Um brasileiro que fala um alemão macarrônico chega a Frankfurt sem saber nem mesmo onde vai morar... Aqui narro minhas aventuras nesta temporada germânica: lugares interessantes, enrascadas em que me meto, esquisitices que percebo a cada dia. O nome do blog é uma analogia aos irmãos Grimm, alemães que compilaram muitas dezenas de contos de fada tradicionais, como Branca de Neve, João e Maria, Rapunzel, a Gata Borralheira, o Músico Maravilhoso, Chapeuzinho Vermelho, e a Bela Adormecida (mais detalhes em Vorstellung).

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Centenas de fotos disponíveis em Ilustrações.


domingo, 25 de julho de 2010

Kapitel XCIX – Ali Babá e o Espectro

Vivemos em uma sociedade capitalista. Já era para, após três décadas, eu ter me acostumado a isso, talvez, mas ainda me choco (a propósito, ver Kapitel LXXVII). Quando eu ia de trem a Berlim (ver Kapitel XCV), uma senhora com cara de rabugenta – e, pelo visto, com jeito de rabugenta também – resmungou com uma família que estava sentada próxima a mim que aquele era o seu assento. Causou-nos estranheza, afinal, ninguém tinha dito para eles nada de numeração de lugares. A mesma situação tinha ocorrido comigo na França. Quase todo mundo no trem se senta em qualquer lugar vago mas, de vez em quando, aparece alguém – sempre com cara de poucos amigos – reivindicando ser o seu assento e expulsando quem estava viajando tranqüilamente.

A família começou a buscar o número de seus assentos, e nada de encontrá-los. Tentei ajudar mas também não achei. Aliás, não encontrei número nem mesmo na minha própria passagem. Foi então que o pai da família perguntou ao controlador e ouviu a seguinte resposta: os assentos, a princípio, não têm número, mas como pode ser que o trem encha e não tenha lugar para todo mundo, é possível reservar um lugar pagando-se apenas cinco euros a mais. Não é fantástico?! Eles vendem a garantia para o passageiro de que ele não viajará em pé, como se o preço da viagem fosse uma bagatela.

Marx disse que um espectro rondava a Europa, o espectro do comunismo. Pois hoje, o espectro do capitalismo, em meio a todas as escandalosas crises, está totalmente assentado. Aqui, os bancos sempre mandaram. E trabalham muito mal, como tenho deixado claro nestes Contos Fantásticos quando trato do drama da minha bolsa – que, acredito, está a poucos dias de se resolver (ver, por exemplo, Kapitel LXXVIII e XCIV). Por exemplo, já requisitei três vezes que o Postbank me devolvesse quinze euros que foram descontados da minha conta corrente devido ao envio de um segundo cartão; afinal, não perdi o primeiro, ele simplesmente jamais chegou à minha residência por culpa do correio.

Todas as vezes eles dizem que me devolverão a grana, mas minha conta segue com quinze euros negativos. Sim, porque, por uma série de trapalhadas, até hoje não entrou dinheiro na minha conta corrente alemã. Na última vez em que fui ao banco reclamar, disse exatamente isto: que eu desconfiava que não tinham devolvido o meu dinheiro porque minha conta estava vazia, pois se estivesse cheia da nota eles teriam muito mais respeito por mim.

Outra coisa que me impressionou quando cheguei aqui foi a questão dos conglome-rados. Cedo percebi que não poderia continuar comprando no pequeno mercadinho dos turcos, pois era mais caro, e me rendi ao supermercado Rewe (ver Kapitel XXX).

Pois logo conheci também quais eram os produtos baratos. E há um atalho: se a marca é “Ja!”, o produto é barato. Dessa marca são as garrafas de litro e meio de água mineral que sempre compro, a vinte cêntimos, contra cinqüenta ou mais das concorrentes. Os queijos, salames e outros frios (Würste) geralmente também são. Outro dia, olhei na geladeira e constatei que o suco de laranja de caixinha do Manfred também era Ja!.

Até aí, tudo mais ou menos coerente. Mas fiquei assustado quando fui comprar o papel higiênico da casa e vi que a marca mais em conta era... Ja!. Papel higiênico?! “Ja!” era! Não demorou muito para que eu visse à venda também guardanapos Ja! e, no caixa, na hora de pagar, isqueiros Ja!. Que Google ou Micro$oft que nada, o Ja! vai dominar o mundo!

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Kapitel XCVIII – Os Dois Templos

Meu último dia em Berlim foi de muita correria. Florian havia marcado a Mitfahr-gelgenheit (o esquema de carona, que sai muito mais barato que viajar de trem) para mim às 18 horas, e eu ainda queria, antes, ir a pelo menos dois lugares: Charlottenburg e Scheunenviertel. O primeiro é um bairro da antiga Alemanha Ocidental, enquanto o segundo é um antigo bairro proletário que era onde havia a maior concentração de população judia na cidade.

Comecei por Charlottenburg, que, na verdade, é bem menos interessante do que a parte leste de Berlim. É marcante a quase ausência de prédios antigos, anteriores à Guerra. Muito legais, no entanto, são a área da praça Breitscheidplatz e da igreja Kaiser-Wilhelm-Gedächtniskirche. Por esses dois lugares – especialmente pelo último –, um localizado ao lado do outro, a ida a Charlottenburg é obrigatória para quem vai conhecer Berlim.

A Breitscheid- platz conta com uma fonte e várias estátuas, todas bastante modernas e estilizadas. Não é que sejam muito bonitas, mas é impossível ficar indiferente a elas. Realmente chamam a atenção. A grande quantidade de turistas ali é que me incomodava um pouco; Berlim atrai muito mais turismo do que eu supunha.

A Kaiser-Wilhelm-Gedächtniskirche é impressionante. Trata-se de uma igreja que não foi reconstruída após a Segunda Guerra, mas que foi duramente afetada por ela. O templo, portanto, preserva as marcas do bombardeio e está parcialmente em ruínas. Dentro, uma mensagem diz que é para que as pessoas nunca se esqueçam de que o melhor meio de resolver as coisas é pela paz. A entrada lá é gratuita, e estão expostos vários objetos religiosos e de exaltação ao imperador Wilhelm II, que mandou que a construíssem na década de 1890 e lhe deu o nome de seu avô (o Wilhelm I). O teto preserva, ainda que incompletos, lindos mosaicos, com grande presença da cor dourada.

A velha e machucada igreja já não funciona mais para atividades religiosas (tornou-se um memorial). Para isso foi construído entre 1959 e 1963, ao lado, um templo moderno anexo. Completamente diferente, é um lugar, a seu modo, também intrigante. Por fora, parece um prédio comum. Por dentro, é um templo negro com vidro índigo. Uma imagem moderna estilizada de Jesus Cristo na cruz aparece no altar, enquanto, no outro extremo, localiza-se, no alto, um órgão.

Os demais lugares que vi em Charlottenburg não merecem o mesmo destaque. E eu também esperava mais do outro bairro, Scheunenviertel. Para um bairro judeu, acho que faltam muitas referências. Nada a ver com o bairro judeu de Paris, vizinho ao Marais, por exemplo. É claro que há um motivo um tanto óbvio para o desaparecimento dos pontos de cultura judaica. Ainda assim, acho que, nos que existem, deveria haver mais claras sinalizações e destaque.

Passei pelo cemitério, pelo centro de cultura, por alguns outros pontos, tudo excessivamente discreto, na minha opinião. Algumas referências presentes no livro-guia eu nem mesmo consegui encontrar. O que realmente chamou a atenção é que todos os pontos de cultura e importância histórica para os judeus tinham câmera de vídeo e uma placa avisando que eram policiados. Não tive o desprazer de ver neonazistas, mas é fato que eles existem.

Um lugar em Scheunenviertel, no entanto, merece ser destacado. É a Neue Synagoge, que eu já havia visto com o Florian no primeiro dia de bicicleta (ver Kapitel XCVI). É um dos templos mais belos que já vi e, entre as sinagogas, é de longe a mais bonita que avistei na minha vida. Só não pude entrar. Berlim é muito grande, é preciso muito tempo para conhecer tudo. Ficam para a próxima vez a entrada na Neue Synagoge e a ida ao Estádio Olímpico e ao Palácio Charlottenburg (estes dois últimos eu queria muito conhecer, mas ficam meio longe).

Voltei a tempo de fechar minha mochila e chegar pontualmente no local marcado para pegar a “carona”. Era meio afastado, um cinema perto da estação de Seestraße, de modo que me obrigou a pegar três trens diferentes. Nos dois primeiros, foram trechos curtos de viagem, mas no terceiro atravessei quinze estações! Ainda assim, cheguei na hora exata. Só que a motorista não estava lá.

Esperei um pouco e uma mulher perguntou se eu era o passageiro. Respondi afirmativa- mente e ela me levou ao carro, onde havia outras duas passageiras. Eu não teria nunca como adivinhar: o carro era prata, mas o Florian havia entendido que ela tinha dito preto. E olha que as palavras são bem mais diferentes em alemão do que em português: “silber” e “schwarz".

Na volta, apesar do GPS, ela se enrolou para achar Frankfurt. O resultado é que cheguei uma hora e meia depois do previsto. Ao colocar o pé diante do meu prédio, tive a desagradável surpresa de que perdera minha chave de casa. Precisei tocar a campainha e acordar o pobre do Manfred, já quase à meia-noite. Já procurei por toda parte nada de achar a chave. Florian também não a encontrou no apartamento em Berlim. Se ela não aparecer, terei um baita prejuízo para mandar fazer outra. É alto o preço de ter cabeça-de-vento.

Kapitel XCVII – Casinhas de Tijolos, Cortina de Ferro

Na terça-feira, saí com Florian para comprar alguma coisa para o café-da-manhã. Eu vestia uma camiseta azul que comprara no dia anterior, com a inscrição DDR (sigla para República Democrática da Alemanha) e o brasão da antiga Alemanha Oriental. Era, afinal, a primeira vez que visitava a parte leste do país, onde fica não apenas o bairro onde mora Florian – Neu Köln – como também Potsdam, que eu visitaria mais tarde. Usava a camiseta não por apoiar o repressivo regime que vigorou no extinto país, mas simplesmente porque gosto do símbolo e era minha primeira vez lá (eu vestiria também uma camiseta do antigo Zaire ou da Coreia do Norte, se fosse o caso...). Todos que me conhecem sabem que sou de esquerda sim mas, também, um defensor da democracia representativa parlamentar eleitoral. Entretanto, esse não era o caso de um senhor que passava pelo quarteirão do prédio de Florian...

O homem começou a gritar comigo, furioso. E eu não entendia nada! Depois, Florian me explicou que ela reclamava que aquele “era um regime injusto”. Acredito que tenha sofrido bastante antes da queda do muro, perdendo parentes, ou sendo preso. Caso contrário, não se justificaria uma reação tão impressionante. As feridas da cortina de ferro ainda estão abertas. Florian respondeu algo que não entendi mas, pelo tom de voz, devia significar algo entre “pega leve, deixa de besteira” e “vai catar coquinho”, e seguimos em frente.

Tomamos o café, mostrei a ele dois curta-metragens no meu laptop (o clássico “Ilha das Flores” e o ótimo alemão vencedor do Oscar do não passado, “Spielzeug-land”) e saí para a viagem. Peguei, então, o trem para Potsdam, capital do estado de Brandemburgo. Próxima de Berlim, trata-se de um tradicional ponto de visitação para turistas que estão na maior cidade da Alemanha. Residência dos reis da Prússia até 1918, Potsdam é conhecida por seus jardins e palácios. Além disso, lá funciona a universidade onde Jens lecionava quando foi meu professor no mestrado no Iuperj. E também lá Florian cursou o Diplom (sobre os tipos de cursos na Alemanha, ver Kapitel XXVIII).

Quando chego à ferroviária, vejo a exibição de vários enormes bonecos de monstros mitológicos, alguns bem-feitos, outros constrangedo- ramente ridículos. Começo a passear por Potsdam, que tem uma cara de cidade pequena, bem diferente de Berlim ou Frankfurt. Passei pelo Portão de Brandemburgo (bem menos imponente que seu homônimo em Berlim) e pela área do Alter Markt. A primeira coisa que me impressionou, no entanto, foi a grande quantidade de casinhas de tijolos. Há ruas inteiras com casas assim. Depois vim a saber pela Wikipedia que se trata do “quarteirão holandês”, que reúne 150 casas e é o único do tipo na Europa.

Andei muito até chegar ao Parque Sanssouci, a área mais bela da cidade. Só que o parque é mal sinalizado e o meu mapa resumido também não ajudava (muito menos o meu senso de direção). Então, andei erraticamente, conhecendo os pontos totalmente fora de uma ordem geograficamente racional. Vi os palácios Neues Palais, Orangerieschloss e Schloss Sanssouci. O primeiro, apesar de, oficialmente, só não funcionar às sextas-feiras, estava fechado ao público em plena terça! O segundo eu pude visitar e, após tirar algumas fotos, fui avisado pela guia que eu precisava comprar o direito de fotografar (?!); tive, então, que guardar novamente a câmera. O terceiro, já estava fechado quando passei por lá.

Vi ainda a – muito dourada – Chinesisches Teehaus (Casa de Chá Chinesa), o Neptune Grotto, o obelisco, o Historische Mühle (moinho histórico) e a Igreja da Paz (Friedens-kirche), perto da qual um grupo de cisnes tranqüilamente repousava. Mais bonitos do que todos os palácios são os jardins que os cercam e seu conjunto de estátuas e piscinas. Na volta, já com pressa, passei ainda pelo Heiliger See (ou lago sagrado), onde do outro lado da margem se podia avistar o palácio de mármore, e pelo Tiefer See, onde havia barcos a vela e pescadores.

A volta não foi tranqüila. A viagem dura uns quarenta minutos, mas levei muito mais tempo. O transporte público em Berlim, apesar de eficiente, é mais complicado que o de Frankfurt (Florian não concorda, mas acho que é pela implicância que os alemães não-frankfurtianos têm com a cidade). Como se não bastasse a loucura que são suas nove linhas de metrô U-Bahn e as quinze de trem urbano S-Bahn (diferentemente de Frankfurt, onde as linhas de metrô são as centrais e os S-Bahn levam para áreas mais afastadas, em Berlim são os S-Bahn que atravessam a cidade de leste a oeste, enquanto os U-Bahn levam para norte e para sul nos mais variados pontos), ainda por cima todos os mapas da rede de transporte público chamam a estação central de Lehrter Stadtbahnhof, apesar de, lá, todas as placas a chamarem de Hauptbahnhof. Adivinhar fica difícil, não é?

Eu estava meio que cochilando quando vi que tinha chegado à estação central de Berlim. Saltei, mas não sabia que trem pegar para ir à linha 8 de metrô, que é a que leva à casa do Florian. Telefonei para meu amigo-anfitrião, que, após breve pesquisa na internet, indicou-me um trem. Estava em frente a ele, quando, subitamente, mudaram a destinação do trem e avisaram pelo alto-falante alguma coisa que eu não tinha a menor chance de compreender. Eu estava ferrado! Tentei ligar novamente para Florian e percebi que meus créditos tinham acabado. Eu teria que resolver essa parada sozinho.

Pesquisei muito até que, após perguntar a dois policiais, eles me indicaram o trem urbano S-15. Chegando à plataforma, vi que havia um trem que iria para a estação de Bellevue e outro para a de Friedrichstraße. Achei estranho. Afinal, tratavam-se das estações seguintes em cada um dos sentidos. Deduzi que, como não era possível que o trem andasse apenas mais uma estação, já que havia muitas para os dois lados, eles simplesmente estavam indicando os dois sentidos, só que mencionando as estações seguintes em vez das estações finais. Deduzi errado, era possível sim... Chegando à Friedrichstraße, ouvi pelo alto-falante que aquela era a estação final daquele trem, e que eu precisaria descer. Ou seja, tive ainda que pegar mais dois trens para voltar. Cheguei duas horas depois de sair de Potsdam.

Apesar de exausto, a noite ainda demoraria a acabar. Eu e Florian saímos com Rocco e Jacqueline, companheiros de apartamento dele. De bicicleta, é claro! Fomos a um bar chamado pelo peculiar nome Tristeza. Lá bebemos cerveja e uma versão de Blood Mary chamada Mexikaner, e jogamos totó (chamado Kicker por aqui). Florian me disse que, em Berlim, todos são, no mínimo, semiprofissionais em totó. Por sorte, jogamos quase todas as partidas entre a gente. Quando fomos enfrentar os caras, não deu nem para a saída. Vencê-los é mais complicado do que andar de bicicleta (sobre as bicicletas, ver o Kapitel anterior).



As imagens de Potsdam.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Kapitel XCVI – As Bicicletas de Berlimville

Quando se fala sobre algo que nunca se esquece, diz-se que é como andar de bicicleta. Só que esta é uma meia verdade. De fato, nunca se esquece como se anda de bicicleta, mas o tempo de inatividade tem um inegável impacto sobre o desempenho do ciclista.

Como eu narrei no Kapitel XX, as pessoas vão a todas as partes de bicicleta na Alemanha (e, quando estive na França, vi que lá não é diferente). Quando cheguei a Berlim, portanto, meu amigo e anfitrião Florian me emprestou sua bicicleta, pegou a de sua namorada, e nos pusemos a pedalar. Ele assegurou que não há melhor forma de conhecer a cidade do que sobre duas rodas. E assim me apresentou os principais lugares de Berlim nos meus dois primeiros dias lá.

Só que fazia anos que eu não pedalava. Foi, portanto, um relativo desastre. É verdade que melhorei um pouco ao longo desses dias, e também que fui capaz de segui-lo. Mas era surreal o tempo que eu levava para conseguir subir na bicicleta (que me parecia excessivamente alta, apesar de Florian, seu proprietário, ser mais baixo que eu) e sair pedalando. Pior foi quando eu me estabaquei na rua ao prender a roda no trilho do bonde. Lamentável...

Mas foi divertido. Passamos pelo Checkpoint Charlie (local onde as tropas russas e estadunidenses se encontraram e quase entraram em conflito), pelo parlamento Bundestag, pela sede do governo Bundes-kanzleramt (apelidada popularmente como máquina de lavar, devido a sua aparência), pelo Portão de Brandemburgo (havia tantos turistas que me senti como se estivesse em Paris; odeio outros turistas que não eu!), pela rua Unter den Linden, pelo Deutscher Dom e pelo Französischer Dom, pela Catedral de St. Hedwigs, pela Universidade Humboldt, pela estátua de Frederico o Grande, pela Ilha dos museus (Museumsinsel), pela Neue Synagoge (certamente, a sinagoga mais bonita que eu já vi!) e pela East Side Gallery, que reúne pinturas em uma parte não destruída do muro de Berlim. Depois, nós nos encontramos com vários amigos do Florian, todos muito bacanas, no bairro alternativo de Kreuzberg. A ideia era almoçarmos uma comida preparada por alguns deles em um restaurante lá – mas estava tão cheio que acabamos matando a fome no árabe do outro lado da rua mesmo.

No dia seguinte, eu e Florian fomos ao espetacular Pergamon-museum, onde estão expostas várias obras mesopotâ-micas, islâmicas e gregas. É realmente incrível ver pessoalmente esculturas e mosaicos que pareciam não poder ser contemplados fora dos livros. Em todo o mundo se podem ver – sejam eles melhores ou piores – museus de arte moderna, de esculturas, de história natural, de pinturas, de folclore... mas um museu como o Pergamonmuseum é muito raro!

Situado na Ilha dos Museus, o Pergamonmuseum não apenas apresenta esculturas, joias, tapeçarias e estátuas como reconstrói vários locais, como a magnífica Porta de Ishtar, o Altar de Pérgamo e a Porta do Mercado de Mileto (os dois últimos, ambos do século II a.C., foram extraídos em escavações arqueológicas e transportados da Turquia no começo do século XX; é questionada a legitimidade de sua posse pelo museu e se argumenta que deveriam voltar para seu país de origem). A Porta de Ishtar, da antiga Babilônia, é sem dúvida o que mais me impressionou: até vendo em fotografias nos livros eu sempre babei com seus tons de azul e dourado e imagens de leões, dragões mushhushshu (ser mitológico com as pernas dianteiras de felino e as traseiras de águia), touros e flores.

Depois, fomos com dois dos amigos de Florian – Johannes e Mulan – comer hambúrgueres. Johannes, que fala bem português, já morou em Belo Horizonte, onde estudou ciência política. Bebi pela primeira vez a cerveja inglesa Newcastle Brown Ale; o preço estava bom e eu queria experimentar. Nada contra as cervejas alemãs, até porque também bebi nessa viagem a Flensburguer, a Krombacher, e provei a de trigo Schneider Weisse, a escura Märkischer Landmann, e as locais Berliner Kindl e Berliner Pilsner – esta última inferior a anterior, mas também tomável).

Lá no restaurante, pegamos um jornal e nada de Johannes e Florian encontrarem a programação de cinema. Surpreenden- temente, eu, que falo um pífio alemão, peguei o jornal e rapidamente encontrei! Fomos, então, a um cinema ao ar livre em Kreuzberg, só que o filme que estava passando não era o planejado. Vimos “Same, same, but different”, um filme alemão sobre um turista germânico que se apaixona por uma prostituta cambojana. Não consegui entender os diálogos em alemão, mas deu para entender bem a história porque havia muitos trechos falados em inglês (que contavam com legenda em alemão).

Na segunda-feira, Florian ficou em casa para adiantar seu projeto de tese. Saí, então, sem bicicleta (imaginem que perigo – para mim e para as demais pessoas – eu, sozinho, circulando de bicicleta por uma cidade que não conheço!). Voltei a alguns lugares onde tinha estado antes para tirar fotos, como o Bundestag, a “máquina de lavar” e a East Side Gallery. Tinha planejado entrar no Bundestag, de onde, lá do alto, tem-se uma bela vista. Na véspera, havia uma fila que, segundo Florian, duraria uma hora e meia. Ele achava que seria tranqüilo que eu visitasse o parlamento no dia seguinte. Mas estava enganado: a fila estava três vezes maior! Desisti, é claro. Mas tinha muito mais lugares para conhecer.

Fui ainda ao Deutscher Dom, de onde, do alto da cúpula, pode-se ter uma bela vista da cidade. Em seguida, comi uma Currywurst. Já a havia provado em Frankfurt e não tinha gostado. Como é típica de Berlim, dei uma segunda chance. Estava melhor do que a que comi em Frankfurt, mas ainda acho que há opções bem melhores de comida na Alemanha.

Visitei, depois, o Museu Histórico, que tem muita coisa interessante. Merecem destaque os pôsteres políticos dos anos trinta – que mostram a tensão daquelas eleições envolvendo nazistas, social-democratas, comunistas e centristas – e os brinquedos infantis com motivos nazistas, como uma casa de bonecas com a foto de Hitler na parede! Andei bastante e passei pelo Nicolaiviertel, área muito diferente, que parece uma cidade do interior. Lá, tomei uma sopa de Gulasch e comi um sanduíche de Berlin Bratwurst.

Tinham se passado três dias de maratona na capital alemã. No dia seguinte, eu iria a Potsdam, a 24 quilômetros de Berlim. Ainda havia muito o que conhecer. E mais quilômetros para percorrer de bicicleta!

domingo, 18 de julho de 2010

Kapitel XCV – Antes de Partir

A última sexta-feira foi um dia de encerramentos. Primeiro, pela manhã, após faltar, por diferentes razões, as últimas cinco ou seis aulas de alemão, fui ao campus de Westend para assistir à última. A aula foi curta e, ainda assim, entendi tanto quanto na maioria das aulas anteriores: ou seja, não entendi nada! O professor distribuiu certificados; os alunos os pegavam em branco, preenchiam seus nomes e os davam para que ele assinasse. Eu não quis o meu. Não preciso de nenhum comprovante de proficiência em alemão, sigo longe de tê-la, não aprendi basicamente nada no curso e ainda faltei à beça no final.

Depois da aula, estudei um pouco e almocei com João Guilherme, o italiano Jan e outros amigos deles. Os dois me chamaram para um piquenique que ocorreria no Grüneburg-park, à noite. Segundo João, seria mais um “Trinknik”, pois beberíamos (“trinken”) muito mais do que comeríamos.

Tomei um café com o pessoal – pelo menos o que sobrou depois que deixei um bocado do meu cair no chão – e segui para o outro campus, o de Bockenheim. Seria a última aula do curso Politik und Gesellschaft in Brasilien, em que fui assistente do Jens. Não sei se por estar cansado, mas, apesar da afinidade com o tema, entendi ainda menos do que de costume o que todo mundo dizia. O resultado foi que entrei mudo e saí calado dessa última aula de política brasileira. No balanço do final do curso, um dos alunos chegou a comentar que achou muito bom haver um brasileiro ajudando na aula, e todos os alunos demonstraram concordar com ele. Isso é legal, mas sei que certamente eu teria sido muito mais útil e ajudado bem mais se compreendesse tudo o que foi dito na aula ao longo do semestre. Mas tudo bem, nada é perfeito, fiz o melhor que pude.

Depois da aula, Jens convidou a todos para irmos ao bar Albatros para bebermos alguma coisa e conversarmos. Foi ótimo, uma parte considerável da turma compareceu, inclusive alguns alunos com quem não tive contato – os sempre presentes Lara, Xenia, Lucia, Nikolai e Maryhen também foram, é claro. E, como descobriram recentemente a existência destes Contos Fantásticos, devem estar comentando o fato de seus nomes terem sido mais uma vez mencionados.

Voltei para casa, tomei um banho e, obviamente, eu me atrasei. Havia marcado de me encontrar com João Guilherme às 8h20 na estação de metrô da Hauptwache para, de lá, irmos nos encontrar com os demais em Bockenheim – exatamente o bairro onde eu havia estado uma hora mais cedo! Eram umas 8h15 e eu ainda estava em casa. Telefonei avisando que não chegaria a tempo; ele disse que esperaria e brincou que estava com saudade da pontualidade brasileira.

Nós nos juntamos ao Jan e, depois, aos demais. Os planos foram mudando. Ninguém foi a parque algum, acabamos todos ficando mesmo no pátio do alojamento universitário. Também não era propriamente o que eu chamaria de piquenique. Era o que, no termo técnico utilizado no Brasil, denominaríamos “farofada”. Além de muita cerveja, o povo chegava com vasilhas cheias de comida, com uma misturança danada.

Esta foi, possivelmente, a maior aglomeração de pessoas que se conheciam que eu vi desde que cheguei na Alemanha. Estavam lá todos os milhões de italianos do curso de alemão, além de pessoas das mais variadas partes, como Hungria, Polônia, França, Coreia do Sul... O motivo da reunião era a despedida de um dos italianos, Paolo, que voltaria no sábado para seu país. Até o hino da Itália o pessoal cantou!

O plano era, depois, irem a uma boate, CafeKoz. Desde o início decidi que eu não iria, pois viajaria para Berlim no sábado de manhã. Na verdade, só saí naquela noite porque imaginei que seria algo leve e que acabaria cedo. Só que saí bem tarde, fiquei lá até uma e meia. Fui embora preocupado se ainda haveria metrô funcionando. Não havia. Desde que comecei a comprar os bilhetes mensais de transporte público, fiquei mais preguiçoso e faço muito menos coisas a pé, sempre pegando o metrô. Fazia tempo, portanto, que não trilhava a pé o percurso de Bockenheim até Dornbush, onde moro. Coube-me fazê-lo de madrugada. Por sorte Frankfurt é uma cidade muito segura e, apesar de minha lendária desorientação, consegui me lembrar de várias referências e achei o caminho até minha casa.

Não sei por que, quando tenho uma viagem, tendo a, em vez de descansar na véspera, dormir pouco. O resultado é que faço várias coisas nas viagens já com o corpo cansado e, como não quero perder tempo descansando quando estou fora, na volta eu estou sempre completamente estragado. Fui dormir a umas duas e meia e acordei às sete. Mas isso não importa; finalmente vou conhecer Berlim. Meu amigo Florian tem casa na cidade e me ofereceu para ficar lá.

Florian fez ainda mais: como aqui há um sistema institucionalizado de caronas – Mitfahrgelgenheit –, que sai muito mais barato do que viajar de trem ou avião, ele marcou uma para mim. Sairia a 25 euros apenas, para uma viagem de quatro horas. Nada mal. Mas conheci um possível efeito colateral do Mitfahrgelgenheit: as caronas têm muito mais chance de furar do que os trens. E foi o que aconteceu. Quarenta e cinco minutos antes da hora marcada – 8h30 na estação central de trem – o sujeito me mandou um torpedo desculpando-se que não poderia ir a Berlim. Minhas opções seriam, portanto, tentar marcar outra carona e, portanto, perder pelo menos um dia, ou ir de trem. Fui de trem. A diferença? A passagem me custou absurdos 113 euros! Quase noventa a mais do que sairia a carona... Vejamos se, na volta, o motorista não vai dar para trás e conseguirei economizar na passagem.

No trem, eu escrevia este “conto fantástico” que vocês estão lendo e um garoto, que estava sentado ao meu lado, perguntou se o idioma era espanhol. Expliquei que era português, e que eu era brasileiro, e isso foi suficiente para seguirmos a viagem conversando até Berlim. Era um garoto novo, ainda a quatro anos de terminar o colégio, que quer ser cirurgião e estudar medicina, mas, no momento, parece estar mais interessado em música e em jogos de computador. Mas foi muito interessante porque conversamos muito mais em alemão do que em inglês, e ele pacientemente falava devagar, repetia quando eu não entendia e traduzia as palavras que véu não conhecia. Meu alemão continua fraco, mas talvez estejam ocorrendo progressos. Quem sabe também falarei em alemão na carona de volta para Frankfurt, não é?

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Kapitel XCIV – A Bolsa e os Espiões

Hoje, um estrangeiro sem dinheiro foi abordado pela polícia na Alemanha. Não, não estou falando de nenhum imigrante ilegal ou criminoso. Estou falando de mim mesmo! Explicarei.

Minha conta bancária continua no negativo, porque minha bolsa de estudos está há dois meses atrasada e o dinheiro que o banco descontou por causa do envio do segundo cartão – o primeiro extraviou por culpa do correio – e disse que me devolveria não foi devolvido (detalhes da tragédia no Kapitel LXXVIII). Eu havia telefonado para o CNPq e tinham me dito que o dinheiro estaria depositado na minha conta no dia 28 (do mês passado! Já com atraso!). Eu estava na França e fui conferir minha conta alguns dias depois, já de volta a Frankfurt. Ao me deparar com a desagradável surpresa de que minha situação era a mesma do mês anterior, somada ao fato de que eu precisava pagar mais um aluguel, telefonei para o CNPq novamente.

A responsável pela minha bolsa me garantiu que, certamente, o dinheiro estaria na minha conta no início desta semana. Eu ainda perguntei: “Dia 12 ou 13, então, com certeza?”. Ela respondeu afirmativamente, mas é claro que, no dia 13, não havia dinheiro algum. Assim que cheguei em casa, telefonei novamente. A responsável pela minha bolsa disse que ia falar com o setor financeiro e pediu para eu telefonar cinco minutos depois. Esperei doze e liguei. Ela não estava. Perguntei se tinha ido embora ou apenas dado uma saída. Não sabiam responder com certeza mas sugeriram que eu telefonasse um pouco depois. Fiz isso e me responderam que ela tinha precisado sair um pouco mais cedo.

Não é incrível? Disse para eu ligar um pouco depois e se mandou! A situação continuaria bizarra. Expliquei para outra pessoa a minha situação e ela me passou para a chefa deles. Alguém atendeu – suponho que a chefa – e eu perguntei “com quem eu falo?”. Ela desligou na minha cara! Muito esdrúxulo! Telefonei novamente, um cara atendeu e me passou para uma mulher, que – enfim! – efetivamente me atendeu: ela não transferiu a ligação para mais ninguém, ouviu o meu problema, pesquisou o que estava acontecendo e ficou chocada com o tamanho da confusão. Explicou-me que o dinheiro é dado ao Banco do Brasil e que ele, então, envia a grana para os bancos da Europa e dos Estados Unidos onde os bolsistas têm conta. E o dinheiro, segundo constava lá, efetivamente tinha ido para o Banco do Brasil no dia 28. Só que, dezessete dias depois, não há nem sinal dele na minha conta. Ela disse que encaminharia naquele mesmo dia o problema para o setor financeiro, para que se investigasse o que havia ocorrido.

Só me resta esperar. De todo modo, mesmo sem dinheiro em minha conta alemã eu precisava pagar meu aluguel. Então, no dia seguinte – que foi ontem – eu fui ao banco perto da minha casa para pegar dinheiro da minha conta do Banco do Brasil. Eis que o caixa eletrônico do Kommerzbank me informou que eu não podia pegar a quantia que eu tinha pedido, mas que eu poderia sacar dez euros. Espera um pouco... o que diabos eu vou fazer com dez euros?! Comprar seis picolés? Fui hoje a outro banco perto da universidade e finalmente peguei o dinheiro para o aluguel.

Chegamos, então, à segunda parte da aventura. Na terça-feira eu havia tomado uma cerveja com o Jens na Bockenheimer Warte, perto da universidade, e, por isso, entrei na estação do metrô pelo outro lado. A estação de Bockenheimer Warte é peculiar, pois ela dá acesso a duas linhas que fazem o percurso leste-oeste e é também o ponto final da linha U4, que, diferentemente das outras seis linhas de metrô, faz um U em vez dos percursos leste-oeste ou norte-sul. Normalmente, pego o U4, pois também me serve e, a partir da entrada mais próxima da universidade, preciso andar menos lá dentro. Só que eu tinha entrado pelo outro lado e não me dei conta de que estava pegando a outra linha. Esta também me serviria, se não fosse pelo fato de eu tê-la pegado no sentido errado. Minha distração me tomou algum tempo mas também me levou a uma estação de metrô que me deixou intrigado: a Kirchplatz.

Eu nunca havia estado nessa praça, que, a julgar pelo tema das paredes da estação de metrô, deveria ter diferentes igrejas. Pensei: “hoje quero voltar logo para casa, mas, qualquer dia destes, volto aqui para conhecer esta praça, que deve ser interessante”. Resolvi fazer isso hoje. Saltei lá e fiquei olhando, como um bobo, para ver se via as igrejas. Só vi uma, nada de mais. Mas acredito que chamou a atenção essa postura de nunca-estive-aqui-antes-e-não-sei-para-onde-vou.

Um homem veio em minha direção e me chamou. Achei que iria perguntar alguma coisa; mas não exatamente... Mostrou um documento e disse que era da polícia, sendo imediatamente acompanhado por outro homem e uma mulher, todos à paisana. Falaram alguma coisa que não entendi, e retruquei interrogativamente: “desculpa...”. Ele respondeu um pouco mais asperamente e disse que queria ver meu passaporte.

Normalmente estou com ele e, por sorte, hoje não foi uma exceção. Mas não podia deixar de pensar nas vezes em que o deixei em casa, por não imaginar que poderia se passar tal situação. O cara olhou o passaporte e disse: “ah, é brasileiro!”. Naquele instante, achei que tinha sido uma interjeição neutra, mas pouco depois suspeitei que, nas entrelinhas, houve certa conotação não muito positiva.

Ele me perguntou quando eu tinha entrado no país e, quando respondi que em março, ele começou a fazer contas na minha frente, como que ironizando pelo fato de o tempo de permanência dos turistas já ter expirado. Mostrei a ele, então, o visto no meu passaporte. Só então eu deixei de ser um suspeito. Ele mostrou para o outro a explicação de que eu sou um pesquisador-visitante convidado pelo professor Jens para estudar na universidade de Frankfurt. Eles não escondiam sua expressão, que era um misto de surpresa com certa admiração. Disse que estava tudo certo – “Alles klar” – e me desejou um bom dia.

Ou seja, sem qualquer razão aparente, eu, que estava apenas andando pela rua, fui abordado por policiais disfarçados, como se fosse um filme de espionagem. Se eu estivesse sem o passaporte, apenas com minha identidade, certamente teria uma dor de cabeça tão grande ou até maior do que a da falta da minha bolsa. Bem, minha situação com a polícia não foi das mais agradáveis, mas se resolveu logo. Vejamos se minha desagradabilíssima situação com o Postbank e com o CNPq não demora muito mais para se resolver também.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Kapitel XCIII – Era Outra Vez...

Pela terceira vez consecutiva, meu despertador não tocou. Descobri que nas duas primeiras, isso havia acontecido porque marquei a hora P.M., ou seja, à tarde, quando queria marcar A.M., de manhã. Ontem, antes de dormir, marquei a hora certa, mas me esqueci do trivial detalhe de que precisava travar o relógio para ligar o alarme. Das três vezes, uma delas apenas me fez acordar uma hora mais tarde, sem qualquer problema prático. Nas outras duas, uma na sexta-feira passada e a outra hoje, acordei aproximadamente às 9h40, sendo que minha aula de alemão começa às 9 horas e dura apenas uma hora e meia. Juntando-se tal descuido a minha viagem de dez dias à França, isso significa que não vou à aula de alemão há muito tempo. E o pior é que tenho que pagar dez euros pelo bolão (que, obviamente, perdi) para o João Guilherme, e uma cerveja para o Dritan por ter apostado que a Espanha não passaria da primeira fase (e acabou campeã, tsc tsc tsc).

Minha irmã e minha mãe têm a teoria de que, na verdade, é meu subconsciente que me faz marcar errado o despertador, porque não tenho efetivamente vontade de ir à aula de alemão. Eu não chegaria a tanto, mas, de fato, trata-se de uma aula muito desestimulante, em que não aprendo nada. O que Frau Ännchen competentemente me ensinou no Brasil, eu reconheço nas aulas daqui; o que meus dez meses de estudo no Rio foram insuficientes para que eu chegasse a saber, continuo sem entender (sobre meu drama lingüístico, ver os Kapitel XXXV e XLV).

O dia continuaria bem pouco emocionante. No auge do meu cansaço, com braços, pernas e costas doloridos do futebol de dois dias antes, eis que era meu dia de faxina. Na verdade, era minha semana. Cada um de nós aqui no apartamento precisa fazer uma por mês. Em geral é no fim-de-semana, mas por causa do torneio de futebol de sábado (Kapitel XCI) e do aniversário do Jürgen (Kapitel XCII) no domingo, sobrou para esta segunda. Enrolei, fiz várias pausas, mas cumpri minha obrigação mensal.

Hora de descansar? Que nada. A geladeira vazia, sem nem mesmo uma garrafinha de água mineral, não me dava alternativa a não ser ir ao supermercado (bem, beber café ou cerveja no lugar seria uma alternativa, mas achei mais saudável ir ao mercado). Quando desço o elevador, eu me deparo com uma baita chuva que há tempos não via. Volto para pegar o guarda-chuva, e não encontro. O som da chuva fica mais forte. Tenho que esperar.

Finalmente pude ir. De mochila cheia de garrafas vazias fui de metrô ao supermercado. Estava morrendo de fome, já que passava das dezoito e eu só tinha comido um sanduichinho no café-da-manhã. Lá no supermercado Rewe pode-se pedir comida alemã quente a bons preços. Comprei um Scheinehaxen, joelho de porco. Só que há um detalhe: eles dão talheres de plástico para quem come lá. Já experimentaram desossar um joelho de porco com garfo e faca de plástico? Lamentável. Foi tanto esforço que, no fim, eu já nem estava mais com muita vontade de comer.

Trouxe para casa a pesada mochila com as compras, incluindo três litros de leite achocolatado e nove de água com gás. Depois de guardar tudo, enfim estava livre para tomar meu banho. Talvez eu ainda assista a um filminho no computador... Mas não sei, são dez horas, o dia já está acabando. Nem tive tempo para descansar. É incrível como há dias em que não se faz nada de mais que cansam muito mais do que outros em que estamos cheios de ocupações. Pelo menos amanhã não tenho hora para acordar. E que se dane o despertador!