OTAN, tem grande quantidade de estrangeiros. Por esse motivo e pela combinação de casas antigas com prédios modernos, era inevitável que eu a comparasse com Frankfurt, e a visse como uma versão belga da cidade onde estou morando. Só que não apenas achei as distâncias maiores em Bruxelas como a sua população é uns 30% mais numerosa do que a de Frankfurt.

Logo me chamaram a atenção os prédios antigos, com amplo predomínio das cores bege e cinza, as impressio- nantes seqüencias de casas conjugadas (sem nenhum espaço entre elas), também a presença de muitas casinhas de tijolos, e as amplas áreas das praças e prédios públicos, em contraste com a aglomeração das velhas casas “amontoadas”. Não faltam estátuas, principalmente de homens montados em cavalos, como chamou a atenção minha mãe. O pior da cidade é a antipatia da maioria dos garçons e dos funcionários dos transportes públicos. Um aspecto extremamente charmoso são as cenas de quadrinhos pintadas em grandes dimensões nas paredes de vários prédios; adorei, e fotografei várias.

Há algo, no entanto, bem mais pitoresco na cidade, e na Bélgica como um todo. É um país que não é bem um país. É dividido em duas regiões, uma em que se fala holandês – Flandres – e outra em que se fala francês – Valônia. Não é incomum que flamengos não saibam falar francês e que valões desconheçam o holandês. Enquanto os flamengos aprendem francês no colégio mas depois pouco o usam, inclusive podendo se ofender se você se dirigir a eles na língua francesa (é melhor usar com eles o inglês), os valões podem não ter nem mesmo o menor conhecimento da língua holandesa, pois têm a opção de estudar na escola holandês ou inglês, como preferirem.

O país tem as duas regiões e, no seu centro, fica a capital, Bruxelas. Trata-se de uma área bilíngüe, localizada próxima ao limite entre as duas regiões mas dentro de Flandres. Originalmente uma cidade flamenga, acabou, por sua importância, recebendo tantos valões que, hoje, a língua predominante, que se ouve sempre nas ruas, é o francês.

Só que no país tudo tem que ser dividido em cada uma das culturas lingüísticas. Todas as ruas de Bruxelas têm um nome em cada idioma, os partidos políticos são sempre dois de cada ideologia (há um socialista flamengo e um socialista valão, um liberal de Flandres e um liberal da Valônia, etc.) e até a universidade é, na verdade, duas. Meu curso de verão sobre partidos políticos durou uma semana, acontecendo primeiro no campus valão (Université Libre de Bruxelles) e, nos últimos cinco dias, no flamengo (Vrije Universiteit Brussel).

Acabei chegando tarde ao hotel que estava reservado para os estudantes do curso de verão. Tomei um banho e fui à universidade. Não tinha levado o mapa e custei muito a achar o local, que era o instituto de investigações europeias. Cheguei uma hora depois ao coquetel de inauguração (que, a propósito, foi bem mixuruca). Fui o último não desistente a chegar: os demais participantes ou chegaram muito mais cedo ou não foram nesse dia. Aquele primeiro momento foi meio frio. Eu tentava fazer piada, puxar assunto, mas todos estavam meio tímidos e retraídos. Mas era apenas o “gelo” inicial. A turma tinha muita gente legal e nos divertiríamos bastante.


Eu era o único latino-americano do curso, cujo corpo discente se destacava pelo fato incomum de, entre quinze alunos, três serem portugueses. Eles, aliás, se tornaram meus melhores amigos lá, junto com a italiana Luana, sulista de sangue quente nascida em Puglia. João, sempre muito engraçado, nasceu em Évora e é filho de pais alentejanos. Estuda na Universidade de Aveiro com Patrícia, que vem dessa cidade mesmo. Edalina nasceu na Espanha, filha de pais cabo-verdianos, mas foi novinha para a Terrinha e também é “tuga”.

A turma tinha ainda três estadunidenses: uma judia de Ohio chamada Sarah, que sempre falava alto, rápido e com muita gesticulação; um chinês de Taiwan que se mudou criança para a Califórnia e adquiriu nacionalidade ianque (chama-se Willy e foi meu companheiro de quarto); e uma estudante de relações internacionais radicada na Alemanha. Alás, havia também uma alemã da Baviera, uma coreana que mora no Texas, um romeno meio doido, o francês Matthieu (que não fala português mas tem pai lusitano; eu e João começamos a chamá-lo de Mateus) e três belgas.

Entre os belgas não havia nenhum valão. Maïté, que pouco fala holandês e é francófona (e fuma como uma francesa), reclamou quando eu disse que ele era da Valônia. Observou que era de Bruxelas, e que, apesar de falarem francês, bruxelenses e valões são completamente diferentes. Ah, bom. A propósito, ela é também, provavelmente, o único caso do mundo de alguém que foi à Polônia com a motivação de aprender a falar inglês (?!).

Os demais belgas da turma eram flamengos. Um era Tom, que era gente-boa mas deu uma declaração tão equivocada como infeliz: disse que o único time de futebol brasileiro que conhecia era o Boca Juniors. Lamentável e imperdoável! A outra belga, que foi a que ficou mais próxima dos luso-ítalo-brasileiros, especialmente no final, era Sofie. Alta, loira, magra, bonita, simpática, elegante, delicada e sorridente, ganhou o apelido de “princesa da Disney”. Cinderelamente, aliás, deixou o sapato cair enquanto andava conosco em uma rua de Bruxelas, mas eu bobeei e não peguei a tempo.

Eu, João, Patrícia, Edalina e Luana saímos vários dias juntos, depois da aula da tarde, passeando pela cidade, conhecendo os lugares turísticos, jantando e bebendo cerveja. Às vezes alguma outra pessoa ia conosco, às vezes algum deles ficava no hotel para descansar ou preparar alguma coisa relacionada os estudos. Eu fui o único que saí todos os dias, sem exceção, inclusive na véspera da minha apresentação. Foram saídas leves, voltando cedo, mas me recusei a passar algum dia trancafiado no hotel. Além disso, sempre quando eu voltava, ainda tinha pique para ir para a internet. Como as aulas começavam às nove da manhã e as universidades (sim, os dois campus) não ficavam perto do hotel, passei duas semanas dormindo seis horas ou menos todos os dias.

A Bélgica é a grande rival da Alemanha na disputa pelo posto de país com as melhores cervejas do mundo. Tive seis meses na Alemanha para provar várias cervejas. Como só estive duas semanas na Bélgica, precisava ser rápido para ter base para comparação. E provei várias cervejas: Westmalle Trappist, Leffe Brüne, Leffe Blonde, Chimay Blue, Duvel, Waterloo, Judas, Vedett, Grimbergen Dubbel, Jupiler, Orval, Trappistes Rochefort e até a não-alcoólica Tourtel (essa por acidente, porque o Tom me disse equivocadamente que era uma stout).

Provei ainda cervejas lambic (de trigo, com fermentação espontânea), faro (versão mais adocicada da lambic), gueuze Mort Subite Framboise (lambic misturada com framboesa; não é ruim, mas prefiro cerveja normal) e St Lamvinus Cantillon (lambic misturada com uva, lembra um vinho beeeem doce, argh!). Como não anotei, no entanto, não tenho certeza se realmente bebi todas essas e provavelmente estou me esquecendo de alguma.

Cheguei à conclusão de que certamente prefiro as alemãs. Se fizermos uma comparação com os vinhos (não sei se é uma boa comparação, mas acho que possibilita expressar minha avaliação), as cervejas alemãs são como vinhos secos e as da Bélgica como vinhos suaves. As cervejas belgas têm em geral um gosto mais frutado e, apesar de terem alto teor alcoólico, não são encorpadas como as germânicas. Minha cerveja preferida entre as que eu provei lá foi justamente a que mais me lembrou as boas alemãs: a ótima Chimay Blue. Ah, e valeu a pena prová-las, só para conhecer, mas não achei nada saborosas as lambic e as faro; prefiro inclusive o “suquinho de framboesa” gueuze a elas.

Nem só de bebida vive a Bélgica, é claro. Os belgas são especialistas em batatas fritas, o que não como, mas também têm enorme tradição nos waffles (ou gauffres, em francês). Comemos as duas versões com chocolate (de que também são exímios produtores): o de Liège, que é mais durinho, e o de Bruxelas, mais mole. Não sei qual é melhor, mas são ambos muito tradicionais no país.

Um dia, fomos a um restaurante português assistir ao clássico lisboeta entre Benfica e Sporting, o Fla-Flu da capital lusa. E para a alegria de Edalina, que estava tensa, e para leve decepção de Patrícia (bem leve mesmo, aliás, pois não estava lá muito preocupada), deu vitória “encarnada”: fácil, fácil, dois a zero para o Benfica. Comemos bifanas, uns sanduíches de carne de porco, e, lá, nossas cervejas eram lusas: Sagres e Superbock.

O restaurante aonde fomos mais vezes, no entanto, foi um que tinha uma ótima sopa de lentilhas. Foi sugestão de Luana, que ficou viciada no lugar. Tomei a sopa em dois dias, e em outros dois comi um gostoso crepe com diferentes queijos. Aliás, Luana merece um comentário adicional em relação à culinária: disse que adora comida inglesa e que está cansada de ver restaurante italiano por todos os lados. Como assim? Está cansada de comer massa e acha a culinária inglesa boa?! Bizarro. Ela mesma já contou que dizem que é uma italiana fake: também não gosta de café, nem de futebol. Mas após duas semanas deu para ver que não é completamente “falsificada”: fala com as mãos, tem sangue quente e não admite que a massa não esteja al dente.

Houve um dia que fomos todos convidados pela organização do curso para ir a um restaurante típico belga. Lá, comi um filet americaine tartar (foi a segunda vez que comi esse prato; a primeira, em Paris, está descrita no Kapitel XC). De sobremesa, mandei ver em uma dame blanche, um sorvete de creme com calda quente de chocolate; o gosto lembrava o do profiterole e é uma sobremesa popular no país.

Também houve dia em que fomos a um restaurante italiano, a um tailandês, e em que comemos pizza. O mais inusitado certamente foi a vez em que comi canguru. Nunca imaginei que provaria tal carne na Bélgica. É boa, mas lembra muito a bovina, não sendo, portanto, muito diferente do trivial. E a carne de canguru estava macia, diferentemente do que, no passado, eu tinha ouvido falar sobre ela.

O bandejão dos dois campus também não era ruim – aliás, era bem melhor do que o Mensa da Universidade de Frankfurt. O que era complicado era encarar as enormes filas. É claro que houve dias sofríveis, como uma péssima sopa ou falta de acompanhamentos razoáveis, mas no geral havia boas opções. Inclusive pratos típicos belgas, como os boulettes à la liégeoise e o vol-au-vent.

Mas não pensem que nossos passeios se resumiam à comilança. Desbravamos a cidade por vários dias, especialmente no domingo, quando a maioria das ruas estava fechada para os carros. Fomos algumas vezes à bela Grand Place, inclusive presenciando o lindo espetáculo de luzes no prédio da prefeitura. Também fomos ao Atomium, visitamos o Parlamento Europeu, e passamos a mão em uma imagem de Jesus que dizem que dá sorte.


Cruzamos outras tantas oportuni- dades com o conhecido Maneken Pis. É a famosa fonte em forma de um menino fazendo xixi. Quando visitas ilustres vêm de outros países, costuma-se vesti-lo com trajes que homenageiem o visitante. É uma cópia dele o Manequinho, que, localizado no Rio de Janeiro, tornou-se um símbolo do Botafogo. Todas as pessoas ficam decepcionadas com o Maneken Pis, por ser muito menor do que se imagina. De fato, é pequenino, parecendo ainda menor pelo contraste com a grande estrutura atrás dele.

Mas é um ponto inevitável de visitação, justificando a estampa de uma camiseta que eu vi, com o desenho dele e a inscrição “eu sou pequeno mas sou o dono do pedaço”. Há na cidade também a versão feminina e a versão canina do Maneken Pis: a menina, Jeanneke Pis, está agachada urinando, e o cão tem até a perninha levantada. Só que, se o Maneken Pis tem sua importância pelo fato de ser a primeira fonte da cidade, instalada no século XVII, a menina e o cachorro não têm nem de longe o mesmo destaque, até porque têm poucas décadas de existência.

Um dia, fomos ao museu histórico, que abriu à noite, gratuitamente. Mas funcionava de um modo diferente: estava com as luzes apagadas e lanternas eram distribuídas para as pessoas. A ideia era divertida, apesar de, obviamente, não motivar muito a ler textos mais extensos. Havia algumas coisas bem interessantes, como cartazes políticos. O que mais gostei foi a antiga charge “Pyramide a Renverser”. Com o desenho de uma pirâmide em que o rei estava no topo, localizando-se abaixo dele, nesta ordem, clérigos, militares, burgueses e, em sua base, os populares, a charge tinha as seguintes inscrições ao lado dos respectivos personagens: “A Realeza – Eu reino sobre vocês; O Clericalismo – Eu oro para vocês; O Militarismo – Eu atiro em vocês; O Capitalismo – Eu como para vocês; O Povo – Eu trabalho para vocês.” Simplesmente brilhante.

No sábado, viajei com Patrícia, Edalina, Luana, João e a coreana para Gent e Brugges. A ideia original era ir a Brugges, mas quando Patrícia consultou Tom, ele disse que a cidade era uma farsa. Ela perguntou se não era interessante ir lá e ele respondeu: “se você gosta de Disneylândia”. Obviamente era um exagero, mas de fato a dica de ir antes a Gent foi ótima. É uma cidade tão medieval quanto Brugges, só que mais bonita e menos turística. Basicamente é a mesma coisa sem aquele monte de propaganda em cima.

Só me irritou o fato de que cobravam para ver a Catedral. Eu já tinha ido a igrejas que deixavam ver de graça, já vi cobrarem só para conhecer as catacumbas ou alguma sala com relíguias. Já tinha visto até a parte cobrada ser um terço da igreja, o que já me parecia um excesso. Mas o que presenciamos em Gent foi ridículo: simplesmente um pedaço minúsculo depois da porta estava com acesso liberado, e uma cortina preta cobria a visão da igreja inteira, incluindo o altar. Como se não bastasse, uma leva de turistas saía irritada de lá reclamandado que não havia nada para ver e que tinham jogado quatro euros fora. Obviamente não vimos a igreja, portanto. Mas a cidade é bonita, e valeu a pena pagarmos para subir em uma torre, que tem vista panorâmica.

Minha estadia na Bélgica foi proveitosa. Não apenas porque participei de um bom curso, mas porque me diverti um bocado e fiz ótimos amigos: Patrícia, sempre boazinha e perita em imitar sotaque brasileiro do interior; Luana, a italiana algo reclamona e gente-finíssima; João, o camarada com quem dei muitas gargalhadas; e Edalina, que sempre brincava que eu e ele éramos “os piores” por causa da bagunça que aprontamos na cidade (vários garçons pediram, com educação ou com grosseria, para falarmos baixo); sem falar na princesa belga Sofie. Amigos que não esquecerei. Os “piores”, sem dúvida. Como dissemos: “os piores serão os melhores”.

sábado, 4 de setembro de 2010

Kapitel CXII – O Boi Adormecido

A noite de ontem foi divertida. Fui ao bairro de Sachsenhausen, do outro lado do rio Main, para assistir em um bar com Florian ao jogo de futebol entre as seleções da Alemanha e da Bélgica. Depois da partida, nós nos encontramos ali perto com Vítor, Julian, Filipe e Fiorina e fomos a outro bar, numa área conhecida como a “antiga” Sachsenhausen, ou Alt Sachsenhausen.

Lá, bebemos “cerveja de litro”, que, diferentemente de como ocorre no Brasil, era medida horizontalmente e não verticalmente: vinha um suporte de madeira com vários copinhos de uns 200 ml. Parecia muito, mas em cinco ou dez minutos estavam todos os copos vazios. Uma segunda rodada foi necessária. Rimos muito, falamos muita bobagem, e voltei tarde para a casa, no ônibus noturno, já que o metrô tinha parado de funcionar uma hora mais cedo.

Quanto à partida da Alemanha, a seleção germânica venceu bem, por 1 a 0, fora de casa. Superou a Bélgica, que, se não é um timaço, tampouco é uma Ilha Farö ou Liechtenstein da vida, configurando-se em uma das seleções competitivas do grupo. A partida não era um amistoso, como eu supunha, mas o primeiro jogo das eliminatórias para a Eurocopa de 2012. O gol foi marcado por Klose, após uma roubada de bola de Schweinsteiger, aproveitando um cochilo da defesa belga. Na mesma rodada, a França, por exemplo, passou vexame, perdendo em casa para Belarus.

Este jogo da Alemanha me motivou a escrever aqui um conto fantástico que há tempos eu pretendia, mas sobre o qual, com a minha viagem para a França e, depois, a eliminação da Alemanha no mundial e o fim da Copa do Mundo, acabei perdendo o gancho. Trata-se da seleção “multicultural” da Alemanha. Durante a Copa, era impressionante o volume das reportagens e comentários exaltando o fato de haver no time jogadores de diferentes origens e nacionalidades. Até pelo horror que os alemães sentem do passado nazista, há um sentimento muito positivo pelo fato de haver negros e turcos na seleção. Historicamente, a Alemanha costumava ser um time branco, diferentemente do que já ocorria há mais tempo em outras eleções europeias, como Inglaterra, Holanda, Portugal e França.

De fato, a seleção da Alemanha que jogou uma boa Copa e que, em minha opinião, merecia ser a campeã (e teria sido, se não tivesse caído tanto de rendimento no jogo contrea os espanhóis), tinha gente de todas as partes. Miroslav Klose e Lukas Podolski, contestados e vitoriosos jogadores com um longo histórico na seleção, vêm, como se sabe, da Polônia. Os poloneses não gostam muito e os consideram traidores (isso me disseram os polacos no albergue em que fiquei em meus primeiros dias de Frankfurt; sobre eles, ver Kapitel II), mas eles de fato cresceram na Alemanha. Klose se mudou para o país aos sete anos e Podolski, aos dois.

Há outros estrangeiros nessa situação entre os participantes da Copa do Mundo. Andreas Beck mudou-se com sua família aos três anos de idade da União Soviética para a Alemanha. Marko Marin fez o mesmo, aos dois anos, vindo da Bósnia Herzegovina. Piotr Trochowski, nascido na Polônia, foi para a Alemanha aos cinco anos de idade. Há ainda jogadores com sobrenomes e aparência bem diferentes do alemão típico, mas que nasceram no país. Dennis Aogo é alemão de Karlsruhe, mas filho de pai nigeriano. O berlinense Jerome Boateng é filho de pai ganês. O ídolo Mesut Özil e Serdar Taşçı são ambos filhos de imigrantes turcos mas que nasceram na Alemanha. Sami Khedira é alemão filho de pai tunisiano, e Mario Gómez, de pai espanhol.

Considero muito positivo isso. Acredito que, em umas duas décadas, não só a Alemanha mas a maior parte da Europa serão como o Brasil, um lugar de muita mistura, em que não será possível identificar um rosto típico. Loiros, negros, pessoas de olhos puxados, árabes, indianos, todos os rostos poderão ser de cidadãos locais, nascidos e criados ali. Entretanto, acho que uma coisa é um jogador nascer na Alemanha filho de pais estrangeiros, ou mesmo se mudar ainda criança e crescer no país, e outra bem diferente é, depois de adulto, ele se naturalizar e jogar pela seleção alemã. E o clima no país é o de apresentar Cacau como se estivesse na mesma situação de Özil, Podolski ou Marin.

Cacau, ou Claudemir Jerônimo Barreto, é paulista de Mogi das Cruzes. Trilhou o mais improvável caminho em sua bem-subcedida carreira futebolística. Foram várias tentativas frustradas de decolar no futebol no Brasil. Diante dos insucessos, trabalhou como assistente de pedreiro e vendeu refrigerantes e salgadinhos. Em 2000, começou a jogar em um time da quinta divisão alemã, chamado Türk Gücü München. Depois, foi contratado para jogar no time B do FC Nürnberg. Agradou e passou para o time principal, jogando na Bundesliga. Transferiu-se, então, em 2003, para um clube mais importante, o Stuttgart, pelo qual jogou a Copa dos Campeões da Europa no mesmo ano e, depois, novamente na temporada de 2007-2008. Tem contrato com o Stuttgart até 2013.

Sem jamais ter sido chamado para a seleção brasileira, obteve o passaporte alemão em 2009, após oito anos vivendo no país, e foi convocado para a equipe nacional, onde é ídolo incontestável. Apesar de não ser titular, é incrível como é unânime a vibração da torcida quando ele entra em campo. Isso não me contaram; eu vi em cada jogo na Copa do Mundo. O atacante substitui algum titular e as pessoas sorriem, comentam, festejam, torcem.

Florian, certa vez, perguntou: “Cacau é meio-brasileiro, não é?” Eu respondi: “Não, Kurányi é meio-brasileiro. Cacau é completamente brasileiro!” Kevin Kurányi, atacante que não esteve na última Copa, nasceu no Rio de Janeiro, filho de pai húngaro criado na Alemanha e de mãe panamenha. Jogou dos seis aos 13 anos de idade no Serrano, de Petrópolis, com um período de um ano no clube panamenho Las Promesas, para onde voltou em 1996. Apenas em 1997, aos quinze anos, ele se mudou para a Alemanha, para jogar nos juvenis da equipe B do Stuttgart.

Minha brincadeira foi, justamente, uma crítica a essa ideia de que a situação é a mesma. Cacau é um batalhador, merece ter sucesso na carreira, mas me agrada este fenômeno, comum em todo o mundo, de os times naturalizarem estrangeiros para compensarem deficiências de sua equipe. Já cansei de ver braisleiros, que no máximo moram há muito tempo fora, defenderem seleções como a do Japão, de Portugal, da Tunísia, da Espanha, da Bélgica... O mesmo ocorre com africanos, surinameses, argentinos... Acho que nascer ou crescer em um país é motivo forte o suficiente para jogar pela seleção desse país; mudar-se para lá já adulto, com outra cultura, e viver lá por uma década não é, por mais que goste de lá e tenha se ambientado bem.

Não é o primeiro caso na Alemanha. Outro brasileiro, Paulo Rink, jogou pela seleção há algum tempo, sem qualquer ligação prévia com o país. O ganês Asamoah, que jogou por vários anos na seleção alemã, foi para lá aos 12 anos. É mais legítimo do que a situação de Cacau e Paulo Rink, ainda que eu tenha alguma dúvida (sim, é uma dúvida, também não tenho certeza se mereceria ser criticado) se é o mesmo caso de estrangeiros que imigraram quando eram crianças bem mais jovens, entre dois e sete anos de idade.

Enfim, cada caso é um caso. Mas, em linhas gerais, o que quero dizer é que, se é fantástico – não apenas futebolisticamente, mas também (bem mais importante) socialmente e humanitariamente – que não haja restrições para a participação de alemães com as mais variadas origens étnicas e culturais na seleção nacional, por outro lado, convocar jogadores que não são alemães não tem nada a ver com isso. Trata-se de um mero artifício para tornar a equipe tecnicamente mais competitiva. Neste caso, a história da seleção multicultural deixa de ser uma bela transformação social e passa a ser mera conversa para boi dormir.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Kapitel CXI – Antes das Bodas

Mal voltei a Frankfurt da viagem à Baviera e já estava cheio de compromissos. Era aniversário da Lara, a alemã que fala português perfeitamente e com sotaque baiano. Tinha marcado de comemorar no jardim atrás do Museum der Weltkulturen, onde o brasileiro Ivan Santos tocaria (já tinha assistido a um show dele, excelente; ver Kapitel CI). Menos de três horas depois de pisar na estação de trem de Frankfurt, eu estava lá, pronto para o festejo. Mas era o único! Ninguém tinha chegado, apesar de que a ideia original era marcar para uma hora mais cedo ainda do que aquela. Logo o carioca foi chegar antes dos alemães, quem diria...

Depois vieram Lara, suas irmãs, e um animado rapazinho chamado Peter, filho de uma delas. O bebezinho mexia em tudo, e deu sinais de que trabalhará futuramente com comércio ou investimentos, tamanha a vontade de tirar o dinheiro da carteira da mãe. Muito engraçado! Depois chegou um amigo de curso de inglês da Lara, gente-fina. Bebemos vinho, ouvimos música e... abrimos os guarda-chuvas! Começou a cair o maior pé-d’água! Ainda assim, resistimos até o show acabar.

Fazia parte do Museumsuferfest, um festival artístico e cultural semelhante à Noite dos Museus que descrevi no Kapitel XXXVI. De lá, seguimos caminhando pela rua que margeia o rio Main, onde nos encontramos com o namorado de Lara, chamado Jens. E mais álcool! Bebemos uns chazinhos aditivados com água que passarinho não bebe e, depois, fomos a um bar. Lá, chegaram Xenia, Maryhen e o namorado dela, Jens (Jens não é, definitvamente, um nome muito incomum na Alemanha), e a alemã filha de pernambucana chamada Ana (ela apareceu no Kapitel CV).

Lá, bebemos Apfelwein, o vinho de maçã, que é uma tradição em Frankfurt (especialmente no bairro de Sachsenhau- sen, onde estávamos, do outro lado do rio Main). Aliás, aproveitei para ter uma refeição totalmente frankfurtiana. Além do Apfelwein, pedi um Frankfurter Schnitzel, que é um filé de porco com Grüne Soße, um molho verde à base de ervas da região. É o prato mais típico de Frankfurt, e também encontrado mais facilmente em restaurantes em Sachsenhausen. Eu acho gostoso, e estava com saudade de comer isso (sobre a vez anterior em que tinha comido o Frankfurter Schnitzel, ver Kapitel XL).

Depois, demos mais uma volta e encontramos meu amigo Vítor. Havia várias barraquinhas e palcos. Eu, Lara, Xenia e o amigo de Lara dançamos em uma tendinha de música disco das antigas e em outra de salsa e ritmos latinos. Além disso, eu e Vítor mandamos ver na cerveja de trigo. Foi uma noite divertida, mas minha programação frankfurtiana não acabaria ali.

Já na noite seguinte, haveria a festa de despedida de Fabian, que fará um intercâmbio na Letônia. Por que Letônia? Boa pergunta, eu também o questionei sobre a mesma coisa, e a resposta não foi muito satisfatória. Ele não fala nada de letão, espera conseguir se virar exclusivamente em inglês, e lá não é nenhum centro em que ele tenha contatos ou que seja especialmente forte nos temas que ele estuda.

Fabian me disse que queria ir a um lugar diferente. Bem, se a ideia era essa, como disse um amigo brasileiro chamado Flávio, ele poderia ter ido fazer intercâmbio em alguma ilha paradisíaca do Pacífico, não é? Dizem que Riga, capital da Letônia, é bonita, mas ele estará lá em pleno inverno! Para vocês terem uma ideia, Fabian precisou comprar um casaco de frio, daqueles com pele de animal, porque os que ele tinha não eram suficientes para a friaca que ele encontrará lá. Vejam bem: Fabian é alemão, bávaro, e mora em Frankfurt, não estamos falando de nenhum latino ou africano dos trópicos!

Bem... cada louco com a sua mania. Apesar do aparente parafuso a menos, Fabian é um cara legal e eu fazia questão de ir a sua festa de despedida. Seria realizada na casa de um amigo dele chamado Björn, que também ia estudar fora (no e-mail de convite dizia que seria “lá onde os deuses vivem”; pelo nome dele, portanto, suponho que seja na Suécia ou algo assim). Aliás, a festa incluía entre os homenageados ainda uma terceira amiga deles, Elena, que fará o intercâmbio em Moscou.

Os exotismos geográficos não acabavam. Um dia depois de voltar de trem conversando com uma eritreia (ver Kapitel CIX), na festa de meu amigo que vai se mudar para a Letônia falei com pessoas de lugares que achei que nunca estariam mais próximos de mim do que quando eu olho um mapa-múndi. Primeiro, conversei com um alemão que falava português bem direitinho. Por quê? Porque o pai dele é de Goa! Não era brasileiro, português ou angolano... era indiano de Goa! Não é todo dia que se encontra alguém de Goa, não é? Ou filho de alguém de lá, que seja...

Depois, passei um tempo considerável conversando com uma moça chamada Olga. Amiga de Elena, ela também vai à Rússia. Estuda economia, espanhol e russo (?!). Sim, isso é o tema de um curso de graduação, por mais estranho que possa parecer. Perguntei-lhe o porquê e ela me disse que também não era alemã. Era cazaque! Veio aos cinco anos para a Alemanha, e sua língua materna é russo. Ela e seus pais não falam cazaque. Ela me explicou que o regime soviético não incentivava muito que as pessoas falassem outras línguas que não o russo, de modo que sua família não sabe o idioma próprio do Cazaquistão. Como ela estuda espanhol, tem amigos brasileiros e adora música baiana (?!), sabe falar um pouco de português e adora a sonoridade da língua de Camões.

Fui ficando na festa. Quatro cervejas, dois copinhos de tequila, um de vodca... Era bem mais do que eu esperava... Fabian foi embora, mas eu continuei lá, apesar de não conhecer nenhum dos presentes até então. Havia umas oito pessoas quando eu resolvi, por curiosidade, olhar o relógio. Eram cinco e meia da madrugada! Em estado de choque, eu me despedi de todos os sobreviventes e voltei para casa. Precisava dormir! No dia seguinte, domingo, eu teria mais um evento pela frente.

Fui com Vítor, Filipe, Fiorina e Brunela ver a ópera “O casamento de Fígaro”, de Mozart, na Neue Oper, localizada em frente à Willy-Brandt-Platz. Foi divertido: os ótimos cantores, trajados com figurinos engraçados, contracenavam em um cenário giratório. Só não deu para entender muito da rápida história das bodas de Fígaro, cheia de reviravoltas e confusões. É que uma ópera cantada em italiano com legenda em alemão não é exatamente a combinação mais compreensível para mim.

Mas, no intervalo entre os atos, Filipe e Brunela, que entendiam melhor, deram uns palpites e deu para não boiar muito. Filipe brincou que a história era meio “A Grande Família”, meio “Os Normais”. Poderia ser ainda mais complicado de se entender, é claro, como, por exemplo, se a ópera fosse cantada em mandarim com legendas em swahili... Mas depois de conhecer gente da Eritreia, de Goa e do Cazaquistão, isso já seria demais, não é mesmo?

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Kapitel CIX – Admirável Mundo Velho

Acabo de voltar da viagem para Regensburg, aonde fui depois de Munique. Lá, eu me hospedei na casa de uma amiga chilena, Alejandra. Sobre minha estadia lá eu contarei em outro Kapitel. Agora, vou tratar da minha volta. Como hoje é aniversário de Paula, uma das filhas de Ale, comemos um bolo em comemoração e, por isso, acabei saindo um pouco tarde de lá, depois das dez (minha viagem era às 10h33). Então, minha amiga me deu uma carona até a estação ferroviária Hauptbahnhof. Foi, portanto, uma volta tranqüila, sem contratempos (diferentemente da maioria de minhas viagens, como os leitores destes Contos Fantásticos já devem ter notado).

Nem por isso se tratou de uma viagem de trem sem nada que mereça destaque. É admirável como, no Velho Mundo, pode-se encontrar gente de todas as partes. Eu nunca imaginei que um dia, por exemplo, conheceria alguém da Eritreia. Para quem não é aficionado em geografia como eu, Eritreia é um país no nordeste da África, que por um tempo pertenceu à Etiópia, mas que se tornou independente nos anos 90. Ocupa todo o litoral do que era a Etiópia há poucas décadas atrás. Pois não é que era de lá Nigsti, a minha companheira de trem?

Ela já estava viajando havia muito mais horas. Vinha da Áustria, onde mora há nove anos, para se encontrar com seus irmãos, que estariam em Frankfurt de passagem para seguir para os Estados Unidos. Ela já estava no trem desde as seis e meia da manhã! Certamente gostou de, enfim, encontrar alguém para conversar. Ela me contou que, antes de se mudar para a Europa, morou ainda cinco anos no Sudão. Aliás, apesar de ser eritreia, ela trabalha na embaixada sudanesa na Áustria.

Disse que, como fala no trabalho todo o tempo em inglês e árabe, até hoje não fala bem o alemão. Essa informação foi reconfortante para mim... O idioma natal dela, no entanto, chama-se tigrínia. Ela me mostrou como se escreveria meu nome no alfabeto usado por eles. É mesmo completamente diferente.

O trem chegou um pouco atrasado, quase às duas da tarde. Eu estava roxo de fome. Como não estava nem um pouco disposto a esquentar uma pizza em casa, resolvi comer em algum dos muitos restaurantes de culinária de outros países que ficam nas cercanias da Hauptbahnhof de Frankfurt. É aí que, depois da Europa e da África, entra neste “conto fantástico” a outra parte do Velho Mundo: a Ásia. Eu pensava em comer em algum restaurante turco, mas passei por um de comida asiática, chamado Ding Ding Sheng, que estava cheio de... asiáticos. Pensei: um restaurante asiático... se está cheio de asiáticos, é porque deve ser bom. Comi um guang dong ji, que é um frango à moda cantonesa. Sim, estava bom. Assim é a Europa... aqui tem de tudo. Admirável mundo velho...

domingo, 18 de julho de 2010

Kapitel XCV – Antes de Partir

A última sexta-feira foi um dia de encerramentos. Primeiro, pela manhã, após faltar, por diferentes razões, as últimas cinco ou seis aulas de alemão, fui ao campus de Westend para assistir à última. A aula foi curta e, ainda assim, entendi tanto quanto na maioria das aulas anteriores: ou seja, não entendi nada! O professor distribuiu certificados; os alunos os pegavam em branco, preenchiam seus nomes e os davam para que ele assinasse. Eu não quis o meu. Não preciso de nenhum comprovante de proficiência em alemão, sigo longe de tê-la, não aprendi basicamente nada no curso e ainda faltei à beça no final.

Depois da aula, estudei um pouco e almocei com João Guilherme, o italiano Jan e outros amigos deles. Os dois me chamaram para um piquenique que ocorreria no Grüneburg-park, à noite. Segundo João, seria mais um “Trinknik”, pois beberíamos (“trinken”) muito mais do que comeríamos.

Tomei um café com o pessoal – pelo menos o que sobrou depois que deixei um bocado do meu cair no chão – e segui para o outro campus, o de Bockenheim. Seria a última aula do curso Politik und Gesellschaft in Brasilien, em que fui assistente do Jens. Não sei se por estar cansado, mas, apesar da afinidade com o tema, entendi ainda menos do que de costume o que todo mundo dizia. O resultado foi que entrei mudo e saí calado dessa última aula de política brasileira. No balanço do final do curso, um dos alunos chegou a comentar que achou muito bom haver um brasileiro ajudando na aula, e todos os alunos demonstraram concordar com ele. Isso é legal, mas sei que certamente eu teria sido muito mais útil e ajudado bem mais se compreendesse tudo o que foi dito na aula ao longo do semestre. Mas tudo bem, nada é perfeito, fiz o melhor que pude.

Depois da aula, Jens convidou a todos para irmos ao bar Albatros para bebermos alguma coisa e conversarmos. Foi ótimo, uma parte considerável da turma compareceu, inclusive alguns alunos com quem não tive contato – os sempre presentes Lara, Xenia, Lucia, Nikolai e Maryhen também foram, é claro. E, como descobriram recentemente a existência destes Contos Fantásticos, devem estar comentando o fato de seus nomes terem sido mais uma vez mencionados.

Voltei para casa, tomei um banho e, obviamente, eu me atrasei. Havia marcado de me encontrar com João Guilherme às 8h20 na estação de metrô da Hauptwache para, de lá, irmos nos encontrar com os demais em Bockenheim – exatamente o bairro onde eu havia estado uma hora mais cedo! Eram umas 8h15 e eu ainda estava em casa. Telefonei avisando que não chegaria a tempo; ele disse que esperaria e brincou que estava com saudade da pontualidade brasileira.

Nós nos juntamos ao Jan e, depois, aos demais. Os planos foram mudando. Ninguém foi a parque algum, acabamos todos ficando mesmo no pátio do alojamento universitário. Também não era propriamente o que eu chamaria de piquenique. Era o que, no termo técnico utilizado no Brasil, denominaríamos “farofada”. Além de muita cerveja, o povo chegava com vasilhas cheias de comida, com uma misturança danada.

Esta foi, possivelmente, a maior aglomeração de pessoas que se conheciam que eu vi desde que cheguei na Alemanha. Estavam lá todos os milhões de italianos do curso de alemão, além de pessoas das mais variadas partes, como Hungria, Polônia, França, Coreia do Sul... O motivo da reunião era a despedida de um dos italianos, Paolo, que voltaria no sábado para seu país. Até o hino da Itália o pessoal cantou!

O plano era, depois, irem a uma boate, CafeKoz. Desde o início decidi que eu não iria, pois viajaria para Berlim no sábado de manhã. Na verdade, só saí naquela noite porque imaginei que seria algo leve e que acabaria cedo. Só que saí bem tarde, fiquei lá até uma e meia. Fui embora preocupado se ainda haveria metrô funcionando. Não havia. Desde que comecei a comprar os bilhetes mensais de transporte público, fiquei mais preguiçoso e faço muito menos coisas a pé, sempre pegando o metrô. Fazia tempo, portanto, que não trilhava a pé o percurso de Bockenheim até Dornbush, onde moro. Coube-me fazê-lo de madrugada. Por sorte Frankfurt é uma cidade muito segura e, apesar de minha lendária desorientação, consegui me lembrar de várias referências e achei o caminho até minha casa.

Não sei por que, quando tenho uma viagem, tendo a, em vez de descansar na véspera, dormir pouco. O resultado é que faço várias coisas nas viagens já com o corpo cansado e, como não quero perder tempo descansando quando estou fora, na volta eu estou sempre completamente estragado. Fui dormir a umas duas e meia e acordei às sete. Mas isso não importa; finalmente vou conhecer Berlim. Meu amigo Florian tem casa na cidade e me ofereceu para ficar lá.

Florian fez ainda mais: como aqui há um sistema institucionalizado de caronas – Mitfahrgelgenheit –, que sai muito mais barato do que viajar de trem ou avião, ele marcou uma para mim. Sairia a 25 euros apenas, para uma viagem de quatro horas. Nada mal. Mas conheci um possível efeito colateral do Mitfahrgelgenheit: as caronas têm muito mais chance de furar do que os trens. E foi o que aconteceu. Quarenta e cinco minutos antes da hora marcada – 8h30 na estação central de trem – o sujeito me mandou um torpedo desculpando-se que não poderia ir a Berlim. Minhas opções seriam, portanto, tentar marcar outra carona e, portanto, perder pelo menos um dia, ou ir de trem. Fui de trem. A diferença? A passagem me custou absurdos 113 euros! Quase noventa a mais do que sairia a carona... Vejamos se, na volta, o motorista não vai dar para trás e conseguirei economizar na passagem.

No trem, eu escrevia este “conto fantástico” que vocês estão lendo e um garoto, que estava sentado ao meu lado, perguntou se o idioma era espanhol. Expliquei que era português, e que eu era brasileiro, e isso foi suficiente para seguirmos a viagem conversando até Berlim. Era um garoto novo, ainda a quatro anos de terminar o colégio, que quer ser cirurgião e estudar medicina, mas, no momento, parece estar mais interessado em música e em jogos de computador. Mas foi muito interessante porque conversamos muito mais em alemão do que em inglês, e ele pacientemente falava devagar, repetia quando eu não entendia e traduzia as palavras que véu não conhecia. Meu alemão continua fraco, mas talvez estejam ocorrendo progressos. Quem sabe também falarei em alemão na carona de volta para Frankfurt, não é?

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Kapitel XCIV – A Bolsa e os Espiões

Hoje, um estrangeiro sem dinheiro foi abordado pela polícia na Alemanha. Não, não estou falando de nenhum imigrante ilegal ou criminoso. Estou falando de mim mesmo! Explicarei.

Minha conta bancária continua no negativo, porque minha bolsa de estudos está há dois meses atrasada e o dinheiro que o banco descontou por causa do envio do segundo cartão – o primeiro extraviou por culpa do correio – e disse que me devolveria não foi devolvido (detalhes da tragédia no Kapitel LXXVIII). Eu havia telefonado para o CNPq e tinham me dito que o dinheiro estaria depositado na minha conta no dia 28 (do mês passado! Já com atraso!). Eu estava na França e fui conferir minha conta alguns dias depois, já de volta a Frankfurt. Ao me deparar com a desagradável surpresa de que minha situação era a mesma do mês anterior, somada ao fato de que eu precisava pagar mais um aluguel, telefonei para o CNPq novamente.

A responsável pela minha bolsa me garantiu que, certamente, o dinheiro estaria na minha conta no início desta semana. Eu ainda perguntei: “Dia 12 ou 13, então, com certeza?”. Ela respondeu afirmativamente, mas é claro que, no dia 13, não havia dinheiro algum. Assim que cheguei em casa, telefonei novamente. A responsável pela minha bolsa disse que ia falar com o setor financeiro e pediu para eu telefonar cinco minutos depois. Esperei doze e liguei. Ela não estava. Perguntei se tinha ido embora ou apenas dado uma saída. Não sabiam responder com certeza mas sugeriram que eu telefonasse um pouco depois. Fiz isso e me responderam que ela tinha precisado sair um pouco mais cedo.

Não é incrível? Disse para eu ligar um pouco depois e se mandou! A situação continuaria bizarra. Expliquei para outra pessoa a minha situação e ela me passou para a chefa deles. Alguém atendeu – suponho que a chefa – e eu perguntei “com quem eu falo?”. Ela desligou na minha cara! Muito esdrúxulo! Telefonei novamente, um cara atendeu e me passou para uma mulher, que – enfim! – efetivamente me atendeu: ela não transferiu a ligação para mais ninguém, ouviu o meu problema, pesquisou o que estava acontecendo e ficou chocada com o tamanho da confusão. Explicou-me que o dinheiro é dado ao Banco do Brasil e que ele, então, envia a grana para os bancos da Europa e dos Estados Unidos onde os bolsistas têm conta. E o dinheiro, segundo constava lá, efetivamente tinha ido para o Banco do Brasil no dia 28. Só que, dezessete dias depois, não há nem sinal dele na minha conta. Ela disse que encaminharia naquele mesmo dia o problema para o setor financeiro, para que se investigasse o que havia ocorrido.

Só me resta esperar. De todo modo, mesmo sem dinheiro em minha conta alemã eu precisava pagar meu aluguel. Então, no dia seguinte – que foi ontem – eu fui ao banco perto da minha casa para pegar dinheiro da minha conta do Banco do Brasil. Eis que o caixa eletrônico do Kommerzbank me informou que eu não podia pegar a quantia que eu tinha pedido, mas que eu poderia sacar dez euros. Espera um pouco... o que diabos eu vou fazer com dez euros?! Comprar seis picolés? Fui hoje a outro banco perto da universidade e finalmente peguei o dinheiro para o aluguel.

Chegamos, então, à segunda parte da aventura. Na terça-feira eu havia tomado uma cerveja com o Jens na Bockenheimer Warte, perto da universidade, e, por isso, entrei na estação do metrô pelo outro lado. A estação de Bockenheimer Warte é peculiar, pois ela dá acesso a duas linhas que fazem o percurso leste-oeste e é também o ponto final da linha U4, que, diferentemente das outras seis linhas de metrô, faz um U em vez dos percursos leste-oeste ou norte-sul. Normalmente, pego o U4, pois também me serve e, a partir da entrada mais próxima da universidade, preciso andar menos lá dentro. Só que eu tinha entrado pelo outro lado e não me dei conta de que estava pegando a outra linha. Esta também me serviria, se não fosse pelo fato de eu tê-la pegado no sentido errado. Minha distração me tomou algum tempo mas também me levou a uma estação de metrô que me deixou intrigado: a Kirchplatz.

Eu nunca havia estado nessa praça, que, a julgar pelo tema das paredes da estação de metrô, deveria ter diferentes igrejas. Pensei: “hoje quero voltar logo para casa, mas, qualquer dia destes, volto aqui para conhecer esta praça, que deve ser interessante”. Resolvi fazer isso hoje. Saltei lá e fiquei olhando, como um bobo, para ver se via as igrejas. Só vi uma, nada de mais. Mas acredito que chamou a atenção essa postura de nunca-estive-aqui-antes-e-não-sei-para-onde-vou.

Um homem veio em minha direção e me chamou. Achei que iria perguntar alguma coisa; mas não exatamente... Mostrou um documento e disse que era da polícia, sendo imediatamente acompanhado por outro homem e uma mulher, todos à paisana. Falaram alguma coisa que não entendi, e retruquei interrogativamente: “desculpa...”. Ele respondeu um pouco mais asperamente e disse que queria ver meu passaporte.

Normalmente estou com ele e, por sorte, hoje não foi uma exceção. Mas não podia deixar de pensar nas vezes em que o deixei em casa, por não imaginar que poderia se passar tal situação. O cara olhou o passaporte e disse: “ah, é brasileiro!”. Naquele instante, achei que tinha sido uma interjeição neutra, mas pouco depois suspeitei que, nas entrelinhas, houve certa conotação não muito positiva.

Ele me perguntou quando eu tinha entrado no país e, quando respondi que em março, ele começou a fazer contas na minha frente, como que ironizando pelo fato de o tempo de permanência dos turistas já ter expirado. Mostrei a ele, então, o visto no meu passaporte. Só então eu deixei de ser um suspeito. Ele mostrou para o outro a explicação de que eu sou um pesquisador-visitante convidado pelo professor Jens para estudar na universidade de Frankfurt. Eles não escondiam sua expressão, que era um misto de surpresa com certa admiração. Disse que estava tudo certo – “Alles klar” – e me desejou um bom dia.

Ou seja, sem qualquer razão aparente, eu, que estava apenas andando pela rua, fui abordado por policiais disfarçados, como se fosse um filme de espionagem. Se eu estivesse sem o passaporte, apenas com minha identidade, certamente teria uma dor de cabeça tão grande ou até maior do que a da falta da minha bolsa. Bem, minha situação com a polícia não foi das mais agradáveis, mas se resolveu logo. Vejamos se minha desagradabilíssima situação com o Postbank e com o CNPq não demora muito mais para se resolver também.

sábado, 3 de julho de 2010

Kapitel LXXXVII – A Realidade é Laranja

Esta sexta-feira era um dia que prometia emoções. O clássico entre Brasil e Holanda definiria uma das equipes semifinalistas da copa. Minha apresentação de trabalho no congresso em Toulouse seria entre sexta à tarde e sábado de manhã. Morri de medo de ser na hora da partida Acabou que foi marcada para o horário entre as duas e as quatro horas. Daria para apresentar e ver o jogo em seguida!

Com atrasos, pessoas falando muito mais do que os quinze minutos, e um comparecimento de todos os inscritos na seção (isso não aconteceu em quase nenhuma outra seção), o tempo passou e só pude apresentar bem tarde. Eu me saí bem, fiz a apresentação em espanhol, e o meu trabalho foi o que gerou maior polêmica, suscitando perguntas e dividindo a sala entre olhares entusiasmados de aprovação e não disfarçadas expressões de contrariedade. O mais pitoresco foi a presença, na sala, do segundo colocado na eleição para presidente da Colômbia, Antanas Mockus, que havia dado uma palestra pela manhã. Ele até perguntou para mim, após minha apresentação, como eu entendia o conceito de desmercantilização.

No intervalo, saí desesperado para ver o jogo. Troquei a camisa azul de pano de mangas compridas da apresentação pela amarelinha da seleção. Já havia perdido todo o primeiro tempo e logo soube que o Brasil ganhava por 1 a 0. Minha intenção de ir a um bar ver a partida foi pelos ares, mas eu tinha um laptop e o local do congresso tinha internet wireless gratuita. Combinação perfeita!

Conectei na transmissão francesa da partida e logo começou a juntar gente para assistir. Entre eles, Rodrigo, um chileno que estava no mesmo quarto que eu no albergue e, pelo que soube com ele depois, estavam também vários outros hóspedes, que eu nunca tinha visto. Logo arrumaram uma sala vazia do congresso para assistirmos. Um sujeito da organização tentou até plugar o laptop para transmitir a imagem grande, pelo projetor, mas infelizmente não funcionou. Todos torciam para o Brasil. Quando tirávamos fotos em diferentes câmeras, eis que a Holanda empatou, em uma incomum falha do goleiraço Júlio César. A fotografia que ilustra este Kapitel foi tirada segundos antes (mas a do momento do gol foi a da máquina do Rodrigo!).

A situação piorou com a virada holandesa e degringolou com a estúpida expulsão de Felipe Melo, que pisou um adversário. O Brasil está fora da Copa. Saí frustrado e voltei para o albergue. Comi um pouco de pão com patê (é o que mais tenho comido nos últimos dois dias, pois comprei no Carrefour uma mousse de foi gras e uma mousse de canard au Porto). Depois fui ver a outra partida do dia, pois o Brasil está eliminado mas a Copa do Mundo continua.

Fui ao bar argelino (ver Kapitel LXXXII), onde há uma tevê com a transmissão dos jogos e lá vi o primeiro tempo da excelente partida entre Gana e Uruguai. Enquanto comia um sanduíche da lingüiça árabe merguez e tomava dois copos do típico chá com menta argelino, vi o belo gol ganês e muito equilíbrio entre as duas equipes. No intervalo, até para fugir do calorão que fazia lá dentro (Toulouse já está um forno, imaginem dentro de um minúsculo bar onde há chapas esquentando sanduíches!), resolvi dar uma volta.

Andei em busca do ótimo bar em que eu tinha ido dois dias antes (ver Kapitel anterior), mas nada de achá-lo. Vi, ao longe uma torre de igreja, e resolvi ir até lá. Chegando lá. Pareceu-me uma igreja sem nada de muito especial, mas, prudentemente refleti: não devo fazer pouco caso dela, pois, de repente, ela é antiga para caramba. Não deu outra. A igreja de Minimes é do século XVI! Isto é Europa...

Andei mais, passei por criancinhas árabes com a camisa do Brasil, continuei em busca do bar Musical Ralimera, e o encontrei! Bebendo, mais uma vez, chope Karlsbräu, vi o segundo tempo, o golaço do craque Forlán, a prorrogação, o incrível lance em que Gana quase marcou duas vezes o gol mas os uruguaios salvaram na linha, só que o segundo deles com a mão, o pênalti no último minuto batido pelo ganense no travessão. Aí, na disputa de pênaltis, a fênix celeste acabou com a última esperança africana.

Se o goleiro de Gana tivesse assistido aos jogos do Uruguai, teria mais chances. Arriscou o canto e não defendeu nenhuma cobrança. Só que uruguaios – especialmente os defensores e à exceção de craques como Forlán – têm uma incrível tendência a mandar um canhão bem no meio do gol. É só o goleiro não sair do lugar que suas chances aumentam consideravelmente. Mas ele sempre pulou e Gana está eliminada. Para alegria de meus amigos uruguaios, a celeste olímpica volta a uma semifinal de Copa do Mundo. Pena que contra a Holanda.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Kapitel LXXXIV – Um Conto Bordelense

Apesar de a viagem de Toulouse para Bordeaux (Bordéus, segundo os portugueses) durar mais de duas horas, aproveitei meu segundo dia livre em Toulouse para conhecer a cidade. Acordei cedo e comi um croissant de café da manhã (aqui, os croissants, em geral, são com chocolate ou apenas amanteigados; não têm recheio, mas a massa é tão boa que não faz falta). Peguei o trem das 9h20 (cheguei em cima da hora!), com a intenção de voltar no último trem do dia, às 20h31.

Andei bastante por Bordéus (cidades com nomes bizarros em português, como Bordéus/Bordeaux e Mogúncia/Mainz – sobre esta, ver Kapitel XLIII – sempre me deixam na dúvida de como chamá-las). É uma bela cidade, com seu conjunto de maravilhas arquitetônicas consideradas pela Unesco como patrimônio mundial. Várias suntuosas edificações dos séculos XVIII e XIX, e outras tantas começadas bem antes a ser erigidas, dão um ar imponente. Impossível não destacar o belíssimo chafariz Monumento aos Girondinos, na Praça dos Quinconces.


Vias extremamente largas, em que não está clara a divisão do que é rua e o que é calçada, são um diferencial. Mas há também algumas ruelas bem estreitas, com velhos prédios algo enegrecidos pelo tempo. Como Bordeaux foi uma próspera cidade “galor-romana”, também vi ruínas do século III. Debaixo da Igreja de Saint-Serin, há um sítio arqueológico.

Mais impres-sionante do que ele, no entanto, é o Palais Gallien, uma antiga arena para gladiadores que teve capacidade para vinte mil espectadores (pouco menos do que metade do Coliseu romano). Apesar de a Revolução Francesa ter tomado a insensível decisão de demolir o local, por não ter “utilidade”, para construir em seu lugar um quarteirão moderno, o que sobreviveu está consideravelmente preservado.

Faço um breve interregno para comentar como, um a um, os estereótipos sobre os franceses vão se confirmando. Primeiro, foi o atraso do trem para Carcassonne (ver o Kapitel anterior). Depois, é a incapacidade da maioria dos franceses de pronunciar de modo aceitável nomes em outros idiomas. Na véspera, na transmissão da partida entre a Alemanha e a Inglaterra, tive o melhor exemplo disso: é difícil alguém ter um nome mais alemão do que Schweinsteiger. Florian me disse uma vez que, ao pé-da-letra, em tradução livre, o significado seria “escalador de porcos”. Bizarramente alemão! Pois a pronúncia correta é, mais ou menos, “chvainchtaiga”, só que o locutor francês, obviamente, dizia “chvenchteguér”.

Escrevo sobre os estereótipos porque nesta viagem a Bordeaux foi a vez de o terceiro se confirmar. Fui almoçar e pedi foi gras (precisava provar o legítimo francês!) e o vinho que o garçom indicou para acompanhar, Monbuzillac. Oito euros pelo prato e quatro pela taça não eram nenhuma pechincha, mas achei que devia experimentar. Eis que, quando o garçom trouxe o pedido, o prato vinha quase vazio, apenas com enfeites! Precisei avançar no pão. Até a taça de vinho me parecia mais incompleta do que o normal. Era o estereótipo da comida francesa.

Voltando à viagem como um todo: não consegui ver tudo da cidade, até porque alguns supostos pontos de interesse turístico não são conhecidos por ninguém perto de sua suposta localização. Mas vi muito coisa, principalmente se for considerado que só tive um dia para passear lá. Consegui ainda ver boa parte do segundo tempo da vitória holandesa sobre a Eslováquia. No bar, um restaurante indiano praticamente vazio, pedi um sorvete de café. Não estava nenhuma delícia, mas, além de o lugar ter uma televisão passando os jogos da Copa, o sorvete ali estava muito mais em conta (1,50 €) do que os de 2,50 € ou 5 euros que vi pela cidade. Na Alemanha, o preço da bola de sorvete é uma boa medida para se saber se uma cidade é careira (ver Kapitel XLVII). Só que em Toulouse, Bordeaux ou Carcassonne, os preços são proibitivos. Quase sempre mais que o dobro ou que o triplo dos 80 cêntimos de Frankfurt.

Depois, ainda fui ver mais alguma coisa antes de voltar para a estação de trem. Fui ao bairro de St. Michel, onde há uma igreja importante. O interessante é que, apesar da origem obviamente católica, o bairro tem um enorme número de árabes e turcos, o que é facilmente perceptível nas caras, nas lojas, nas roupas.

No ponto do bonde, perguntei a um senhor negro, com dois filhos, de qual dos lados da rua eu deveria pegar o transporte no sentido da estação de trem. Ele explicou que era onde eles estavam. Um dos meninos, curioso, perguntou aonde eu ia. Comecei, então, dentro do possível, a conversar em francês com o garoto. Respondi que ia a Toulouse, e ele perguntou se eu morava lá. Eu disse que não, que morava em Frankfurt, na Alemanha. Nesse momento, ele encheu a boca para dizer que morava em Bordeaux. Se entendi bem, desmereceu Toulouse, afirmando que Bordéus é muito maior.

Aí, perguntei se ele conhecia Toulouse e se não gostava da cidade. Ele respondeu que conhecia e que gostava sim, e em seguida disse qualquer coisa sobre Marrakesh. Perguntei, então, se ele era marroquino. Percebi uma demora na resposta, como se ele tivesse vergonha ou receio de dizer que não era francês, mas do Marrocos. Contei para ele, então, que tenho um tio marroquino, marido da irmã do meu pai. Fez bem para mim ver o enorme sorriso que o menino abriu ao ouvir a inesperada informação.

Tudo teria sido ótimo na viagem se não fosse por um detalhe: pela primeira vez em muitas copas do mundo, perdi o jogo do Brasil! Estupidamente, achei que a partida desta noite seria entre Paraguai e Japão e não conferi a maldita tabela. Enquanto o Brasil despachava o Chile, eu me angustiava no trem de Bordeaux para Toulouse, sem ter acesso a qualquer informação sobre o jogo. Já caminhando de volta para o albergue, foi só ver o primeiro bar no caminho que tinha transmitido a partida para atravessar a rua e perguntar para o atendente sobre o placar. A resposta “trois-zero” soou como música para meus ouvidos. Eu podia, então, voltar em paz, tranqüilo e satisfeito.