Um brasileiro que fala um alemão macarrônico chega a Frankfurt sem saber nem mesmo onde vai morar... Aqui narro minhas aventuras nesta temporada germânica: lugares interessantes, enrascadas em que me meto, esquisitices que percebo a cada dia. O nome do blog é uma analogia aos irmãos Grimm, alemães que compilaram muitas dezenas de contos de fada tradicionais, como Branca de Neve, João e Maria, Rapunzel, a Gata Borralheira, o Músico Maravilhoso, Chapeuzinho Vermelho, e a Bela Adormecida (mais detalhes em Vorstellung).

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Centenas de fotos disponíveis em Ilustrações.


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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Kapitel CXIX – A Longa Noite Hamburguesa

Voltei ao Brasil há quatro meses, aproximadamente. Minha intenção era continuar narrando as derradeiras aventuras de minha temporada germânica, mas meus últimos dias no Velho Mundo foram muito corridos. A atualização dos Contos Fantásticos ficaria para o meu retorno, mas continuei sem tempo. Com apenas uma semana no Rio de Janeiro, já arrumei as malas para Caxambu, onde participei de um congresso. Dias após meu retorno, vivi a maior tristeza de minha vida: minha mãe faleceu. Foi difícil seguir em frente. A dor persiste forte, lá dentro.


Mas nunca desisti de completar os Contos Fantásticos do Irmão Gui, de escrever sobre cada um dos momentos que não pude romancear antes de meu voo de volta sobre o Atlântico. A falta de vontade, de ânimo, e por vezes até de tempo, foi atrasando o projeto. Corrigirei isso a partir de agora, na periodicidade que se apresentar conveniente. As lembranças não estão mais tão vivas, mas vasculharei as profundezas de minha memória (bem como as fotos do meu álbum e os mapas que eu trouxe...) para trazer todos os detalhes que conseguir. Só é muito triste que minha leitora preferida e número 1, de quem sinto tantas saudades, não está mais aqui para comentar os próximos Kapitel.


Hoje é a vez de tratar do meu último dia e meio em Hamburgo. Comecei aquele já distante 8 de outubro dando uma volta pelos lugares da cidade que ainda não havia conhecido. Andei um bocado – sem nenhuma segurança de estar no caminho certo, naturalmente – em torno dos bonitos lagos Binnenalster e Außenalster – que, na verdade, são formados artificialmente pelo represamento do rio Alster, tributário do Elba. Tomei uma cerveja escura Flensburger Dunkel – só conhecia a versão clara – e um sorvete (acho que de café, o meu preferido) de casquinha. A caminhada era muita e... sabem como é... dava sede. Fui obrigado a continuar a experimentação de cervejas: foi a vez, então, da escura de trigo König Ludwig. O bar, tipicamente alemão, era atulhado de quinquilharias, objetos antigos, copos e garrafas, postais, e artigos dos dois clubes de futebol da cidade: o HSV (que aqui no Brasil é chamado de Hamburgo mesmo) e o St. Pauli.

Segui caminhando até chegar a uma parte do bairro de Sankt Pauli que eu ainda não conhecia. Passei por belas construções, como a igreja ortodoxa russa Kirche des Heiligen Johannes von Kronstadt e a Alta Corte Regional Haneática, uma de frente para a outra. De lá, segui para conhecer o clube St. Pauli. Apesar de ser uma equipe pequena, que vive caindo para a segunda divisão, tem uma grande torcida espalhada por todo o país – é a quinta ou sexta maior –, não se limitando à cidade de Hamburgo.

Isso acontece porque sua camisa marrom não é o seu único diferencial. É tido como um time alternativo e de esquerda. Fundado em um bairro proletário que se tornou o maior centro de prostituição da Alemanha, foi o primeiro a proibir neonazistas na torcida e tem um presidente homossexual assumido. Assim, mesmo torcedores de outros times – tirando o rival HSV, é claro – acabam simpatizando com o St. Pauli e torcendo por ele quando não é contra sua própria equipe do coração. O caráter alternativo, no entanto, não aparece na hora de vender camisas: sua lojinha, supercheia, não vendia artigos mais em conta do que os dos outros clubes alemães. Ainda assim eu não resisti, e saí de lá com duas camisas marrons, uma desta temporada e outra retrô, comemorativa do centenário.

Segui para o bairro de Neustadt e passeei pelo belo parque Planten un Blomen, que no dialeto nortista local significa “plantas e flores”. De lá se podia avistar o imponente relógio de torre da igreja barroca de São Miguel (Hauptkirche St. Michaelis), um famoso ponto turístico da cidade. Continuei caminhando pelo centro de Hamburgo e ainda tive tempo de provar mais uma cervejinha – Ratsherrn – e ver o pôr-do-sol no porto antes de voltar para o albergue.

Naquela noite eu ia reencontrar Franco, um argentino radicado em Hamburgo que eu tinha conhecido em um congresso alemão sobre América Latina (ver Kapitel LXII) em Eschborn, cidadezinha próxima a Frankfurt. Se não fosse por não dar bola para futebol, Franco seria um perfeito estereótipo do argentino: cabeludo, dramático, dançarino (professor!) de tango. Fomos a Sternschanze, o bairro onde havia a maior concentração de mulheres bonitas que vi na Europa, e lá comemos um delicioso Schnitzel, o filé de porco empanado, com Käsespätzle, uma massa alemã (ver Kapitel VII). Era o prato mais parecido com bife à milanesa. Sim, Franco também gostava de milanesa... É quase o estereótipo do argentino, como eu disse.

De lá, fomos a um restaurante especializado em vinhos para nos encontrarmos com uma antiga amiga dele, também argentina, chamada Candelaria. Rimos muito, demais. Cande é uma figuraça, totalmente agitada, hiperativa. Bebemos um bocado, mas a noite não acabou lá. Fomos a uma boate que não cobrava entrada. Não era uma boa ideia, já estávamos arrasados. Mas não fomos embora sem arrematar com uma cuba libre.

Após sairmos de lá, fui dormir no albergue, certo? Errado! Era muito mais tarde do que eu imaginava que voltaria, e precisaria fazer o check-out do albergue relativamente cedo. Franco e Cande me sugeriram, então, sair naquela madrugada e ir para a casa dela, onde eu poderia acordar mais tarde. E assim fizemos. Eles ainda agüentaram um último vinho. Eu capotei no quarto.

No dia seguinte, fui com Cande dar meu último passeio pela cidade antes de voltar a Frankfurt. Já estava com passagem de trem comprada para umas seis ou sete da noite. Passamos pela Spitalerstraße, a rua comercial “cult-bacaninha” de que falei no Kapitel anterior, onde havia uma manifestação contra não sei o quê, cheia de gente deitada no chão. Depois, fomos aonde eu só havia estado à noite: a área portuária onde fica o Mercado de Peixe (Fischmarkt). Não havia, àquela hora, peixe algum, mas o lugar é bonito e foi bom vê-lo no claro.

Voltamos para a casa dela, eu peguei minha mochila e zarpei. Muito gentil, ela me deu todas as coordenadas para chegar ao metrô e, de lá, à estação ferroviária. Quem acompanha estes Contos Fantásticos sabe que isso não garante nada. Afinal, senso de direção não é, definitivamente, o meu forte. Havia, portanto, uma tensão no ar... Mas deu tudo certo, consegui pegar o trem e chegar tranqüilo – e bem tarde – a Frankfurt. Terminava, assim, minha última viagem de mais de um dia de duração antes de retornar ao Brasil.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Kapitel CXVIII – Tijolonautas

Não foi fácil, ainda em Frankfurt, encontrar um albergue que não fosse afastado, que tivesse um preço acessível e que tivesse vaga disponível. Acabei escolhendo um que mais parece um hotel, localizado no bairro boêmio de St. Pauli, antiga área proletária onde ficam os inferninhos da cidade, bem como sede do clube de futebol homônimo. É claro que, para estar pagando por um quarto individual com banheiro um preço equivalente ao de um quarto compartilhado em outros albergues, não se trata do melhor hotel do mundo.

O albergue em que me hospedei em Toulouse (sobre essa viagem, ver Kapitel LXXXII e os seguintes) ainda é o campeão absoluto de barulho da rua (e o pior é que lá fazia tanto calor que era preciso deixar a janela aberta), mas não se pode dizer que esta área é propriamente silenciosa. Ouço música das boates aqui de baixo até tarde. Aliás, também dá para ouvir vizinhos mais barulhentos durante o dia. Mas acredito que o custo-benefício vale muito mais a pena do que o dos concorrentes disponíveis. O quarto é esquisito, o banheiro tem uma ducha minúscula, mas ao menos parece limpo, a internet não está incluída mas não chega a ser cara, e o conforto de estar sozinho no quarto e de não dividir banheiro é muito bom.
Como cheguei cansado de Hannover na quarta-feira à noite, só saí na manhã de quinta-feira. Fui andando meio a esmo, e tentando me encontrar no mapa. Visitei a Michaelis- kirche, igreja que ostenta na entrada uma imponente imagem de Miguel Arcanjo atacando o demônio. Paguei para subir em sua torre (que já foi reconstruída algumas vezes por causa de acidentes naturais e dos bombardeios da Segunda Guerra) e para visitar a cripta. A cripta era meio sem graça mas, pelo menos, lá eu aprendi por que vejo tantas construções alemãs com tetos e picos verdes: é que são feitos de cobre, e, quando uma estrutura desse metal não é plana e está submetida a muitas intempéries, pode criar após dez a quinze anos uma pátina verde, resultado de um proxeço de oxidação. Estão vendo? Criptas e os Contos Fantásticos do Irmão Gui também são cultura.

Quanto à torre, subi pela escada, apesar de haver um elevador, para poder ver qualquer coisa interessante no meio do caminho. De fato, vi os sinos e vi o mecanismo que faz o relógio da torre funcionar. Chegando lá em cima, podem-se avistar todas as partes de Hamburgo. Depois ainda vi pelo menos outras duas igrejas onde também se pode pagar para subir na torre, mas não posso dizer se eram melhores ou piores, pois eu já estava cansado e não tinha vontade de subir para ver mais ou menos a mesma coisa.

O que mais chama a atenção em Hamburgo é a grande quantidade de água, já que é uma enorme cidade portuária e tem vários canais, e o incrível número de construções em tijolos. Jens me contou que estas são típicas do norte da Alemanha. Há, no entanto, bem mais do que em Hannover, que também tem essa característica. Em contraste com as casinhas de tijolos e as pontes de metal, há edifícios modernos e viadutos futuristas para a passagem de trens.


A exemplo da Kaiser-Wilhelm-Gedächtniskirche em Berlim (ver Kapitel XCVIII) e da Egidienkirsche em Hannover (ver Kapitel anterior), Hamburgo também tem sua igreja destruída pelos bombardeios aliados na Segunda guerra Mundial e mantida em escombros como monumento pela paz: o memorial St. Nikolai. Há várias esculturas espalhadas pelo local, e também estão expostos alguns blocos de pedras que não viraram pó quando a igreja foi bombardeada.

Achei muito bonito o prédio da prefeitura. Dentro dele, ao lado da exposição de caricaturas de políticos (eu só conhecia e reconheci o Helmut Kohl), parte de um livro que está sendo lançado, havia quadros mostrando a correlação de forças dos partidos no legislativo local. Fui a um estabelecimento que era loja de roupas e cafeteria ao mesmo tempo (?!); lá tomei um café hondurenho que achei meio fraco, mas comi uma deliciosa torta de nozes com maçã. Antes, em um bar com temática naval, provei duas cervejas: Fürstenberg e a ruiva Duckstein. Depois, em uma feirinha próxima à rua Spitaler, que é cheia de lojas de roupa e de gente “cult-bacaninha”, bebi outras duas que não conhecia: Dithmarscher clara e escura (Pilsener e Dunkel).

À noite, fui dar uma volta em St. Pauli. Para dizer a verdade, minha impressão não foi das melhores. E não é nenhum conservado- rismo ou puritanismo não, acho legal haver um bairro assim. Mas achei o clima meio estranho, muito diferente do divertido distrito da luz vermelha em Amsterdã (ver Kapitel CXVI). Na Holanda, era tudo muito claro e descontraído, mas nesta parte de Hamburgo vê-se em cada esquina gente querendo empurrar você para dentro com uns papos “171”...

Pelo menos uma cena deixou claro que a situação está sob controle: vi um travesti levando dois policiais para um hotel. Todos com um ar tenso, em claro indício de que o travesti fez uma queixa na delegacia (que, aliás, funciona em uma casinha de tijolos bem bonitinha), provavelmente de algum cliente caloteiro ou violento, e os policiais foram averiguar. Ou seja, a polícia não só estava trabalhando efetivamente como não tratou o travesti com desrespeito ou preconceito.

Hamburgo é uma cidade interessante. Não pertence a nenhum estado e é a segunda maior da Alemanha. Em um dia andando em Hamburgo, andei à beça e tirei 250 fotos! E ainda falta um dia e meio. Um dia e meio de muita água e muitos tijolos.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Kapitel CXVI – Trilogia: O Retorno do Reis

Acabou o curso de verão. Passamos de bar em bar a longa noite depois do coquetel de encerramento em Bruxelas e começaram as despedidas. A italiana Luana foi a primeira a ir embora, na véspera. Ainda teríamos o começo de sábado para dar umas voltas. Logo depois do último almoço no restaurante da sopa de lentilha (ver Kapitel anterior), foi a vez de me despedir de Patrícia e João, cujo voo de volta para Portugal seria no meio da tarde. Não muito depois foi a vez de Sofie e, por fim, eu e Edalina nos separamos no metrô. Era minha vez de ir à estação norte para pegar o ônibus baratinho para Amsterdã.

Cheguei no começo da noite. Não havia feito reserva em albergue, mas tinha pegado o endereço de alguns. Entretanto, não tinha um mapa. Estava perdido e me recusei a pagar três euros por um minúsculo mapinha em uma das várias lojas turísticas no centro. Ridículo! Em qualquer cidade europeia se consegue um mapa daqueles gratuitamente e os holandeses ficam metendo a mão!

Andei muito, o mochilão e o laptop pesavam cada vez mais. Os únicos mapas que eu tinha eram os que copiei do Google e colei em um documento de Word com os endereços dos albergues. Para me localizar, portanto, eu precisava, a cada vez, ligar o computador e tentar encontrar em algum dos micromapas a rua onde eu estava. Acabei chegando a uma rua mais residencial, e um senhor de idade viu que eu estava bem perdido.

Pegou um guia de ruas e telefonou para o primeiro albergue da lista. Esdruxula- mente, o atendente falava mal holandês, e ele falava mal inglês. Ainda assim, pôde constatar que eu tinha capturado o mapa errado que aquele albergue ficava muito longe dali. Viu que o segundo albergue da minha lista, no entanto, era ali pertinho, e me acompanhou até lá. Foi muita gentileza.

Tive muita sorte: havia uma (apenas uma!) cama vazia para aquela noite! A sorte só não era maior porque ela ficava em um quarto com 18 camas! Pelo menos as pessoas não eram barulhentas. Talvez porque se tratava de um albergue cristão. Ou seja, tratava-se de um albergue não apenas silencioso como chato, sem qualquer clima; isso em plena louca Amsterdã. Reservei mais duas noites em um quarto com seis camas (que, aliás, nem chegaram a ficar todas ocupadas).

Os funcionários eram gentis e educados, tinham sempre a preocupação de ajudar e impedir que os hóspedes se perdessem ou tivessem problemas (parece até que já me conheciam, não é?). Mas o albergue em si era uma porcaria. A internet wireless não era gratuita, e era preciso pagar para ter acesso mesmo do próprio laptop. O café-da-manhã, incluído, era paupérrimo: quando havia panquecas, estava até bom, mas foi frustrande o dia em que pedi os sanduíches e vi que eles se restringiam a dois pãezinhos com uma única fatia de queijo cada, muito fina e que sequer cobria todo o interior do pão. E ainda tive que comprar um mapa: lá custava menos, um euro, mas eles não forneciam de graça como em outros labergues em que já estive.

No dia seguinte à minha chegada, andei por toda a cidade, tentando cobrir a maioria dos lugares desenhados no mapa. Amsterdã é uma cidade bonita, cheia de antigas casinhas localizadas em ruas inclinadas de pedras, cortadas por belos canais. Aliás, uma aparência que não condiz com seu clima amalucado. As pessoas lá parecem querer ser o mais loucas possível; mesmo o comportamento alternativo não me parecia natural, tive a impressão de ser um pouco forçado. É visível também que há uma enorme quantidade de estrangeiros, seja como turistas, seja como imigrantes, seja como indecisos quanto a qual das duas categorias se enquadrar.

Não demorou muito e, sem querer, eu me encontrei no meio do famoso distrito da luz vermelha. O mais louco é ver crianças pequenas e velhinhos olhando aquele monte de sex shops e de casas de sexo explícito. Alé bichinhos de pelúcia com peru de fora são vendidos aos montes, juntamente com camisetas engraçadas alusivas a sexo e drogas. Não deixa de ser estranho olhar para janelas de frente para a rua, que parecem vitrines de lojas, e constatar que as manequins se mexem e lá o produto à venda não é a roupa, mas sexo. E há de tudo: desde jovens moças até prostitutas bem velhas, desde mulheres tão lindas que não dá nem para acreditar que existem até outras que não dá para acreditar que alguém queira algo com elas (e muito menos que pague para isso!). Não faltam garotas vindas do leste europeu, mas há também orientais, negras etc.

Outra coisa que se encontra por toda parte são os não menos conhecidos coffe-shops. É o local onde é permitida a venda de maconha e haxixe. Quem não fuma, dependendo do lugar, tem a opção de comer um bolinho aditivado. Há desde uns buracos escuros e esfumaçados com música pesada até um charmoso café com cara de limpinho, em frente a uma igreja e com belas garçonetes. No distrito da luz vermelha fica um que se chama Buldog, que se intitula o mais antigo de todos, aberto em 1971, se minha memória não falha (não, não houve nenhuma piada implícita nesta frase).

Apesar de todo o clima de animação e balada, as cervejas não são o forte da Holanda, definitivamente. São muito piores do que as vizinhas belgas. A Amstel, talvez a mais comum, é bem ruinzinha. Vale mais a pena beber uma Jupiler, que conheci em Bruxelas e é fácil de se encontrar em Amsterdã, além de ser uma das opções mais baratas.

No meu segundo dia, choveu o tempo todo. Ainda bem que tirei bastantes fotos na véspera. Aproveitei para fazer algo que eu já pretendia e que dispensa um céu ensolarado: ir a museus (que, aliás, são todos caros). Fui ao Museu Van Gogh e à Rembrandthaus. A Casa de Anne Frank ficava perto do albergue, mas a fila para entrar era tão quilométrica que desisti dela. O Van Gogh tem uma grande coleção de pinturas não apenas dele como também de artistas que o influenciaram ou que foram influenciados por ele. Pude ver Monet, Toulouse-Lautrec, Gauguin e até Gustave Coubert, de quem gosto muito, mas as pinturas que me impressionaram mesmo foram as de Jozef Israëls e de Léon Lhermitte, que eu não conhecia.

A Casa de Rembrandt é, efetivamente, um casarão onde esse mestre das sombras vivia (até que, afundado em dívidas por seu estilo de vida luxuoso, precisou abrir mão dela, terminando seus dias com pouco espaço e pouco dinheiro). Nas paredes, pinturas feitas em seu atelier por ele e por seus aprendizes. Em uma das salas, podíamos ver uma demonstração do processo de litografia.

Como meu voo de Bruxelas para Frankfurt sairia na manhã de quarta-feira, eu precisaria voltar a Bruxelas na terça para passar a noite lá. Então, deixei para ir a um último museu no final da manhã e, em seguida, pegar minhas coisas no albergue e partir de volta para a Bélgica. O museu escolhido foi o meu preferido entre os três que visitei: o Rijksmuseum. Além de ser uma construção linda (que estava, no entanto, parcialmente oculta por uma reforma em seu exterior), tem um grande acervo de brilhantes pintores holandeses, como Rembrandt, Vermeer, Jan Steen e Bosch, além de armas, prataria e porcelana. Adorei a atualíssima pintura “Fishing for Souls”, de Van de Venne, em que católicos e protestantes pescam fiéis no rio.

Peguei minha mochila e parti para a estação Amstel, onde, suposta- mente, pegaria o ônibus baratinho para Bruxelas às três e meia. Suposta- mente, havia o ônibus das três e meia e, se tudo desse errado, ainda havia um às seis e meia, segundo vi na internet. Tudo apenas “supostamente”. Chegando lá, às 3h10, tive a desagradável notícia de que, naquele dia, o último ônibus tinha saído às 2h30. No dia seguinte, sim, haveria esses horários.

Era preciso inventar um plano B. Voltei à estação central e comprei o bilhete de trem. Era bem mais caro, 41 euros, mas ainda um preço viável; no sentido contrário, de Bruxelas para Amsterdã, o preço era surreal: 87 euros! Ainda assim, como não aceitaram meu cartão de crédito, fiquei praticamente seu dinheiro vivo até a volta para a Alemanha. Cheguei à Bélgica com o dia ainda claro. Não havia reservado albergue mas tinha pegado uma lista de três opções com Willy, o sino-californiano que dividira quarto comigo durante o curso de verão. Não haveria de ser difícil encontrar um. Pelo menos, isso era o que eu achava. O avanço das horas e o escurecimento do céu me fariam mudar completamente de opinião.

Fui até a primeira opção, a pé, com todo o peso da mochila e do computador sobre os ombros. Era um albergue bem central, tudo de que eu precisava. Foi muito frustrante ouvir que todos os lugares estavam ocupados. O cara disse que, se eu quisesse, poderia esperar lá para ver se haveria alguma desistência. É claro que não fiquei. Queria achar o quanto antes um albergue para deixar as minhas coisas, e seria bom se fizesse isso ainda de dia. Seria...

Andei muito até chegar a outro albergue da lista. Dos três que eu tinha o endereço, apenas aquele primeiro era bem central. Apesar de afastado e localizado em uma rua meio escura, parecia um lugar legal. Mas isso não faria diferença. Também estava lotado! Exausto e já muito preocupado, perguntei à atendente (que tinha aquele jeitinho charmoso e acelerado de francesinha cool) se ela sabia de algum lugar não muito caro onde eu poderia passar a noite. Gentilíssima, a menina começou a telefonar para outros albergues e, ao encontrar um, fez a reserva para mim e me deu o endereço de lá e um mapa, explicando o caminho mais fácil para chegar lá.

Era, portanto, apenas questão de tempo. Graças às boas indicações, achei o lugar sem maior dificuldade. Havia no meu quarto um figuraça estaduni-dense, com bigode à la Hercule Poirot, chamado Patrick, descendente de escoceses e nascido no dia de São Patrício, que falava pelos cotovelos (e eu só entendia metade do que dizia). O albergue parecia bom e tinha um bom café da manhã. Este começava a ser servido às sete e eu já estava, antes dessa hora, a postos. Tomei o café rápido e saí bem cedo, para não ter problemas. E não teria nenhum se não fosse por alguns percalços...

Se tem algo que não compreendi bem como funciona são os trens em Bruxelas. Perguntei para o controlador se o trem que ia sair era o que iria para o aeroporto e, sem paciência e desatento, ele me deu uma resposta que deu a entender que era. Mas não era. Os controladores não fazem nenhuma questão de orientar os passageiros perdidos. Quando achei estranho e perguntei para outros passageiros, eles me disseram que era no outro sentido.

Saltei naquela cidadezinha-satélite e perguntei para o vendedor da estação ferroviária local como eu poderia ir para a Estação Norte, de onde eu sabia que sairia o trem para o distante aeroporto. Ele me deu a indicação, mas acabei novamente saltando errado. Quando cheguei a Estação Norte, não tive problemas para seguir para o aeroporto. Mas já era praticamente a hora do meu voo.

Quando cheguei ao balcão da Lufthansa, perguntei ao funcionário se ainda era possível ir no voo, porque eu estava atrasado. É claro que não era. Ele me orientou a ir ao balcão de remarcação de viagens. Minha surpresa foi a tranqüilidade do balconista da Lufthansa para remarcar minha viagem para o voo seguinte, menos de duas horas depois, sem cobrar nada por isso. Fiquei totalmente fã da Lufthansa! Isso é que é saber tratar bem os clientes!

As confusões continuariam até o último momento. Chegando ao prédio onde moro, tive a desagradável surpresa de que não havia ninguém em casa. E como fiz um acerto com Mario, que aluga o quarto para mim, para ele alugá-lo nessas duas semanas em que estive fora, eu estava sem a chave. Telefonei para ele e soube que Manfred viria, mas ainda demoraria uns quarenta minutos. Demorou mais. Fiquei uns vinte do lado de fora, na rua, até que enfim algum vizinho chegou. Entrei “de carona” e me sentei na escada.

Peguei meu laptop, consegui captar fraquinho o sinal da internet da minha casa, e lá fiquei esperando, sob olhares desconfiados de vizinhos que entravam ou saíam. Enfim, o final foi feliz e toda a aventura valeu a pena. Não há trilogia sem momentos difíceis e contratempos, não é mesmo?

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Kapitel CII – A Casa do Urso

Depois de vários dias só comendo besteira, tive hoje minha primeira refeição decente em bastante tempo. Comi um prato de frango com molho de leite de coco e curry e bebi a cerveja tailandesa (?!) chamada Chang, no ótimo resturante Krua Thai. Já almocei lá outras vezes antes. Fica no bairro de Bockenheim, perto da universidade, para onde fui em seguida, usar o programa de estatística SPSS e dar uma olhada em um livro.

Minha ida à universidade marcou o fim de uma seqüência de três dias enfurnado em casa, de onde só saí para fazer compras no supermercado e colocar o lixo para fora. Esse período restrito ao circuito quarto-banheiro-cozinha me alertou para uma coisa: eu ainda não tratei nestes Contos Fantásticos, com a devida profundidade, do lugar onde moro. Pois corrigirei essa falha agora.

Moro em um WG (sigla para Wohngemeinschaft), que é um apartamento compartilhado. Comigo moram o já famoso (São) Manfred, muitas vezes citado aqui, e duas meninas, também alemãs: Suzanne e Janine. Este seria o último mês das duas antes de voltarem para suas cidadezinhas, mas parece que estão negociando com Mario (que Mario? o espanhol que aluga o apartamento, é claro) para prorrogarem o aluguel. Elas não são más pessoas, mas há muito pouco diálogo com elas. São muito amigas entre si, mas não demonstram qualquer interesse em se aproximar de nós dois (tratei disso no Kapitel XLV). Já Manfred é um cara legal, que me ajudou várias vezes. Mas não tem paciência de me ajudar no alemão e sempre zomba das minhas trapalhadas. Que não são poucas.

O WG fica no bairro de Dornbush. Está longe de ser badalado como Sachsenhausen ou bonitinho como Bockenheim, mas é um bom lugar. Como disse no Kapitel II, tem boas opções de transporte e seviços. Vivo a umas duas quadras da estação de metrô Dornbush, que é a primeira no sentido Sul-Norte que não é subterrânea (tipo linha 2 do metrô carioca, na superfície).

Além disso, o maior supermercado da cidade fica perto da estação anterior, a Miquel-/ Adickes- allee/Polizei- präsidium (vocês não imaginam o quanto é viciante ficar repetindo esse nome enorme quando ele é anunciado no metrô). Perto da minha casa ficam ainda o restaurante italiano Cosi Cosi, um oriental, uma padaria, uma loja que vende embutidos onde também já almocei algumas vezes, um banco (onde saquei dinheiro do Banco do Brasil várias vezes), o escritório da administração da região (o Bürgeramt)...

Meu endereço diz que moro na Eschersheimer Landstraße, mas é mentira. O meu número ocupa o quarteirão inteiro, e é um número comercial. Depois, virando-se a esquina, o número se repete, mas com as letras A, B, C... Pois é em um desses que eu vivo. Só que aí já não é mais, realmente, na Eschersheimer Landstraße. O nome da rua é Carl-Goerdeler str.

Uma vez, de curiosidade, fiz uma pesquisa na Wikipedia e descobri que o tal do Carl Goerdeler era um político monarquista conservador, que, inicialmente, considerou Hitler um ditador ilustrado, com potencial para fazer o bem. A partir de 1933, mudou de ideia, e passou a fazer oposição a ele e a tentar ajudar comerciantes judeus perseguidos. Se uma tentativa de matar Hitler em 1944 tivesse dado certo, ele seria o novo chanceler. Como ela falhou e descobriram que ele estava envolvido, foi preso e torturado por meses e, depois, executado.

Mas é na Eschersheimer Landstraße que eu ando sempre. Pelo que me explicaram, várias ruas em Frankfurt levam o nome de outras cidades porque eram, originalmente, as rotas para viajar para tais lugares. A tal da Eschersheim, bem ao norte e onde nunca estive, originalmente era uma cidade independente, mas foi anexada a Frankfurt em 1910. Frankfurt cresceu muito incorporando cidades vizinhas, entre elas Bockenheim, bairro onde fica o campus onde eu tive aulas de política. As belas – e parecidas entre si – Warte (Bockenheimer Warte, Galluswarte, Friedberger Warte, Sachsenhäuser Warte) eram torres de guarda que ficavam nos antigos limites de Frankfurt, mas, com a expansão, hoje ficam bem no meio da cidade (ver Kapitel LX).

Vivo no quarto andar, mas isso não significa nada. Na Alemanha, bizarramente, os apartamentos não têm numeração, e as referências são simplesmente o número do prédio e o seu sobrenome. Ou seja, trata-se de um prato cheio para um correio ineficiente como o alemão. Isso me causou muita dor de cabeça, como já praguejei nos Kapitel LIV e LXVIII.

Meu apartamento tem uma sala pequena, uma cozinha idem, mas quartos bastante espaçosos (o meu é enorme!). Além disso, há dois banheiros com chuveiro, o que diminui consideravelmente a possibilidade de conflitos entre nós quatro. A sala para pendurar a roupa para secar fica fora do apartamento, no subsolo do edifício e, bizarramente (levando-se em conta que roupas secam melhor no calor), está sempre muitos graus mais fria do que em qualquer outro lugar que não a geladeira. O local para colocar o lixo fica fora do prédio e atende a todos os edifícios que usam a mesma numeração. Lá, há lixeiras para plástico e embalagens, outras para papel e duas para lixo orgânico. Tudo bastante alemão (o sistema está explicado no Kapitel XXX).

O meu quarto tem 25 metros quadrados, se o anúncio dizia a verdade (eu nunca o medi, mas é grande). Tem um bom armário, uma cômoda, uma pequena mesa, uma cama meio desconfortável, uma mesa de cabeceira moderninha, uma estante com cara de escada em que não cabe quase nada (mas ponho livros lá assim mesmo), um sofá-cama e uma televisão miúda que pega poucos canais (nunca asssisti a ela e, quando tentei, não achei a transmissão de nenhuma partida da Copa).

O que mais chama a atenção, no entanto, é um imenso ursão de pelúcia (escrevi sobre ele no Kapitel II; continua na mesma posição e no mesmo lugar). Não é meu, nem comprei para dar de presente. Parece que Manfred ganhou há muito tempo e, como não tem onde colocá-lo, deixou-o aqui. Simplesmente aqui já estava quando cheguei, a aqui ficou, pois não me atrapalha e não quis ser chato. É um tanto bizarro ver um ursão no canto do quarto, mas já me acostumei. Pena que ele só divide o espaço comigo, não os custos do aluguel. Aliás, debaixo dele há uma gaveta cheia de tralha que também não é minha: sacos plásticos, parafusos, lâmpadas... Ou seja, é melhor deixar o urso lá; pelo menos esconde a tranqueira toda.

O urso não é a única peça de “decoração” que chama a atenção em meu quarto. Há também um enorme mapa-múndi em alemão atrás da minha cama. É interessante que posso olhar para “Die Welt”, o mundo, e ver como se chamam os países nesta língua que tanto custo a aprender. Vereinigte Staaten Von Amerika, Gross Britannien, Schweden, Weiss-Russland, Aserbaischan, Ägypten, Elfenbeinküste (este eu aprendi na Copa!), Simbabwe... Legal, né?

Mas o fato de eu gostar de geografia é apenas uma coincidência. Mario colocou o mapa lá para esconder umas manchas na pintura da parede. É que o antigo morador deixou a roupa secando no interior do quarto e criou mofo. Aí, antes de eu me mudar, Mario pintou as partes afetadas e ficou de fazer uma pintura geral quando eu me ausentasse por mais tempo. Bem... passei duas semanas na França e continua na parede, ali atrás da China, da Mongólia e da Indochina, uma baita mancha mais clara.

Parece que estou reclamando, mas não estou não. Não tenho motivos para isso. O urso e as manchas são mais casos pitorescos do que realmente problemas. Além disso, o Mario é gente-boa e compreensivo, não tem rigor excessivo com o prazo do pagamento do aluguel e, assim como Manfred, já me deu várias dicas da vida em Frankfurt. E meu quarto é realmente espaçoso. Tanto que é possível ficar três dias enfurnado nele. Mesmo tendo que dividi-lo com um urso tamanho família.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Kapitel XCVIII – Os Dois Templos

Meu último dia em Berlim foi de muita correria. Florian havia marcado a Mitfahr-gelgenheit (o esquema de carona, que sai muito mais barato que viajar de trem) para mim às 18 horas, e eu ainda queria, antes, ir a pelo menos dois lugares: Charlottenburg e Scheunenviertel. O primeiro é um bairro da antiga Alemanha Ocidental, enquanto o segundo é um antigo bairro proletário que era onde havia a maior concentração de população judia na cidade.

Comecei por Charlottenburg, que, na verdade, é bem menos interessante do que a parte leste de Berlim. É marcante a quase ausência de prédios antigos, anteriores à Guerra. Muito legais, no entanto, são a área da praça Breitscheidplatz e da igreja Kaiser-Wilhelm-Gedächtniskirche. Por esses dois lugares – especialmente pelo último –, um localizado ao lado do outro, a ida a Charlottenburg é obrigatória para quem vai conhecer Berlim.

A Breitscheid- platz conta com uma fonte e várias estátuas, todas bastante modernas e estilizadas. Não é que sejam muito bonitas, mas é impossível ficar indiferente a elas. Realmente chamam a atenção. A grande quantidade de turistas ali é que me incomodava um pouco; Berlim atrai muito mais turismo do que eu supunha.

A Kaiser-Wilhelm-Gedächtniskirche é impressionante. Trata-se de uma igreja que não foi reconstruída após a Segunda Guerra, mas que foi duramente afetada por ela. O templo, portanto, preserva as marcas do bombardeio e está parcialmente em ruínas. Dentro, uma mensagem diz que é para que as pessoas nunca se esqueçam de que o melhor meio de resolver as coisas é pela paz. A entrada lá é gratuita, e estão expostos vários objetos religiosos e de exaltação ao imperador Wilhelm II, que mandou que a construíssem na década de 1890 e lhe deu o nome de seu avô (o Wilhelm I). O teto preserva, ainda que incompletos, lindos mosaicos, com grande presença da cor dourada.

A velha e machucada igreja já não funciona mais para atividades religiosas (tornou-se um memorial). Para isso foi construído entre 1959 e 1963, ao lado, um templo moderno anexo. Completamente diferente, é um lugar, a seu modo, também intrigante. Por fora, parece um prédio comum. Por dentro, é um templo negro com vidro índigo. Uma imagem moderna estilizada de Jesus Cristo na cruz aparece no altar, enquanto, no outro extremo, localiza-se, no alto, um órgão.

Os demais lugares que vi em Charlottenburg não merecem o mesmo destaque. E eu também esperava mais do outro bairro, Scheunenviertel. Para um bairro judeu, acho que faltam muitas referências. Nada a ver com o bairro judeu de Paris, vizinho ao Marais, por exemplo. É claro que há um motivo um tanto óbvio para o desaparecimento dos pontos de cultura judaica. Ainda assim, acho que, nos que existem, deveria haver mais claras sinalizações e destaque.

Passei pelo cemitério, pelo centro de cultura, por alguns outros pontos, tudo excessivamente discreto, na minha opinião. Algumas referências presentes no livro-guia eu nem mesmo consegui encontrar. O que realmente chamou a atenção é que todos os pontos de cultura e importância histórica para os judeus tinham câmera de vídeo e uma placa avisando que eram policiados. Não tive o desprazer de ver neonazistas, mas é fato que eles existem.

Um lugar em Scheunenviertel, no entanto, merece ser destacado. É a Neue Synagoge, que eu já havia visto com o Florian no primeiro dia de bicicleta (ver Kapitel XCVI). É um dos templos mais belos que já vi e, entre as sinagogas, é de longe a mais bonita que avistei na minha vida. Só não pude entrar. Berlim é muito grande, é preciso muito tempo para conhecer tudo. Ficam para a próxima vez a entrada na Neue Synagoge e a ida ao Estádio Olímpico e ao Palácio Charlottenburg (estes dois últimos eu queria muito conhecer, mas ficam meio longe).

Voltei a tempo de fechar minha mochila e chegar pontualmente no local marcado para pegar a “carona”. Era meio afastado, um cinema perto da estação de Seestraße, de modo que me obrigou a pegar três trens diferentes. Nos dois primeiros, foram trechos curtos de viagem, mas no terceiro atravessei quinze estações! Ainda assim, cheguei na hora exata. Só que a motorista não estava lá.

Esperei um pouco e uma mulher perguntou se eu era o passageiro. Respondi afirmativa- mente e ela me levou ao carro, onde havia outras duas passageiras. Eu não teria nunca como adivinhar: o carro era prata, mas o Florian havia entendido que ela tinha dito preto. E olha que as palavras são bem mais diferentes em alemão do que em português: “silber” e “schwarz".

Na volta, apesar do GPS, ela se enrolou para achar Frankfurt. O resultado é que cheguei uma hora e meia depois do previsto. Ao colocar o pé diante do meu prédio, tive a desagradável surpresa de que perdera minha chave de casa. Precisei tocar a campainha e acordar o pobre do Manfred, já quase à meia-noite. Já procurei por toda parte nada de achar a chave. Florian também não a encontrou no apartamento em Berlim. Se ela não aparecer, terei um baita prejuízo para mandar fazer outra. É alto o preço de ter cabeça-de-vento.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Kapitel XCIII – Era Outra Vez...

Pela terceira vez consecutiva, meu despertador não tocou. Descobri que nas duas primeiras, isso havia acontecido porque marquei a hora P.M., ou seja, à tarde, quando queria marcar A.M., de manhã. Ontem, antes de dormir, marquei a hora certa, mas me esqueci do trivial detalhe de que precisava travar o relógio para ligar o alarme. Das três vezes, uma delas apenas me fez acordar uma hora mais tarde, sem qualquer problema prático. Nas outras duas, uma na sexta-feira passada e a outra hoje, acordei aproximadamente às 9h40, sendo que minha aula de alemão começa às 9 horas e dura apenas uma hora e meia. Juntando-se tal descuido a minha viagem de dez dias à França, isso significa que não vou à aula de alemão há muito tempo. E o pior é que tenho que pagar dez euros pelo bolão (que, obviamente, perdi) para o João Guilherme, e uma cerveja para o Dritan por ter apostado que a Espanha não passaria da primeira fase (e acabou campeã, tsc tsc tsc).

Minha irmã e minha mãe têm a teoria de que, na verdade, é meu subconsciente que me faz marcar errado o despertador, porque não tenho efetivamente vontade de ir à aula de alemão. Eu não chegaria a tanto, mas, de fato, trata-se de uma aula muito desestimulante, em que não aprendo nada. O que Frau Ännchen competentemente me ensinou no Brasil, eu reconheço nas aulas daqui; o que meus dez meses de estudo no Rio foram insuficientes para que eu chegasse a saber, continuo sem entender (sobre meu drama lingüístico, ver os Kapitel XXXV e XLV).

O dia continuaria bem pouco emocionante. No auge do meu cansaço, com braços, pernas e costas doloridos do futebol de dois dias antes, eis que era meu dia de faxina. Na verdade, era minha semana. Cada um de nós aqui no apartamento precisa fazer uma por mês. Em geral é no fim-de-semana, mas por causa do torneio de futebol de sábado (Kapitel XCI) e do aniversário do Jürgen (Kapitel XCII) no domingo, sobrou para esta segunda. Enrolei, fiz várias pausas, mas cumpri minha obrigação mensal.

Hora de descansar? Que nada. A geladeira vazia, sem nem mesmo uma garrafinha de água mineral, não me dava alternativa a não ser ir ao supermercado (bem, beber café ou cerveja no lugar seria uma alternativa, mas achei mais saudável ir ao mercado). Quando desço o elevador, eu me deparo com uma baita chuva que há tempos não via. Volto para pegar o guarda-chuva, e não encontro. O som da chuva fica mais forte. Tenho que esperar.

Finalmente pude ir. De mochila cheia de garrafas vazias fui de metrô ao supermercado. Estava morrendo de fome, já que passava das dezoito e eu só tinha comido um sanduichinho no café-da-manhã. Lá no supermercado Rewe pode-se pedir comida alemã quente a bons preços. Comprei um Scheinehaxen, joelho de porco. Só que há um detalhe: eles dão talheres de plástico para quem come lá. Já experimentaram desossar um joelho de porco com garfo e faca de plástico? Lamentável. Foi tanto esforço que, no fim, eu já nem estava mais com muita vontade de comer.

Trouxe para casa a pesada mochila com as compras, incluindo três litros de leite achocolatado e nove de água com gás. Depois de guardar tudo, enfim estava livre para tomar meu banho. Talvez eu ainda assista a um filminho no computador... Mas não sei, são dez horas, o dia já está acabando. Nem tive tempo para descansar. É incrível como há dias em que não se faz nada de mais que cansam muito mais do que outros em que estamos cheios de ocupações. Pelo menos amanhã não tenho hora para acordar. E que se dane o despertador!

terça-feira, 18 de maio de 2010

Kapitel LIV – As Cartas Voadoras

Hoje chegaram duas cartas para mim, uma do banco e outra da universidade confirmando algo que eu já sabia, que eu tinha sido aceito como membro associado do seu centro internacional de pós-graduação em ciências sociais. Você deve estar se perguntando: “E daí? Qual é a importância disso, se todo mundo recebe cartas de bancos o tempo todo e se a mensagem da universidade não trazia nenhuma surpresa?” Pois esclareço: com estas, são apenas três as cartas que recebi até agora, enquanto sei de pelo menos outras quatro que deixaram de me entregar e jamais chegarão. Estão voando por aí, talvez com algum pombo-correio.

Desde que cheguei a Frankfurt tenho um problema crônico com as correspondências. Na Alemanha, os apartamentos não têm número. Não entendo o porquê, não dá tanto trabalho assim usar números nos apartamentos, seria uma medida tão simples. Esse costume pouco inteligente não facilita em nada a segurança de que as cartas chegarão. O remetente apenas coloca o número do prédio, e aí o carteiro procura na caixa postal do edifício o nome do destinatário. E se o nome não estiver lá? Aí, a carta volta, como já ocorreu comigo com duas cartas do banco, uma da universidade e uma que minha mãe me enviou registrada do Brasil.

A solução para evitar que a carta volte caso o nome não esteja lá é acrescentar na carta “C/O” (ou “care of”, “aos cuidados de”) e o sobrenome que está lá na caixa postal do seu apartamento (no meu caso, o de Mario e o de Manfred). Tudo muito prático, não? Alguém pergunta o seu endereço, e aí você não apenas diz o CEP, a rua e o número do prédio, mas também faz a ressalva de que é preciso acrescentar essa informação. Caso contrário, o carteiro, não muito preocupado com o destino das cartas, concluirá que você não mora lá. Foi isso o que os correios responderam para a universidade.

E se você preenche algum formulário com o seu endereço em alguma repartição? Aí, não haverá um espaço para acrescentar o “C/O” ao endereço e, provavelmente, todas as cartas que lhe enviarem de lá voltarão sempre. Tudo muito prático e inteligente. Eficientíssimo! E se houver mais de um apartamento com diferentes pessoas com o mesmo sobrenome? Aí, não sei, creio que os carteiros precisarão discutir com seus analistas toda sua perplexidade com essa possibilidade inimaginável em seu sistema tããão organizado. Além disso, a atendente do meu banco (que, ironicamente, é o Postbank, o banco dos correios!) disse que a correspondência bancária tinha que ir para uma caixa postal com o meu nome, não poderia ser colocado o “C/O”.

Eu havia colado na caixa postal um adesivo com o meu nome, para receber a carta registrada da minha mãe, que continha umas fotos de que eu precisava. Provavelmente, o carteiro veio antes e, então, não entregou a carta. Minha mãe nunca foi avisada disso pelo correio, apenas por mim. Portanto, não sei se a carta que ela escreveu foi deportada para a Turquia, se foi usada pelo carteiro para limpar a bunda, se foi dada por ele para o seu filho desenhar em cima... não sei, só sei que os correios alemães já me irritaram demais.

Essa carta não chegou e, para completar, Manfred, julgando que não haveria mais nenhuma correspondência para mim, tirou o adesivo com o meu nome. E foi assim que deixei de receber também duas cartas do banco (uma com o meu cartão!) e a primeira da universidade. Agora, colei novamente um adesivo gigante, bem maior que o anterior, com o meu nome completo, e todos estão avisados de que preciso que ele continue lá. Chegaram as duas cartas de hoje. Torçamos para que cheguem as próximas também...

Mario sempre defende que esse sistema não é uma estupidez. Diz que era mentira da funcionária do banco que não se pode colocar o C/O, e afirmou que, com isso, todas as cartas chegariam. Não é bem assim. O problema dos correios vai além da incompreensível não utilização de números nos apartamentos. E o fato de eu não ter recebido as cartas não pode ser creditado a uma culpa minha por não ter dito para as pessoas acrescentarem o C/O e por não haver, no momento, o meu nome na caixa postal.

A verdade é que todo mundo – ou ao menos muita gente – já deixou de receber correspondência alguma vez. Aconteceu com o Jens, com o Manfred... Não quatro cartas em apenas um mês, como ocorreu comigo, é claro, mas sim alguma em algum momento. Isso não ocorre no Brasil. Sim, os correios brasileiros são muitíssimo melhores que os alemães. E no Brasil os apartamentos têm números. Pois é... há menos cartas voadoras no Brasil. Além disso, lá, os carteiros precisam gastar parte do seu salário comprando papel higiênico.

domingo, 16 de maio de 2010

Kapitel LII – As Garrafas e a Escolha Difícil

Acabou minha água mineral. Eu estava tranqüilo, porque pretendia ir hoje ao supermercado Rewe. Eu achava que ele ficava aberto dia e noite, mas na volta da boate na manhã de sábado eu vi que estava enganado: funciona das 7h às 24h, e não ao longo de todas as 24 horas. Hoje eu descobri outra coisa desagradável: ele também não abre aos domingos. Caramba, o Zona Sul é careiro mas, pelo menos, abre todos os dias. O maior Rewe de Frankfurt não. E eu saí para almoçar com mochilão nas costas cheio de garrafas vazias, para trocar depois. Fiz papel de bobo e voltei com todas as garrafas.

É claro que o que restava da última garrafa de água mineral não deu nem para o começo. Fiquei com três opções: água da bica, café e cerveja. Tomei um copo de água da bica, que, dizem, é boa para beber. Estou heroicamente resistindo a pegar uma das duas garrafas de cerveja que tenho na geladeira, afinal, se está difícil de estudar totalmente sóbrio, imaginem com álcool. Ou seja, restou-me o café. Estou me entupindo de canecas de café. Não reparem, portanto, se eu publicar algum Kapitel às cinco da manhã.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Kapitel XLV – O Drama de um Mudo

Hoje fui à aula de alemão, em que sempre fico “boiando”. O nível é da turma mais avançado do que o meu e o professor é bastante desorganizado e pouco metódico. Dizem que ele é muito bom, mas está claro para mim que não para quem sabe pouco e precisa de mais do que uma revisão. Eu tentava entender o significado de umas seis preposições e, de repente, apareceram outras quinze! Assim, fica muito difícil.

Ao menos, hoje me sentei ao lado de um albanês gente-fina, Dritan, que me esclareceu algumas coisas. Dritan adora o futebol brasileiro, é claro, apesar de não conhecê-lo tão bem assim. Faz faculdade na Universidade de Frankfurt, acho que em Economia, e fez um intercâmbio na Inglaterra, onde aprendeu todo o inglês que sabe falar. Aparentemente, ele fala melhor em alemão do que em inglês, mas é com esse inglês que me explica o que não entendo.

Depois da aula de segunda-feira, conversei bastante com ele, mas hoje falei mais com outros alunos, e acabei almoçando com o italiano Lorenzo e mais um brasileiro, Gabriel. Ambos fazem intercâmbio de graduação em Direito na universidade. Gabriel é um cara legal, mas tem o grave defeito de ser são-paulino, daqueles que acham que o São Paulo não foi campeão brasileiro no ano passado porque foi roubado e que defendem que o Sport Recife é o campeão brasileiro de 1987. Fazer o quê, não é? Lorenzo, apesar de italiano, não liga para o calcio e prefere o rúgbi. A propósito, almoçamos no bandejão Mensa de Westend, novamente paguei como estudante, mais barato (ver Kapitel XLII), e comi frango pela primeira vez desde que cheguei aqui. Quem lê regularmente estes Contos, sabe que venho me entupindo de carne suína quase diariamente.

Depois do almoço, fui para o campus de Bockenheim, onde acontece a aula de política brasileira em que colaboro com o Jens. Nesta turma, há uma aluna que começou a estudar português há pouco tempo e quer que eu a ajude a praticar. Em troca, quer me ajudar no alemão. Vamos ver no que dá. De fato, não são tantas as oportunidades de treinar alemão, por incrível que pareça. Tirando pedidos que faço em restaurantes, bares, mercados e padarias, sobra pouco. Hoje até conversei consideravelmente em alemão com Lorenzo e Gabriel, mas isso nem sempre ocorre.

Eu achava que, por morar com três alemães, eu praticaria bastante, pois eles me ajudariam, corrigindo meus erros e me ensinando palavras. A história foi bem diferente. As duas alemãs que moram aqui pouco falam comigo. Não vão muito além de bom-dia e tchau. No início, uma nunca falava comigo – acho até que evitava me encontrar no corredor – e a outra parecia que poderia, futuramente, conversar um pouco mais. Pois elas inverteram os papéis: a que nunca falava já estabelece uma conversação mínima (sem sinais de que se aproximará mais) e a outra, que tinha dado indícios de poder vir a quebrar o gelo, já nem se despede mais de mim.

Resta um morador de meu apartamento, o sempre mencionado Manfred. Como eu já disse várias vezes aqui, ele é um ótimo sujeito. Mas a questão é que, como contei no Kapitel XIII, ele viveu por dezesseis anos em Los Angeles. Então, prefere conversar comigo em inglês, sem paciência para o meu alemão rudimentar.

Confesso um certo receio de voltar ao Brasil em outubro sabendo menos alemão do que quando cheguei. Isso depois de morar na cidade natal de Goethe! Sempre penso que tenho que estudar alemão em casa, mas até agora só fiz isso uma vez. Bem, ainda tenho cinco meses para soltar o verbo...

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Kapitel XXX – O Líquido Precioso, o Pasto e as Tampas Coloridas

Ontem foi um domingo com cara de domingo. Fiquei em casa quase o dia inteiro. Enviei minha proposta de artigo para um congresso no Brasil e fiz algumas outras (poucas) coisas. Saí apenas para almoçar.

Era dia de Schnitzeltag no Cosi Cosi, o italiano aqui perto de casa (ver Kapitel XXIII). Lá tomei um suco de cereja (que eu não acho grande coisa, mas quis variar um pouco) e pedi um Zigeunerschnitzel, ou “Schnitzel cigano”. O Schnitzel é um ótimo filezão de porco empanado, muito consumido em Frankfurt. Zigeunersauce é o nome do molho “cigano”, que leva curry, páprica, tomate, cebola... muito bom, sehr gut. Pedi sem as batatas fritas e o garçom da voz rouca, que aperta a mãos dos clientes quando eles entram no restaurante, ofereceu pão no lugar. As duas torradinhas de pão de forma vieram bem a calhar com aquele molho condimentado.

Hoje foi dia de dar conta de algumas tarefas práticas pela manhã. Precisava trocar garrafas vazias (ver Kapitel XX), comprar mantimentos e conseguir um mapa decente da cidade (no primeiro dia comprei na estação de trem principal, por cinqüenta cêntimos, um que só cobre a parte central de Frankfurt e já está todo rasgado). Meu pão de forma Weltmeister Brot (com gergelim e outros grãozinhos) ainda agüenta uns dias, mas já não tinha mais nada para beber, meu queijo havia acabado e o siğir salam (que nada tem a ver com salame e é traduzido como Rindfleischwurst, ou salsicha de boi) que eu tinha comprado no mercadinho dos turcos já estava nos finalmentes.

Comprei um bom mapa, por sete euros, que não apenas cobre Frankfurt inteira como também todas as cidades vizinhas, como Offenbach (ver Kapitel XII), Mainz, Eschborn, Friedberg, Darmstadt, Wiesbaden, Bad Homburg, entre outras. Mas estupidamente me esqueci das garrafas. Tive, então, que voltar para casa, para sair novamente, sempre com meu mochilão de viagens. Ele tem assumido múltiplas utilidades aqui. Além de ter sido minha pesadíssima bagagem de mão na vinda para a Alemanha e de ser o que pretendo levar em minhas viagens pela Europa, eu o adotei como meu “carrinho de compras” para compras maiores de mercado e é o que utilizo para levar roupas para secar. A lavadora fica aqui em casa, no banheiro, mas o lugar para pendurar as roupas fica no subsolo do prédio, que é extremamente frio. Não me admira que as roupas custem a secar e que, mesmo secas, de tão geladas eu nunca tenha certeza se realmente não estão mais úmidas.

Mario e Manfred já me alertaram que estou fazendo um péssimo negócio comprando nas pequenas lojinhas do armênio e dos turcos (ver Kapitel XXV). De fato, eu pagava cinqüenta cêntimos em um litro de água mineral enquanto posso pagar dezenove em um litro e meio na megarrede de supermercados Rewe. Tive que me entregar ao sistema. Não consegui trocar minhas garrafas mas, com vinte e um euros, comprei bastante coisa.

Primeiramente, comprei dois pacotes de café! Sim, enfim poderei tomar em casa o líquido precioso! Sou formado em jornalismo e um estudioso da ciência política, e tanto jornalistas como cientistas sociais costumam se dopar diariamente com essa cheirosa bebida completamente entranhada de cafeína. Além disso, minha família é toda viciada em café e costumamos beber xícaras e mais xícaras todos os dias no Rio de Janeiro (sem açúcar, é claro). Enfim, tenho todos os motivos para comemorar o fato de poder dar fim à minha quase abstinência.

Além disso, comprei salame (este é salame mesmo, não é como os embutidos dos turcos que têm todos o enganoso nome de “salam”), queijos, água, suco de maçã e um pacote de Schnitzel congelado. Manfred já tinha me aconselhado a comprar uns congelados, pois saem pela metade do preço de uma refeição em um restaurante simples. Qualquer dia experimento esse Schnitzel; a caixa vem com dois filés.

Comprei três queijos diferentes (o café não é meu único vício): um camembert, um Deutscher Gouda (não sei se o alemão é muito diferente dos outros queijos gouda, mas, como estou na Alemanha, tenho que provar) e um estranhíssimo queijo verde! Era até mais caro que os outros que comprei, mas fiquei curiosíssimo. Não menos bizarro era o nome dele: Pasto Gouda. Acho que estou prestes a conhecer um outro sentido para a expressão “comer que nem um boi”.

Ao voltar das compras, fiz meu primeiro café aqui! Em seguida, Manfred me mostrou as lixeiras separadas para reciclagem aqui no prédio. Lixo comum vai para a de tampa preta, plásticos ou outros recipientes para a de tampa amarela, papéis para a de tampa verde. Como nem todos os alemães são tão certinhos como às vezes supomos (ver Kapitel VI), é claro que havia papelão na lixeira dos plásticos. Mas nós fizemos nossa parte.

Só não entendi por que nossas lixeiras ficam dentro do prédio enquanto há gente que têm lixeiras na esquina. Mas são lixeiras exclusivas para eles, as pessoas não podem usar! Manfred disse que é crime jogar lixo na lixeira dos outros, pois cada um paga uma taxa para o serviço dos garis de acordo com seu próprio volume de lixo. Só que acho um absurdo haver lixeiras no espaço público que não são para uso público. Manfred deu uma risadinha, olhou para mim com uma cara de “este brasileiro é maluco” e disse em tom de brincadeira: “isto pode ser estranho no Brasil, mas os alemães acham isto muito normal”. Tudo bem. Fazer o quê? Pelo menos fiz o meu prostesto!

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Kapitel XIII - Manfred e as Aranhas

Estou morando com três pessoas em Frankfurt. Uma delas é Manfred, uma figuraça do norte da Alemanha. Vem de uma cidade pequena, Paderborn, que, segundo ele, não é perto de nada. Se for necessário citar uma cidade importante próxima, ela seria Hamburgo, mas dizer que está próxima seria forçar a barra, porque fica a três horas de distância!

Segundo Mario, Manfred “criava” aranhas aqui no apartamento. Havia teias que ninguém tirava e, quando ele perguntou o porquê, as meninas que vivem aqui responderam que era porque as aranhas eram de Manfred. Já não há mais aranhas aqui, mas o próprio Manfred faz graça disso. Não por acaso eu e Mario já o chamamos de Spiderman.

Manfred me contou que viu outro dia um documentário sobre uma aranha que se alimenta exclusivamente de sangue humano. Não se assustem, pois ela não pica os seres humanos. Como ela faz então? Bem, quando ele me perguntou, eu acertei a resposta: ela mata os mosquitos! Não é fantástico? Preciso levar umas aranhas dessas para o Brasil.

Há mais a se dizer de Manfred do que sua suposta atração por aracnídeos. Tem uma cara que me lembra levemente a do Popeye (especialmente quando, de palhaçada, ele põe um gorrinho esquisito que há aqui na casa, que acho que não é de ninguém). Fala de um jeito muito rápido e sempre fazendo piada com um ar meio inglês, o que é bem engraçado. Viveu por treze anos em Los Angeles, mais especificamente em Hollywood! Foi para lá aos 27, se não estou enganado, como turista e... só voltou mais de uma década depois! Portanto, é claro que ele tem um perfeito domínio do inglês, mas fala de uma forma estranha, pronunciando os THs como se fossem Z, de modo que muitas vezes não consigo entender palavras tão triviais como “another”, por exemplo.
Esse é Manfred, um sujeito muito legal. Certamente terei mais a contar sobre ele aqui neste espaço.

Kapitel IV - A Tomada, o Cadeado e a Cama Tombada

Levei pelo menos três baita sustos nas duas primeiras semanas em Frankfurt. Logo no segundo dia, achei que meu computador tinha pifado. Já via com desespero a iminência da perda do contato com minha família e todos os meus amigos do Novo Mundo, a perda de todas as fotos que trouxe do Brasil e das que já tinha tirado (tinha acabado de copiá-las todas para o notebook e apagado da câmera!). Na verdade, acabou a bateria e, provavelmente, a tomada à qual ele estava conectado não estava funcionando.

Depois, na hora de sair do albergue, outro susto: quase perdi meu cadeado! Saí com a mala aberta e o cadeado solto pendurado. Ele, obviamente, caiu. Perguntei às faxineiras se elas o tinham visto, em inglês, e elas não entendiam nada. Achavam que eu estava falando de alguma camisa. Apelei, então, para a mímica, e imitei um cadeado com a minha mão, fazendo um ganchinho com o dedo indicador. Não é que elas entenderam?! E por sorte elas o tinham encontrado. Chegaram a jogar no saco de lixo, mas perceberam o que era e guardaram.

Na madrugada de primeiro de abril para o dia 2 (a peça foi pregada com efeito retardado...), levei um novo susto: a cama desmontou. Fiquei com medo de ela ter quebrado. Já imaginou já começar quebrando a cama do quarto provisório? Como eu escaparia do prejuízo? E eu não tinha feito nada de mais, nada de cama elástica ou de arrastar móveis, apenas havia me deitado. Após ver que estava apenas desmontada, fiquei irritado de ter que encaixar os tacos do estrado (foi o maior sufoco) em vez de continuar dormindo. Depois, Mario, o teuto-espanhol que aluga os apartamentos, admitiu que não era das camas mais novas...

Kapitel II - As Cinco Camas

Entre o dia 23 de março, quando cheguei em Frankfurt, e o dia 2 de abril, eu dormi em nada menos do que cinco camas diferentes! Não, não é isso que vocês estão pensando... Foi uma verdadeira saga. No Rio de Janeiro, reservei dois dias de albergue. O nome era muuuito original: Frankfurt Hostel. Ficava bem em frente à Hauptbahnhof, a estação principal de trem, Ou seja, bem centralizado mas também perto dos inferninhos; mas eu não os visitei, nem eles têm nada a ver com a minha contagem das camas, hehehe, garanto para vocês.

Naquela noite do dia 23, entro no quarto do albergue e não há nenhuma cama ocupada. Penso: nossa, que sorte! Horas depois, no entanto, o dormitório é invadido por um monte de poloneses bagunceiros, gritando e bebendo (o detalhe é que na recepção diziam que era proibido beber álcool no quarto; mas havia mais garrafas do que pessoas dentro da habitação!). Três deles ocupariam as demais camas, mas os seis gostavam de passar o tempo juntos, de beber juntos, de dar gargalhadas juntos, de conversar alto juntos, e tinham decidido fazer isso tudo no meu quarto. Um deles, que suspeito que queria tirar onda com a minha cara (mas não tenho certeza), foi o primeiro a se apresentar e perguntou se eu pretendia dormir.

Com o tempo, no entanto, a conversa foi fluindo e os caras logo gostaram de mim, e a perguntar coisas do Brasil, e iam se apresentando, e contando coisas da cidade deles (Poznam, no oeste do país). Ofereceram bebida para mim, disse a eles que não gostava muito nem de uísque nem de vodca (as bebidas preferidas deles, junto com cidra; aliás, eles misturavam uísque com Coca-Cola!). Perguntaram se eu não bebia, e eu disse que sim, e que gostava de cerveja. Para quê? Deram um latão de uma ótima cerveja para mim, que bebi na hora, ainda que quente. Exausto da viagem, não continuei a conversa até muito tarde e fui dormir. No dia seguinte, 24, no entanto, dormi tardíssimo. Eu e os poloneses ficamos falando besteira e bebendo. Tomei duas garrafinhas da boa cerveja Altenmünster Brauer Bier e uma de vinho de maçã no albergue (sobre as cervejas, ver Kapitel XI; sobre o vinho de maça, ver Kapitel VII).

Só tinha reservado dois dias de albergue porque achava que resolveria rapidamente o problema do apartamento. Afinal, já havia gostado de um, no bairro de Bornheim, que tinha visto pela internet no Rio de Janeiro, e só não tinha fechado porque o dono, que compartilharia o apartamento, queria conhecer o inquilino antes. Quando cheguei, ele, naturalmente, já havia alugado para outro. Comecei, então, desesperadamente a tentar outras alternativas. Só que ainda não tinha nada certo e precisava de um lugar para dormir. Um amigo no Rio, Ângelo, chegou a me perguntar qual era o mais confortável, o banco da direita ou o da esquerda na pracinha. Para eu continuar sem saber responder, eu precisava de mais tempo no albergue.

Só que havia uma megafeira de música na cidade. O evento era tão grande que os poloneses, que trabalhavam com iluminação para shows, tinham vindo a Frankfurt justamente por causa dele, assim como o casal de argentinos que veio do meu lado no avião e os dois mineiros com quem conversei enquanto esperava chegar a minha mala no aeroporto. E quando há feiras em Frankfurt, os hotéis lotam e as diárias sobem bastante de preço. Resultado: o albergue tinha quarto para mim naquela noite, mas não para o dia seguinte, só para dois dias depois (o que era totalmente inútil). Ah, e o único quarto disponível àquela noite em todo o albergue era um de oito camas! Putz, no de quatro camas já era uma bagunça, com meus camaradas polacos falando pra caramba.

Chegando ao quarto com oito camas, fiquei aliviado. Acho que eram apenas quatro camas ocupadas. Além de mim, havia um português e uma mexicana, ambos gente-boa, além de um provavelmente africano de quem não posso exatamente dizer o mesmo. A sorte não estava do meu lado naquela noite. O imbecil valia por dez pessoas! O cara, sem-noção, era o mais barulhento possível. Ficava andando, mexendo e falando ao telefone enquanto os outros dormiam ou tentavam dormir. Assim correu a noite toda... Tive uma enorme vontade de me vingar depois que eu não tive mais como continuar dormindo e me levantei (o português tinha ido embora às 4h da manhã). Mas a mexicana ainda dormia, e não tinha culpa de nada... Fiquei sem minha vingança e o barulhento ficou impune para sempre. Mas minha aventura não acabou: depois de duas camas diferentes no albergue, ainda faltavam três...

Tinha visto, enquanto estava no albergue, um bom quarto no bairro de Dornbush, que, se não é o mais charmoso e cheio de opções, tem transporte muito acessível, muitas alternativas de serviços e restaurantes, e é perto dos bairros em que eu estava interessado. Fechei com o irmão da dona do apartamento, Mario, um filho de espanhóis meio basco, nascido no sul da Alemanha, quase fronteira com a Suíça, com quem converso sempre em castelhano. Entretanto, havia um problema... O sujeito que estava no quarto tinha deixado uma toalha molhada encostada na parede e deu mofo. Então, não apenas era preciso esperá-lo sair como seria necessário tirar o mofo e pintar a parede. Isso significava que ainda demoraria mais alguns dias até eu poder ir para lá. Como eu não tinha para onde ir, Mario disse que tinha como arrumar um lugar para eu ficar até vagar o meu quarto.

Ele me hospedou no apartamento onde ele morava, no qual também tinha quarto para alugar. Era bem próximo do outro, coisa de 50 metros de distância, talvez. Era uma casa muito engraçada; se por um lado tinha teto, por outro o lavabo com privada não tinha pia e ficava numa ponta do apartamento, enquanto que o banheiro com chuveiro e pia ficava na outra extremidade! Com a minha mania de lavar compulsivamente a mão, devo ter andado quilômetros nos quatro dais em que dormi lá.

Ficou previsto, então, que no dia primeiro de abril eu me mudaria para o apartamento definitivo. Mas eu deveria ter desconfiado do primeiro de abril... Dia 31, após ir de mala e cuia para o futuro apartamento, tive que ir para o segundo apartamento provisório, completando quatro camas na viagem, em apenas nove dias! E espera aí: quantos quartos esse Mario tem para alugar?! Aparentemente são só estes três onde eu pernoitei (contando o definitivo), mas é difícil ter certeza. Só sei que a cada dia ia descobrindo um novo! Este ficava na mesma rua, Eschersheimer Landstraße (levei cerca de uma semana para conseguir memorizar esse nome!), mas duas estações de metrô adiante. O apartamento já era bem melhor, e o quarto era ótimo. Lá viviam um estadunidense californiano e um alemão. O primeiro me foi apresentado por Mario e só falei com ele naquele momento, pois ele viajaria na manhã seguinte para a Áustria. Já o segundo levou um susto quando chegou no dia seguinte à noite. Ele não sabia que eu estaria no apartamento! Conversamos um pouco e ele iria no dia seguinte visitar a família em Dresden, pela semana santa. Isso significa que tive, pela primeira vez, um dia de apartamento só para mim!

Eis que, na sexta-feira santa... Aleluia! Aleluia! Eu vim para o apartamento definitivo! Apesar de eu ainda não ter arrumado minhas coisas, tirado as roupas da mala, de ainda ter coisas que não são minhas aqui (inclusive um gigantesco urso de pelúcia que não sei o que fazia aqui), é ótima a sensação de, enfim, estar no meu quarto e não ter que me mudar alguns dias depois.

Divido apartamento com três alemães. Até agora só conheci dois, porque a terceira está viajando. Manfred é um sujeito engraçadíssimo e muito particular, que merecerá uma descrição mais pormenorizada mais adiante (ver Kapitel XIII). Com Janine eu falei menos, mas também é gente-boa. Parece que estou em boa companhia. Tomara que esses alemães me ajudem a aprender essa língua complicada que se fala aqui! Manfred já começou a corrigir meu R.