Um brasileiro que fala um alemão macarrônico chega a Frankfurt sem saber nem mesmo onde vai morar... Aqui narro minhas aventuras nesta temporada germânica: lugares interessantes, enrascadas em que me meto, esquisitices que percebo a cada dia. O nome do blog é uma analogia aos irmãos Grimm, alemães que compilaram muitas dezenas de contos de fada tradicionais, como Branca de Neve, João e Maria, Rapunzel, a Gata Borralheira, o Músico Maravilhoso, Chapeuzinho Vermelho, e a Bela Adormecida (mais detalhes em Vorstellung).

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Centenas de fotos disponíveis em Ilustrações.


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sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Kapitel CXVIII – Tijolonautas

Não foi fácil, ainda em Frankfurt, encontrar um albergue que não fosse afastado, que tivesse um preço acessível e que tivesse vaga disponível. Acabei escolhendo um que mais parece um hotel, localizado no bairro boêmio de St. Pauli, antiga área proletária onde ficam os inferninhos da cidade, bem como sede do clube de futebol homônimo. É claro que, para estar pagando por um quarto individual com banheiro um preço equivalente ao de um quarto compartilhado em outros albergues, não se trata do melhor hotel do mundo.

O albergue em que me hospedei em Toulouse (sobre essa viagem, ver Kapitel LXXXII e os seguintes) ainda é o campeão absoluto de barulho da rua (e o pior é que lá fazia tanto calor que era preciso deixar a janela aberta), mas não se pode dizer que esta área é propriamente silenciosa. Ouço música das boates aqui de baixo até tarde. Aliás, também dá para ouvir vizinhos mais barulhentos durante o dia. Mas acredito que o custo-benefício vale muito mais a pena do que o dos concorrentes disponíveis. O quarto é esquisito, o banheiro tem uma ducha minúscula, mas ao menos parece limpo, a internet não está incluída mas não chega a ser cara, e o conforto de estar sozinho no quarto e de não dividir banheiro é muito bom.
Como cheguei cansado de Hannover na quarta-feira à noite, só saí na manhã de quinta-feira. Fui andando meio a esmo, e tentando me encontrar no mapa. Visitei a Michaelis- kirche, igreja que ostenta na entrada uma imponente imagem de Miguel Arcanjo atacando o demônio. Paguei para subir em sua torre (que já foi reconstruída algumas vezes por causa de acidentes naturais e dos bombardeios da Segunda Guerra) e para visitar a cripta. A cripta era meio sem graça mas, pelo menos, lá eu aprendi por que vejo tantas construções alemãs com tetos e picos verdes: é que são feitos de cobre, e, quando uma estrutura desse metal não é plana e está submetida a muitas intempéries, pode criar após dez a quinze anos uma pátina verde, resultado de um proxeço de oxidação. Estão vendo? Criptas e os Contos Fantásticos do Irmão Gui também são cultura.

Quanto à torre, subi pela escada, apesar de haver um elevador, para poder ver qualquer coisa interessante no meio do caminho. De fato, vi os sinos e vi o mecanismo que faz o relógio da torre funcionar. Chegando lá em cima, podem-se avistar todas as partes de Hamburgo. Depois ainda vi pelo menos outras duas igrejas onde também se pode pagar para subir na torre, mas não posso dizer se eram melhores ou piores, pois eu já estava cansado e não tinha vontade de subir para ver mais ou menos a mesma coisa.

O que mais chama a atenção em Hamburgo é a grande quantidade de água, já que é uma enorme cidade portuária e tem vários canais, e o incrível número de construções em tijolos. Jens me contou que estas são típicas do norte da Alemanha. Há, no entanto, bem mais do que em Hannover, que também tem essa característica. Em contraste com as casinhas de tijolos e as pontes de metal, há edifícios modernos e viadutos futuristas para a passagem de trens.


A exemplo da Kaiser-Wilhelm-Gedächtniskirche em Berlim (ver Kapitel XCVIII) e da Egidienkirsche em Hannover (ver Kapitel anterior), Hamburgo também tem sua igreja destruída pelos bombardeios aliados na Segunda guerra Mundial e mantida em escombros como monumento pela paz: o memorial St. Nikolai. Há várias esculturas espalhadas pelo local, e também estão expostos alguns blocos de pedras que não viraram pó quando a igreja foi bombardeada.

Achei muito bonito o prédio da prefeitura. Dentro dele, ao lado da exposição de caricaturas de políticos (eu só conhecia e reconheci o Helmut Kohl), parte de um livro que está sendo lançado, havia quadros mostrando a correlação de forças dos partidos no legislativo local. Fui a um estabelecimento que era loja de roupas e cafeteria ao mesmo tempo (?!); lá tomei um café hondurenho que achei meio fraco, mas comi uma deliciosa torta de nozes com maçã. Antes, em um bar com temática naval, provei duas cervejas: Fürstenberg e a ruiva Duckstein. Depois, em uma feirinha próxima à rua Spitaler, que é cheia de lojas de roupa e de gente “cult-bacaninha”, bebi outras duas que não conhecia: Dithmarscher clara e escura (Pilsener e Dunkel).

À noite, fui dar uma volta em St. Pauli. Para dizer a verdade, minha impressão não foi das melhores. E não é nenhum conservado- rismo ou puritanismo não, acho legal haver um bairro assim. Mas achei o clima meio estranho, muito diferente do divertido distrito da luz vermelha em Amsterdã (ver Kapitel CXVI). Na Holanda, era tudo muito claro e descontraído, mas nesta parte de Hamburgo vê-se em cada esquina gente querendo empurrar você para dentro com uns papos “171”...

Pelo menos uma cena deixou claro que a situação está sob controle: vi um travesti levando dois policiais para um hotel. Todos com um ar tenso, em claro indício de que o travesti fez uma queixa na delegacia (que, aliás, funciona em uma casinha de tijolos bem bonitinha), provavelmente de algum cliente caloteiro ou violento, e os policiais foram averiguar. Ou seja, a polícia não só estava trabalhando efetivamente como não tratou o travesti com desrespeito ou preconceito.

Hamburgo é uma cidade interessante. Não pertence a nenhum estado e é a segunda maior da Alemanha. Em um dia andando em Hamburgo, andei à beça e tirei 250 fotos! E ainda falta um dia e meio. Um dia e meio de muita água e muitos tijolos.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Kapitel CXVII – Telas e Trilhos

Falta pouco tempo para eu voltar para o Rio. Dizem que brasileiro deixa tudo para última hora. Não é que seja o meu caso, pois acho que fiz muita coisa ao longo destes seis meses, mas de fato estou mantendo um ritmo alucinante de atividades nesta reta final. Dois dias depois que voltei de viagem da Bélgica, fui comer um Spätzle e tomar uma cerveja com o Jens, em um bom restaurante no bairro de Bockenheim.

No dia seguinte, fomos ao bar Wirtschaft, também em Bockenheim, ver o jogo entre o Hannover 96, o time dele, e o St. Pauli, equipe alternativa e proletária da cidade de Hamburgo. Dois a zero para a equipe marrom do St. Pauli, que era visitante. Apesar de minhas simpatias por ela, eu preferiria outro resultado, já que se tratava do time do Jens. Em seguida, fui diretamente ao Balalaika, o bar musical do bairro de Sachsenhausen, para me encontrar com Gilberto e Letice. Coincidentemente, cruzei no meio do caminho com Lara e Xenia, assim que atravessei a ponte sobre o rio Main. Elas iam a uma festa. Nós nos despedimos mas a festa delas não estava lá essas coisas e, mais tarde, não é que elas também apareceram no Balalaika?!

Um dia depois, sábado, fui à casa do Gilberto e da Letice, onde assistimos a um filme brasileiro: “Árido Movie”. Ele comprou um projetor e um telão, e foi ótimo ver a imagem como no cinema. Foi bem legal também reencontrar Felipe e Fiorina, que também foram. E isso tudo regado a vinho.

No domingo, dia da votação, Gilberto foi ao consulado exercer seu dever cívico. Eu não pude votar porque não transferi meu título, já que queria poder dar meu apoio à Dilma caso houvesse segundo turno. Depois, no entanto, eu e ele fizemos uma rápida viagem. Fomos a Fulda, cidade a menos de uma hora de Frankfurt.

Antes, na estação de trem Hauptbahnhof, foi engraçado ver torcedores do pequeno Energie Cottbus. Logo reconheci que era o time do meu amigo Bertram. Aliás, ele comentou que vários times do leste da Alemanha têm nomes típicos da cortina de ferro, como Energie, Dinamo etc. Aqueles torcedores, que gritavam muito com suas camisas vermelhas, estavam lá porque sua equipe foi a Frankfurt enfrentar o segundo time local, o FSV Frankfurt, em partida válida pelo seguinda divisão alemã. E, assim como o time do Jens, a equipe do Bertram também perdeu: 3 a 2.

Fulda é uma cidade bonitinha, apesar de pouco badalada. E impressionante- mente organizada para o turismo: há numeração para explicações em áudio em frente aos prédios históricos no meio da rua, tal como é comum no interior de museus. Além de charmosas casas antigas, e igrejas imponentes, há um belo castelo com um não menos bonito jardim em frente a ele. Infelizmente, como fomos tarde, começou a escurecer. Como a cidade é pequena, no entanto, acho que deu para ver tudo. Ficamos apenas umas duas horas lá e voltamos.

À noite, foi a vez de aproveitar uma promoção do serviço de trens alemão, que acabava naquele dia: passagem para qualquer cidade dentro do território alemão por apenas 20 euros. Comprei pela internet uma passagem de ida para Hannover, para ir com o Jens, que é de lá, e uma de volta de Hamburgo, que fica ainda mais a norte e eu querida visitar em seguida.

Na segunda-feira, recebi em casa Lara, Xenia, Lucia e Nikolai para vermos outro filme brasileiro, que acho que eles nunca teriam a oportunidade de ver de outra forma: “Cinema, aspirinas e urubus”. Antes, mostrei um curta-metragem alemão que venceu o Oscar: “Spielzeugland”. Depois, ouvimos músicas brasileiras de todo tipo. Foi divertido.

Quarta-feira, parti de viagem com Jens para Hannover. Também não é uma cidade badalada pelos turistas, mas tem muitos lugares interessantes. No imponente prédio da prefeitura, surpreendentemente tranqüilo em relação à vigilância, há quatro maquetes mostrando a cidade em diferentes épocas: em 1689, às vésperas da Segunda Guerra (1939), após ser destruída pelos bombardeios aliados (1945), e hoje em dia. Bem impressionante, mas não tanto quanto a igreja de Santo Egídio, que, quase toda destruída, não foi recontruída; mantiveram o que restou, como monumento à paz (semelhante ao que fizeram com a Kaiser-Wilhelm-Gedächtniskirche, em Berlim; ver Kapitel XCVIII).

Vimos ainda um lago totalmente artificial, em frente ao qual está o estádio do Hannover 96. Visitamos a igreja protestante Markkirche, onde havia dentro uma exposição de arte moderna. Aliás, a cidade gosta de arte moderna, e três esculturas muito loucas – que são uma bandeira para as feministas – são um símbolo da cidade, quase tão importantes quanto o cavalo rampante e a dupla de leões que guarda a entrada de diferentes prédios públicos, como a prefeitura e a universidade. Almoçamos num bom restaurante grego, onde comi um ensopado de carneiro com um enorme feijão branco e vegetais. Para beber, uma cerveja escura tcheca levemente doce chamada Staropramen. Mais tarde, provei uma cerveja local, Gilde.


Achei bem bonita uma parte do centro da cidade cheia de prédios antigos. Jens contou que, nos anos 1920, era uma área caótica, com muita criminalidade, cheia de mosquitos, onde viviam as prostitutas e os marginais, por ser a área mais desvalorizada. Após o bombardeio da Segunda Guerra, toda a área foi devastada. Reconstruíram a região de uma forma totalmente diferente, com prédios em estilo antigo que só existiam em outras partes da cidade. Isso significa que o que existe hoje lá é artificial; mas levando-se em conta que é uma das áreas mais bonitas e que antes era uma das mais feias, acho que fizeram bem em não ser tão fiéis à arquitetura original.

Também lindo é o parque Herrenhäuser Gärten, dividido em vários subjardins, com chafarizes, flores e estátuas brancas, de frente para um palacete. É impossível visitá-lo e não pensar em Versalhes ou Fontainebleau (sobre eles, ver Kapitel XC). Pouco depois das sete, voltamos à estação de trem de Hannover, tomamos um sorvete e cada um foi para seu canto. Jens voltou para Frankfurt. Eu segui para Hamburgo, cidade que todo mundo elogia muito. É o ponto mais setentrional em que estive até hoje. Depois contarei como foi lá. E aí faltará apenas uma semana para voltar para a Cidade Maravilhosa.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Kapitel CX – As Três Princesas

Na segunda-feira passada, fui de Munique para Regensburg, onde me hospedei na casa de Alejandra, uma amiga chilena. Lá, conheci o marido dela, Burkard, alemão da região da Francônia, e as três princesinhas “produzidas” pelo casal: Francisca, Paula e Julia. As três filhinhas de Ale não precisaram de mais do que quinze minutos depois de me ver para começar a pular em cima de mim. A toda hora queriam tirar fotos com a minha câmara, e posamos fazendo muitas caretas.

É incrível notar como a personalidade das pessoas já se forma bem cedo. Francisca, a primogênita, por exemplo, é mais introspectiva, tímida, atenta, pensa rápido e, apesar de as irmãs também gostarem de livros e de música, ela é, das três, a que parece ler mais e ter maior atração pelos instrumentos musicais. Paula, por sua vez, é mais extrovertida, gosta de tirar fotos e de ter a atenção de todos, é mais falante e emotiva.

A pequenina Julia, de quatro aninhos, a que, fisicamente, saiu mais parecida com Alejandra, já dá mostras de que é muito curiosa. Das três, Francisca fala bem espanhol, Paula fala um pouco (e tem grande preguiça de aprender) e Julia ainda não fala, mas é impressionante como as três entendem tudo! Fiquei encantado com as meninas. Julia fez dois desenhos para mim e Paula desenhou e montou um livro “para colorir” e me deu de presente.

Depois, fomos fazer um passeio ali perto, nas margens do rio Danúbio. As três princesas foram meus modelos. Como costumo tirar muitas fotos, e sempre gosto de incluir crianças nas imagens, para mim a bela paisagem e a presença das três meninas eram a combinação perfeita. À noite, fui com Alejandra a um restaurante de comida curda. Estava ótimo o meu prato de berinjela com carne moída acompanhado de um cereal que parecia arroz integral. A cerveja que eu pedi, então, Weltenburger Kloster Barock Dunkel, talvez seja uma das melhores que já provei!

No dia seguinte, novo passeio, desta vez em um belo bosque na cidade. O que não foi nada belo foi o ataque de uma abelha à minha amiga Ale. Coisas da natureza. À noite, fomos todos a um restaurante espanhol, onde comemos pollo almendrado. Para beber, fui de Herrnbräu Hefe Weissbier Dunkel.

Na quarta-feira, foi a vez de conhecer Nuremberg. Cheguei à estação , olhei a lista dos trens e vi que haveria um em uns quinze minutos. Desci à linha férrea e ali, no vão cinco, estranhamente aparecia que o trem sairia bem mais tarde e iria a Frankfurt e não a Nuremberg. Voltei à bilheteria e descobri algo bizarro: aquele trem para Nuremberg que aparecia na lista que eu tinha lido, na verdade, não existia. Ou seja: nem todos os trens que aparecem na lista existem! Simplesmente esdrúxulo!

O atendente gentilmente imprimiu para mim a lista dos próximos trens para Nuremberg: um sairia uma hora antes do outro mas chegaria apenas cinco minutos antes. Não foi difícil, portanto, escolher em qual dos dois eu iria. Aproveitei para dar uma volta no centro de Regensburg – pelo menos na área em torno da estação de trem Hauptbahnhof –, aonde até então eu só tinha ido de passagem.

Fiquei deslumbrado quando cheguei ao centro antigo (Altstadt) de Nuremberg. É incrível que tenham reconstruído tudo aquilo depois da Segunda Guerra (na Wikipedia dizem que 90% do centro histórico foi destruído pelos bombardeios ingleses e estadunidenses em apenas uma hora!). Sua igreja de St. Lorenz, seu castelo imperial, sua muralha, seus chafarizes e estátuas, seus edifícios antigos, a área próxima ao rio Pegnitz... é tudo lindo demais.

Também me chamou a atenção uma lojinha em que se vendiam produtos alusivos a uma campanha para separar a região Francônia do estado da Baviera. Na hora de voltar, tive dificuldade para encontrar a estação de trem e fiquei preocupado porque não me lembrava exatamente a hora do trem de volta: se era 19h20, 19h30 ou 19h40. Cheguei às 19h30 em ponto e vi no letreiro que sairia às 19h36. Ufa! Mas minha sorte não se repetiria.

Quando saí da estação de trem de Regensburg, fui ao ponto de ônibus e vi que o que me levaria de volta à casa de Alejandra estava parado. Corri até ele, mas o safado do motorista fechou a porta quando eu estava chegando. Ainda fiz o movimento para abrir a porta, mas ela já estava travada e ele se mandou. Graças à má-vontade do motorista, tive que esperar meia hora até o ônibus seguinte! Como se não bastasse, meu lendário senso de direção defeitoso me impediu de aprender a chegar na casa da Ale, de modo que, após saltar no ponto mais próximo de lá, fiquei totalmente perdido. Procurei por todos os lados e, ao fim, foi preciso que Burkard me buscasse. Ridículo, não é?

Saímos para almoçar, na quinta-feira, em Adlesberg, um lugar no município de Pettendorf, vizinho de Regensburg, onde fabricam sua própria cerveja. O lugar é bonito, tem um monastério do século XIII, muito verde, flores, e um Biergarten, local onde se pode tomar cerveja ao ar livre. Essa era nossa ideia, até começar a ventar forte e levantar poeira.
Fomos, então, almoçar do lado de dentro. Comemos veado (sem piadinhas desneces- sárias, por favor) com Spätzle, que é uma massa típica da Alemanha (sobre ela, ver Kapitel VII). Bebi logo dois canecões da cerveja local: uma Adlesberger “Palmator” dunkles Starkbier e uma Adlesberger Jubiläumsdunkel, ambas escuras, mas a primeira um pouco mais forte. Tudo muito bom!

Depois, fiquei no centro da cidade, para andar por todas as suas ruelas e conhecê-lo. É uma cidade bonita, em que o que me impressionou, mais do que belíssimas construções como as de Nuremberg, foi a integração das edificações antigas com a natureza. A grande quantidade de verde e o rio Danúbio dão um toque especial a Regensburg.

Enquanto caminhava, provei a cerveja Kneitinger Dunkel no próprio bar da cervejaria, que é lá da cidade. Depois, antes de voltar, Alejandra me encontrou e fomos jantar em um restaurante italiano. Comi uma boa costeleta de porco com molho de champignon e bebi... cerveja! Era uma Erl Hell. Nesse dia eu realmente bebi muita cerveja: foram quatro canecões de meio litro cada. A Baviera é um lugar difícil de se beber pouca cerveja. Lá em Regensburg ainda provei a Urtyp Hell e, em Nuremberg, a Eichhofer Hell.

A sexta-feira era dia de voltar. Eu teria o aniversário da Lara para ir em Frankfurt. Mas, antes, era hora de comemorar outro aniversário, de uma das três princesinhas: Paula. Cantamos parabéns e comemos bolo de café-da-manhã. Desta vez, nada de cerveja!


sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Kapitel CII – A Casa do Urso

Depois de vários dias só comendo besteira, tive hoje minha primeira refeição decente em bastante tempo. Comi um prato de frango com molho de leite de coco e curry e bebi a cerveja tailandesa (?!) chamada Chang, no ótimo resturante Krua Thai. Já almocei lá outras vezes antes. Fica no bairro de Bockenheim, perto da universidade, para onde fui em seguida, usar o programa de estatística SPSS e dar uma olhada em um livro.

Minha ida à universidade marcou o fim de uma seqüência de três dias enfurnado em casa, de onde só saí para fazer compras no supermercado e colocar o lixo para fora. Esse período restrito ao circuito quarto-banheiro-cozinha me alertou para uma coisa: eu ainda não tratei nestes Contos Fantásticos, com a devida profundidade, do lugar onde moro. Pois corrigirei essa falha agora.

Moro em um WG (sigla para Wohngemeinschaft), que é um apartamento compartilhado. Comigo moram o já famoso (São) Manfred, muitas vezes citado aqui, e duas meninas, também alemãs: Suzanne e Janine. Este seria o último mês das duas antes de voltarem para suas cidadezinhas, mas parece que estão negociando com Mario (que Mario? o espanhol que aluga o apartamento, é claro) para prorrogarem o aluguel. Elas não são más pessoas, mas há muito pouco diálogo com elas. São muito amigas entre si, mas não demonstram qualquer interesse em se aproximar de nós dois (tratei disso no Kapitel XLV). Já Manfred é um cara legal, que me ajudou várias vezes. Mas não tem paciência de me ajudar no alemão e sempre zomba das minhas trapalhadas. Que não são poucas.

O WG fica no bairro de Dornbush. Está longe de ser badalado como Sachsenhausen ou bonitinho como Bockenheim, mas é um bom lugar. Como disse no Kapitel II, tem boas opções de transporte e seviços. Vivo a umas duas quadras da estação de metrô Dornbush, que é a primeira no sentido Sul-Norte que não é subterrânea (tipo linha 2 do metrô carioca, na superfície).

Além disso, o maior supermercado da cidade fica perto da estação anterior, a Miquel-/ Adickes- allee/Polizei- präsidium (vocês não imaginam o quanto é viciante ficar repetindo esse nome enorme quando ele é anunciado no metrô). Perto da minha casa ficam ainda o restaurante italiano Cosi Cosi, um oriental, uma padaria, uma loja que vende embutidos onde também já almocei algumas vezes, um banco (onde saquei dinheiro do Banco do Brasil várias vezes), o escritório da administração da região (o Bürgeramt)...

Meu endereço diz que moro na Eschersheimer Landstraße, mas é mentira. O meu número ocupa o quarteirão inteiro, e é um número comercial. Depois, virando-se a esquina, o número se repete, mas com as letras A, B, C... Pois é em um desses que eu vivo. Só que aí já não é mais, realmente, na Eschersheimer Landstraße. O nome da rua é Carl-Goerdeler str.

Uma vez, de curiosidade, fiz uma pesquisa na Wikipedia e descobri que o tal do Carl Goerdeler era um político monarquista conservador, que, inicialmente, considerou Hitler um ditador ilustrado, com potencial para fazer o bem. A partir de 1933, mudou de ideia, e passou a fazer oposição a ele e a tentar ajudar comerciantes judeus perseguidos. Se uma tentativa de matar Hitler em 1944 tivesse dado certo, ele seria o novo chanceler. Como ela falhou e descobriram que ele estava envolvido, foi preso e torturado por meses e, depois, executado.

Mas é na Eschersheimer Landstraße que eu ando sempre. Pelo que me explicaram, várias ruas em Frankfurt levam o nome de outras cidades porque eram, originalmente, as rotas para viajar para tais lugares. A tal da Eschersheim, bem ao norte e onde nunca estive, originalmente era uma cidade independente, mas foi anexada a Frankfurt em 1910. Frankfurt cresceu muito incorporando cidades vizinhas, entre elas Bockenheim, bairro onde fica o campus onde eu tive aulas de política. As belas – e parecidas entre si – Warte (Bockenheimer Warte, Galluswarte, Friedberger Warte, Sachsenhäuser Warte) eram torres de guarda que ficavam nos antigos limites de Frankfurt, mas, com a expansão, hoje ficam bem no meio da cidade (ver Kapitel LX).

Vivo no quarto andar, mas isso não significa nada. Na Alemanha, bizarramente, os apartamentos não têm numeração, e as referências são simplesmente o número do prédio e o seu sobrenome. Ou seja, trata-se de um prato cheio para um correio ineficiente como o alemão. Isso me causou muita dor de cabeça, como já praguejei nos Kapitel LIV e LXVIII.

Meu apartamento tem uma sala pequena, uma cozinha idem, mas quartos bastante espaçosos (o meu é enorme!). Além disso, há dois banheiros com chuveiro, o que diminui consideravelmente a possibilidade de conflitos entre nós quatro. A sala para pendurar a roupa para secar fica fora do apartamento, no subsolo do edifício e, bizarramente (levando-se em conta que roupas secam melhor no calor), está sempre muitos graus mais fria do que em qualquer outro lugar que não a geladeira. O local para colocar o lixo fica fora do prédio e atende a todos os edifícios que usam a mesma numeração. Lá, há lixeiras para plástico e embalagens, outras para papel e duas para lixo orgânico. Tudo bastante alemão (o sistema está explicado no Kapitel XXX).

O meu quarto tem 25 metros quadrados, se o anúncio dizia a verdade (eu nunca o medi, mas é grande). Tem um bom armário, uma cômoda, uma pequena mesa, uma cama meio desconfortável, uma mesa de cabeceira moderninha, uma estante com cara de escada em que não cabe quase nada (mas ponho livros lá assim mesmo), um sofá-cama e uma televisão miúda que pega poucos canais (nunca asssisti a ela e, quando tentei, não achei a transmissão de nenhuma partida da Copa).

O que mais chama a atenção, no entanto, é um imenso ursão de pelúcia (escrevi sobre ele no Kapitel II; continua na mesma posição e no mesmo lugar). Não é meu, nem comprei para dar de presente. Parece que Manfred ganhou há muito tempo e, como não tem onde colocá-lo, deixou-o aqui. Simplesmente aqui já estava quando cheguei, a aqui ficou, pois não me atrapalha e não quis ser chato. É um tanto bizarro ver um ursão no canto do quarto, mas já me acostumei. Pena que ele só divide o espaço comigo, não os custos do aluguel. Aliás, debaixo dele há uma gaveta cheia de tralha que também não é minha: sacos plásticos, parafusos, lâmpadas... Ou seja, é melhor deixar o urso lá; pelo menos esconde a tranqueira toda.

O urso não é a única peça de “decoração” que chama a atenção em meu quarto. Há também um enorme mapa-múndi em alemão atrás da minha cama. É interessante que posso olhar para “Die Welt”, o mundo, e ver como se chamam os países nesta língua que tanto custo a aprender. Vereinigte Staaten Von Amerika, Gross Britannien, Schweden, Weiss-Russland, Aserbaischan, Ägypten, Elfenbeinküste (este eu aprendi na Copa!), Simbabwe... Legal, né?

Mas o fato de eu gostar de geografia é apenas uma coincidência. Mario colocou o mapa lá para esconder umas manchas na pintura da parede. É que o antigo morador deixou a roupa secando no interior do quarto e criou mofo. Aí, antes de eu me mudar, Mario pintou as partes afetadas e ficou de fazer uma pintura geral quando eu me ausentasse por mais tempo. Bem... passei duas semanas na França e continua na parede, ali atrás da China, da Mongólia e da Indochina, uma baita mancha mais clara.

Parece que estou reclamando, mas não estou não. Não tenho motivos para isso. O urso e as manchas são mais casos pitorescos do que realmente problemas. Além disso, o Mario é gente-boa e compreensivo, não tem rigor excessivo com o prazo do pagamento do aluguel e, assim como Manfred, já me deu várias dicas da vida em Frankfurt. E meu quarto é realmente espaçoso. Tanto que é possível ficar três dias enfurnado nele. Mesmo tendo que dividi-lo com um urso tamanho família.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Kapitel XCVIII – Os Dois Templos

Meu último dia em Berlim foi de muita correria. Florian havia marcado a Mitfahr-gelgenheit (o esquema de carona, que sai muito mais barato que viajar de trem) para mim às 18 horas, e eu ainda queria, antes, ir a pelo menos dois lugares: Charlottenburg e Scheunenviertel. O primeiro é um bairro da antiga Alemanha Ocidental, enquanto o segundo é um antigo bairro proletário que era onde havia a maior concentração de população judia na cidade.

Comecei por Charlottenburg, que, na verdade, é bem menos interessante do que a parte leste de Berlim. É marcante a quase ausência de prédios antigos, anteriores à Guerra. Muito legais, no entanto, são a área da praça Breitscheidplatz e da igreja Kaiser-Wilhelm-Gedächtniskirche. Por esses dois lugares – especialmente pelo último –, um localizado ao lado do outro, a ida a Charlottenburg é obrigatória para quem vai conhecer Berlim.

A Breitscheid- platz conta com uma fonte e várias estátuas, todas bastante modernas e estilizadas. Não é que sejam muito bonitas, mas é impossível ficar indiferente a elas. Realmente chamam a atenção. A grande quantidade de turistas ali é que me incomodava um pouco; Berlim atrai muito mais turismo do que eu supunha.

A Kaiser-Wilhelm-Gedächtniskirche é impressionante. Trata-se de uma igreja que não foi reconstruída após a Segunda Guerra, mas que foi duramente afetada por ela. O templo, portanto, preserva as marcas do bombardeio e está parcialmente em ruínas. Dentro, uma mensagem diz que é para que as pessoas nunca se esqueçam de que o melhor meio de resolver as coisas é pela paz. A entrada lá é gratuita, e estão expostos vários objetos religiosos e de exaltação ao imperador Wilhelm II, que mandou que a construíssem na década de 1890 e lhe deu o nome de seu avô (o Wilhelm I). O teto preserva, ainda que incompletos, lindos mosaicos, com grande presença da cor dourada.

A velha e machucada igreja já não funciona mais para atividades religiosas (tornou-se um memorial). Para isso foi construído entre 1959 e 1963, ao lado, um templo moderno anexo. Completamente diferente, é um lugar, a seu modo, também intrigante. Por fora, parece um prédio comum. Por dentro, é um templo negro com vidro índigo. Uma imagem moderna estilizada de Jesus Cristo na cruz aparece no altar, enquanto, no outro extremo, localiza-se, no alto, um órgão.

Os demais lugares que vi em Charlottenburg não merecem o mesmo destaque. E eu também esperava mais do outro bairro, Scheunenviertel. Para um bairro judeu, acho que faltam muitas referências. Nada a ver com o bairro judeu de Paris, vizinho ao Marais, por exemplo. É claro que há um motivo um tanto óbvio para o desaparecimento dos pontos de cultura judaica. Ainda assim, acho que, nos que existem, deveria haver mais claras sinalizações e destaque.

Passei pelo cemitério, pelo centro de cultura, por alguns outros pontos, tudo excessivamente discreto, na minha opinião. Algumas referências presentes no livro-guia eu nem mesmo consegui encontrar. O que realmente chamou a atenção é que todos os pontos de cultura e importância histórica para os judeus tinham câmera de vídeo e uma placa avisando que eram policiados. Não tive o desprazer de ver neonazistas, mas é fato que eles existem.

Um lugar em Scheunenviertel, no entanto, merece ser destacado. É a Neue Synagoge, que eu já havia visto com o Florian no primeiro dia de bicicleta (ver Kapitel XCVI). É um dos templos mais belos que já vi e, entre as sinagogas, é de longe a mais bonita que avistei na minha vida. Só não pude entrar. Berlim é muito grande, é preciso muito tempo para conhecer tudo. Ficam para a próxima vez a entrada na Neue Synagoge e a ida ao Estádio Olímpico e ao Palácio Charlottenburg (estes dois últimos eu queria muito conhecer, mas ficam meio longe).

Voltei a tempo de fechar minha mochila e chegar pontualmente no local marcado para pegar a “carona”. Era meio afastado, um cinema perto da estação de Seestraße, de modo que me obrigou a pegar três trens diferentes. Nos dois primeiros, foram trechos curtos de viagem, mas no terceiro atravessei quinze estações! Ainda assim, cheguei na hora exata. Só que a motorista não estava lá.

Esperei um pouco e uma mulher perguntou se eu era o passageiro. Respondi afirmativa- mente e ela me levou ao carro, onde havia outras duas passageiras. Eu não teria nunca como adivinhar: o carro era prata, mas o Florian havia entendido que ela tinha dito preto. E olha que as palavras são bem mais diferentes em alemão do que em português: “silber” e “schwarz".

Na volta, apesar do GPS, ela se enrolou para achar Frankfurt. O resultado é que cheguei uma hora e meia depois do previsto. Ao colocar o pé diante do meu prédio, tive a desagradável surpresa de que perdera minha chave de casa. Precisei tocar a campainha e acordar o pobre do Manfred, já quase à meia-noite. Já procurei por toda parte nada de achar a chave. Florian também não a encontrou no apartamento em Berlim. Se ela não aparecer, terei um baita prejuízo para mandar fazer outra. É alto o preço de ter cabeça-de-vento.

Kapitel XCVII – Casinhas de Tijolos, Cortina de Ferro

Na terça-feira, saí com Florian para comprar alguma coisa para o café-da-manhã. Eu vestia uma camiseta azul que comprara no dia anterior, com a inscrição DDR (sigla para República Democrática da Alemanha) e o brasão da antiga Alemanha Oriental. Era, afinal, a primeira vez que visitava a parte leste do país, onde fica não apenas o bairro onde mora Florian – Neu Köln – como também Potsdam, que eu visitaria mais tarde. Usava a camiseta não por apoiar o repressivo regime que vigorou no extinto país, mas simplesmente porque gosto do símbolo e era minha primeira vez lá (eu vestiria também uma camiseta do antigo Zaire ou da Coreia do Norte, se fosse o caso...). Todos que me conhecem sabem que sou de esquerda sim mas, também, um defensor da democracia representativa parlamentar eleitoral. Entretanto, esse não era o caso de um senhor que passava pelo quarteirão do prédio de Florian...

O homem começou a gritar comigo, furioso. E eu não entendia nada! Depois, Florian me explicou que ela reclamava que aquele “era um regime injusto”. Acredito que tenha sofrido bastante antes da queda do muro, perdendo parentes, ou sendo preso. Caso contrário, não se justificaria uma reação tão impressionante. As feridas da cortina de ferro ainda estão abertas. Florian respondeu algo que não entendi mas, pelo tom de voz, devia significar algo entre “pega leve, deixa de besteira” e “vai catar coquinho”, e seguimos em frente.

Tomamos o café, mostrei a ele dois curta-metragens no meu laptop (o clássico “Ilha das Flores” e o ótimo alemão vencedor do Oscar do não passado, “Spielzeug-land”) e saí para a viagem. Peguei, então, o trem para Potsdam, capital do estado de Brandemburgo. Próxima de Berlim, trata-se de um tradicional ponto de visitação para turistas que estão na maior cidade da Alemanha. Residência dos reis da Prússia até 1918, Potsdam é conhecida por seus jardins e palácios. Além disso, lá funciona a universidade onde Jens lecionava quando foi meu professor no mestrado no Iuperj. E também lá Florian cursou o Diplom (sobre os tipos de cursos na Alemanha, ver Kapitel XXVIII).

Quando chego à ferroviária, vejo a exibição de vários enormes bonecos de monstros mitológicos, alguns bem-feitos, outros constrangedo- ramente ridículos. Começo a passear por Potsdam, que tem uma cara de cidade pequena, bem diferente de Berlim ou Frankfurt. Passei pelo Portão de Brandemburgo (bem menos imponente que seu homônimo em Berlim) e pela área do Alter Markt. A primeira coisa que me impressionou, no entanto, foi a grande quantidade de casinhas de tijolos. Há ruas inteiras com casas assim. Depois vim a saber pela Wikipedia que se trata do “quarteirão holandês”, que reúne 150 casas e é o único do tipo na Europa.

Andei muito até chegar ao Parque Sanssouci, a área mais bela da cidade. Só que o parque é mal sinalizado e o meu mapa resumido também não ajudava (muito menos o meu senso de direção). Então, andei erraticamente, conhecendo os pontos totalmente fora de uma ordem geograficamente racional. Vi os palácios Neues Palais, Orangerieschloss e Schloss Sanssouci. O primeiro, apesar de, oficialmente, só não funcionar às sextas-feiras, estava fechado ao público em plena terça! O segundo eu pude visitar e, após tirar algumas fotos, fui avisado pela guia que eu precisava comprar o direito de fotografar (?!); tive, então, que guardar novamente a câmera. O terceiro, já estava fechado quando passei por lá.

Vi ainda a – muito dourada – Chinesisches Teehaus (Casa de Chá Chinesa), o Neptune Grotto, o obelisco, o Historische Mühle (moinho histórico) e a Igreja da Paz (Friedens-kirche), perto da qual um grupo de cisnes tranqüilamente repousava. Mais bonitos do que todos os palácios são os jardins que os cercam e seu conjunto de estátuas e piscinas. Na volta, já com pressa, passei ainda pelo Heiliger See (ou lago sagrado), onde do outro lado da margem se podia avistar o palácio de mármore, e pelo Tiefer See, onde havia barcos a vela e pescadores.

A volta não foi tranqüila. A viagem dura uns quarenta minutos, mas levei muito mais tempo. O transporte público em Berlim, apesar de eficiente, é mais complicado que o de Frankfurt (Florian não concorda, mas acho que é pela implicância que os alemães não-frankfurtianos têm com a cidade). Como se não bastasse a loucura que são suas nove linhas de metrô U-Bahn e as quinze de trem urbano S-Bahn (diferentemente de Frankfurt, onde as linhas de metrô são as centrais e os S-Bahn levam para áreas mais afastadas, em Berlim são os S-Bahn que atravessam a cidade de leste a oeste, enquanto os U-Bahn levam para norte e para sul nos mais variados pontos), ainda por cima todos os mapas da rede de transporte público chamam a estação central de Lehrter Stadtbahnhof, apesar de, lá, todas as placas a chamarem de Hauptbahnhof. Adivinhar fica difícil, não é?

Eu estava meio que cochilando quando vi que tinha chegado à estação central de Berlim. Saltei, mas não sabia que trem pegar para ir à linha 8 de metrô, que é a que leva à casa do Florian. Telefonei para meu amigo-anfitrião, que, após breve pesquisa na internet, indicou-me um trem. Estava em frente a ele, quando, subitamente, mudaram a destinação do trem e avisaram pelo alto-falante alguma coisa que eu não tinha a menor chance de compreender. Eu estava ferrado! Tentei ligar novamente para Florian e percebi que meus créditos tinham acabado. Eu teria que resolver essa parada sozinho.

Pesquisei muito até que, após perguntar a dois policiais, eles me indicaram o trem urbano S-15. Chegando à plataforma, vi que havia um trem que iria para a estação de Bellevue e outro para a de Friedrichstraße. Achei estranho. Afinal, tratavam-se das estações seguintes em cada um dos sentidos. Deduzi que, como não era possível que o trem andasse apenas mais uma estação, já que havia muitas para os dois lados, eles simplesmente estavam indicando os dois sentidos, só que mencionando as estações seguintes em vez das estações finais. Deduzi errado, era possível sim... Chegando à Friedrichstraße, ouvi pelo alto-falante que aquela era a estação final daquele trem, e que eu precisaria descer. Ou seja, tive ainda que pegar mais dois trens para voltar. Cheguei duas horas depois de sair de Potsdam.

Apesar de exausto, a noite ainda demoraria a acabar. Eu e Florian saímos com Rocco e Jacqueline, companheiros de apartamento dele. De bicicleta, é claro! Fomos a um bar chamado pelo peculiar nome Tristeza. Lá bebemos cerveja e uma versão de Blood Mary chamada Mexikaner, e jogamos totó (chamado Kicker por aqui). Florian me disse que, em Berlim, todos são, no mínimo, semiprofissionais em totó. Por sorte, jogamos quase todas as partidas entre a gente. Quando fomos enfrentar os caras, não deu nem para a saída. Vencê-los é mais complicado do que andar de bicicleta (sobre as bicicletas, ver o Kapitel anterior).



As imagens de Potsdam.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Kapitel XCVI – As Bicicletas de Berlimville

Quando se fala sobre algo que nunca se esquece, diz-se que é como andar de bicicleta. Só que esta é uma meia verdade. De fato, nunca se esquece como se anda de bicicleta, mas o tempo de inatividade tem um inegável impacto sobre o desempenho do ciclista.

Como eu narrei no Kapitel XX, as pessoas vão a todas as partes de bicicleta na Alemanha (e, quando estive na França, vi que lá não é diferente). Quando cheguei a Berlim, portanto, meu amigo e anfitrião Florian me emprestou sua bicicleta, pegou a de sua namorada, e nos pusemos a pedalar. Ele assegurou que não há melhor forma de conhecer a cidade do que sobre duas rodas. E assim me apresentou os principais lugares de Berlim nos meus dois primeiros dias lá.

Só que fazia anos que eu não pedalava. Foi, portanto, um relativo desastre. É verdade que melhorei um pouco ao longo desses dias, e também que fui capaz de segui-lo. Mas era surreal o tempo que eu levava para conseguir subir na bicicleta (que me parecia excessivamente alta, apesar de Florian, seu proprietário, ser mais baixo que eu) e sair pedalando. Pior foi quando eu me estabaquei na rua ao prender a roda no trilho do bonde. Lamentável...

Mas foi divertido. Passamos pelo Checkpoint Charlie (local onde as tropas russas e estadunidenses se encontraram e quase entraram em conflito), pelo parlamento Bundestag, pela sede do governo Bundes-kanzleramt (apelidada popularmente como máquina de lavar, devido a sua aparência), pelo Portão de Brandemburgo (havia tantos turistas que me senti como se estivesse em Paris; odeio outros turistas que não eu!), pela rua Unter den Linden, pelo Deutscher Dom e pelo Französischer Dom, pela Catedral de St. Hedwigs, pela Universidade Humboldt, pela estátua de Frederico o Grande, pela Ilha dos museus (Museumsinsel), pela Neue Synagoge (certamente, a sinagoga mais bonita que eu já vi!) e pela East Side Gallery, que reúne pinturas em uma parte não destruída do muro de Berlim. Depois, nós nos encontramos com vários amigos do Florian, todos muito bacanas, no bairro alternativo de Kreuzberg. A ideia era almoçarmos uma comida preparada por alguns deles em um restaurante lá – mas estava tão cheio que acabamos matando a fome no árabe do outro lado da rua mesmo.

No dia seguinte, eu e Florian fomos ao espetacular Pergamon-museum, onde estão expostas várias obras mesopotâ-micas, islâmicas e gregas. É realmente incrível ver pessoalmente esculturas e mosaicos que pareciam não poder ser contemplados fora dos livros. Em todo o mundo se podem ver – sejam eles melhores ou piores – museus de arte moderna, de esculturas, de história natural, de pinturas, de folclore... mas um museu como o Pergamonmuseum é muito raro!

Situado na Ilha dos Museus, o Pergamonmuseum não apenas apresenta esculturas, joias, tapeçarias e estátuas como reconstrói vários locais, como a magnífica Porta de Ishtar, o Altar de Pérgamo e a Porta do Mercado de Mileto (os dois últimos, ambos do século II a.C., foram extraídos em escavações arqueológicas e transportados da Turquia no começo do século XX; é questionada a legitimidade de sua posse pelo museu e se argumenta que deveriam voltar para seu país de origem). A Porta de Ishtar, da antiga Babilônia, é sem dúvida o que mais me impressionou: até vendo em fotografias nos livros eu sempre babei com seus tons de azul e dourado e imagens de leões, dragões mushhushshu (ser mitológico com as pernas dianteiras de felino e as traseiras de águia), touros e flores.

Depois, fomos com dois dos amigos de Florian – Johannes e Mulan – comer hambúrgueres. Johannes, que fala bem português, já morou em Belo Horizonte, onde estudou ciência política. Bebi pela primeira vez a cerveja inglesa Newcastle Brown Ale; o preço estava bom e eu queria experimentar. Nada contra as cervejas alemãs, até porque também bebi nessa viagem a Flensburguer, a Krombacher, e provei a de trigo Schneider Weisse, a escura Märkischer Landmann, e as locais Berliner Kindl e Berliner Pilsner – esta última inferior a anterior, mas também tomável).

Lá no restaurante, pegamos um jornal e nada de Johannes e Florian encontrarem a programação de cinema. Surpreenden- temente, eu, que falo um pífio alemão, peguei o jornal e rapidamente encontrei! Fomos, então, a um cinema ao ar livre em Kreuzberg, só que o filme que estava passando não era o planejado. Vimos “Same, same, but different”, um filme alemão sobre um turista germânico que se apaixona por uma prostituta cambojana. Não consegui entender os diálogos em alemão, mas deu para entender bem a história porque havia muitos trechos falados em inglês (que contavam com legenda em alemão).

Na segunda-feira, Florian ficou em casa para adiantar seu projeto de tese. Saí, então, sem bicicleta (imaginem que perigo – para mim e para as demais pessoas – eu, sozinho, circulando de bicicleta por uma cidade que não conheço!). Voltei a alguns lugares onde tinha estado antes para tirar fotos, como o Bundestag, a “máquina de lavar” e a East Side Gallery. Tinha planejado entrar no Bundestag, de onde, lá do alto, tem-se uma bela vista. Na véspera, havia uma fila que, segundo Florian, duraria uma hora e meia. Ele achava que seria tranqüilo que eu visitasse o parlamento no dia seguinte. Mas estava enganado: a fila estava três vezes maior! Desisti, é claro. Mas tinha muito mais lugares para conhecer.

Fui ainda ao Deutscher Dom, de onde, do alto da cúpula, pode-se ter uma bela vista da cidade. Em seguida, comi uma Currywurst. Já a havia provado em Frankfurt e não tinha gostado. Como é típica de Berlim, dei uma segunda chance. Estava melhor do que a que comi em Frankfurt, mas ainda acho que há opções bem melhores de comida na Alemanha.

Visitei, depois, o Museu Histórico, que tem muita coisa interessante. Merecem destaque os pôsteres políticos dos anos trinta – que mostram a tensão daquelas eleições envolvendo nazistas, social-democratas, comunistas e centristas – e os brinquedos infantis com motivos nazistas, como uma casa de bonecas com a foto de Hitler na parede! Andei bastante e passei pelo Nicolaiviertel, área muito diferente, que parece uma cidade do interior. Lá, tomei uma sopa de Gulasch e comi um sanduíche de Berlin Bratwurst.

Tinham se passado três dias de maratona na capital alemã. No dia seguinte, eu iria a Potsdam, a 24 quilômetros de Berlim. Ainda havia muito o que conhecer. E mais quilômetros para percorrer de bicicleta!