Um brasileiro que fala um alemão macarrônico chega a Frankfurt sem saber nem mesmo onde vai morar... Aqui narro minhas aventuras nesta temporada germânica: lugares interessantes, enrascadas em que me meto, esquisitices que percebo a cada dia. O nome do blog é uma analogia aos irmãos Grimm, alemães que compilaram muitas dezenas de contos de fada tradicionais, como Branca de Neve, João e Maria, Rapunzel, a Gata Borralheira, o Músico Maravilhoso, Chapeuzinho Vermelho, e a Bela Adormecida (mais detalhes em Vorstellung).

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Centenas de fotos disponíveis em Ilustrações.


domingo, 9 de maio de 2010

Kapitel XLVIII – Os Persas, o Siamês e a Boêmia

A internet voltou! Depois de quase revirar o computador pelo avesso, descobri que era apenas um problema de senha. Descobri isso com a ajuda de São Manfred, é claro. No dia em que caiu a conexão aqui de casa, tentei de várias maneiras reconectar. Em algumas delas, precisei digitar novamente a senha, e aí coloquei a senha errada. A que eu tinha anotada era a do antigo apartamento (sobre os antigos apartamentos, ver Kapitel II), muito parecida com a deste, só que um pouco mais longa. Até tinha tentado ligar para o Mario para perguntar se eu estava com a senha certa, mas, como sabem, ainda por cima estou sem crédito no celular. Perguntei para uma das minhas colegas de apartamento – a que tem falado comigo (ver Kapitel XLV) – se a senha estava certa, e ela, provavelmente por não ter necessitado digitar a senha nunca mais desde que se mudou para cá, respondeu equivocadamente que estava. Daí toda a confusão.

O importante é que agora tudo voltou ao normal. Passei, então, um bom tempo no computador. Aproveitei para publicar dois Kapitel que eu havia escrito, o XLVI e o XLVII, decidindo-me por manter em ambos o texto original, produzido quando eu ainda estava sem conexão à internet. Quando acabei tudo o que tinha para fazer, já passava muito das quatro horas e eu estava roxo de fome.

Resolvi explorar uma parte da cidade que ainda não conhecia, perto da minha casa mas para o lado aonde nunca vou. Saí sem mapa e a esmo, o que significa que depois demoraria algum tempo para encontrar o caminho de volta. A poucos quarteirões de distância fui surpreendido por uma manifestação pacífica, em forma de passeata, acompanhada de modo amistoso por vários policiais. O curioso da passeata é que era formada por iranianos contrários ao governo de Ahmadinejad. Seus cartazes – os que tinham inscrições em alemão ou inglês, pois em persa fica difícil entender – traziam palavras em favor do socialismo, chamando a embaixada persa de centro terrorista e exigindo a libertação de presos políticos. Entendi que houve gritos de ordem em favor do Curdistão também. Filmei uma parte da mobilização.

Depois de acompanhar um pouco a passeata, eu me desviei e encontrei um restaurante tailandês. O nome era Mr. Thai-Express, e logo entendi por quê. O foco do restaurante é o de vender para as pessoas levarem para casa (“zum Mitnehemen”, no termo alemão, em oposição ao “zum hier essen”, “para comer aqui”). O lugar era completamente fechado (nem uma janelinha aberta sequer) e o cozinheiro trabalhava ali, na frente dos clientes. Ou seja, era um desagradável cheiro de comida por todo lado, com aquele vapor impregnando todos os cabelos e casacos que havia pela frente. Pelo menos minhas apimentadas tiras de filé com curry tailandês e leite de coco estavam boas.

Saindo de lá ainda dei uma longa volta, inicialmente por curiosidade e, depois, em busca do caminho de casa. Passaram-se bem umas duas horas de passeio, no mínimo. Parte dele foi realizada margeando o principal cemitério da cidade, realmente grande. Vi também alguns parques que eu nem conhecia.

Cheguei em casa e liguei pelo Skype para o telefone da minha avó, na casa de quem estava toda a família reunida pelo dia das mães. Com a minha eu já havia conversado mais cedo. Faltava falar com minha “bimãe” (vovó) e com minha “vice-
mãe” (dinda). Depois, como minha água acabou, não tive outra opção senão a de abrir uma ótima cerveja preta tcheca, Březňák Schwarzbier, que comprei no supermercado. Foi um dia bastante internacional, do Irã à República Tcheca, passando pela Tailândia. Coisas de uma cidade cosmopolita.


Kapitel XLVII – Sempre Perdido na Antiga Cidade

Ainda sem internet, pus em prática a continuação do meu plano de viajar o máximo possível em meu tempo livre. O destino deste sábado era Marburg, uma cidade bem antiga mas que, longe de ter se tornado um museu ao ar livre, é uma cidade universitária. Como eu veria uma cidade apenas e estava cansado, acordei um pouco mais tarde e acabei comprando minha passagem apenas às 11h49 (definitivamente, não sou tão controlado assim com os horários, é que a hora está gravada no bilhete). Marburg é mais longe do que as cidades para onde fui no domingo anterior (ver Kapitel XLIII), de modo que se leva mais de uma hora para chegar.

Só fui pisar na estação principal de trem (Hauptbanhof) de Marburg quase ao meio-dia. Mas seria tempo de sobra – pensei –, afinal, é a única cidade que conhecerei hoje. Seria tempo de sobra se não fosse por um detalhe: além de ser antiga, charmosa e bonita, Marburg tem outra característica marcante, a de ser pessimamente sinalizada! Simplesmente não há sinalização na Hauptbanhof dizendo em que direção ir para chegar à Marktplatz (ou praça do mercado, a principal da cidade, onde fica a prefeitura) e ao centro antigo (Altstadt). No meio da cidade também não encontrei nenhuma sinalização da localização da Marktplatz, só vi uma do Altstadt (já quando voltava), e não é fácil ver uma placa indicando o sentido da Hauptbanhof.
A conseqüência da má sinalização é que gastei um bom tempo dando a volta ao mundo. É claro que não ajudou em nada minha estúpida decisão de não pedir informações quando ainda estava na estação. Além disso, minha experiência da viagem da semana anterior já tinha me deixado uma dica: quando não souber para onde ir ao sair de uma estação central de trem em uma cidade alemã, se houver uma rua chamada Banhofstraße, siga por ela, pois são grandes as chances de você chegar nos principais lugares. Mas eu não segui a dica, sabe-se lá por quê...

Passei por uma área bem verde e residencial, onde havia um rio com patos e pedalinho. Andei muito, até chegar finalmente ao centro antigo. Entrei em uma bela igreja gótica do século XIII, a Elizabethkirche
Ali perto, seguindo por uma ruela, cheguei a uma humilde capela de São Miguel (St. Michaels-Kapelle), a “Michelchen”, mais ou menos da mesma época. A entrada estava fechada, mas, em uma placa que vi pouco depois, explicava-se que a Elizabethkirche era freqüentada pela nobreza, enquanto que os peregrinos faziam suas orações na capela.
Do lado de fora da capela havia um cemitério, e dentro da igreja Elizabethkirche não faltavam nem sepulcros de antigos nobres, nem brasões nas pilastras. Entrei ainda na bonita Igreja Paroquia  (Pfarrkirche) St. Marien, presbiteriana, e vi no centro antigo muitas casas interessantes, em estilo tipicamente alemão. Merece destaque a fortaleza Festung Marburg, enorme, erguida entre 1550 e 1886, localizada no ponto mais alto da cidade.

Eu tinha saído de casa após comer apenas um sanduíche de café-da-manhã, e só fui almoçar lá quase às seis e meia. Nesse intervalo, tomei apenas dois sorvetes de casquinha. Aliás, as bolas de sorvete são mais generosas em Frankfurt do que em Marburg (e o preço é equivalente: geralmente cobram 80 cêntimos em Frankfurt e lá paguei 70 em uma sorveteria e 80 na outra). Minha ideia era, depois de almoçar, entrar em uma taverna no subsolo, que parecia interessante, para tomar uma cerveja. Mas como lá eles não serviam comida, pesquisei outro lugar para almoçar.

Acabei achando um restaurante onde pedi um Schnitzel 'Zigeuner Art' (sobre esse prato, ver o Kapitel XXX). Para beber, uma caneca de cerveja Krombacher. A garçonete perguntou “Kleine oder grosse?”, e eu respondi que queria a grande, é claro. Enquanto eu esperava, a temperatura caiu vertiginosamente, de modo que eu já estava tremendo. Minha intenção era comer do lado de fora, olhando a cara da cidade, mas não agüentei e entrei. O prato não chegou tão rápido e meus 500 ml de cerveja “evaporaram” antes de a comida ser servida. Quando chegou o Schnitzel, fui obrigado a pedir mais meio litro de cerveja. Desta vez, após consultar o cardápio, pedi a versão escura de trigo da Krombacher.

O Scnhtitzel estava ótimo e vinha muito bem servido. Aproveitei ainda para pedir sobremesa. Já havia comido na Alemanha salsichão, porco, chucrute, bebido cerveja... tirando as batatas (que não como), é claro, só faltava uma coisa estereotipicamente alemã: o Apfelstrudel, a torta de maçã. Pois pedi um de sobremesa. Vinha quente, acompanhado com sorvete de creme e um chantilly. O pedido da sobremesa foi motivado tanto por querer provar essa iguaria germânica em território alemão como pela intenção de cortar um pouco o álcool (um litro de cerveja forte não é pouca coisa).

Era, então, o momento de procurar o caminho de volta para casa. Como vocês sabem, esse freqüentemente é um problema para mim comparável ao de João e Maria no conto de fadas (felizmente, para mim, a bruxa só apareceu no Kapitel XXVI). E a situação piora muito com a sinalização de Marburg. E não venham culpar a cerveja, pois eu estava bem sóbrio. Se não estivesse, certamente teria sido impossível articular, em alemão, perguntas como “onde fica a estação de trem?” e “como vou à estação de trem?”.

Cada vez que seguia uma placa, andava muito até chegar a algum caminho que tinha uma bifurcação ou que fazia uma curva, claramente se desviando da indicação. Estava claro que não havia placas para guiar ao longo de todo o percurso. Eu andava, andava, e quando achava outra placa, ela indicava uma direção totalmente diferente, pois em algum momento eu escolhi o lado errado e não havia uma placa para evitar isso. Pedi várias vezes informações, mas não era fácil entender o que as pessoas diziam (mesmo perdido, sempre insisto em perguntar em alemão, e só falo em inglês se as pessoas sugerirem).

Eu temia estar perdido no meio do caminho com a noite já escura, mas ainda estava razoavelmente claro quando cheguei à estação, às nove e pouquinho. Vi que o ônibus para Frankfurt só passaria às 21h30. Aproveitei para ir ao banheiro... que estava trancado! Pensei, irritado: “claro, o que alguém pode querer fazer em um banheiro fora do horário comercial, não é mesmo?”. Os banheiros das estações de trem realmente parecem não gostar de mim (sobre a situação anterior, na estação de Mogúncia/Mainz, ver o Kapitel XLIII).

Como eu tinha tempo, decidi ir a algum bar próximo para desidratar meu joelho e beber alguma coisa (não alcoólica!). Fui a um restaurante de döner kebap, esvaziei a bexiga e fui ver o que tinham de bebida. Fiquei intrigado com uma bebida turca que eles vendiam, que levava iogurte, chamada ayram. Corajosamente, arrisquei mais uma vez. Precisava provar. Além do mais, era barata, mais até do que a água mineral. No copo se informava que o ayram é constituído de iogurte, água e sal. Não gostei não. Parece um iogurte azedo, só isso. Mas bebi. Quem sabe não cortava o álcool?

O transporte público na Alemanha é reconhecido, com justiça, por sua impressionante pontualidade. Mas não é infalível. O trem, que eu tinha que esperar meia hora para chegar, atrasou ainda outros onze minutos. Só cheguei em casa às onze. Tinha combinado de sair com Vítor e Filipe, mas não só cheguei tarde como não consegui falar com eles. Suspeito que estou sem crédito no celular (só suspeito, porque não consigo entender o recado). Não consegui sair à noite nem sexta, nem sábado. Estou sem celular e sem internet... está complicada a minha situação. Pelo menos, estou conseguindo colocar o pé na estrada, digo, na linha férrea.
 
 

Kapitel XLVI – A Máquina do Mal e o Adormecido

Sempre acreditei que os computadores são seres malignos com vontade própria. Aliás, melhor seria dizer “com vontades próprias”, no plural; afinal, eles são cheios de vontades. Pois o meu laptop, que andava calminho desde o meu segundo dia em Frankfurt (ver Kapitel IV), atacou novamente. Caiu a conexão aqui em casa na sexta-feira à noite, mas ela voltou. Todos aqui em casa conseguiram conectar, menos eu! A droga do meu computador diz que o sinal da internet está “excelente”, mas não consigo conectar. Já fiz de tudo, já fucei cada instrução do computador (dá a maior raiva quando ele recomenda a utilização da ajuda on-line), e nenhum resultado! Passou o sábado inteiro e a situação é a mesma.

Eu ia sair com o pessoal do curso de alemão nesta sexta-feira, havia combinado com o João Guilherme. Seria bom inclusive para esquecer um pouco o problema. Só que estava com uma tremenda dor de cabeça, que o meu computador obviamente não contribuía para melhorar. Resolvi, lá pelas dez e pouco, tirar um cochilo, pois acreditava que a dor era resultado do horário alternativo do meu sono na quarta-feira (ver Kapitel XLIV) e das poucas horas dormidas na quinta (sempre durmo meio tarde e preciso acordar mais cedo nos dias de alemão, segundas e sextas). Só que minha soneca superou minhas expectativas. Só fui acordar às três e meia da madrugada! Lá se foi minha saída. E sem internet para compensar.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Kapitel XLV – O Drama de um Mudo

Hoje fui à aula de alemão, em que sempre fico “boiando”. O nível é da turma mais avançado do que o meu e o professor é bastante desorganizado e pouco metódico. Dizem que ele é muito bom, mas está claro para mim que não para quem sabe pouco e precisa de mais do que uma revisão. Eu tentava entender o significado de umas seis preposições e, de repente, apareceram outras quinze! Assim, fica muito difícil.

Ao menos, hoje me sentei ao lado de um albanês gente-fina, Dritan, que me esclareceu algumas coisas. Dritan adora o futebol brasileiro, é claro, apesar de não conhecê-lo tão bem assim. Faz faculdade na Universidade de Frankfurt, acho que em Economia, e fez um intercâmbio na Inglaterra, onde aprendeu todo o inglês que sabe falar. Aparentemente, ele fala melhor em alemão do que em inglês, mas é com esse inglês que me explica o que não entendo.

Depois da aula de segunda-feira, conversei bastante com ele, mas hoje falei mais com outros alunos, e acabei almoçando com o italiano Lorenzo e mais um brasileiro, Gabriel. Ambos fazem intercâmbio de graduação em Direito na universidade. Gabriel é um cara legal, mas tem o grave defeito de ser são-paulino, daqueles que acham que o São Paulo não foi campeão brasileiro no ano passado porque foi roubado e que defendem que o Sport Recife é o campeão brasileiro de 1987. Fazer o quê, não é? Lorenzo, apesar de italiano, não liga para o calcio e prefere o rúgbi. A propósito, almoçamos no bandejão Mensa de Westend, novamente paguei como estudante, mais barato (ver Kapitel XLII), e comi frango pela primeira vez desde que cheguei aqui. Quem lê regularmente estes Contos, sabe que venho me entupindo de carne suína quase diariamente.

Depois do almoço, fui para o campus de Bockenheim, onde acontece a aula de política brasileira em que colaboro com o Jens. Nesta turma, há uma aluna que começou a estudar português há pouco tempo e quer que eu a ajude a praticar. Em troca, quer me ajudar no alemão. Vamos ver no que dá. De fato, não são tantas as oportunidades de treinar alemão, por incrível que pareça. Tirando pedidos que faço em restaurantes, bares, mercados e padarias, sobra pouco. Hoje até conversei consideravelmente em alemão com Lorenzo e Gabriel, mas isso nem sempre ocorre.

Eu achava que, por morar com três alemães, eu praticaria bastante, pois eles me ajudariam, corrigindo meus erros e me ensinando palavras. A história foi bem diferente. As duas alemãs que moram aqui pouco falam comigo. Não vão muito além de bom-dia e tchau. No início, uma nunca falava comigo – acho até que evitava me encontrar no corredor – e a outra parecia que poderia, futuramente, conversar um pouco mais. Pois elas inverteram os papéis: a que nunca falava já estabelece uma conversação mínima (sem sinais de que se aproximará mais) e a outra, que tinha dado indícios de poder vir a quebrar o gelo, já nem se despede mais de mim.

Resta um morador de meu apartamento, o sempre mencionado Manfred. Como eu já disse várias vezes aqui, ele é um ótimo sujeito. Mas a questão é que, como contei no Kapitel XIII, ele viveu por dezesseis anos em Los Angeles. Então, prefere conversar comigo em inglês, sem paciência para o meu alemão rudimentar.

Confesso um certo receio de voltar ao Brasil em outubro sabendo menos alemão do que quando cheguei. Isso depois de morar na cidade natal de Goethe! Sempre penso que tenho que estudar alemão em casa, mas até agora só fiz isso uma vez. Bem, ainda tenho cinco meses para soltar o verbo...

Kapitel XLIV – O Urubu e o Corujão

Quarta-feira teria sido mais um dia trivial, em que não fui à universidade, estudei em casa, almocei um sanduíche, esquentei um Schnitzel congelado para a janta, saí com Manfred para trocar um pacote de café (estou experimentando para ver qual é meu café preferido, mas, estupidamente, tinha comprado por engano a mesma marca que havia julgado ruim). Sim, teria sido mais um dia trivial se não fosse pelo fato de que o Flamengo enfrentaria o Corinthians em um jogo decisivo pela Taça Libertadores, e eu estava determinado a assistir à partida.

Além das batatas (ver Kapitel XVII), do problema do idioma, da burocracia (ver Kapitel XL) e do choque cultural, uma dificuldade que encontro aqui na Alemanha é a distância do meu Mengão. Ainda assim, apesar de não ser tão fácil, nem de estar nas condições ideais, já consegui assistir a algumas partidas. Tento pegar pela internet alguma transmissão e, quando não consigo, minha irmã gentilmente cede seu quarto em nosso apartamento no Rio de Janeiro para minha santa mãezinha telefonar para mim pelo Skype e virar a webcam de frente para a tevê. É claro que é uma forma precária de assistir à televisão, parece uma transmissão dos anos 70: cores estouradas, tamanho de tela pequeno, listras e sombras que se movem insistentemente na imagem. Mas é melhor do que ficar sem o meu Flamengo, afinal, como brilhantemente compôs Lamartine Babo: “Eu teria um desgosto profundo se faltasse o Flamengo no mundo”.

Na quarta-feira, no entanto, havia outro complicador: diferentemente das partidas do Flamengo a que tinha assistido desde que aqui cheguei, esta não aconteceria à tarde no Brasil, mas à noite. Juntando-se o fuso horário ao maldito horário de verão que está vigorando nos frios dias alemães, aqui são cinco horas mais tarde que no sudeste brasileiro! Mas era um jogo de vida ou morte e, nessas situações, são necessárias medidas drásticas.

Após terminar o que tinha para ler, à meia-noite, marquei o despertador para as duas e meia da madrugada. Acordei meio tonto, mas fiquei a postos. Minha mãe preparou tudo no Skype, mas acabei conseguindo pegar uma transmissão da Fox Sports na internet, com imagem bem menos ruim. A narração em espanhol dava um toque especial a essa partida tão internacional entre os mais populares times do Brasil.

Os 2 a 0 do Corinthians no primeiro tempo davam uma sensação dupla de frustração: o Mengo ser eliminado já seria horrível, mas ele ser eliminado comigo acordado às três e tanto da manhã para poder assistir seria ainda pior. Entretanto, o segundo tempo foi só alegria! O gol de Vagner Love só não foi mais comemorado porque eu precisava ficar mudo, já que era o único acordado em toda a vizinhança. Vibrei a la cinema mudo. Depois, fui dormir às cinco da manhã – para ter aula (à tarde, pelo menos) no dia seguinte. Tinha a sensação de dever cumprido!

Flamengo classificado e, no dia seguinte, era dia de vestir rubro-negro. Pus o manto sagrado, mas, infelizmente, ele ficou quase o tempo todo escondido pelo meu casaco mais grosso. Diferentemente do calor ensolarado do Rio, aqui esta quinta-feira foi dia de chuva e frio. Mas, apesar disso, mostrei com orgulho a camisa. Ser Flamengo, afinal, não é para qualquer um. É “só” para trinta e cinco milhões de felizardos. De um lado ou do outro do Atlântico.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Kapitel XLIII – Um Trem, Três Chuvas, Treze Horas

Acordei cedo neste domingo porque tinha planos bem diferentes em relação aos domingos anteriores. Eu me programei para, pela primeira vez, sair de Frankfurt! Resolvi fazer minha primeira de muitas viagens na Alemanha. Comecei de leve, escolhendo cidades próximas. Mas logo três de uma vez!

Tomei meu café-da-manhã, saí às 8h45 por pura lerdeza (tinha acordado às 7h!) e parti para a estação de metrô. Lá, astutamente comprei a passagem de acordo com o meu plano; vejam só quanta esperteza! Selecionei três cidades que têm o mesmo código de distância em relação a Frankfurt, 65, ou seja, a passagem de ida ou volta para qualquer uma delas custa 7,15 euros. Como não sou bobo nem nada, comprei a passagem de dia todo para o código 65, que custa 14,30 euros. Ou seja, pelo mesmo preço que eu pagaria para ir a uma das três cidades e voltar, eu viajei por todas elas!

A primeira da minha rota era Wiesbaden. Apesar de Frankfurt ser bem maior e mais importante, é ela a capital do estado onde moro, Hesse. São bonitos os prédios do governo, como o da assembleia legislativa Landtag, mas o que mais chama a atenção, logo de cara, é sem dúvida a igreja neogótica Marktkirche. Por dentro, é até razoavelmente simples, mas por fora sua construção em tom de tijolo impressiona. Andando mais um pouco pelas ruas, deparei-me com blocos, peças e resquícios de um antigo aqueduto dos antigos romanos. Muito legal! Ah, e há torneirinhas espalhadas pela cidade onde se pode pegar suas famosas águas termais, que inclusive dão o nome à cidade (Wiesbaden significa “banhos da pradaria”).

Já cansado e com fome, estava quase na hora de trocar de cidade, mas antes faltava ir a um lugar: Neroberg, a parte mais alta de Wiesbaden. Havia duas atrações lá que eu não podia perder: a igreja ortodoxa russa e o teleférico. Difícil foi descobrir como ir para lá. Perdido, pedindo orientações, acabei perguntando a uma senhorinha que – vejam só! – me ofereceu carona. Ela me perguntou se eu era espanhol ou italiano e, quando disse que era brasileiro, falou que esteve por dois dias no Rio de Janeiro e que já conheceu a Argentina e o Peru, onde o marido dela trabalhou. Tentou arranhar um castelhano, mas ele não era muito melhor do que o meu alemão. Não precisei esperar ônibus nem nada, ela me deixou exatamente no ponto do teleférico. Comprei a passagem e subi.

Lá em cima a vista não era tão boa quanto eu supunha. Havia muitas árvores tapando um pouco os mirantes e, principalmente, os pontos mais atraentes da cidade lá embaixo ficavam muito distantes do Neroberg. A igreja ortodoxa russa Elisabeth (vários nobres russos se mudaram para a cidade antes da revolução comunista) também é bonita, com suas cúpulas douradas. Entrei e achei lá dentro surpreendentemente pequeno para o tamanho que ela tem por fora. Não tenho certeza, mas acho que vi um papel lá dentro dizendo que custava 1 euro ou 1,50 euro para entrar na igreja. Ora, não havia quase nada para ver lá dentro (precisei de 6 segundos para dar uma geral no lugar) e, ainda por cima, era proibido fotografar... será que ainda assim eles cobram?! Na dúvida, saí de fininho. O curioso é que, além da placa de proibição de fotografar, havia uma proibindo a entrada de cachorro! Achei hilário, mas talvez aqui seja preciso avisar, pois poucos são os lugares onde os caninos não entram (ver Kapitel VIII).

Havia mais um ponto interessante lá em cima: uma floresta! Na parte mais próxima do estaciona-mento, do mirante, do teleférico e do restaurante havia cordas e construções no alto das árvores para as crianças. Avançando mais, no entanto, havia um “caminho do filósofo” que seguia mata adentro, onde se viam poucas e afastadas construções da administração do parque. Achei muito interessante ver uma floresta temperada; as folhas das árvores davam a impressão de estarem flutuando, pela sua disposição em arcos.

Para descer do Neroberg foi fácil: havia um ônibus que saía direto de lá e ia até a parte central da cidade. Ele iria até a estação central de trem, mas saltei antes porque, mais cedo, a Marktkirche estava fechada e só tinha podido vê-la por fora. Pois na caminhada da igreja até a estação de trem desandou a chover. Eu tinha guarda-chuva, mas o coitado ficou todo desmantelado desde a primeira chuva de verão que me pegou aqui em Frankfurt (impossível esquecer, na primeira vez em que vi o rio Main e fui ao bairro de Sacksenhausen, o vento virando meu guarda-chuva pelo avesso). A verdade é que, desde então, ele está mais para capa do Batman do que para algo que evite que eu me molhe; aliás, não sei se fico mais molhado com ou sem ele.

Parti para o segundo ponto da viagem: Hochheim. É uma cidadezinha bem menor que as outras duas e ninguém dá nada por ela, mas foi uma boa dica do Jens. Trata-se de uma cidade do interior, mas na Alemanha, ou seja, cheia daquelas pitorescas casinhas germânicas e ruazinhas estreitas. Além disso, tem uma característica que a diferencia da grande maioria das cidadezinhas de interior do mundo todo: lá, os restaurantes não fecham cedo, e as pessoas vão almoçar nos mais diversos horários, como 4 ou 5 da tarde.

Após dar uma volta (e tomar a segunda chuva do dia), já roxo de fome, escolhi um dos vários restaurantes especializados em vinho. Para dizer a verdade, o vinho (pedi o da casa) não era grande coisa, estava mais para suquinho de uva. Mas o prato estava ótimo! Pela primeira vez provei um chucrute na Alemanha. Não achei melhor do que os que havia comido no Brasil, mas estava bom. O chucrute acompanhava uma lingüiça chamada Bauern Bratwurst, que, esta sim, estava deliciosa.

Era o momento de seguir para meu destino final: Mainz, ou Mogúncia, que é como a cidade se chama em português. Apesar de bem próxima de Frankfurt e de Wiesbaden, ela fica em outro estado, Renânia-Palatinado (Rheinland-Pfalz), do qual é a capital. Já não estava mais cedo, passava das cinco. O caminho para Mainz – digo, Mogúncia (é esquisito esse nome, não é?) – também não era tão simples quanto o que fiz para Hochheim. Eu precisava ir até uma estação chamada Mainz-Kastel e, ali perto, pegar um ônibus para a estação central de Mainz, de Mogúncia, ou seja lá como vocês quiserem chamar.

Saltei em Mainz-Kastel, que é um distrito administrado por Wiesbaden e que outrora pertenceu a Mainz/ Mogúncia. Enquanto procurava a estação de ônibus, até explorei aquela área da cidade, mas ela carecia de atrativos, e não por acaso não estava em minha rota planejada. O ponto mais bonito da cidade era a vista para o rio Main e para o outro lado da margem, onde ficava Mogúncia/Mainz.

Soube que Mainz ficava lá justamente quando encontrei o ponto de ônibus. Mas o tempo passava e o raio do coletivo não chegava. Olhei para aquela ponte, ela olhou para mim, e foi irresistível atravessá-la. Afinal, mesmo que a estação central não fosse perto do rio (e não era), ali havia coisas bonitas que eu queria ver de perto. O que não foi bonito foi a chuva que caiu quando eu estava no meio do caminho. Foi mais forte que as duas anteriores, juntas! Meu guarda-chuva batia asas, cruzava os braços, fazia piruetas, tudo menos me proteger do aguaceiro. Até então, as chuvas estavam chatinhas; naquele momento, ela ficou realmente insuportável.

Assim que vi um lugar aberto, entrei. Bebi uma Paulaner e esperei a chuva pelo menos voltar ao estágio de “chatinha”. A verdade é que com aquela chuva, àquela hora, e ainda por cima num domingo (quando muita coisa está fechada), meu aproveitamento de Mainz não foi tão bom como o das outras cidades. Mogúncia tem alguns museus interessantes, e todos obviamente estavam fechados. Há o museu estadual, um museu romano-germânico e o Museu de Gutenberg. Ah, sim! Gutemberg está para Mogúncia como Goethe está para Frankfurt. O inventor da imprensa nasceu lá em Mainz e, tal como ocorre com o poeta na cidade onde moro, tudo o que se refere a Gutenberg é ressaltado. Ele tem estátua, museu e até uma igreja em ruínas que – claro! – é onde ele supostamente foi batizado.

Voltarei a Mogúncia (já estou me acostumando com esse nome...) em algum momento. Há lugares para visitar e mesmo o que eu vi e achei bonito merece uma visão mais ensolarada e sem a chuva atrapalhando. Um dos lugares que preciso visitar novamente é a catedral. Quando cheguei lá, havia duas garotas conversando diante da porta semiaberta. Pedi licença e entrei. A igreja estava sinistramente escura, com pouquíssimas luzes, em parte quase que apenas iluminada por velas. Assim mesmo, dei uma volta lá por dentro. Não dava para ver tão bem, mas já tinha me deslocado até lá e serviria para ter uma ideia, antes de viajar para lá novamente. Quando eu chegava na saída, um funcionário estava trancando a igreja! Ele levou um susto, perguntou como entrei e se havia mais alguém lá. Quase fico trancafiado dentro da catedral!

Depois do susto, já exausto, era hora de voltar. Demorei algum tempo e perguntei algumas vezes até encontrar a estação de trem. Também precisei de umas tantas voltas na estação e de fazer algumas perguntas até saber que trem pegar e em que parte ele chegaria, para voltar a Frankfurt. Foi curioso ver que, quando perguntei a um turco, ele chamou a criança que estava com ele para falar comigo, pois ela entendia melhor alemão que ele.

Apertado, fui ao banheiro e... não pude usá-lo! Era pago – custava 50 cêntimos – e só aceitava moedas de 50, 20 ou 10 cêntimos. Eu tinha moedas de 1 cêntimo, de 1 euro, uma única de 10 e outra de 20, nenhuma de 50; ou seja, eu não tinha 50 cêntimos trocados para poder pagar pelo uso do banheiro.

Após entrar no trem da linha S8, saltei na estação Hauptwache, onde há conexão com as linhas de metrô que fazem o trajeto norte-sul. Entrei no metrô rumo ao norte e saltei uma estação antes da minha, para comprar mantimentos. Afinal, no café-da-manhã eu tinha acabado com o queijo e com o frio Bierschinken (não faltam frios diferentes aqui; até mortadela com pistache eu já tracei). Para a noite, portanto, só me restava comer pão com pão, ou fazer compras. Mas, apesar da latente vontade de ir ao banheiro, isso não seria um grande problema para mim, pois há um supermercado Rewe 24 horas ali em frente à estação de metrô anterior. Não seria se não fosse por um detalhe que eu não tinha percebido: ele é 24 horas e segunda-feira a sábado!

Frustrado, voltei para o metrô e finalmente saltei em Dornbusch. A vontade de ir ao banheiro era grande mas o problema da fome precisava ser resolvido. A pizzaria perto da minha casa, Pizzeria da Benito (nunca entendi por que “da” e não “do”), estava aberta mas com cara de que estava fechando. Perguntei, e ela estava mesmo encerrando o expediente, mas o italiano resolveu fazer minha pizza. Foi a última pizza do dia no restaurante! Estava gostosa, com um pepperoni – aqui chamado de Pepperoniwurst – bem apimentado.

Trouxe a pizza para casa, pois a pizzaria estava fechando e eu tinha um assunto urgente para resolver. Assunto pendente desde a estação de metrô de Mogúncia/Mainz! Cheguei em casa às 20h50, 13 horas depois de pôr os pés na rua. Aliviei minha bexiga e pude saborear a pizza tranqüilamente. A propósito, como será que eu faria se tivesse ficado na catedral?!

sábado, 1 de maio de 2010

Kapitel XLII – O Porco Congelado e a Ajuda dos Santos

Ontem foi mais um dia tranqüilo. Acordei cedo para a aula de alemão (em que “boiei” um pouco menos do que das vezes anteriores), e depois almocei com o brasileiro João Guilherme, o turco Korcan e o italiano Lorenzo no bandejão Mensa do campus de Westend. É interessante que, diferentemente do campus de Bockenheim, lá há mesas do Mensa do lado de fora, em uma bela área arborizada.

Ainda mais interessante foi o fato de, diferentemente de todas as vezes em que comi no Mensa de Bockenheim, ontem a moça do caixa não me perguntou se eu era estudante (não tenho a carteira de estudante da universidade, de modo que tenho que pagar no bandejão quase o dobro do preço dos alunos de lá) e simplesmente me cobrou mais barato, apenas 2,80 euros pelo prato de croquetinhos de carne picantes com macarrão, o que foi uma pechincha! Depois, fui a Bockenheim, onde ajudei Jens na aula de Política e Sociedade no Brasil.

Hoje, no entanto, não é um dia típico. É dia do trabalho. Dia, portanto, de todas as lojas e restaurantes estarem fechados. Dia de comer alimentos comprados nos dias anteriores. Dia de mandar ver no Schnitzel (filezão de porco empanado) que eu tinha me esperando no congelador. Mas como prepará-lo?

Sou um cara enrolado para as coisas triviais e práticas do dia-a-dia. Sou atrapalhado mesmo em português, imagine em alemão! Compreender as instruções da caixa não estava nada fácil. Eu não tinha entendido nem mesmo a palavra “congelado” (“tiefgekühlten”); ficava complicado saber como proceder. Confundi também a palavra “Pfanne” (panela) com “Pfand”, que é o termo que se refere ao preço extra cobrado pelas latas e garrafas e que é recuperado após sua devolução. A sorte é que, para sobreviver nestas terras germânicas, tenho um panteão de santos que me socorrem em momentos difíceis. Um deles certamente é meu companheiro de apartamento Manfred.

Graças a São Manfred pude entender que aquelas instruções se referiam a três diferentes formas de preparar o Schnitzel. Após optar pela mais prática e saudável delas, pude enfim ter meu primeiro almoço em casa, já que até então tinha feito todas as refeições (fora os sanduíches) na rua. Na falta de acompanhamentos, usei minha criatividade em uma esquisita combinação de Schnitzel com pão e tomate seco. Estava gostosa, apesar de inusitada.

Mas Manfred não é o único santo salvador, é claro. Para resolver a questão do passaporte e abrir a conta do banco, por exemplo, foi fundamental a intervenção de São Jens (ver Kapitel XL), que ainda tinha me auxiliado na busca de um apartamento para morar aqui. São Mario, por sua vez, deu dicas sobre como trocar latas e garrafas (Pfand) e sobre a locomoção aqui no bairro. Santa Berenice (a Berê) me explicou sobre como identificar para onde se pode ir com as passagens curtas no metrô, bem menos caras do que as comuns.

Para ter um telefone celular aqui, então, houve uma verdadeira força-tarefa, uma convenção celestial em que São Jens foi comigo comprar o chip, São Mario me acompanhou na compra do aparelho e São Manfred me ajudou a habilitá-lo! Assim, vou seguindo adiante nestas terras. Como canta o grande menestrel, andar com fé eu vou, que a fé não costuma falhar.