Quem me conhece sabe que adoro basquete. Não é modinha, nem é por conveniência quando meu time vai mal no futebol. Eu simplesmente gosto demais desse esporte da bola laranja. E não estou falando de NBA não. Gosto mesmo é de ver a seleção de camisa amarela e, claro, o time vermelho e preto, o mais querido do mundo. Freqüentemente vou ao ginásio e raramente perco as transmissões pela tevê.
Hoje, apesar de feriado, foi um dia em que passei todo o tempo em casa, pois tinha que avançar na preparação de uma apresentação para a universidade. Mas eu tenho do que reclamar? Bebendo uma ótima cerveja Altbier da marca Diebels e comendo um gostoso queijo Old Amsterdam, vi pelo Skype, com o sempre inestimável apoio logístico da minha mãe, a sensacional vitória do Mengão no basquete.
Em uma grande atuação, o Flamengo atropelou o Brasília por 94 a 74, empatando a série final do campeonato brasileiro de basquete em dois a dois. No domingo que vem, às dez horas do Rio e três da tarde da Alemanha, acontecerá em Anápolis a partida decisiva, que não perco em hipótese alguma! Se vencer, o Fla será tricampeão brasileiro consecutivo! E o Brasília será trivice.
Que vontade de estar lá... Não são muitas as situações em que preferiríamos estar em Anápolis do que em Frankfurt, não é mesmo? Coisas de um coração rubro-negro.
quinta-feira, 3 de junho de 2010
Kapitel LXIV – Quase, Quase
Meus amigos da universidade Florian e Bertram me convidaram para um inusitado evento. Haveria na noite desta quarta-feira uma festa brasileira em um lugar chamado Club o25, localizado próximo à Ostbanhof, a estação de trem do leste. Seria, segundo o anúncio, uma festa junina, com forró ao vivo e tudo. Telefonei para Vítor para ver se ele também queria ir. Ele me respondeu que seus pais estavam aqui em Frankfurt, e que eles e mais um pessoal iriam se encontrar perto da estação Hauptwache, onde aconteceria uma feira gastronômica. Estava feita minha programação da noite – pelo menos era o que eu pensava.
Encontrei-me com Vítor, seus pais, e um casal de amigos que estava na festa da casa do Filipe (ver Kapitel LVII). Aliás, Filipe e Fiorina, além de Julian, chegaram pouco depois à Hauptwache. Como disse Filipe, aquele evento não parecia coisa de cidade grande, poderia ocorrer em qualquer cidadezinha do interior. De fato, era exatamente o que chamamos de quermesse. Havia barraquinhas vendendo comida árabe, indiana, alemã, crepe, pipoca, espumante, cerveja...
Fui à barraca de tradicional comida alemã e pedi um Leberkäs’ no pão, iguaria bávara. Não percebi nenhuma diferença em relação ao Fleischkäse que eu já havia comido em duas outras oportunidades (ver Kapitel XXIV), e acabo de descobrir após rápida pesquisa o motivo: são sinônimos. Comprei também em uma barraquinha próxima um copão de cerveja de trigo escura Erdinger Dunkel. Com esta alemaníssima refeição, eu estava pronto para toda a noite.
Não fiquei muito tempo lá, afinal, tinha marcado às onze perto da Ostbahnhof com Bertram e Florian. Peguei o metrô e cheguei lá. Pouco depois chegou Florian, que tinha ouvido falar bem do lugar. A expectativa era de que a entrada seria de graça até a meia-noite e que, depois disso (ainda eram onze e pouco), custaria cinco euros. Pois eis a desagradável surpresa: teríamos que pagar dez euros cada para poder entrar. A situação piorou conforme fomos vendo as pessoas chegando. Eram todos brasileiros, e eles não estavam me motivando nem um pouco a entrar. Estava na cara que seria uma roubada! Após rápida deliberação, decidimos seguir um plano B. Só que não tínhamos um, e começamos a pensar a respeito enquanto caminhávamos de volta.
Florian sugeriu um bar no bairro de Ostend, não muito longe dali, chamado Trikhalle. Fomos lá e foi agradável. Conversamos bastante e fizemos nossos prognósticos para a Copa do Mundo. Florian bebeu vinho de maçã (Apfelwein), Bertram preferiu a cerveja Veltins, e eu fiquei em cima do muro: bebi um de cada. Na saída, Florian foi para uma direção, eu e Bertram para a outra.
Nós dois moramos na mesma rua, só que a duas estações de metrô de distância. Ambos precisávamos, portanto, descobrir onde estava ela, a Eschersheimer Landstraße. É claro que foi Bertram, detentor com um senso de direção decente, quem assumiu essa responsabilidade e, após alguma caminhada, estávamos perto da Hauptwache. Eis que escutei um som e, apesar de perceber que não era meu telefone celular, instintivamente coloquei a mão no bolso. E ele não estava lá! Perdi o celular. Muito provavelmente, deslizou do bolso lateral da calça enquanto eu estava sentado no sofá.
É nestas horas que reconhecemos um amigo. Bertram, que já estava fazendo todo o caminho comigo a pé apesar de estar de bicicleta, acompanhou-me de volta até o bar para que eu conferisse se o telefone estava lá. Chegando, apesar da boa vontade da garçonete e do cliente que, àquela hora, ocupava o sofá, a situação não era promissora. Empurramos o móvel, tiramos as almofadas, e nada de encontrar o maldito aparelho. Pedi que Bertram telefonasse para mim, para tentarmos localizá-lo, mas nenhum som foi percebido. A garçonete já havia me passado o telefone da casa, para que eu ligasse no dia seguinte para saber se o pessoal da limpeza tinha encontrado alguma coisa, todos já dávamos a situação por perdida, até que, subitamente, sei lá como, ela achou o dito cujo!
E lá fomos nós, eu e Bertram, fazer todo o caminho de novo. Mais cansados, mas, em meu caso, também muito mais aliviado. Na noite do quase-quase, quase fui a uma festa brasileira e quase perdi meu celular. Em ambos os casos, felizmente, apenas quase. Agora, com licença que vou para a cama, pois já estou aqui há quase duas horas e preciso dormir!
Encontrei-me com Vítor, seus pais, e um casal de amigos que estava na festa da casa do Filipe (ver Kapitel LVII). Aliás, Filipe e Fiorina, além de Julian, chegaram pouco depois à Hauptwache. Como disse Filipe, aquele evento não parecia coisa de cidade grande, poderia ocorrer em qualquer cidadezinha do interior. De fato, era exatamente o que chamamos de quermesse. Havia barraquinhas vendendo comida árabe, indiana, alemã, crepe, pipoca, espumante, cerveja...
Fui à barraca de tradicional comida alemã e pedi um Leberkäs’ no pão, iguaria bávara. Não percebi nenhuma diferença em relação ao Fleischkäse que eu já havia comido em duas outras oportunidades (ver Kapitel XXIV), e acabo de descobrir após rápida pesquisa o motivo: são sinônimos. Comprei também em uma barraquinha próxima um copão de cerveja de trigo escura Erdinger Dunkel. Com esta alemaníssima refeição, eu estava pronto para toda a noite.
Não fiquei muito tempo lá, afinal, tinha marcado às onze perto da Ostbahnhof com Bertram e Florian. Peguei o metrô e cheguei lá. Pouco depois chegou Florian, que tinha ouvido falar bem do lugar. A expectativa era de que a entrada seria de graça até a meia-noite e que, depois disso (ainda eram onze e pouco), custaria cinco euros. Pois eis a desagradável surpresa: teríamos que pagar dez euros cada para poder entrar. A situação piorou conforme fomos vendo as pessoas chegando. Eram todos brasileiros, e eles não estavam me motivando nem um pouco a entrar. Estava na cara que seria uma roubada! Após rápida deliberação, decidimos seguir um plano B. Só que não tínhamos um, e começamos a pensar a respeito enquanto caminhávamos de volta.
Florian sugeriu um bar no bairro de Ostend, não muito longe dali, chamado Trikhalle. Fomos lá e foi agradável. Conversamos bastante e fizemos nossos prognósticos para a Copa do Mundo. Florian bebeu vinho de maçã (Apfelwein), Bertram preferiu a cerveja Veltins, e eu fiquei em cima do muro: bebi um de cada. Na saída, Florian foi para uma direção, eu e Bertram para a outra.
Nós dois moramos na mesma rua, só que a duas estações de metrô de distância. Ambos precisávamos, portanto, descobrir onde estava ela, a Eschersheimer Landstraße. É claro que foi Bertram, detentor com um senso de direção decente, quem assumiu essa responsabilidade e, após alguma caminhada, estávamos perto da Hauptwache. Eis que escutei um som e, apesar de perceber que não era meu telefone celular, instintivamente coloquei a mão no bolso. E ele não estava lá! Perdi o celular. Muito provavelmente, deslizou do bolso lateral da calça enquanto eu estava sentado no sofá.
É nestas horas que reconhecemos um amigo. Bertram, que já estava fazendo todo o caminho comigo a pé apesar de estar de bicicleta, acompanhou-me de volta até o bar para que eu conferisse se o telefone estava lá. Chegando, apesar da boa vontade da garçonete e do cliente que, àquela hora, ocupava o sofá, a situação não era promissora. Empurramos o móvel, tiramos as almofadas, e nada de encontrar o maldito aparelho. Pedi que Bertram telefonasse para mim, para tentarmos localizá-lo, mas nenhum som foi percebido. A garçonete já havia me passado o telefone da casa, para que eu ligasse no dia seguinte para saber se o pessoal da limpeza tinha encontrado alguma coisa, todos já dávamos a situação por perdida, até que, subitamente, sei lá como, ela achou o dito cujo!
E lá fomos nós, eu e Bertram, fazer todo o caminho de novo. Mais cansados, mas, em meu caso, também muito mais aliviado. Na noite do quase-quase, quase fui a uma festa brasileira e quase perdi meu celular. Em ambos os casos, felizmente, apenas quase. Agora, com licença que vou para a cama, pois já estou aqui há quase duas horas e preciso dormir!
quarta-feira, 2 de junho de 2010
Kapitel LXIII – O Menu de Wurst, o Espanto e a Almôndega de Lata
Eu devia ter praticado a arte da culinária antes de vir para a Alemanha. É pela minha profunda ignorância acerca de como cozinhar que eu compro tantas salsichas no supermercado. Outro dia, comi salsichas de Viena (Wienerwurst). Da última vez, não comprei nenhuma salsicha e trouxe um pacote de massa; vejamos no que vai dar... De todo modo, ainda falta um último pacote, de salsichinhas brancas de Nurenberg (Original Nürnberger Rostbratwürstchen), que estou esquentando neste momento.
Manfred debocha que só compro salsichas, que isso não é comida, e blablablá. Mas tenho minhas dúvidas se ele faz muito melhor do que isso. Está sempre esquentando comidas enlatadas, nem sempre muito cheirosas ou atraentes. Outro dia, esquentava uma refeição enlatada com almôndega, pelo menos era o que aquilo parecia ser. Gosto de almôndegas, mas aquilo lá... Diante de meus olhos arregalados, ele deu a seguinte explicação: “Sei que isto não está bonito, mas eu não tenho tempo de cozinhar!”
Levei mais tempo rindo do desabafo dele do que as almôndegas de lata precisaram para ficar prontas. Definitivamente, falta um cozinheiro neste apartamento! Com licença, que vou ver se minhas salsichas estão prontas.
Manfred debocha que só compro salsichas, que isso não é comida, e blablablá. Mas tenho minhas dúvidas se ele faz muito melhor do que isso. Está sempre esquentando comidas enlatadas, nem sempre muito cheirosas ou atraentes. Outro dia, esquentava uma refeição enlatada com almôndega, pelo menos era o que aquilo parecia ser. Gosto de almôndegas, mas aquilo lá... Diante de meus olhos arregalados, ele deu a seguinte explicação: “Sei que isto não está bonito, mas eu não tenho tempo de cozinhar!”
Levei mais tempo rindo do desabafo dele do que as almôndegas de lata precisaram para ficar prontas. Definitivamente, falta um cozinheiro neste apartamento! Com licença, que vou ver se minhas salsichas estão prontas.
terça-feira, 1 de junho de 2010
Kapitel LXII – Duas Noites, Três Cidades, Treze Nações e Uma Hora de Sono
Quinta-feira, sexta e sábado passados, definitivamente, não foram dias comuns. Eu tinha um congresso para ir que aconteceria da tarde de quinta à manhã de sábado, em Eschborn, uma cidadezinha sem atrativos na periferia de Frankfurt. Eu havia combinado, também, de ir a Mainz (ou Mogúncia? Ainda não me decidi. Ver Kapitel XLIII) visitar um casal de amigos alemães, Tobias e Marion Mannhold (não confundir com a Marion Reiser, professora da universidade). Desde que cheguei ao país ainda não tinha me encontrado com eles.
Soube do congresso por uma amiga chilena, Alejandra, que mora na Baviera e é casada com um alemão. Eu a conheci ano passado, no congresso mundial de ciência política em Santiago. Ela me contou sobre o evento de Eschborn, promovido pela Associação Alemã de Investigação sobre a América Latina – ADLAF (sim, existe uma associação alemã assim!). Disse que pretendia ir e perguntou se eu não queria ir também. Havia muitos motivos para eu ir e nenhuma boa razão para eu não ir. O congresso era gratuito, aconteceria em uma cidade que fica apenas a uns 15 ou 20 minutos de Frankfurt, seria realizado justamente em uma semana em que eu não teria aula na universidade, e seria uma boa oportunidade de conhecer mais gente. Fui então, né?
O congresso misturava os mais variados temas, tendo a América Latina como eixo, de modo que era possível, em uma mesma seção, ver trabalhos sobre tango, desenvolvimento financeiro, religião, e missão cubana em Angola. Como qualquer simpósio, teve trabalhos de todos os níveis de qualidade. O mais incrível foi que todas as apresentações foram em espanhol, mesmo as dos autores alemães. Quer dizer, houve dois brasileiros que não apresentaram em espanhol: um falou em português e a outra, em portunhol assumido.
O ponto alto acadêmico foi a palestra monumental de Enrique Russell Ambrosini, derrubando as premissas do eurocentrismo, realizada na Biblioteca Nacional – único evento do congresso a ocorrer em Frankfurt –, que fica a não muitas quadras da minha casa. Esse foi o ponto alto acadêmico. Mas não o único ponto alto. Depois de Eschborn, era a vez da “eschbórnia”!
Na primeira noite houve, é claro, um coquetelzinho, após a conferência de Russell. Mas a coisa animou mesmo no segundo dia. Após as palestras da tarde, um grupo foi a Frankfurt para beber uns coquetéis, caipirinhas (elas são populares na Alemanha!) e cervejas. Fomos eu, Alejandra, a venezuelana Maryhen (minha aluna), e mais dois argentinos – Franco e Ramón, o colombiano David, o chileno Álvaro, o costarriquenho Vladimir e uma alemã de quem não sei o nome.
Aliás, ela foi a responsável pela gafe do começo da noite: disse que os equatorianos eram feios, porque eram muito misturados. Vendo que todos estavam com os olhos arregalados de espanto com tão surreal declaração, tentou consertar: “os índios são bonitos, feios são os que são misturados com os brancos”. Bem... pegamos no pé dela por horas a fio, é claro.
Maryhen e Alejandra foram embora, mas os demais seguiram para outro bar, onde bebemos mais! Depois, juntaram-se a nós três alemães: Florian (outro, não o meu amigo da universidade), Sophie e Irene. Para vocês terem uma ideia de como estava a situação, vale dizer que Álvaro gastou um bom tempo contando para Florian como sua avó era importante para ele... Manguaça total!
Sophie, Irene e a outra alemã, a que não acha equatorianos bonitos, foram as primeiras a partir de lá. Mais tarde, foi a vez de Franco e Vladimir, que estavam hospedados em Eschborn e precisavam pegar o trem de volta. Eu, David, Ramón, Álvaro e Florian, no entanto, ainda não estávamos satisfeitos, apesar de já passar das duas da madrugada e de o congresso ainda ter seções na manhã seguinte. A namorada de David, uma polonesa, estava com umas amigas em um bar em Sacksenhausen. Lá fomos nós!
Na mais incrível das coincidências, a polonesa namorada do David era professora de alemão do Vítor! As amigas dela, na verdade, eram colegas de turma dele e alunas dela: uma chinesa, uma ucraniana e uma colombiana. Lá no bar também estavam personagens descritos no mencionado Kapitel LVI, como a figuraça estadunidense dona do bar, o pianista romeno Marius, o cantor espanhol Nacho e a paulista Juliana, que, mais uma vez, soltou a voz. Lá ficamos até depois das cinco. Depois, uma passada no mesmo restaurante libanês da ida anterior ao Balalaika. Desta vez, não tinham shawarma, e por isso provei um sanduíche com uma escura lingüiça árabe picante chamada sujuk. Todo o pessoal afirmou que chegaria no congresso às nove. Eu mesmo disse que às nove seria difícil, mas que eu estaria lá.
Deitei-me às 6h20. Minha ideia inicial era acordar às sete, mas não podia dormir menos de uma hora. Apesar de ainda ser muito pouco, dormir uma hora é, na minha opinião, o mínimo possível para haver algum efeito de descanso no corpo. Marquei o despertador, então, para as 7h20. O incrível é que não apenas acordei, como cheguei pontualmente às nove em Eschborn. Fui o único a chegar na hora e, dentre os que estiveram comigo até o fim na Balalaika, somente Florian também foi, aparecendo umas duas horas mais tarde do que eu.
Meus feitos ainda não tinham terminado. Apesar de ter tido apenas uma mísera horinha de sono, ainda ficaria muitas outras sem dormir. Após almoçar com Florian, Sophie e Irene, ainda passeei com os dois primeiros pela margem do rio Main. Às cinco e meia eu me despedi deles e parti para o metrô. Ainda tinha uma viagem para fazer!
Cheguei à Hauptbanhof (estação principal de trem) de Mainz/Mogúncia às sete, onde Tobias, doravante chamado Tobi, estava me esperando. Demos uma volta na cidade, comemos um gostoso queijo cremoso típico de lá – o Spundkäse – e bebemos o não menos típico vinho branco batizado com água gasosa. Diferentemente do Apfelwein, o vinho de maçã que os frankfurtianos tomam (também com água), o de Mainz é de uva mesmo.
Depois, fomos até a casa do Tobi para buscar a Marion. Lá nós três tomamos uma cerveja Jever e saímos. Assim como ocorrera antes em Frankfurt (ver Kapitel XXXVI), era Noite dos Museus em Mogúncia. Em um evento como esse, não vale a pena ir a um grande museu gastar todo o tempo lá (como ocorreria no Museu Gutemberg, que ainda preciso conhecer); é melhor ir a muitos museus pequenos. Fomos, então, a várias salas alternativas, com manifestações artísticas inusitadas e pinturas perturbadoras.
O museu mais curioso era o museu de sete graus. Sim, ele foi todo construído com uma inclinação de sete graus. Não apenas por fora, como todas as suas paredes, o elevador, tudo é inclinado! Em um bar anexo, ocorria algo não menos curioso. Uma multidão acompanhava ansiosa por um telão o resultado de um concurso musical que eu nem sabia existir: o Eurovision Song Contest. Ele consiste em uma competição tradicional, com décadas de existência, em que cada país europeu envia um cantor (Israel também participa; não é só para a Fifa que o país não faz parte do Oriente Médio).
O público de casa escolhe os três melhores cantores, sem poder votar no próprio país. A apuração é feita com um número de pontos para cada um dos três primeiros colocados nas votações de cada país. É um critério que consegue algum grau de justiça, apesar de certamente existirem algumas distorções: acho difícil, por exemplo, os franceses votarem no Reino Unido (que, aliás, acabou em último lugar este ano). Além disso, Marion e Tobi disseram que há um monte de alemães que cruzam a fronteira com a Holanda para votar nos cantores alemães. São loucos esses germanos! De todo modo, não são sempre os mesmos países que vencem, o que significa que tais distorções não determinam o resultado.
Segundo Tobi e Marion contaram, esse concurso há tempos não fazia muito sucesso, era visto como algo antiquado. A Alemanha não era campeã desde 1982. Só que, desta vez, o país tinha enviado uma garotinha carismática de dezenove anos que era favoritíssima e, aí, todo mundo se encheu de orgulho patriótico. As pessoas no bar lotado aplaudiam, gritavam, e a Alemanha acabou, de fato, ganhando com rodadas de antecedência (a cada vez se divulgavam os votos de um país). Na saída, um motorista buzinava com passageiros tremulando a bandeira alemã! Tanto Tobi como, depois, Manfred (a primeira coisa que este me disse quando nos vimos no dia seguinte foi que a Alemanha venceu o concurso!) acham que, na verdade, os alemães não se importam tanto assim com esse resultado, e estavam apenas treinando para a Copa do Mundo.
Assim mesmo, as pessoas estavam empolgadíssimas no bar. Um quarteto cubano tinha sido contratado para tocar ao vivo, mas teve que esperar um tempão, porque a maioria não queria que a televisão ficasse no mudo; preferia ouvir as declarações da garota e, claro, uma palhinha da música campeã. Saímos e ainda fomos a outro bar, onde bebemos cerveja de trigo Paulaner. Já era madrugada, e eu ainda estava muito aceso, apesar de ter dormido por apenas sessenta minutos nas últimas 43 horas! Depois, pedi, àquela hora, um cafezinho, para agüentar o tranco e segurar o álcool. Mas em seguida chutaríamos o balde, pedindo um licor popular na cidade chamado Jägermeister.
Chovia. Não tanto quanto da outra vez em que fui a Mainz, mas chovia. Tobi, que me acompanhou até a Hauptbanhof, disse que, normalmente, o tempo é melhor em Mogúncia do que em Frankfurt, e brincou que era eu que levava o tempo feio de Frankfurt para lá. De todo modo, certamente não seria aquela chuvinha que iria me atrapalhar, depois de encarar quase dois dias sem dormir, e ainda participar de um congresso acadêmico e viajar, tudo isso sem cair de sono. E já estou pronto para outra!
Fotos do encontro com Tobi e Marion em Mogúncia
Cenas da “Eschbórnia” pós-congresso nas fotos do terceiro mês em Frankfurt
Soube do congresso por uma amiga chilena, Alejandra, que mora na Baviera e é casada com um alemão. Eu a conheci ano passado, no congresso mundial de ciência política em Santiago. Ela me contou sobre o evento de Eschborn, promovido pela Associação Alemã de Investigação sobre a América Latina – ADLAF (sim, existe uma associação alemã assim!). Disse que pretendia ir e perguntou se eu não queria ir também. Havia muitos motivos para eu ir e nenhuma boa razão para eu não ir. O congresso era gratuito, aconteceria em uma cidade que fica apenas a uns 15 ou 20 minutos de Frankfurt, seria realizado justamente em uma semana em que eu não teria aula na universidade, e seria uma boa oportunidade de conhecer mais gente. Fui então, né?
O congresso misturava os mais variados temas, tendo a América Latina como eixo, de modo que era possível, em uma mesma seção, ver trabalhos sobre tango, desenvolvimento financeiro, religião, e missão cubana em Angola. Como qualquer simpósio, teve trabalhos de todos os níveis de qualidade. O mais incrível foi que todas as apresentações foram em espanhol, mesmo as dos autores alemães. Quer dizer, houve dois brasileiros que não apresentaram em espanhol: um falou em português e a outra, em portunhol assumido.
O ponto alto acadêmico foi a palestra monumental de Enrique Russell Ambrosini, derrubando as premissas do eurocentrismo, realizada na Biblioteca Nacional – único evento do congresso a ocorrer em Frankfurt –, que fica a não muitas quadras da minha casa. Esse foi o ponto alto acadêmico. Mas não o único ponto alto. Depois de Eschborn, era a vez da “eschbórnia”!
Na primeira noite houve, é claro, um coquetelzinho, após a conferência de Russell. Mas a coisa animou mesmo no segundo dia. Após as palestras da tarde, um grupo foi a Frankfurt para beber uns coquetéis, caipirinhas (elas são populares na Alemanha!) e cervejas. Fomos eu, Alejandra, a venezuelana Maryhen (minha aluna), e mais dois argentinos – Franco e Ramón, o colombiano David, o chileno Álvaro, o costarriquenho Vladimir e uma alemã de quem não sei o nome.
Aliás, ela foi a responsável pela gafe do começo da noite: disse que os equatorianos eram feios, porque eram muito misturados. Vendo que todos estavam com os olhos arregalados de espanto com tão surreal declaração, tentou consertar: “os índios são bonitos, feios são os que são misturados com os brancos”. Bem... pegamos no pé dela por horas a fio, é claro.
Maryhen e Alejandra foram embora, mas os demais seguiram para outro bar, onde bebemos mais! Depois, juntaram-se a nós três alemães: Florian (outro, não o meu amigo da universidade), Sophie e Irene. Para vocês terem uma ideia de como estava a situação, vale dizer que Álvaro gastou um bom tempo contando para Florian como sua avó era importante para ele... Manguaça total!
Pausa para um pequeno interregno: meu amigo paulista Vítor tinha me enviado um torpedo me chamando para ir ao Balalaika, o bar musical que descrevi no Kapitel LVI, pois ele estaria lá a partir das onze. Concluí que não poderia encontrá-lo, pois já estava com o outro pessoal, que tinha conhecido no congresso. Pois qual não é minha surpresa quando nos encaminhávamos para o bar onde estava a namorada de David e o nome do lugar era... Balalaika!
Na mais incrível das coincidências, a polonesa namorada do David era professora de alemão do Vítor! As amigas dela, na verdade, eram colegas de turma dele e alunas dela: uma chinesa, uma ucraniana e uma colombiana. Lá no bar também estavam personagens descritos no mencionado Kapitel LVI, como a figuraça estadunidense dona do bar, o pianista romeno Marius, o cantor espanhol Nacho e a paulista Juliana, que, mais uma vez, soltou a voz. Lá ficamos até depois das cinco. Depois, uma passada no mesmo restaurante libanês da ida anterior ao Balalaika. Desta vez, não tinham shawarma, e por isso provei um sanduíche com uma escura lingüiça árabe picante chamada sujuk. Todo o pessoal afirmou que chegaria no congresso às nove. Eu mesmo disse que às nove seria difícil, mas que eu estaria lá.
Deitei-me às 6h20. Minha ideia inicial era acordar às sete, mas não podia dormir menos de uma hora. Apesar de ainda ser muito pouco, dormir uma hora é, na minha opinião, o mínimo possível para haver algum efeito de descanso no corpo. Marquei o despertador, então, para as 7h20. O incrível é que não apenas acordei, como cheguei pontualmente às nove em Eschborn. Fui o único a chegar na hora e, dentre os que estiveram comigo até o fim na Balalaika, somente Florian também foi, aparecendo umas duas horas mais tarde do que eu.
Depois, fomos até a casa do Tobi para buscar a Marion. Lá nós três tomamos uma cerveja Jever e saímos. Assim como ocorrera antes em Frankfurt (ver Kapitel XXXVI), era Noite dos Museus em Mogúncia. Em um evento como esse, não vale a pena ir a um grande museu gastar todo o tempo lá (como ocorreria no Museu Gutemberg, que ainda preciso conhecer); é melhor ir a muitos museus pequenos. Fomos, então, a várias salas alternativas, com manifestações artísticas inusitadas e pinturas perturbadoras.
O museu mais curioso era o museu de sete graus. Sim, ele foi todo construído com uma inclinação de sete graus. Não apenas por fora, como todas as suas paredes, o elevador, tudo é inclinado! Em um bar anexo, ocorria algo não menos curioso. Uma multidão acompanhava ansiosa por um telão o resultado de um concurso musical que eu nem sabia existir: o Eurovision Song Contest. Ele consiste em uma competição tradicional, com décadas de existência, em que cada país europeu envia um cantor (Israel também participa; não é só para a Fifa que o país não faz parte do Oriente Médio).
O público de casa escolhe os três melhores cantores, sem poder votar no próprio país. A apuração é feita com um número de pontos para cada um dos três primeiros colocados nas votações de cada país. É um critério que consegue algum grau de justiça, apesar de certamente existirem algumas distorções: acho difícil, por exemplo, os franceses votarem no Reino Unido (que, aliás, acabou em último lugar este ano). Além disso, Marion e Tobi disseram que há um monte de alemães que cruzam a fronteira com a Holanda para votar nos cantores alemães. São loucos esses germanos! De todo modo, não são sempre os mesmos países que vencem, o que significa que tais distorções não determinam o resultado.
Segundo Tobi e Marion contaram, esse concurso há tempos não fazia muito sucesso, era visto como algo antiquado. A Alemanha não era campeã desde 1982. Só que, desta vez, o país tinha enviado uma garotinha carismática de dezenove anos que era favoritíssima e, aí, todo mundo se encheu de orgulho patriótico. As pessoas no bar lotado aplaudiam, gritavam, e a Alemanha acabou, de fato, ganhando com rodadas de antecedência (a cada vez se divulgavam os votos de um país). Na saída, um motorista buzinava com passageiros tremulando a bandeira alemã! Tanto Tobi como, depois, Manfred (a primeira coisa que este me disse quando nos vimos no dia seguinte foi que a Alemanha venceu o concurso!) acham que, na verdade, os alemães não se importam tanto assim com esse resultado, e estavam apenas treinando para a Copa do Mundo.
Assim mesmo, as pessoas estavam empolgadíssimas no bar. Um quarteto cubano tinha sido contratado para tocar ao vivo, mas teve que esperar um tempão, porque a maioria não queria que a televisão ficasse no mudo; preferia ouvir as declarações da garota e, claro, uma palhinha da música campeã. Saímos e ainda fomos a outro bar, onde bebemos cerveja de trigo Paulaner. Já era madrugada, e eu ainda estava muito aceso, apesar de ter dormido por apenas sessenta minutos nas últimas 43 horas! Depois, pedi, àquela hora, um cafezinho, para agüentar o tranco e segurar o álcool. Mas em seguida chutaríamos o balde, pedindo um licor popular na cidade chamado Jägermeister.
Quando saímos de lá já eram umas duas e meia da matina. Até as quatro e meia já não haveria mais trem para eu voltar. Tobi ofereceu para eu dormir lá na casa deles. Eu disse que o problema é que, uma vez fechando o olho, não fazia a menor ideia de que horas acordaria. Meus amigos disseram que não havia problema e ainda me deram todo o conforto: emprestaram roupa para dormir, deram uma escova de dente, arrumaram a cama (na verdade, o sofá) e, no dia seguinte, ainda havia café-da-manhã para mim! Quer dizer, da tarde. Pois só fui acordar às duas e meia!
Chovia. Não tanto quanto da outra vez em que fui a Mainz, mas chovia. Tobi, que me acompanhou até a Hauptbanhof, disse que, normalmente, o tempo é melhor em Mogúncia do que em Frankfurt, e brincou que era eu que levava o tempo feio de Frankfurt para lá. De todo modo, certamente não seria aquela chuvinha que iria me atrapalhar, depois de encarar quase dois dias sem dormir, e ainda participar de um congresso acadêmico e viajar, tudo isso sem cair de sono. E já estou pronto para outra!
Fotos do encontro com Tobi e Marion em Mogúncia
Cenas da “Eschbórnia” pós-congresso nas fotos do terceiro mês em Frankfurt
segunda-feira, 31 de maio de 2010
Kapitel LXI – O Lodo
A situação em minha dispensa já estava deprimente. Haviam acabado a água mineral, o pão, o café, o queijo, os frios, a cerveja, o suco de maçã... Enfim, eu precisava desesperadamente fazer compras. Então, enchi meu mochilão de garrafas vazias para trocar e peguei o metrô.
A ideia era aproveitar esta saída para almoçar na rua. A vontade de comer em algum dos restaurantes de sempre era nenhuma. Então, eu me lembrei de que na Hauptwache, a estação onde há mais conexões para trens de curta distância (os S-Bahn), há um verdadeiro mundo subterrâneo: mercado, drogaria, bar, restaurantes, fast-food, loja de flores, padaria... Portanto, lá eu haveria de encontrar um lugar para almoçar.
Segui, então, algumas estações a mais, em vez de saltar na Holzhausenstraße, que está próxima do supermercado, fui até a Hauptwache. Logo vi um restaurante que me chamou a atenção: New Dehli. Ora, ainda não tinha comido em restaurante indiano desde que cheguei a Frankfurt. E lá fui eu experimentar algum prato exótico.
Havia um chamado palak paneer, que era feito à base de espinafre e levava um tipo de queijo. Pedi e, quando a moça começou a servir, bateu aquele leve arrependimento. O prato era horroroso! Parecia um lodo, um musgo, uma lama, sei lá. Aliás, todos os pratos eram feios de doer. Mas eu estava lá, já tinha pedido, e precisava ser corajoso naquele momento.
Comecei a comer. O arroz não era lá essas coisas, mas até que o lodo, digo, o palak paneer era bonzinho. Não era o melhor prato que já comi na minha vida, é verdade, mas era suficientemente bom para eu voltar a comê-lo algum dia. E ficava ainda melhor depois de se adicionar a ele uma boa pimentinha. Até que valeu a pena o risco.
Com a boca fumegando, eu estava pronto para minhas compras de mercado. Foram as maiores que fiz até agora. Meu mochilão voltou para casa surrealmente pesado. O destaque vai para o ótimo café gelado Müller Typ Kaffee, que tinha experimentado da outra vez e adorei. E o que era o melhor: havia conjuntos de três garrafinhas em uma prateleira com a inscrição “Aktionpreis”! Sim, isso significa PROMOÇÃO! Nada melhor para um viciado do que ver a fonte de seu vício estar acessível e barata. Três pelo preço de duas. Trouxe nove! Imaginem o peso de minha mochila se fossem cinco pelo preço de três...
A ideia era aproveitar esta saída para almoçar na rua. A vontade de comer em algum dos restaurantes de sempre era nenhuma. Então, eu me lembrei de que na Hauptwache, a estação onde há mais conexões para trens de curta distância (os S-Bahn), há um verdadeiro mundo subterrâneo: mercado, drogaria, bar, restaurantes, fast-food, loja de flores, padaria... Portanto, lá eu haveria de encontrar um lugar para almoçar.
Segui, então, algumas estações a mais, em vez de saltar na Holzhausenstraße, que está próxima do supermercado, fui até a Hauptwache. Logo vi um restaurante que me chamou a atenção: New Dehli. Ora, ainda não tinha comido em restaurante indiano desde que cheguei a Frankfurt. E lá fui eu experimentar algum prato exótico.
Havia um chamado palak paneer, que era feito à base de espinafre e levava um tipo de queijo. Pedi e, quando a moça começou a servir, bateu aquele leve arrependimento. O prato era horroroso! Parecia um lodo, um musgo, uma lama, sei lá. Aliás, todos os pratos eram feios de doer. Mas eu estava lá, já tinha pedido, e precisava ser corajoso naquele momento.
Comecei a comer. O arroz não era lá essas coisas, mas até que o lodo, digo, o palak paneer era bonzinho. Não era o melhor prato que já comi na minha vida, é verdade, mas era suficientemente bom para eu voltar a comê-lo algum dia. E ficava ainda melhor depois de se adicionar a ele uma boa pimentinha. Até que valeu a pena o risco.
Com a boca fumegando, eu estava pronto para minhas compras de mercado. Foram as maiores que fiz até agora. Meu mochilão voltou para casa surrealmente pesado. O destaque vai para o ótimo café gelado Müller Typ Kaffee, que tinha experimentado da outra vez e adorei. E o que era o melhor: havia conjuntos de três garrafinhas em uma prateleira com a inscrição “Aktionpreis”! Sim, isso significa PROMOÇÃO! Nada melhor para um viciado do que ver a fonte de seu vício estar acessível e barata. Três pelo preço de duas. Trouxe nove! Imaginem o peso de minha mochila se fossem cinco pelo preço de três...quarta-feira, 26 de maio de 2010
Kapitel LX – Como uma Máquina do Tempo
Pois resolvi que hoje era um bom dia para conhecer o museu. Aproveitei e convidei Manfred para ir. Ele começou com seu tradicional pão-durismo, mas, quando viu que a entrada era baratinha, resolveu aceitar. Antes ele queria renovar uma tal carteirinha-mamata que dá descontos em vários centros culturais. Fomos até o lugar, que é ao lado do antigo trabalho de Manfred, onde Mario trabalha. Até subimos para fazer uma visita.
No lugar onde se faz a carteirinha, há também uma loja sem fins lucrativos que vende brinquedos usados a preço baixo para quem não pode comprar presentes novos para os filhos. Muito baixo mesmo! Havia bonequinhos de pelúcia por 20 e 30 cêntimos. Manfred até brincou que o de trinta cêntimos devia ser de muito melhor qualidade que o de vinte.
De qualquer forma, a viagem foi em vão. A máquina para fazer a carteirinha não estava lá. Manfred tinha duas opções: preencher um formulário e esperar duzentos anos até o documento ficar pronto, ou ir a outro lugar, onde estava a máquina, para fazê-lo. Duas opções que ele logo descartou, e fomos ao museu assim mesmo.
Lá, aceitaram tanto a carteira velha dele como minha carteirinha brasileira de estudante, sem problemas. Foram apenas dois euros para cada, para visitar um museu bastante interessante, onde permanecemos um bom tempo. Trata-se de um museu particularmente voltado para a história da cidade. No primeiro andar há moedas antigas, e pinturas e esculturas de séculos passados, especialmente o XV e o XVI. A maioria delas tem motivos religiosos, claro, e sempre que o artista é frankfurtiano isso é destacado.
Aliás, apesar de até determinada época os judeus terem que viver em guetos na cidade, depois disso houve um longo período de aceitação até o mais recente e famoso retrocesso. De 1800 a 1900 a população de Frankfurt se multiplicou por dez, e os judeus, que eram cerca de um décimo dos habitantes, aumentaram na mesma proporção. Era, proporcionalmente, a maior população judia da Alemanha. Outra vítima dos nazistas bastante destacada foi a comunidade cigana. Além disso, nem sempre a vida dos estrangeiros foi tranqüila antes do nazismo, e se mencionavam as condições precárias de habitação dos trabalhadores vindos do sul da Europa.
Havia no museu a reprodução de diferentes mapas da cidade, mostrando como Frankfurt cresceu, inclusive incorporando regiões próximas. O lugar onde vivo, por exemplo, estava bem fora dos limites originais de Frankfurt. Passeando-se pela cidade podem-se ver algumas torres, que eram pontos de observação que demarcavam onde ficavam os antigos muros. Comprei a réplica de um desses mapas lá por dois euros e cinqüenta.
A última coisa que vimos foi uma interessante mostra temporária de fotografias tiradas pelos próprios soldados alemães na segunda guerra. Além do dia-a-dia das tropas, foi retratado tudo o que lhes chamou atenção nos países invadidos.
Duas fotos me impressionaram particularmente: em uma, os invasores alemães debochavam dos poloneses diante de mulheres polacas que olhavam para eles com cara de zangadas; em outra, uma pessoa local atravessa um rio para que o exército alemão se certifique de que não há minas ali. A Guerra é uma coisa nojenta!
Os curadores observaram que àquela época eles estacam pouco habituados a sair do país, e variava como eles reagiam ao que viam: enquanto no Ocidente em geral adotavam uma postura de turistas, em outras partes destacavam o que lhes parecia exótico e inferior, como os russos, a população do norte da África e os soldados negros que lutaram pela França.
Antes disso, vi uma série de objetos das mais variadas épocas, mostrando fatos históricos e hábitos do dia-a-dia. Algo que não se vê em outros museus são pinturas simpáticas ao nazismo. Mais bizarro foi ver que foram publicados livros infantis com apologia ao regime, e até uma árvore de natal com suásticas em vez de bolas havia lá.
Entre os cartazes, havia de tudo um pouco: propaganda nazista, comercial da Lufthansa, anúncio de eventos musicais dos anos quarenta, protesto de esquerda contra a grande coalizão dos social-democratas com os democrata-cristãos após a Segunda Guerra. Roupas, louças, e até banheiros de outras épocas marcavam presença, juntamente com a réplica de uma coroa de Carlos Magno e uma camisa do Eintracht Frankfurt, usada pelo ganês Yeboah. Nela, no lugar da propaganda, havia os dizeres: “meu amigo é estrangeiro”. Um recado importante nessas idas e vindas desta cidade cosmopolita.
segunda-feira, 24 de maio de 2010
Kapitel LIX – Entre Piratas, Dragões e... uma Donzela Indefesa?
Esta segunda-feira foi feriado aqui na Alemanha. E o dia estava ainda mais quente do que ontem! Parece que aqui em Frankfurt fica a maior piscina pública da Europa. Não foi para lá que eu fui, mas aproveitei o calor para não apenas sair mais uma vez de bermuda como – vejam quanta ousadia! – calçar sandálias. E foi desse modo que fui conhecer a casa do Jens, no bairro de Westend, e seu filhinho, Leon.
Eu e Jens almoçamos em um restaurante grego, com mesas dispostas em um jardim já preparado para a Copa do Mundo, com um grande telão e bandeirinhas dos países participantes. Comemos costeletas de cordeiro e bebemos cerveja Skt. Martinus Pilsner, produzida por uma pequena cervejaria, a Martinsbräu. Jens explicou que a palavra “Bräu” tem trema no dialeto bávaro e no sul da Alemanha, de modo que isso já indica a procedência da cerveja; uma cervejaria do norte teria o nome “Brau”, nunca “Bräu”.
Leon, o filho de Jens, não foi conosco. Comeu em casa. É um menino muito sorridente, que adora visitas. Gosta de bolas, dragões e piratas, não necessariamente nesta ordem. Ele tem, provavelmente, a babá mais forte e esportiva do mundo. Jens contou que ela foi da equipe nacional de judô, e com ela disputava competições internacionais. Teve que abandonar a arte marcial japonesa por causa de uma contusão.
Tempos depois, apaixonou-se por um jogador de futebol americano das Ilhas Maurício (?!), com quem, inclusive, vai se casar em breve. E não é que ela também acabou jogando futebol americano? E faz parte da seleção alemã feminina de futebol americano (?!!!). Eu não imaginava que havia futebol americano feminino de verdade (sei que no Superbowl existem umas preliminares de lingerie, mas não algo para se levar a sério). Também não me parece que seja, propriamente, um esporte muito leve para alguém que precisou abandonar o judô por causa de uma contusão. Mas ela não só joga como disputará em breve o campeonato europeu de futebol americano (?!!!!!).
Apesar de sua queda por esportes brutos, ela é muito delicada com Leon. Assim, a preferência dele deve ir para a bola, na disputa com piratas e dragões. Mas será que vai para a bola oval? Não se depender do pai, torcedor de futebol do Hannover 96.
Eu e Jens almoçamos em um restaurante grego, com mesas dispostas em um jardim já preparado para a Copa do Mundo, com um grande telão e bandeirinhas dos países participantes. Comemos costeletas de cordeiro e bebemos cerveja Skt. Martinus Pilsner, produzida por uma pequena cervejaria, a Martinsbräu. Jens explicou que a palavra “Bräu” tem trema no dialeto bávaro e no sul da Alemanha, de modo que isso já indica a procedência da cerveja; uma cervejaria do norte teria o nome “Brau”, nunca “Bräu”.
Leon, o filho de Jens, não foi conosco. Comeu em casa. É um menino muito sorridente, que adora visitas. Gosta de bolas, dragões e piratas, não necessariamente nesta ordem. Ele tem, provavelmente, a babá mais forte e esportiva do mundo. Jens contou que ela foi da equipe nacional de judô, e com ela disputava competições internacionais. Teve que abandonar a arte marcial japonesa por causa de uma contusão.
Tempos depois, apaixonou-se por um jogador de futebol americano das Ilhas Maurício (?!), com quem, inclusive, vai se casar em breve. E não é que ela também acabou jogando futebol americano? E faz parte da seleção alemã feminina de futebol americano (?!!!). Eu não imaginava que havia futebol americano feminino de verdade (sei que no Superbowl existem umas preliminares de lingerie, mas não algo para se levar a sério). Também não me parece que seja, propriamente, um esporte muito leve para alguém que precisou abandonar o judô por causa de uma contusão. Mas ela não só joga como disputará em breve o campeonato europeu de futebol americano (?!!!!!).
Apesar de sua queda por esportes brutos, ela é muito delicada com Leon. Assim, a preferência dele deve ir para a bola, na disputa com piratas e dragões. Mas será que vai para a bola oval? Não se depender do pai, torcedor de futebol do Hannover 96.
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