Um brasileiro que fala um alemão macarrônico chega a Frankfurt sem saber nem mesmo onde vai morar... Aqui narro minhas aventuras nesta temporada germânica: lugares interessantes, enrascadas em que me meto, esquisitices que percebo a cada dia. O nome do blog é uma analogia aos irmãos Grimm, alemães que compilaram muitas dezenas de contos de fada tradicionais, como Branca de Neve, João e Maria, Rapunzel, a Gata Borralheira, o Músico Maravilhoso, Chapeuzinho Vermelho, e a Bela Adormecida (mais detalhes em Vorstellung).

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Centenas de fotos disponíveis em Ilustrações.


sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Kapitel CXIV – Trilogia: A Fraternidade da Alemanha

Já estou sendo cobrado pelo meu sumiço, pela minha recende falta de produtividade nestes Contos Fantásticos. É que tive duas semanas agitadas, com pouco tempo livre. Mas contarei o que me aconteceu nos neste Kapitel e nos dois seguintes, que formarão uma “trilogia”. Estava se aproximando minha viagem para Bruxelas, onde eu participaria de um curso de verão sobre partidos políticos. Mas antes eu ainda tinha alguns compromissos na Alemanha.


Primeiro, fui ao Jazzkeller, onde seriam comemorados o aniversário de Celi (a paulista da viagem para Freiburg; ver o Kapitel anterior) e a despedida de Alécio (outro brasileiro do grupo da festa da casa do Filipe; sobre esta, ver Kapitel LVII), que voltaria para o Brasil. Estava lá a maioria dos brasileiros que conheci na Alemanha: Vítor, Filipe, Gilberto, Letice, Fiorina, Celi, Ulisses, Alécio. O som era um jazzinho muito bom, que lembrava a ótima trilha sonora dos Peanuts composta por Vince Guaraldi. Dei um tempo nas cervejas e lá bebi o vinho Côtes du Rhône. Foi também a minha despedida europeia do meu camarada Vítor, que voltou ao Brasil enquanto eu estava na Bélgica.

No dia seguinte, foi a vez de me encontrar com Berenice, que não via já fazia um tempão. Fomos a um restaurante no bairro de Sachsenhausen, chamado Frollein. A ideia era bebermos Apfelwein, o tradicional vinho de maçã frankfurtiano, mas fomos surpreendidos pela informação de que eles não tinham. Fui obrigado a voltar à cerveja (fazer o quê, né?). Bebi uma cerveja escura chamada Hövels, e comi Käsekreiner, que é uma salsicha recheada com queijo.

Antes de me encontrar com Berê no restaurante, no entanto, consegui a proeza de ter dificuldades de encontrá-lo. Atravessei a ponte no rio Main, adentrei Sachsenhausen, e estive do outro lado da rua em frente ao restaurante mas não o reconheci; virei, então, à direita, e dei a maior volta, até retornar pelo outro lado da rua e, após muito caminhar, deparar-me com o Frollein e me dar conta de que eu tinha me enrolado à toa.

Um dia depois, foi a vez de ir pela última vez a Mainz (ou Mogúncia), encontrar-me com Tobi e Marion Mannhold. Cheguei mais cedo, enquanto eles ainda estavam no trabalho, para visitar o Museu Gutenberg. Como disse no Kapitel XLIII, Gutenberg está para Mogúncia como Goethe está para Frankfurt. Como grande personagem histórico nascido na cidade, tudo lá leva o seu nome.

O Museu Gutenberg mostra antigas máquinas de impressão, conta sobre a vida do criador da imprensa móvel, exibe vários impressos europeus e chineses e, claro, a famosa Bíblia de Gutenberg. O frustrante é que o museu fechou mais cedo do que o divulgado no site, por estar em período de férias, de modo que fui, basicamente, expulso de lá antes de terminar de ver as últimas salas.

Precisei, também, fazer uma horinha antes de encontrar meus amigos. Quando Marion e Tobias apareceram, fomos a uma tradicional casa de vinho da cidade. Lá, bebemos Feder Weisser, um tipo de vinho branco mais suave, que é o vinho ainda “jovem”, no começo do processo de fermentação. Como Mogúncia é uma cidade produtora de vinho, eles vendem apenas nos meses de setembro e outubro, em função da época da colheita das uvas, essa bebida. Achei saborosa, apesar de bem diferente do vinho em seu estágio final.

As leveduras ficam concentradas no fundo do copo, e eles me alertaram para não ingeri-las, pois elas continuariam trabalhando dentro do meu estômago, podendo dar um... digamos... revertério. Eu parecia um perito em beber Feder Weisser: deixei menos de um milímetro de líquido acima da levedura. Marion era claramente a mais medrosa; temendo ingerir o pozinho do fundo, deixou quase um quarto do líquido. Tobi, que talvez tenha bebido com um pouco da levedura junto, ainda arrematou o restinho do líquido da taça da Marion. Marion comentou que as conseqüências eles veriam à noite. Espero que não tenha havido nenhuma...

Tobi tentou pedir para nós o tradicional acompanha- mento para o Feder Weisser: uma torta de cebola chamada Zwiebel- kuchen. Ele brincou que tal iguaria, junto com o Feder Weisser, dá um efeito bombástico, com as leveduras continuando a trabalhar dentro da barriga ainda mais ativamente, mas ainda assim todo mundo consome os dois juntos. Infelizmente (ou não) o produto estava no cardápio mas o bar não tinha.

Depois, fomos comer em um restaurante que funciona em um antigo prédio onde originalmente era um hospital. Bem interessante o lugar. Só que no cardápio todos os pratos vinham com batata (sobre essa leguminosa nos restaurantes germânicos, ver Kapitel XVII). Acabei comendo um pão no forno coberto com molho e queijos, que parecia uma pizza; estava bom e era o único jeito de fugir das batatas, essa obsessão gastronômica dos alemães. Voltei a beber a cerveja Hövels, a mesma de quando fui ao restaurante com a Berê em Frankfurt, e depois encerramos a noite com o licor Jägermeister, o mesmo que tínhamos bebido na vez anterior que os visitei em Mainz (ver Kapitel LXII). Foi curiosa a cara de espanto da garçonete quando Tobi pediu a bebida. Depois, ele comentou isso com outro garçom, perguntando se é incomum consumirem o licor, e este fez graça, respondendo que é porque ela queria que fosse ela a beber no nosso lugar.

Foi muito bom reencontrar esse casal de amigos. Como são muito ocupados e vivem em outra cidade, não sei se voltarei a vê-los nesta temporada europeia, que já está acabando. Espero que sim. De todo modo, sempre muito gentis, eles me deram lembranças de Mainz: um calendário com fotos da cidade, e um copinho desenhado com uma cena de Mogúncia para beber Jägermeister ou outra bebida.

Ainda faltavam poucos dias para viajar para Bruxelas, mas o fato de eu não sair mais de casa até lá não significava que eu estaria de bobeira. Foi uma grande correria, porque eu precisava terminar o artigo para um congresso de ciências sociais no Brasil antes de partir. Seria um inferno precisar escrevê-lo no meio do curso de verão, e o prazo final para enviá-lo era bem no meio do período em que eu estaria na Bélgica.

Para vocês terem uma ideia de como foi corrido, acabei exatamente no mesmo dia do meu voo. Saí correndo, com medo de me atrasar, e dormi pouquíssimo naquela noite. Aliás, isso bem poderia ser um presságio do que me ocorreria nas duas semanas seguintes.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Kapitel CXIII – O Sol e a Floresta Negra

No domingo eu fiz uma viagem decidida na antevéspera, para a cidade de Freiburg im Breisgau (ou Friburgo em Brisgóvia, em português), mais para perto da Suíça. Fui convidado por Gilberto, e foram conosco a mulher dele, Letice, e Celi. Esta última também conheci na festa que aconteceu na casa do Filipe (ver Kapitel LVII) e reencontrei na exibição pública do jogo do Brasil contra a Costa do Marfim na Copa do Mundo (ver Kapitel LXXVI). Gilberto disse que ela é a maior especialista em viagens pela Alemanha e pela Europa, sabe todos os macetes. Logo, foi nomeada nossa guia!

A forma mais rápida de ir a Freiburg é nos trens rápidos, chamados ICE. Só que fomos numa promoção de fim-de-semana (chamada Schönes Wohenende, ou “belo fim-de-semana”) em que, por um preço fixo, pode-se viajar o quanto quiser dentro da Alemanha durante um dia. Mas só é permitido ir nos trens regionais, que não são tão rápidos assim.

Além dos trens serem mais lentos, por pararem em mais estações, precisaríamos fazer várias conexões ou, outros termos, teríamos que baldear. Aliás, existe um verbo para baldear em alemão: umsteigen. Quando Aninha, ou Frau Ännchen, ensinou essa palavra nas nossas aulas de alemão no Brasil, parecia ser algo tão específico que eu jamais decoraria. Mas estes meses em Frankfurt me mostraram que ela é uma palavra importantíssima: todos fazem baldeação diariamente no metrô U-Bahn e no trem urbano S-Bahn.

Desta vez, no trem regional, faríamos várias baldeações. Primeiro, umsteigen em Heidelberg. Depois, trocaríamos novamente de trem em Karlsruhe (onde adorei uma estátua na forma de várias pessoas sentadas; é claro que tirei fotos). Passaríamos, então, para outro trem em uma cidadezinha chamada Offenburg (que não conhecíamos; como tem nome parecido com Offenbach, vizinha a Frankfurt, brinquei que Offenburg era um primo distante). Lá, então, trocaríamos para o último trem, com destino à Basileia, só que saltaríamos antes (agora, o verbo é aussteigen, primo próximo do umsteigen). Na volta, tudo igual, só que, obviamente, de trás para frente.

Marcamos de manhã bem cedo – lá pelas oito na principal estação de trem de Frankfurt – e voltaríamos apenas à noite, beeeem tarde. Simplesmente tanto a ida como a volta demoram, cada uma, quase cinco horas. Basicamente ficaríamos na cidade por tanto tempo quanto a ida ou quanto a volta, ou seja, demoraríamos viajando o dobro do tempo de conhecer a cidade. Antes que nos acusem de insanos, no entanto, saibam que, por mais incrível que possa parecer, a viagem valeu muito a pena!

O tempo no trem passou rápido, não foi tão cansativo quanto nós mesmos imaginá- vamos. Isso porque conversamos o tempo todo; eu não estava sozinho como em outras viagens. Aliás, conversamos o tempo todo em termos: na verdade, eu falei mais do que todo mundo. Até o Gilberto, que é tido como um tagarela, ficou impressionado de ver que eu falava ainda mais do que ele.

Quando lá chegamos, vimos que a cidade é linda! Belas casinhas, ruas encatadoras de pedras desenhadas (não são quadradinhas e predomina a cor cinza, mas me lembraram os calçadões de pedras portuguesas), e vários vãos ao longo das ruas de pedra para escorrer a água. Bem... esses vãos não são tão encantadores assim. Não demorou muito para que eu afundasse o pé em um deles. Até a canela. Entrou água em todo o espaço livre dentro do sapato. A sorte é que, apesar de estar esfriando bastante nos últimos dias na Alemanha, lá estava quente e ensolarado. Aliás, Freiburg é mesmo tida como a cidade mais quente e ensolarada da Alemanha.

Famintos, fomos almoçar pouco depois de chegar ao centro antigo. Comi um Spätzle, massa típica da Alemanha (sobre ela, ver Kapitel VII), com molho de cogumelos. Resolvemos pedir, para dividirmos, dois litros de cerveja de trigo Franziskaner, que sairia bem mais em conta do que pedir um copo para cada um. Qual não foi nossa surpresa quando o garçom trouxe um copão de dois litros. Chegamos a pensar em pedir que trouxesse copos menores vazios, para repartirmos. Mas desistimos. Qual seria a graça, não é? Não é todo dia que bebemos em um copão de dois litros. E assim fomos encarando a Franziskaner tamanho família, no estilo cachimbo da paz.

Andamos pelas ruas, entramos na catedral, subimos em uma torre com vista para toda a cidade. Ela é cercada pela Floresta Negra, Schwarzwald, que tem esse nome por, supostamente, ter árvores com folhagem mais escura. Celi disse que é de Freiburg a torta floresta negra, que tem o nome por isso. É claro que paramos para tomar um café e comer a tal torta. Se é da região mesmo eu não sei, mas a floresta negra não só e bonita como é saborosa!

A volta foi mais silenciosa. Um cochila daqui, o outo dorme dali. Foram quatro horas e quarenta e cinco minutos, segundo Celi. Cheguei em casa apenas às duas da madrugada! Cansado mas satisfeito. E, graças ao sol friburguense, com o pé totalmente seco!


Mais imagens desta viagem.

sábado, 4 de setembro de 2010

Kapitel CXII – O Boi Adormecido

A noite de ontem foi divertida. Fui ao bairro de Sachsenhausen, do outro lado do rio Main, para assistir em um bar com Florian ao jogo de futebol entre as seleções da Alemanha e da Bélgica. Depois da partida, nós nos encontramos ali perto com Vítor, Julian, Filipe e Fiorina e fomos a outro bar, numa área conhecida como a “antiga” Sachsenhausen, ou Alt Sachsenhausen.

Lá, bebemos “cerveja de litro”, que, diferentemente de como ocorre no Brasil, era medida horizontalmente e não verticalmente: vinha um suporte de madeira com vários copinhos de uns 200 ml. Parecia muito, mas em cinco ou dez minutos estavam todos os copos vazios. Uma segunda rodada foi necessária. Rimos muito, falamos muita bobagem, e voltei tarde para a casa, no ônibus noturno, já que o metrô tinha parado de funcionar uma hora mais cedo.

Quanto à partida da Alemanha, a seleção germânica venceu bem, por 1 a 0, fora de casa. Superou a Bélgica, que, se não é um timaço, tampouco é uma Ilha Farö ou Liechtenstein da vida, configurando-se em uma das seleções competitivas do grupo. A partida não era um amistoso, como eu supunha, mas o primeiro jogo das eliminatórias para a Eurocopa de 2012. O gol foi marcado por Klose, após uma roubada de bola de Schweinsteiger, aproveitando um cochilo da defesa belga. Na mesma rodada, a França, por exemplo, passou vexame, perdendo em casa para Belarus.

Este jogo da Alemanha me motivou a escrever aqui um conto fantástico que há tempos eu pretendia, mas sobre o qual, com a minha viagem para a França e, depois, a eliminação da Alemanha no mundial e o fim da Copa do Mundo, acabei perdendo o gancho. Trata-se da seleção “multicultural” da Alemanha. Durante a Copa, era impressionante o volume das reportagens e comentários exaltando o fato de haver no time jogadores de diferentes origens e nacionalidades. Até pelo horror que os alemães sentem do passado nazista, há um sentimento muito positivo pelo fato de haver negros e turcos na seleção. Historicamente, a Alemanha costumava ser um time branco, diferentemente do que já ocorria há mais tempo em outras eleções europeias, como Inglaterra, Holanda, Portugal e França.

De fato, a seleção da Alemanha que jogou uma boa Copa e que, em minha opinião, merecia ser a campeã (e teria sido, se não tivesse caído tanto de rendimento no jogo contrea os espanhóis), tinha gente de todas as partes. Miroslav Klose e Lukas Podolski, contestados e vitoriosos jogadores com um longo histórico na seleção, vêm, como se sabe, da Polônia. Os poloneses não gostam muito e os consideram traidores (isso me disseram os polacos no albergue em que fiquei em meus primeiros dias de Frankfurt; sobre eles, ver Kapitel II), mas eles de fato cresceram na Alemanha. Klose se mudou para o país aos sete anos e Podolski, aos dois.

Há outros estrangeiros nessa situação entre os participantes da Copa do Mundo. Andreas Beck mudou-se com sua família aos três anos de idade da União Soviética para a Alemanha. Marko Marin fez o mesmo, aos dois anos, vindo da Bósnia Herzegovina. Piotr Trochowski, nascido na Polônia, foi para a Alemanha aos cinco anos de idade. Há ainda jogadores com sobrenomes e aparência bem diferentes do alemão típico, mas que nasceram no país. Dennis Aogo é alemão de Karlsruhe, mas filho de pai nigeriano. O berlinense Jerome Boateng é filho de pai ganês. O ídolo Mesut Özil e Serdar Taşçı são ambos filhos de imigrantes turcos mas que nasceram na Alemanha. Sami Khedira é alemão filho de pai tunisiano, e Mario Gómez, de pai espanhol.

Considero muito positivo isso. Acredito que, em umas duas décadas, não só a Alemanha mas a maior parte da Europa serão como o Brasil, um lugar de muita mistura, em que não será possível identificar um rosto típico. Loiros, negros, pessoas de olhos puxados, árabes, indianos, todos os rostos poderão ser de cidadãos locais, nascidos e criados ali. Entretanto, acho que uma coisa é um jogador nascer na Alemanha filho de pais estrangeiros, ou mesmo se mudar ainda criança e crescer no país, e outra bem diferente é, depois de adulto, ele se naturalizar e jogar pela seleção alemã. E o clima no país é o de apresentar Cacau como se estivesse na mesma situação de Özil, Podolski ou Marin.

Cacau, ou Claudemir Jerônimo Barreto, é paulista de Mogi das Cruzes. Trilhou o mais improvável caminho em sua bem-subcedida carreira futebolística. Foram várias tentativas frustradas de decolar no futebol no Brasil. Diante dos insucessos, trabalhou como assistente de pedreiro e vendeu refrigerantes e salgadinhos. Em 2000, começou a jogar em um time da quinta divisão alemã, chamado Türk Gücü München. Depois, foi contratado para jogar no time B do FC Nürnberg. Agradou e passou para o time principal, jogando na Bundesliga. Transferiu-se, então, em 2003, para um clube mais importante, o Stuttgart, pelo qual jogou a Copa dos Campeões da Europa no mesmo ano e, depois, novamente na temporada de 2007-2008. Tem contrato com o Stuttgart até 2013.

Sem jamais ter sido chamado para a seleção brasileira, obteve o passaporte alemão em 2009, após oito anos vivendo no país, e foi convocado para a equipe nacional, onde é ídolo incontestável. Apesar de não ser titular, é incrível como é unânime a vibração da torcida quando ele entra em campo. Isso não me contaram; eu vi em cada jogo na Copa do Mundo. O atacante substitui algum titular e as pessoas sorriem, comentam, festejam, torcem.

Florian, certa vez, perguntou: “Cacau é meio-brasileiro, não é?” Eu respondi: “Não, Kurányi é meio-brasileiro. Cacau é completamente brasileiro!” Kevin Kurányi, atacante que não esteve na última Copa, nasceu no Rio de Janeiro, filho de pai húngaro criado na Alemanha e de mãe panamenha. Jogou dos seis aos 13 anos de idade no Serrano, de Petrópolis, com um período de um ano no clube panamenho Las Promesas, para onde voltou em 1996. Apenas em 1997, aos quinze anos, ele se mudou para a Alemanha, para jogar nos juvenis da equipe B do Stuttgart.

Minha brincadeira foi, justamente, uma crítica a essa ideia de que a situação é a mesma. Cacau é um batalhador, merece ter sucesso na carreira, mas me agrada este fenômeno, comum em todo o mundo, de os times naturalizarem estrangeiros para compensarem deficiências de sua equipe. Já cansei de ver braisleiros, que no máximo moram há muito tempo fora, defenderem seleções como a do Japão, de Portugal, da Tunísia, da Espanha, da Bélgica... O mesmo ocorre com africanos, surinameses, argentinos... Acho que nascer ou crescer em um país é motivo forte o suficiente para jogar pela seleção desse país; mudar-se para lá já adulto, com outra cultura, e viver lá por uma década não é, por mais que goste de lá e tenha se ambientado bem.

Não é o primeiro caso na Alemanha. Outro brasileiro, Paulo Rink, jogou pela seleção há algum tempo, sem qualquer ligação prévia com o país. O ganês Asamoah, que jogou por vários anos na seleção alemã, foi para lá aos 12 anos. É mais legítimo do que a situação de Cacau e Paulo Rink, ainda que eu tenha alguma dúvida (sim, é uma dúvida, também não tenho certeza se mereceria ser criticado) se é o mesmo caso de estrangeiros que imigraram quando eram crianças bem mais jovens, entre dois e sete anos de idade.

Enfim, cada caso é um caso. Mas, em linhas gerais, o que quero dizer é que, se é fantástico – não apenas futebolisticamente, mas também (bem mais importante) socialmente e humanitariamente – que não haja restrições para a participação de alemães com as mais variadas origens étnicas e culturais na seleção nacional, por outro lado, convocar jogadores que não são alemães não tem nada a ver com isso. Trata-se de um mero artifício para tornar a equipe tecnicamente mais competitiva. Neste caso, a história da seleção multicultural deixa de ser uma bela transformação social e passa a ser mera conversa para boi dormir.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Kapitel CXI – Antes das Bodas

Mal voltei a Frankfurt da viagem à Baviera e já estava cheio de compromissos. Era aniversário da Lara, a alemã que fala português perfeitamente e com sotaque baiano. Tinha marcado de comemorar no jardim atrás do Museum der Weltkulturen, onde o brasileiro Ivan Santos tocaria (já tinha assistido a um show dele, excelente; ver Kapitel CI). Menos de três horas depois de pisar na estação de trem de Frankfurt, eu estava lá, pronto para o festejo. Mas era o único! Ninguém tinha chegado, apesar de que a ideia original era marcar para uma hora mais cedo ainda do que aquela. Logo o carioca foi chegar antes dos alemães, quem diria...

Depois vieram Lara, suas irmãs, e um animado rapazinho chamado Peter, filho de uma delas. O bebezinho mexia em tudo, e deu sinais de que trabalhará futuramente com comércio ou investimentos, tamanha a vontade de tirar o dinheiro da carteira da mãe. Muito engraçado! Depois chegou um amigo de curso de inglês da Lara, gente-fina. Bebemos vinho, ouvimos música e... abrimos os guarda-chuvas! Começou a cair o maior pé-d’água! Ainda assim, resistimos até o show acabar.

Fazia parte do Museumsuferfest, um festival artístico e cultural semelhante à Noite dos Museus que descrevi no Kapitel XXXVI. De lá, seguimos caminhando pela rua que margeia o rio Main, onde nos encontramos com o namorado de Lara, chamado Jens. E mais álcool! Bebemos uns chazinhos aditivados com água que passarinho não bebe e, depois, fomos a um bar. Lá, chegaram Xenia, Maryhen e o namorado dela, Jens (Jens não é, definitvamente, um nome muito incomum na Alemanha), e a alemã filha de pernambucana chamada Ana (ela apareceu no Kapitel CV).

Lá, bebemos Apfelwein, o vinho de maçã, que é uma tradição em Frankfurt (especialmente no bairro de Sachsenhau- sen, onde estávamos, do outro lado do rio Main). Aliás, aproveitei para ter uma refeição totalmente frankfurtiana. Além do Apfelwein, pedi um Frankfurter Schnitzel, que é um filé de porco com Grüne Soße, um molho verde à base de ervas da região. É o prato mais típico de Frankfurt, e também encontrado mais facilmente em restaurantes em Sachsenhausen. Eu acho gostoso, e estava com saudade de comer isso (sobre a vez anterior em que tinha comido o Frankfurter Schnitzel, ver Kapitel XL).

Depois, demos mais uma volta e encontramos meu amigo Vítor. Havia várias barraquinhas e palcos. Eu, Lara, Xenia e o amigo de Lara dançamos em uma tendinha de música disco das antigas e em outra de salsa e ritmos latinos. Além disso, eu e Vítor mandamos ver na cerveja de trigo. Foi uma noite divertida, mas minha programação frankfurtiana não acabaria ali.

Já na noite seguinte, haveria a festa de despedida de Fabian, que fará um intercâmbio na Letônia. Por que Letônia? Boa pergunta, eu também o questionei sobre a mesma coisa, e a resposta não foi muito satisfatória. Ele não fala nada de letão, espera conseguir se virar exclusivamente em inglês, e lá não é nenhum centro em que ele tenha contatos ou que seja especialmente forte nos temas que ele estuda.

Fabian me disse que queria ir a um lugar diferente. Bem, se a ideia era essa, como disse um amigo brasileiro chamado Flávio, ele poderia ter ido fazer intercâmbio em alguma ilha paradisíaca do Pacífico, não é? Dizem que Riga, capital da Letônia, é bonita, mas ele estará lá em pleno inverno! Para vocês terem uma ideia, Fabian precisou comprar um casaco de frio, daqueles com pele de animal, porque os que ele tinha não eram suficientes para a friaca que ele encontrará lá. Vejam bem: Fabian é alemão, bávaro, e mora em Frankfurt, não estamos falando de nenhum latino ou africano dos trópicos!

Bem... cada louco com a sua mania. Apesar do aparente parafuso a menos, Fabian é um cara legal e eu fazia questão de ir a sua festa de despedida. Seria realizada na casa de um amigo dele chamado Björn, que também ia estudar fora (no e-mail de convite dizia que seria “lá onde os deuses vivem”; pelo nome dele, portanto, suponho que seja na Suécia ou algo assim). Aliás, a festa incluía entre os homenageados ainda uma terceira amiga deles, Elena, que fará o intercâmbio em Moscou.

Os exotismos geográficos não acabavam. Um dia depois de voltar de trem conversando com uma eritreia (ver Kapitel CIX), na festa de meu amigo que vai se mudar para a Letônia falei com pessoas de lugares que achei que nunca estariam mais próximos de mim do que quando eu olho um mapa-múndi. Primeiro, conversei com um alemão que falava português bem direitinho. Por quê? Porque o pai dele é de Goa! Não era brasileiro, português ou angolano... era indiano de Goa! Não é todo dia que se encontra alguém de Goa, não é? Ou filho de alguém de lá, que seja...

Depois, passei um tempo considerável conversando com uma moça chamada Olga. Amiga de Elena, ela também vai à Rússia. Estuda economia, espanhol e russo (?!). Sim, isso é o tema de um curso de graduação, por mais estranho que possa parecer. Perguntei-lhe o porquê e ela me disse que também não era alemã. Era cazaque! Veio aos cinco anos para a Alemanha, e sua língua materna é russo. Ela e seus pais não falam cazaque. Ela me explicou que o regime soviético não incentivava muito que as pessoas falassem outras línguas que não o russo, de modo que sua família não sabe o idioma próprio do Cazaquistão. Como ela estuda espanhol, tem amigos brasileiros e adora música baiana (?!), sabe falar um pouco de português e adora a sonoridade da língua de Camões.

Fui ficando na festa. Quatro cervejas, dois copinhos de tequila, um de vodca... Era bem mais do que eu esperava... Fabian foi embora, mas eu continuei lá, apesar de não conhecer nenhum dos presentes até então. Havia umas oito pessoas quando eu resolvi, por curiosidade, olhar o relógio. Eram cinco e meia da madrugada! Em estado de choque, eu me despedi de todos os sobreviventes e voltei para casa. Precisava dormir! No dia seguinte, domingo, eu teria mais um evento pela frente.

Fui com Vítor, Filipe, Fiorina e Brunela ver a ópera “O casamento de Fígaro”, de Mozart, na Neue Oper, localizada em frente à Willy-Brandt-Platz. Foi divertido: os ótimos cantores, trajados com figurinos engraçados, contracenavam em um cenário giratório. Só não deu para entender muito da rápida história das bodas de Fígaro, cheia de reviravoltas e confusões. É que uma ópera cantada em italiano com legenda em alemão não é exatamente a combinação mais compreensível para mim.

Mas, no intervalo entre os atos, Filipe e Brunela, que entendiam melhor, deram uns palpites e deu para não boiar muito. Filipe brincou que a história era meio “A Grande Família”, meio “Os Normais”. Poderia ser ainda mais complicado de se entender, é claro, como, por exemplo, se a ópera fosse cantada em mandarim com legendas em swahili... Mas depois de conhecer gente da Eritreia, de Goa e do Cazaquistão, isso já seria demais, não é mesmo?

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Kapitel CX – As Três Princesas

Na segunda-feira passada, fui de Munique para Regensburg, onde me hospedei na casa de Alejandra, uma amiga chilena. Lá, conheci o marido dela, Burkard, alemão da região da Francônia, e as três princesinhas “produzidas” pelo casal: Francisca, Paula e Julia. As três filhinhas de Ale não precisaram de mais do que quinze minutos depois de me ver para começar a pular em cima de mim. A toda hora queriam tirar fotos com a minha câmara, e posamos fazendo muitas caretas.

É incrível notar como a personalidade das pessoas já se forma bem cedo. Francisca, a primogênita, por exemplo, é mais introspectiva, tímida, atenta, pensa rápido e, apesar de as irmãs também gostarem de livros e de música, ela é, das três, a que parece ler mais e ter maior atração pelos instrumentos musicais. Paula, por sua vez, é mais extrovertida, gosta de tirar fotos e de ter a atenção de todos, é mais falante e emotiva.

A pequenina Julia, de quatro aninhos, a que, fisicamente, saiu mais parecida com Alejandra, já dá mostras de que é muito curiosa. Das três, Francisca fala bem espanhol, Paula fala um pouco (e tem grande preguiça de aprender) e Julia ainda não fala, mas é impressionante como as três entendem tudo! Fiquei encantado com as meninas. Julia fez dois desenhos para mim e Paula desenhou e montou um livro “para colorir” e me deu de presente.

Depois, fomos fazer um passeio ali perto, nas margens do rio Danúbio. As três princesas foram meus modelos. Como costumo tirar muitas fotos, e sempre gosto de incluir crianças nas imagens, para mim a bela paisagem e a presença das três meninas eram a combinação perfeita. À noite, fui com Alejandra a um restaurante de comida curda. Estava ótimo o meu prato de berinjela com carne moída acompanhado de um cereal que parecia arroz integral. A cerveja que eu pedi, então, Weltenburger Kloster Barock Dunkel, talvez seja uma das melhores que já provei!

No dia seguinte, novo passeio, desta vez em um belo bosque na cidade. O que não foi nada belo foi o ataque de uma abelha à minha amiga Ale. Coisas da natureza. À noite, fomos todos a um restaurante espanhol, onde comemos pollo almendrado. Para beber, fui de Herrnbräu Hefe Weissbier Dunkel.

Na quarta-feira, foi a vez de conhecer Nuremberg. Cheguei à estação , olhei a lista dos trens e vi que haveria um em uns quinze minutos. Desci à linha férrea e ali, no vão cinco, estranhamente aparecia que o trem sairia bem mais tarde e iria a Frankfurt e não a Nuremberg. Voltei à bilheteria e descobri algo bizarro: aquele trem para Nuremberg que aparecia na lista que eu tinha lido, na verdade, não existia. Ou seja: nem todos os trens que aparecem na lista existem! Simplesmente esdrúxulo!

O atendente gentilmente imprimiu para mim a lista dos próximos trens para Nuremberg: um sairia uma hora antes do outro mas chegaria apenas cinco minutos antes. Não foi difícil, portanto, escolher em qual dos dois eu iria. Aproveitei para dar uma volta no centro de Regensburg – pelo menos na área em torno da estação de trem Hauptbahnhof –, aonde até então eu só tinha ido de passagem.

Fiquei deslumbrado quando cheguei ao centro antigo (Altstadt) de Nuremberg. É incrível que tenham reconstruído tudo aquilo depois da Segunda Guerra (na Wikipedia dizem que 90% do centro histórico foi destruído pelos bombardeios ingleses e estadunidenses em apenas uma hora!). Sua igreja de St. Lorenz, seu castelo imperial, sua muralha, seus chafarizes e estátuas, seus edifícios antigos, a área próxima ao rio Pegnitz... é tudo lindo demais.

Também me chamou a atenção uma lojinha em que se vendiam produtos alusivos a uma campanha para separar a região Francônia do estado da Baviera. Na hora de voltar, tive dificuldade para encontrar a estação de trem e fiquei preocupado porque não me lembrava exatamente a hora do trem de volta: se era 19h20, 19h30 ou 19h40. Cheguei às 19h30 em ponto e vi no letreiro que sairia às 19h36. Ufa! Mas minha sorte não se repetiria.

Quando saí da estação de trem de Regensburg, fui ao ponto de ônibus e vi que o que me levaria de volta à casa de Alejandra estava parado. Corri até ele, mas o safado do motorista fechou a porta quando eu estava chegando. Ainda fiz o movimento para abrir a porta, mas ela já estava travada e ele se mandou. Graças à má-vontade do motorista, tive que esperar meia hora até o ônibus seguinte! Como se não bastasse, meu lendário senso de direção defeitoso me impediu de aprender a chegar na casa da Ale, de modo que, após saltar no ponto mais próximo de lá, fiquei totalmente perdido. Procurei por todos os lados e, ao fim, foi preciso que Burkard me buscasse. Ridículo, não é?

Saímos para almoçar, na quinta-feira, em Adlesberg, um lugar no município de Pettendorf, vizinho de Regensburg, onde fabricam sua própria cerveja. O lugar é bonito, tem um monastério do século XIII, muito verde, flores, e um Biergarten, local onde se pode tomar cerveja ao ar livre. Essa era nossa ideia, até começar a ventar forte e levantar poeira.
Fomos, então, almoçar do lado de dentro. Comemos veado (sem piadinhas desneces- sárias, por favor) com Spätzle, que é uma massa típica da Alemanha (sobre ela, ver Kapitel VII). Bebi logo dois canecões da cerveja local: uma Adlesberger “Palmator” dunkles Starkbier e uma Adlesberger Jubiläumsdunkel, ambas escuras, mas a primeira um pouco mais forte. Tudo muito bom!

Depois, fiquei no centro da cidade, para andar por todas as suas ruelas e conhecê-lo. É uma cidade bonita, em que o que me impressionou, mais do que belíssimas construções como as de Nuremberg, foi a integração das edificações antigas com a natureza. A grande quantidade de verde e o rio Danúbio dão um toque especial a Regensburg.

Enquanto caminhava, provei a cerveja Kneitinger Dunkel no próprio bar da cervejaria, que é lá da cidade. Depois, antes de voltar, Alejandra me encontrou e fomos jantar em um restaurante italiano. Comi uma boa costeleta de porco com molho de champignon e bebi... cerveja! Era uma Erl Hell. Nesse dia eu realmente bebi muita cerveja: foram quatro canecões de meio litro cada. A Baviera é um lugar difícil de se beber pouca cerveja. Lá em Regensburg ainda provei a Urtyp Hell e, em Nuremberg, a Eichhofer Hell.

A sexta-feira era dia de voltar. Eu teria o aniversário da Lara para ir em Frankfurt. Mas, antes, era hora de comemorar outro aniversário, de uma das três princesinhas: Paula. Cantamos parabéns e comemos bolo de café-da-manhã. Desta vez, nada de cerveja!


sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Kapitel CIX – Admirável Mundo Velho

Acabo de voltar da viagem para Regensburg, aonde fui depois de Munique. Lá, eu me hospedei na casa de uma amiga chilena, Alejandra. Sobre minha estadia lá eu contarei em outro Kapitel. Agora, vou tratar da minha volta. Como hoje é aniversário de Paula, uma das filhas de Ale, comemos um bolo em comemoração e, por isso, acabei saindo um pouco tarde de lá, depois das dez (minha viagem era às 10h33). Então, minha amiga me deu uma carona até a estação ferroviária Hauptbahnhof. Foi, portanto, uma volta tranqüila, sem contratempos (diferentemente da maioria de minhas viagens, como os leitores destes Contos Fantásticos já devem ter notado).

Nem por isso se tratou de uma viagem de trem sem nada que mereça destaque. É admirável como, no Velho Mundo, pode-se encontrar gente de todas as partes. Eu nunca imaginei que um dia, por exemplo, conheceria alguém da Eritreia. Para quem não é aficionado em geografia como eu, Eritreia é um país no nordeste da África, que por um tempo pertenceu à Etiópia, mas que se tornou independente nos anos 90. Ocupa todo o litoral do que era a Etiópia há poucas décadas atrás. Pois não é que era de lá Nigsti, a minha companheira de trem?

Ela já estava viajando havia muito mais horas. Vinha da Áustria, onde mora há nove anos, para se encontrar com seus irmãos, que estariam em Frankfurt de passagem para seguir para os Estados Unidos. Ela já estava no trem desde as seis e meia da manhã! Certamente gostou de, enfim, encontrar alguém para conversar. Ela me contou que, antes de se mudar para a Europa, morou ainda cinco anos no Sudão. Aliás, apesar de ser eritreia, ela trabalha na embaixada sudanesa na Áustria.

Disse que, como fala no trabalho todo o tempo em inglês e árabe, até hoje não fala bem o alemão. Essa informação foi reconfortante para mim... O idioma natal dela, no entanto, chama-se tigrínia. Ela me mostrou como se escreveria meu nome no alfabeto usado por eles. É mesmo completamente diferente.

O trem chegou um pouco atrasado, quase às duas da tarde. Eu estava roxo de fome. Como não estava nem um pouco disposto a esquentar uma pizza em casa, resolvi comer em algum dos muitos restaurantes de culinária de outros países que ficam nas cercanias da Hauptbahnhof de Frankfurt. É aí que, depois da Europa e da África, entra neste “conto fantástico” a outra parte do Velho Mundo: a Ásia. Eu pensava em comer em algum restaurante turco, mas passei por um de comida asiática, chamado Ding Ding Sheng, que estava cheio de... asiáticos. Pensei: um restaurante asiático... se está cheio de asiáticos, é porque deve ser bom. Comi um guang dong ji, que é um frango à moda cantonesa. Sim, estava bom. Assim é a Europa... aqui tem de tudo. Admirável mundo velho...

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Kapitel CVIII – O Gato de Botas e o Suspensório

Munique é uma cidade bonita, mas não é tão limpa e neuroticamente certinha como tinham me falado. Vi guimbas de cigarros no chão e muitos playboys correndo de carro. Florian tinha dito que é bem mais cara do que as outras cidades alemãs, mas vi camisas, bermudas e camisetas na promoção que eram muito baratas (comprei uma por três euros). De todo modo, a informação dada por meu amigo talvez tenha fundamento. Afinal, dá razão a ele o meu virtualmente infalível método de avaliar o quão careira é uma cidade europeia: o preço da bola de sorvete na casquinha (ver Kapitel XLVII e LXXXIV). Em Frankfurt, ela costuma custar oitenta cêntimos, sendo um euro o da Mövenvick. Pois em Munique custou 1,20. O sorvete de pistache estava ótimo, mas não nega que Munique é mais cara.

Além desse sorvete, comi em Munique um salgado turco que era um pão com carne que veio fatiado e não entendi o nome (“bire”, “bude”, não sei...) e provei várias especialidades bávaras: pretzel (Bretzel em alemão e Brezn no dialeto bávaro), as já conhecidas salsichinhas brancas com mostarda doce (ver Kapitel VII), uma estranha mas boa Bayerische Festagssuppe (com bolinhos de semolina, bolinhos de fígado, tiras de panqueca e Markklößchen, que acho que é tutano, mas não tenho certeza), e um porco enrolado (Roll-qualquer-coisa-shwein; não anotei o nome, e este era comprido) acompanhado de chucrute. Só provei cervejas que ainda não conhecia: Franziskaner Dunkel Hefe-Weisse, Augustiner Dunkel, Augustiner Lagerbier Hell, uma ótima Ayinger Kellerbier (não filtrada), a também boa Ayinger Jahrhundert (clara), Hofbräu Urbock (forte). Nenhuma cerveja mais ou menos; todas aprovadas!

Por falar em comidas e bebidas, o atendimento nos bares de cerveja em Munique é péssimo (exceção para o Ayingers Wirtshaus). No que fica perto do albergue, que serve Augustiner, eu fiquei um tempão esperando e nada de me atenderem. Fui, então, ao bar, supondo que era preciso pedir lá. Ao me ouvir falando com o funcionário do bar, um garçom respondeu que eu tinha que pedir na mesa, pois lá não funciona self-service.

No dia seguinte, fui ao Biergarten (jardim de cerveja) da Torre Chinesa, localizada no parque Jardim Inglês. Lá, há uma grande fila onde cada um, com sua bandeja, vai pedindo o que quer e, depois, paga no caixa. Primeiro, vi uma costela grande e uma carne de porco enrolada. Perguntei ao sujeito do balcão o que era – porque eu queria saber os nomes – e ele me respondeu, impaciente: porco e porco, os dois são porco.

Depois, quando fui pagar, a mulher do caixa perguntou se eu não tinha cinqüenta cêntimos, e eu fiquei procurando, mas nada de encontrá-los. Estava tão difícil que até uma moeda de um euro caiu no meu prato (eca!). E não é que a salafrária ficou resmungando? Quem tinha a obrigação de ter troco era ela, eu estava fazendo uma gentileza de tentar encontrar. Esse povo está assoberbado de trabalho, eu sei, é muita gente enchendo a cara de cerveja, mas não pode atender mal desse jeito... Além de tudo, é cobram caro!

No meu primeiro dia em Munique, passeei principal- mente pelo centro histórico, onde vi muitas construções bonitas, como as igrejas St. Paul’s Kirche e Freuen Kirche, o Neues Rathaus e toda a área da Marienplatz. No segundo, também passei por lá mas procurei ver os marcos presentes no mapa que estavam mais afastados, como o Maximilianeum. Quando eu procurava o Deutsches Museum, que fica mais a sudeste, acabei me deparando, sem querer, com o rio Isar. Muito bonito. Eu já estava estranhando estar em uma cidade grande na Europa em que não via um rio bem no meio onde as pessoas se encontram. Foi uma grata surpresa...

Faz um calor toulousiano em Munique (quando fui a Toulouse, estava tão quente que comecei o Kapitel LXXXII dizendo isso), mas a população descobriu um jeito fantástico de resolver o problema: ir à praia! Munique está londe do mar, mas as pessoas vão com trajes de banho (sunga, calção, biquíni, até topless eu vi!) para a beira do rio Isar. Eu não estava preparado para isso, mas não resisti. Tirei camisa, óculos, relógio, e, na beira, tomei o chamado “banho de gato”, de calça comprida e botina mesmo. Excelente! Se mais tempo eu ficasse, é certo que tiraria uma manhã ou tarde para nadar!

Depois, fui ao Deutsches Museum, uma dica do Marlos. Ele fica, a exemplo dos principais museus de Berlim, em uma ilha, também chamada pelo convencional nome de Museumsinsel. O museu é enorme, são muitas salas e muita coisa exposta. Para fazer uma visita detalhada e completa, são necessários pelo menos quatro ou cinco horas. Eu estava cansado de tanto caminhar e, por isso, uma olhada despretensiosa durante duas horas foi satisfatória. E, apesar de não ter sido tão minuciosa, ainda assim não consegui ver tudo e faltaram várias salas, como a dos instrumentos musicais e a das telecomunicações.

O museu é dedicado à tecnologia, mas a aborda de maneira bem abrangente. É um prato cheio para engenheiros, físicos, aficionados por automóveis ou por aviação. Mas é interessante para outras pessoas também. Há motores, hélices, turbinas, altímetros, robôs, tratores, muitos aviões e helicópteros, carros, moinhos e várias outras máquinas. Além disso, há criaturas abissais submarinas, um modelo que simula o diferente funcionamento da físico-química para dimensões muito microscópicas, e por aí vai.

Na saída do albergue, antes de ir a Regensburg, ouvi reclamação de montão porque fiz o check-out à uma quando o certo seria às dez. Eu não me lembro de terem me dado tal informação e, se deram, eu não devo ter entendido. Senti no ar uma intenção de me cobrarem outra diária, o que obviamente não ia rolar. Fiquei repetindo “mas eu não sabia, mas eu não sabia”, até que deixassem para lá. De todo modo, o albergue – Meininger City Hostel – era bom. É limpo, fica não longe da Hauptbahnhof, e tem um bar que, se não é animado, pelo menos serve cerveja boa. No hall, tinha internet wireless, que era meio lerda, mas era gratuita (havia internet nos computadores do hall e wireless nos quartos, mas aí era cara e não sei se menos lenta, pois obviamente não a usei).

Apesar de estar próximo à estação ferroviária, custei a encontrar o albergue quando cheguei à cidade. É que sou enrolado, não conhecia Munique, não tinha ainda um mapa e não segui as instruções do site: ele dizia para pegar o trem urbano S-bahn e andar uma estação; ora, são muito preguiçosos, não querem caminhar nada... Eu quis ir a pé. Foi meio cansativo, até porque andei um pouco mais do que precisava, mas não me arrependo. Aliás, nem sei se o transporte público em Munique é bom, porque fiz tudo a pé.

Uma coisa que me chamou muito a atenção logo que cheguei a Munique é que há vários lugares vendendo as roupas típicas dos bávaros, provavelmente devido à proximidade da Oktoberfest. A brincadeira não sai por menos de uns 140 euros. A roupa típica consiste em um vestido característico para as mulheres, e em berbudas e suspensórios de couro para os homens.

O mais engraçado é que vi um homem andando na rua vestido assim! E não era nenhum garotão fazendo piada não, era um senhor de idade. Só não sei se ele era um orgulhoso entusiasta das tradições bávaras ou se precisava se vestir assim para trabalhar. Por exemplo, as garçonetes de vários restaurantes usam vestidos típicos da Baviera, e na Torre Chinesa uma banda tocava, lá no alto, com todos os seus componentes devidamente paramentados com a bermuda e o suspensório de couro.

Essa roupa é tão característica desta região da Alemanha que, conforme Bertram me contou, os torcedores de outros times costumam cantar a seguinte canção para o Bayern de Munique quanto sua equipe o enfrenta: “Zieht den Bayern die Lederhosen aus, Lederhosen aus, Lederhosen aus!” Significa nada menos do que: “Tire fora as bermudas de couro do Bayern, fora as bermudas de couro, fora as bermudas de couro!” É engraçado, mas, por favor, façam isso longe de mim. Prefiro ser poupado dessa visão do inferno. Se ainda fosse para tirar os vestidos de belas bávaras...


Vídeo de Munique