Finalmente eu ia conhecer a Baviera. Meus dias de Europa se aproximam do fim e há muitos lugares na Alemanha que eu gostaria de conhecer e, até agora, não foi possível. Cheguei a comprar, há poucas semanas, uma passagem para Regensburg, mas não pude ir (motivo no Kapitel CI). Antes de partir neste sábado para Munique, no entanto, eu ainda tinha alguns eventos em Frankfurt.
Na quinta-feira, marquei com Julian de comermos uma pizza ali perto da minha casa, a Pizzeria Da Benito. De lá, ele sugeriu que fôssemos a um festival (Fest) que estava acontecendo perto da estação central Hauptbahnhof. E lá fomos nós, onde encontramos duas amigas dele. Depois, elas foram embora, mas encontramos um outro amigo de Julian, acompanhado de um monte de colegas de trabalho. E seguimos com eles. E íamos bebendo cerveja: primeiro uma Warsteiner na pizzaria, depois, na rua, uma Germania, uma Becks, uma Flensburger.
Chamou a atenção no festival o estande de uma ONG antiglobali- zação, montado em frente a um banco. Como aquela área é cheia de inferninhos, eles fizeram uma brincadeira com aquelas cabines cobertas com buraquinhos para os homens olharem as mulheres fazerem suas performances eróticas: fizeram uma montagem em que, olhando-se para dentro, via-se vários desenhos com críticas ao sistema financeiro, aos megacapitalistas, etc.
Na sexta-feira, eu tinha outro evento, em que também encontraria um monte de gente legal que eu não conhecia. Era a festa de despedida de uma grega chamada Ioli, que vai ficar três meses... no Rio de Janeiro! Ela fará um estágio lá, e eu só a conhecia por e-mail e Facebook. É amiga de Marion Mannhold (ver a seção Personagens), que nos apresentou para que eu pudesse lhe dar algumas dicas sobre onde morar no Rio.
Na véspera, apesar de não ter chegado tarde, só dormi muito depois e acordei de manhã bem cedo. Com apenas três horas de sono, precisava de um cochilo naquela sexta-feira à tarde, depois que voltei da universidade e antes de ir para a festa. É claro que o despertador não tocou, e cheguei depois do que havia planejado. Mas não foi um grande problema. Lá, eu me deparei com pessoas de várias partes, falando inglês, alemão, grego e português (o namorado de Ioli, Ricardo, é português, e havia ainda uma paulista, Fernanda, de modo que também falavam a língua de Camões tanto eles como o namorado dela, Bastian, e um outro alemão que estava lá, Tobias, que já morou em Portugal).
Risadas, caipirinha, cerveja portuguesa Super Bock, um trago da fortíssima grapa greco-turca. Não quis sair muito tarde porque viajaria para Munique no dia seguinte. O trem partiria já no final da manhã, mas eu não queria correr o risco de perdê-lo. Ainda assim, saí depois que o metrô já tinha parado de funcionar. Precisei ir a pé. Como sou meio perdido, perguntei a eles como chegar à minha rua, a Eschersheimer Landstraße. Eles me explicaram, mas, quando cheguei à rua que eles tinham indicado, tive uma desagradável surpresa: era outra! Era a Grosse Eschersheimer Straße. Por que dão nomes tão parecidos?!
Felizmente, eu estava com um mapa dos arredores da casa de Ioli e Ricardo, e o fato de eu ter feito muitas vezes a pé o caminho da universidade até minha casa nos meus primeiros dois meses na Alemanha me ajudou a conhecer algumas pistas de como voltar, apesar do meu péssimo senso de direção. Depois de chegar, dormi mal, pois estava preocupado que o despertador não tocasse. Acordei várias vezes e acabei me levantando antes do previsto. Mas quando alguém é atrapalhado, mesmo todas as providências podem ser insuficientes...
Eu tinha acordado com antecedência, mas, sabe-se lá o porquê, memorizei a hora errada da viagem. Ficou na minha cabeça que era no final da manhã e, então, pensei em 11h54, quando, na verdade, era às 10h54. Então, apesar de ter tempo, fiquei enrolando no computador, e quando já passava das 11 horas, fui conferir a passagem e vi que eu estava em casa ainda e o trem já tinha partido.
Fiquei um bom tempo me xingando e saí de casa apressado e preocupado. Como eu faria agora? Acho que, a princípio, como comprei a passagem com algum desconto, eu precisaria pagar uma multa para pegar o trem seguinte. E eu não sabia se seriam os quinze euros que estão escritos em meu bilhete, se seria a diferença entre o preço da minha passagem e o custo integral (que acho que daria uns trinta euros), se seria a soma dos dois (45 euros... isso está ficando caro...), se eu precisaria pagar o preço inteiro da passagem...
Quando cheguei à Hauptbahnhof, faltavam cinco minutos para o próximo trem para Munique, que sairia às 11h50. Comecei a procurar algum funcionário da companhia de trens para me informar. Como eu tinha pressa e precisava usar muitos termos técnicos que eu não conheço, tentei perguntar em inglês. O funcionário não compreendia o idioma, e não estávamos nos entendendo em alemão. Ele me disse para perguntar na sala de venda de passagens, onde saberiam inglês.
Era o que eu temia, pois lá as filas são enormes. Minha esperança era falar com um funcionário da recepção e ele me responder que eu poderia pagar uma quantia pequena ali mesmo ou no próprio trem. Não foi bem o que aconteceu... O primeiro funcionário do balcão não entendia inglês e sugeriu que eu perguntasse ao que estava ao seu lado. Este também não falava e me disse para pegar minha senha para a fila. Indiquei a ele, apontando o relógio, que eu não tinha tempo, e ele fez a cara de “paciência... vai lá para a fila”. Peguei a senha, dei meia volta e fui embora. O trem para Munique sairia em breve; depois, só à tarde! Não sou muito chegado a viver perigosamente, mas seria preciso arriscar.
Eu não tentava viajar sem pagar. Afinal, comprei minha passagem. Aliás, já paguei caríssimo para ir à Baviera, se somarmos ainda o que paguei, em vão, há não muito tempo, para ir a Regensburg. Mas eu não sabia quais seriam as conseqüências de entrar no trem errado. Teria que pagar ali a diferença? Teria que pagar uma multa de 40 euros, como a cobrada de quem viaja sem pagar no sistema de transporte público de Frankfurt? Teria que comprar nova passagem? Seria mandado para fora do trem?! Teria a improvável sorte de não me fiscalizarem ou de o controlador não perceber que eu estava com a passagem para outro trem? Nada disso aconteceu. Pausa para o suspense... Um pouquinho mais... Bem, sigamos agora com a história.
O controlador não tomava banho sabe-se lá há quanto tempo (situação compartilhada pela senhora sentada na poltrona atrás de mim), mas se mostrou flexível e compreensivo. Tive muita sorte! Ele pegou meu bilhete, conferiu minha identidade, e começou a falar comigo algo que eu suspeitava do que se tratava, mas me fiz de desentendido. Respondi que falava mal o alemão – o que é verdade, apesar da benevolência da maioria dos alemães com quem converso no idioma local.
Ele perguntou se eu falava inglês, respondi que melhor (“besser...”), e ele informou na língua de Shakespeare que eu estava no trem errado. Fiz uma teatral cara de perplexidade e, cinicamente, perguntei: “É outro o trem?!” Ele me disse que eu ia para Munique, está certo, mas que o meu trem era o de número 621, enquanto que aquele era o quinhentos e qualquer coisa. Mudo, olhei para ele com uma cara de “ops... e agora?”. Aí, ele marcou meu bilhete como checado e me disse que, da próxima vez eu deveria prestar atenção para pegar o trem certo.
Final feliz.
sábado, 21 de agosto de 2010
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
Kapitel CVI – Burrada Mitológica: a Amazona, as Greias, a Fúria e o Cérbero
Na mitologia grega, as greias eram três velhas cegas, que compartilhavam um único olho, que deram ao herói Perseu a informação de onde ele poderia encontrar a Medusa. Eu vejo duas grandes diferenças entre as greias e os carteiros alemães. A primeira é que acho difícil que alguém consiga, por meio deles, receber alguma informação. A segunda é que desconfio que, também cegos, eles não têm nem ao menos um olho para revezar. Se têm, aparentemente esse olho nunca está na posse do carteiro que vai me entregar alguma carta ou pacote, pois o maldito jamais encontra meu nome na caixa postal, apesar de este estar escrito em letras bem grandes.
Na mitologia romana, as fúrias, conhecidas como erínias entre os antigos gregos, eram criaturas aladas que personifi- cavam a vingança e castigavam os homens. Fúria é também o que eu estou sentindo em relação ao correio alemão. Espero que a persequição que sofro de seus carteiros não seja alguma punição das erínias. Por sorte, parece que as amazonas, guerreiras na mitologia greco-romana, são mais competentes na realidade germânica do que o correio.
Recebi um e-mail da Amazon avisando que um livro que encomendei voltou (sobre o não recebimento dele por causa do maldito correio, ver Kapitel CIV). Por sorte, a política da empresa é a de, se o livro enviado voltar, devolverem o valor pago, incluindo os três euros do frete. Espero que devolvam mesmo; será menos uma dor de cabeça. Eles dizem, então, que, se o cliente ainda estiver interessado, deve fazer novo pedido. Com a ajuda de São Manfred, refiz a compra, que – espero! – será entregue na caixa postal dele.
Na mitologia grega, o Cérbero era um cão de três cabeças que guardava as portas do inferno, deixando que os mortos entrassem, mas impedindo que eles saíssem. O correio alemão está fazendo o possível para tornar minha vida um inferno. Se tem três cabeças, parece que nenhuma delas funciona. Em vez de deixarem as almas entrarem, mas impedirem que elas saiam, o correio alemão permite que as cartas sejam enviadas, mas não que sejam recebidas. Se o correio alemão é um cachorro, certamente não é o melhor amigo do homem. Pelo menos, não de um chamado Guilherme.
Recebi um e-mail da Amazon avisando que um livro que encomendei voltou (sobre o não recebimento dele por causa do maldito correio, ver Kapitel CIV). Por sorte, a política da empresa é a de, se o livro enviado voltar, devolverem o valor pago, incluindo os três euros do frete. Espero que devolvam mesmo; será menos uma dor de cabeça. Eles dizem, então, que, se o cliente ainda estiver interessado, deve fazer novo pedido. Com a ajuda de São Manfred, refiz a compra, que – espero! – será entregue na caixa postal dele.
Na mitologia grega, o Cérbero era um cão de três cabeças que guardava as portas do inferno, deixando que os mortos entrassem, mas impedindo que eles saíssem. O correio alemão está fazendo o possível para tornar minha vida um inferno. Se tem três cabeças, parece que nenhuma delas funciona. Em vez de deixarem as almas entrarem, mas impedirem que elas saiam, o correio alemão permite que as cartas sejam enviadas, mas não que sejam recebidas. Se o correio alemão é um cachorro, certamente não é o melhor amigo do homem. Pelo menos, não de um chamado Guilherme.
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
Kapitel CV – A Hora Feliz
Nesta terça-feira fui ao bar onde se dança salsa (foi a segunda vez que fui lá; sobre a primeira, ver Kapitel C). Chama-se Curubar, fica perto da estação Konstablerwache. Quem organizou a saída foi a argentina Xenia, que estaria com outros amigos. Além de mim e da alemã quase baiana Lara, estavam um cara chamado Christian (incrível a quantidade de pessoas com esse nome na Alemanha!) e uma garota chamada Ana, que é filha de pai alemão com mãe recifense. Fala português (não tão bem quanto Lara, mas também fala) com um baita sotaque pernambucano.
Da outra vez em que fomos, havia uma promoção, com as bebidas a um preço mais em conta do que os extorsivos valores do cardápio. Lara perguntou se havia happy-hour, e o garçom respondeu que já tinha acabo, pois ia até as dez horas (eram 10h30). Foi frustrante. Como o lugar não cobra entrada, pagar quatro euros por um coquetel até que acabaria saindo em conta. Mas o valor normal da bebida, oito euros, não motivava nenhum de nós. Já planejávamos passar a noite a seco, até que meu sangue carioca falou mais alto.
Uma garçonete perguntou se queríamos beber alguma coisa e respondi – com aquele malandro tom de brincadeira com fundo de verdade em que somos exímios – que queríamos happy-hour. A garçonete olhou para a minha cara e perguntou: “são quantos drinques?” Naquele momento, estava claro que o jeitinho brasileiro havia funcionado. Respondi que pelo menos quatro (éramos cinco pessoas), e ela avisou ao outro garçom que ele podia nos servir as bebidas como happy-hour, ou seja, pelo preço promocional.
Um alemão perguntaria se há happy-hour, lamentaria que o horário tinha passado, jamais pensaria em consultar os funcionários se, levando-se em conta a quantidade de pessoas interessadas em consumir, não poderiam abrir uma exceção e flexibilizar a regra. Isso é coisa de brasileiro. Eu arrisquei... e petisquei. Posso não ser bom de samba, pode me faltar categoria nos campos de futebol, mas hoje mostrei que sou um brasileiro legítimo.
Da outra vez em que fomos, havia uma promoção, com as bebidas a um preço mais em conta do que os extorsivos valores do cardápio. Lara perguntou se havia happy-hour, e o garçom respondeu que já tinha acabo, pois ia até as dez horas (eram 10h30). Foi frustrante. Como o lugar não cobra entrada, pagar quatro euros por um coquetel até que acabaria saindo em conta. Mas o valor normal da bebida, oito euros, não motivava nenhum de nós. Já planejávamos passar a noite a seco, até que meu sangue carioca falou mais alto.
Uma garçonete perguntou se queríamos beber alguma coisa e respondi – com aquele malandro tom de brincadeira com fundo de verdade em que somos exímios – que queríamos happy-hour. A garçonete olhou para a minha cara e perguntou: “são quantos drinques?” Naquele momento, estava claro que o jeitinho brasileiro havia funcionado. Respondi que pelo menos quatro (éramos cinco pessoas), e ela avisou ao outro garçom que ele podia nos servir as bebidas como happy-hour, ou seja, pelo preço promocional.
Um alemão perguntaria se há happy-hour, lamentaria que o horário tinha passado, jamais pensaria em consultar os funcionários se, levando-se em conta a quantidade de pessoas interessadas em consumir, não poderiam abrir uma exceção e flexibilizar a regra. Isso é coisa de brasileiro. Eu arrisquei... e petisquei. Posso não ser bom de samba, pode me faltar categoria nos campos de futebol, mas hoje mostrei que sou um brasileiro legítimo.
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
Kapitel CIV – O Pacote pro Lugar
Nos últimos dias, vários problemas se solucionaram. Minha bolsa de estudos dos próximos três meses foi paga, o que significa que meus tempos de dureza na Europa acabaram. Poucos dias depois, fui avisado de que o dinheiro dos dois meses anteriores da minha bolsa, que não tinha ido parar na minha conta corrente, finalmente foi extornado (sobre o drama, ver Kapitel XCIV).
O dinheiro tinha sido depositado com o código IBAN errado, e, por isso, não foi parar na minha conta. O código foi fornecido em uma carta do Postbank para mim – não entendi por que colocam um outro código bancário que não o meu, sem explicar isso, justamente na correspondência onde me informaram o número do banco e da minha conta corrente. Eu não tinha por que deduzir que o código não era o meu e o forneci ao CNPq (só fui saber o código certo muito depois, quando fui reclamar no banco e o funcionário o buscou no meu cartão).
Depois vim a saber que cada cliente tem o seu próprio código IBAN – como não trabalho com isso, imaginei que o código era o mesmo para o banco todo. Alguém que lide com isso sabe que o final do código IBAN é idêntico ao da conta corrente. Logo, o pessoal da minha bolsa deveria ter percebido que o número da conta corrente e o IBAN fornecidos eram incompatíveis. Mas não viu, e enviou o dinheiro. O banco, por sua vez, recebeu o montante e não procurou saber de quem era. Eu receberia esse valor depois que o Banco do Brasil investigasse para onde tinha ido a quantia. Ou seja, houve um monte de trapalhadas, que fez com que minha conta ficasse zerada ou no negativo por meses. Mas isso é passado. O problema da minha bolsa foi totalmente resolvido!
Com isso, pude também efetuar o pagamento do curso de verão sobre partidos políticos que farei no próximo mês, na Bélgica. Outras complicações tinham surgido: em meio ao acúmulo de problemas que me assolou e com a perda do e-mail institucional @iuperj.br por causa da crise que se abateu sobre o lugar onde faço meu doutorado, acabei perdendo o prazo para a inscrição em um importante congresso no Brasil. Também já resolvi isso, paguei a inscrição e participarei normalmente do evento. Outra encrenca solucionada foi a do banco, que finalmente me devolveu o dinheiro descontado por causa do envio do segundo cartão, apesar de eu não ter chegado a receber o primeiro (ver Kapitel LXXVIII).
Entretanto, é claro que esse ciclo virtuoso teria que parar. Há um problema que parece insolúvel: a péssima qualidade do correio alemão (ver, por exemplo, os Kapitel LIV e LXVIII). E ficou bem claro que o problema não é simplesmente do carteiro incompetente que entrega as cartas aqui na minha área. A ineficiência é muito mais generalizada. Vamos à história!
Encomendei dois livros na Amazon.de, para aproveitar os baixos preços do frete. Pensei duas vezes antes de escolher o endereço para postagem. Cogitei a possibilidade de pedir para enviarem para a universidade, ou de colocar o pedido no nome do Manfred, ou ainda de solicitar que o enviassem para a casa do Jens ou de algum outro amigo. Mas cometi o grave erro de pensar assim: “ah... eu recebi as últimas cartas, acho que devo dar esse voto de confiança, eles não podem ser tão incompetentes...”. Agora eu sei que podem sim!
Na sexta-feira, já estava quase pondo o pé na rua para ir ao correio reclamar que meu livro deveria ter chegado, quando Manfred me mostrou um site – DHL – onde podemos rastrear em que etapa está o envio de pacotes que encomendamos aqui na Alemanha. De fato, o meu ainda estava a caminho. Seria impossível, portanto, que o livro já estivesse em minha casa. O prazo para a chegada seria algumas horas mais tarde.
O fim de semana passou e é claro que, nesta segunda-feira, ainda não havia livro algum em minha caixa postal. Desta vez, não houve jeito: parti para o correio, para reclamar do mau serviço e, quem sabe, voltar com o meu livro (às vezes sou ingênuo, não?). Chegando lá, mostrei para o atendente que o endereço que forneci estava correto e que eu já tinha recebido outras cartas (logo, a culpa não era minha, mas do carteiro). Passei para ele o número do envio do pacote e ele verificou no sistema que, como eu temia, o entregador não identificou meu endereço como sendo meu e mandou o pacote de volta para a Amazon.
Eu disse, então, que não era a primeira vez que isso me ocorria, que já tinha perdido várias cartas por causa da incompetência do carteiro, que – não sei por que raios – ele não lê o meu nome na caixa postal. O funcionário me respondeu, então, que pacotes não eram cartas. Eu não entendi o que ele quis dizer com isso, e perguntei se eles não poderiam, pelo menos, reclamar com o carteiro, para que ele parasse de não entregar minhas correspondências. Aí, explicou-me que “infelizmente não”, porque os pacotes não são entregues pelo carteiro da região. Diferentemente das cartas, os pacotes são entregues a partir de outra sede dos correios, por outra equipe – quer dizer, no meu caso, eles não são entregues por outra equipe.
Fiz minha reclamação, o atendente preencheu o formulário e recomendou que eu mandasse uma mensagem para a Amazon explicando o que ocorreu e pedindo que me enviassem a encomenda novamente. Manfred me disse que os carteiros simplesmente têm dificuldade de entender o meu nome, que se eu me chamasse Wilhelm Reis (pronuncia-se “ráiss”, e significa arroz em alemão) seria mais fácil, mas que Guilherme Simões Reis, em português, é muito complicado. Ele revelou que a Janine, que mora aqui no apartamento, sempre se refere a mim como Wilhelm, porque acha “Guilherme” muito difícil de dizer.
É claro que tal explicação foi mais uma brincadeira, e que não justifica a incompetência do correio alemão. Tudo o que eu queria era que enviassem o pacote para o lugar certo! Manfred me deu algumas sugestões, como usar a caixa postal dele ou pedir que entreguem o livro na agência dos correios para que eu o pegue lá. Vou pensar em qual é a melhor alternativa e enviar a mensagem para a Amazon. Já sei que solicitar que mandem o livro para minha residência novamente não é uma alternativa muito confiável. O pior é que isto foi apenas com o primeiro livro, pois o outro ainda deve ser entregue daqui a duas semanas... Será que em algum momento eu não terei nenhum problema aqui na Alemanha?
O dinheiro tinha sido depositado com o código IBAN errado, e, por isso, não foi parar na minha conta. O código foi fornecido em uma carta do Postbank para mim – não entendi por que colocam um outro código bancário que não o meu, sem explicar isso, justamente na correspondência onde me informaram o número do banco e da minha conta corrente. Eu não tinha por que deduzir que o código não era o meu e o forneci ao CNPq (só fui saber o código certo muito depois, quando fui reclamar no banco e o funcionário o buscou no meu cartão).
Depois vim a saber que cada cliente tem o seu próprio código IBAN – como não trabalho com isso, imaginei que o código era o mesmo para o banco todo. Alguém que lide com isso sabe que o final do código IBAN é idêntico ao da conta corrente. Logo, o pessoal da minha bolsa deveria ter percebido que o número da conta corrente e o IBAN fornecidos eram incompatíveis. Mas não viu, e enviou o dinheiro. O banco, por sua vez, recebeu o montante e não procurou saber de quem era. Eu receberia esse valor depois que o Banco do Brasil investigasse para onde tinha ido a quantia. Ou seja, houve um monte de trapalhadas, que fez com que minha conta ficasse zerada ou no negativo por meses. Mas isso é passado. O problema da minha bolsa foi totalmente resolvido!
Com isso, pude também efetuar o pagamento do curso de verão sobre partidos políticos que farei no próximo mês, na Bélgica. Outras complicações tinham surgido: em meio ao acúmulo de problemas que me assolou e com a perda do e-mail institucional @iuperj.br por causa da crise que se abateu sobre o lugar onde faço meu doutorado, acabei perdendo o prazo para a inscrição em um importante congresso no Brasil. Também já resolvi isso, paguei a inscrição e participarei normalmente do evento. Outra encrenca solucionada foi a do banco, que finalmente me devolveu o dinheiro descontado por causa do envio do segundo cartão, apesar de eu não ter chegado a receber o primeiro (ver Kapitel LXXVIII).
Encomendei dois livros na Amazon.de, para aproveitar os baixos preços do frete. Pensei duas vezes antes de escolher o endereço para postagem. Cogitei a possibilidade de pedir para enviarem para a universidade, ou de colocar o pedido no nome do Manfred, ou ainda de solicitar que o enviassem para a casa do Jens ou de algum outro amigo. Mas cometi o grave erro de pensar assim: “ah... eu recebi as últimas cartas, acho que devo dar esse voto de confiança, eles não podem ser tão incompetentes...”. Agora eu sei que podem sim!
Na sexta-feira, já estava quase pondo o pé na rua para ir ao correio reclamar que meu livro deveria ter chegado, quando Manfred me mostrou um site – DHL – onde podemos rastrear em que etapa está o envio de pacotes que encomendamos aqui na Alemanha. De fato, o meu ainda estava a caminho. Seria impossível, portanto, que o livro já estivesse em minha casa. O prazo para a chegada seria algumas horas mais tarde.
O fim de semana passou e é claro que, nesta segunda-feira, ainda não havia livro algum em minha caixa postal. Desta vez, não houve jeito: parti para o correio, para reclamar do mau serviço e, quem sabe, voltar com o meu livro (às vezes sou ingênuo, não?). Chegando lá, mostrei para o atendente que o endereço que forneci estava correto e que eu já tinha recebido outras cartas (logo, a culpa não era minha, mas do carteiro). Passei para ele o número do envio do pacote e ele verificou no sistema que, como eu temia, o entregador não identificou meu endereço como sendo meu e mandou o pacote de volta para a Amazon.
Eu disse, então, que não era a primeira vez que isso me ocorria, que já tinha perdido várias cartas por causa da incompetência do carteiro, que – não sei por que raios – ele não lê o meu nome na caixa postal. O funcionário me respondeu, então, que pacotes não eram cartas. Eu não entendi o que ele quis dizer com isso, e perguntei se eles não poderiam, pelo menos, reclamar com o carteiro, para que ele parasse de não entregar minhas correspondências. Aí, explicou-me que “infelizmente não”, porque os pacotes não são entregues pelo carteiro da região. Diferentemente das cartas, os pacotes são entregues a partir de outra sede dos correios, por outra equipe – quer dizer, no meu caso, eles não são entregues por outra equipe.
Fiz minha reclamação, o atendente preencheu o formulário e recomendou que eu mandasse uma mensagem para a Amazon explicando o que ocorreu e pedindo que me enviassem a encomenda novamente. Manfred me disse que os carteiros simplesmente têm dificuldade de entender o meu nome, que se eu me chamasse Wilhelm Reis (pronuncia-se “ráiss”, e significa arroz em alemão) seria mais fácil, mas que Guilherme Simões Reis, em português, é muito complicado. Ele revelou que a Janine, que mora aqui no apartamento, sempre se refere a mim como Wilhelm, porque acha “Guilherme” muito difícil de dizer.
É claro que tal explicação foi mais uma brincadeira, e que não justifica a incompetência do correio alemão. Tudo o que eu queria era que enviassem o pacote para o lugar certo! Manfred me deu algumas sugestões, como usar a caixa postal dele ou pedir que entreguem o livro na agência dos correios para que eu o pegue lá. Vou pensar em qual é a melhor alternativa e enviar a mensagem para a Amazon. Já sei que solicitar que mandem o livro para minha residência novamente não é uma alternativa muito confiável. O pior é que isto foi apenas com o primeiro livro, pois o outro ainda deve ser entregue daqui a duas semanas... Será que em algum momento eu não terei nenhum problema aqui na Alemanha?
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
Kapitel CIII – Comi e Duas Noites
Não sei se são preocupações, ou se é o excesso de Coffea arabica, mas tenho tido um sério problema para dormir cedo. Em um desses dias até veio a calhar, pois, depois de um bom tempo, voltei a sair à noite. Meus camaradas Bertram e Florian combinaram de nos encontrarmos no rio Main, perto de uma ponte que eu não sabia qual era. Peguei as instruções com eles e fui. Mas nada de encontrá-los. Andei muito, passei por várias pontes, e nada. Até que, em algum momento, pegando as orientações com o Bertram por telefone, finalmente entendi uma coisa: eu tinha atravessado para o outro lado do rio, enquanto que eles não. Ou seja, eu não os encontraria nunca!
Julguei que seria do outro lado porque todas as vezes que marquei com qualquer pessoa no rio (eles, inclusive), era do outro lado. Nem perguntei, portanto. Enfim, o importante é que os achei. Havia muito mais gente lá. Katja e Mona – as duas garotas que reforçaram o FLATmengo no campeonato de futebol após a contusão de Martina (ver Kapitel XCI), também estavam – mas o grupo era bem maior. Ficamos bebendo cerveja e, dentro do possível, conversando. Estava realmente difícil entender o alemão, até porque, à medida que bebíamos, não só minha compreensão piorava como os demais conversavam com ainda menos preocupação de serem claros. Mas uma coisa é certa: eu realmente aprendi a abrir garrafas usando o isqueiro em vez do abridor (ver Kapitel LXX e LXXIX).
Depois, nós cinco e mais uma loirinha e um cara fomos a uma boate chamada Nachtleben (ou “vida noturna”). E mais cerveja! Era claramente uma boate mais em conta do que aquela a que eu tinha ido da outra vez (ver Kapitel LI). A música não era grande coisa, mas me pareceu aceitável. Não sei se Florian concordou muito, pois disse: “this music is shit”. Naquele dia, portanto, dormir tarde foi justificável.
Mas nem sempre isso ocorre... Em geral, é no meu quarto (sozinho, é bom esclarecer) que as horas avançam e me atormentam com a falta de sono. A insônia atingiu seu grau máximo na noite do dia 9, quando dormi aproximadamente às 7h30 da manhã (do dia 10, é claro)! Eu me deitei já pelas três da madrugada, e de duas em duas horas em média eu ficava de saco cheio de não conseguir dormir e ligava o computador. Pelo menos serviu para assistir pela internet ao bom desempenho da Dilma Rousseff na hostil entrevista do Jornal Nacional. Lá pelas seis da manhã, o céu já claro, eu ainda conversava pelo chat com minha irmã no Facebook.
Estou tentando dormir e acordar mais cedo, acabar com esse ciclo vicioso. Ontem, consegui dormir à uma, o que foi uma vitória! Anteontem, dormi tarde, mas pelo menos consegui acordar a tempo de ir à universidade. Como eu sempre acordava muito tarde – e, quando eu estava plenamente desperto, boa parte do dia já tinha se passado – acabava me parecendo totalmente improdutivo ir até lá. Mas finalmente consegui quebrar esse jejum.
Por falar em jejum, a ida à universidade me proporcionou romper com outro ciclo: comi uma refeição decente. Por preguiça de me aventurar na cozinha e sem vontade de ir a algum restaurante próximo de casa, tenho comido mal. Há alguns dias em que todas as minhas poucas refeições são sanduíches de pão de forma. Manfred sempre brinca que minha bolsa-sanduíche me dá direito a comer apenas um sanduíche, e que eu devo, portanto, comer ainda menos.
Ontem, para encontrar um lugar para comer tal refeição decente lá no bairro de Bockenheim, no entanto, não foi tão fácil. Andei um bocado, até por áreas que não conhecia, e nada de achar um restaurante que me atraísse. É surpreendentemente difícil achar lugares que não girem em torno de döner, carne de porco, culinária oriental (não só chinesa e japonesa, mas também muita tailandesa) ou massas e pizzas. E eu não queria nada disso (minhas últimas duas refeições decentes tinham sido, inclusive, em restaurantes tailandeses, onde provei boas cervejas da Tailândia: Chang e Singha).
Acabei encontrando um bom e velho galeto (Hännchen, como chamam em alemão) com salada. Pedi a salada pequena, que simplesmente significou um prato cheio. Fiquei imaginando como seria a salada grande, mas tive até medo de perguntar. Bem, por ora é isso o que eu tinha a lhes dizer. Agora, vou esquentar uma pizza pronta. Ou, quem sabe, preparar um sanduíche de pão de forma...
Julguei que seria do outro lado porque todas as vezes que marquei com qualquer pessoa no rio (eles, inclusive), era do outro lado. Nem perguntei, portanto. Enfim, o importante é que os achei. Havia muito mais gente lá. Katja e Mona – as duas garotas que reforçaram o FLATmengo no campeonato de futebol após a contusão de Martina (ver Kapitel XCI), também estavam – mas o grupo era bem maior. Ficamos bebendo cerveja e, dentro do possível, conversando. Estava realmente difícil entender o alemão, até porque, à medida que bebíamos, não só minha compreensão piorava como os demais conversavam com ainda menos preocupação de serem claros. Mas uma coisa é certa: eu realmente aprendi a abrir garrafas usando o isqueiro em vez do abridor (ver Kapitel LXX e LXXIX).
Depois, nós cinco e mais uma loirinha e um cara fomos a uma boate chamada Nachtleben (ou “vida noturna”). E mais cerveja! Era claramente uma boate mais em conta do que aquela a que eu tinha ido da outra vez (ver Kapitel LI). A música não era grande coisa, mas me pareceu aceitável. Não sei se Florian concordou muito, pois disse: “this music is shit”. Naquele dia, portanto, dormir tarde foi justificável.
Mas nem sempre isso ocorre... Em geral, é no meu quarto (sozinho, é bom esclarecer) que as horas avançam e me atormentam com a falta de sono. A insônia atingiu seu grau máximo na noite do dia 9, quando dormi aproximadamente às 7h30 da manhã (do dia 10, é claro)! Eu me deitei já pelas três da madrugada, e de duas em duas horas em média eu ficava de saco cheio de não conseguir dormir e ligava o computador. Pelo menos serviu para assistir pela internet ao bom desempenho da Dilma Rousseff na hostil entrevista do Jornal Nacional. Lá pelas seis da manhã, o céu já claro, eu ainda conversava pelo chat com minha irmã no Facebook.
Estou tentando dormir e acordar mais cedo, acabar com esse ciclo vicioso. Ontem, consegui dormir à uma, o que foi uma vitória! Anteontem, dormi tarde, mas pelo menos consegui acordar a tempo de ir à universidade. Como eu sempre acordava muito tarde – e, quando eu estava plenamente desperto, boa parte do dia já tinha se passado – acabava me parecendo totalmente improdutivo ir até lá. Mas finalmente consegui quebrar esse jejum.
Por falar em jejum, a ida à universidade me proporcionou romper com outro ciclo: comi uma refeição decente. Por preguiça de me aventurar na cozinha e sem vontade de ir a algum restaurante próximo de casa, tenho comido mal. Há alguns dias em que todas as minhas poucas refeições são sanduíches de pão de forma. Manfred sempre brinca que minha bolsa-sanduíche me dá direito a comer apenas um sanduíche, e que eu devo, portanto, comer ainda menos.
Ontem, para encontrar um lugar para comer tal refeição decente lá no bairro de Bockenheim, no entanto, não foi tão fácil. Andei um bocado, até por áreas que não conhecia, e nada de achar um restaurante que me atraísse. É surpreendentemente difícil achar lugares que não girem em torno de döner, carne de porco, culinária oriental (não só chinesa e japonesa, mas também muita tailandesa) ou massas e pizzas. E eu não queria nada disso (minhas últimas duas refeições decentes tinham sido, inclusive, em restaurantes tailandeses, onde provei boas cervejas da Tailândia: Chang e Singha).
Acabei encontrando um bom e velho galeto (Hännchen, como chamam em alemão) com salada. Pedi a salada pequena, que simplesmente significou um prato cheio. Fiquei imaginando como seria a salada grande, mas tive até medo de perguntar. Bem, por ora é isso o que eu tinha a lhes dizer. Agora, vou esquentar uma pizza pronta. Ou, quem sabe, preparar um sanduíche de pão de forma...
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
Kapitel CII – A Casa do Urso
Minha ida à universidade marcou o fim de uma seqüência de três dias enfurnado em casa, de onde só saí para fazer compras no supermercado e colocar o lixo para fora. Esse período restrito ao circuito quarto-banheiro-cozinha me alertou para uma coisa: eu ainda não tratei nestes Contos Fantásticos, com a devida profundidade, do lugar onde moro. Pois corrigirei essa falha agora.
Moro em um WG (sigla para Wohngemeinschaft), que é um apartamento compartilhado. Comigo moram o já famoso (São) Manfred, muitas vezes citado aqui, e duas meninas, também alemãs: Suzanne e Janine. Este seria o último mês das duas antes de voltarem para suas cidadezinhas, mas parece que estão negociando com Mario (que Mario? o espanhol que aluga o apartamento, é claro) para prorrogarem o aluguel. Elas não são más pessoas, mas há muito pouco diálogo com elas. São muito amigas entre si, mas não demonstram qualquer interesse em se aproximar de nós dois (tratei disso no Kapitel XLV). Já Manfred é um cara legal, que me ajudou várias vezes. Mas não tem paciência de me ajudar no alemão e sempre zomba das minhas trapalhadas. Que não são poucas.
O WG fica no bairro de Dornbush. Está longe de ser badalado como Sachsenhausen ou bonitinho como Bockenheim, mas é um bom lugar. Como disse no Kapitel II, tem boas opções de transporte e seviços. Vivo a umas duas quadras da estação de metrô Dornbush, que é a primeira no sentido Sul-Norte que não é subterrânea (tipo linha 2 do metrô carioca, na superfície).
Além disso, o maior supermercado da cidade fica perto da estação anterior, a Miquel-/ Adickes- allee/Polizei- präsidium (vocês não imaginam o quanto é viciante ficar repetindo esse nome enorme quando ele é anunciado no metrô). Perto da minha casa ficam ainda o restaurante italiano Cosi Cosi, um oriental, uma padaria, uma loja que vende embutidos onde também já almocei algumas vezes, um banco (onde saquei dinheiro do Banco do Brasil várias vezes), o escritório da administração da região (o Bürgeramt)...
Meu endereço diz que moro na Eschersheimer Landstraße, mas é mentira. O meu número ocupa o quarteirão inteiro, e é um número comercial. Depois, virando-se a esquina, o número se repete, mas com as letras A, B, C... Pois é em um desses que eu vivo. Só que aí já não é mais, realmente, na Eschersheimer Landstraße. O nome da rua é Carl-Goerdeler str.
Uma vez, de curiosidade, fiz uma pesquisa na Wikipedia e descobri que o tal do Carl Goerdeler era um político monarquista conservador, que, inicialmente, considerou Hitler um ditador ilustrado, com potencial para fazer o bem. A partir de 1933, mudou de ideia, e passou a fazer oposição a ele e a tentar ajudar comerciantes judeus perseguidos. Se uma tentativa de matar Hitler em 1944 tivesse dado certo, ele seria o novo chanceler. Como ela falhou e descobriram que ele estava envolvido, foi preso e torturado por meses e, depois, executado.
Uma vez, de curiosidade, fiz uma pesquisa na Wikipedia e descobri que o tal do Carl Goerdeler era um político monarquista conservador, que, inicialmente, considerou Hitler um ditador ilustrado, com potencial para fazer o bem. A partir de 1933, mudou de ideia, e passou a fazer oposição a ele e a tentar ajudar comerciantes judeus perseguidos. Se uma tentativa de matar Hitler em 1944 tivesse dado certo, ele seria o novo chanceler. Como ela falhou e descobriram que ele estava envolvido, foi preso e torturado por meses e, depois, executado.
Vivo no quarto andar, mas isso não significa nada. Na Alemanha, bizarramente, os apartamentos não têm numeração, e as referências são simplesmente o número do prédio e o seu sobrenome. Ou seja, trata-se de um prato cheio para um correio ineficiente como o alemão. Isso me causou muita dor de cabeça, como já praguejei nos Kapitel LIV e LXVIII.
Meu apartamento tem uma sala pequena, uma cozinha idem, mas quartos bastante espaçosos (o meu é enorme!). Além disso, há dois banheiros com chuveiro, o que diminui consideravelmente a possibilidade de conflitos entre nós quatro. A sala para pendurar a roupa para secar fica fora do apartamento, no subsolo do edifício e, bizarramente (levando-se em conta que roupas secam melhor no calor), está sempre muitos graus mais fria do que em qualquer outro lugar que não a geladeira. O local para colocar o lixo fica fora do prédio e atende a todos os edifícios que usam a mesma numeração. Lá, há lixeiras para plástico e embalagens, outras para papel e duas para lixo orgânico. Tudo bastante alemão (o sistema está explicado no Kapitel XXX).
O meu quarto tem 25 metros quadrados, se o anúncio dizia a verdade (eu nunca o medi, mas é grande). Tem um bom armário, uma cômoda, uma pequena mesa, uma cama meio desconfortável, uma mesa de cabeceira moderninha, uma estante com cara de escada em que não cabe quase nada (mas ponho livros lá assim mesmo), um sofá-cama e uma televisão miúda que pega poucos canais (nunca asssisti a ela e, quando tentei, não achei a transmissão de nenhuma partida da Copa).
O que mais chama a atenção, no entanto, é um imenso ursão de pelúcia (escrevi sobre ele no Kapitel II; continua na mesma posição e no mesmo lugar). Não é meu, nem comprei para dar de presente. Parece que Manfred ganhou há muito tempo e, como não tem onde colocá-lo, deixou-o aqui. Simplesmente aqui já estava quando cheguei, a aqui ficou, pois não me atrapalha e não quis ser chato. É um tanto bizarro ver um ursão no canto do quarto, mas já me acostumei. Pena que ele só divide o espaço comigo, não os custos do aluguel. Aliás, debaixo dele há uma gaveta cheia de tralha que também não é minha: sacos plásticos, parafusos, lâmpadas... Ou seja, é melhor deixar o urso lá; pelo menos esconde a tranqueira toda.
O urso não é a única peça de “decoração” que chama a atenção em meu quarto. Há também um enorme mapa-múndi em alemão atrás da minha cama. É interessante que posso olhar para “Die Welt”, o mundo, e ver como se chamam os países nesta língua que tanto custo a aprender. Vereinigte Staaten Von Amerika, Gross Britannien, Schweden, Weiss-Russland, Aserbaischan, Ägypten, Elfenbeinküste (este eu aprendi na Copa!), Simbabwe... Legal, né?
Parece que estou reclamando, mas não estou não. Não tenho motivos para isso. O urso e as manchas são mais casos pitorescos do que realmente problemas. Além disso, o Mario é gente-boa e compreensivo, não tem rigor excessivo com o prazo do pagamento do aluguel e, assim como Manfred, já me deu várias dicas da vida em Frankfurt. E meu quarto é realmente espaçoso. Tanto que é possível ficar três dias enfurnado nele. Mesmo tendo que dividi-lo com um urso tamanho família.
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
Kapitel CI – O Anjo
Muita coisa aconteceu nos útimos três dias. Fizemos no bar Albatros a despedida da universidade de alguns estudantes – Fabian, Janeth e Dana – que terminaram seus períodos de pesquisa com Jens e Marion Reiser e passarão meses em outros países (Fabian vai pra a Letônia). Fui ao Museu de caricatura, onde estavam expostas tirinhas feninistas de Franziska Becker.
Fui com Gilberto, Letice e Julian a um festival na orla do rio Main. Lá, encontrei-me com meu amigo pernambucano João Guilherme, de quem me despedi, pois volta ao Recife após cinco meses em Frankfurt. Fui com Bertram e Gilberto ver um amistoso no estádio, em que o Eintracht Frankfurt derrotou o Chelsea por 2 a 1. Segui com Gilberto para uma casa chamada Jazzkeller, onde assisitmos a um excelente show, de Ivan Santos & Band.
Eu poderia dar mais detalhes de todos esses acontecimentos, mas não quero. Soube de outro acontecimento que abafou todos os demais. Uma das pessoas que mais amo na minha vida foi agraciar aos que a rodeiam, com sua pureza, bondade e generosidade, em outra dimensão (o céu, certamente, nos termos dela).
Sua alegria de viver, que demonstrou nos últimos 96 anos, nunca será esquecida. O nosso amor nunca sairá dos nossos corações. Infelizmente, as pessoas que estiverem por perto tristes e aborrecidas não terão mais a luz da minha vovó para fazê-las mudarem e abrirem um sorriso. Isso sempre acontecia. Todo mundo que convivia com ela perde muito.
Sua alegria de viver sempre foi um exemplo para todos. A cada ano alimentávamos um sonho. O sonho de que a vovó seria eterna. Cada ano era mais um rumo à barreira centenária, que parecia que seria ultrapassada com facilidade. Parecia que ficaria pequena conforme outra década se passaria. E ela sempre estaria conosco, conhecendo os bisnetos, acompanhando os rumos que nossas vidas adultas fossem tomando.
Mas não era eterna. Não seu corpo vaidoso, sempre permufado, bem-vestido, e com brincos vistosos adornando um ouvido que pouco ouvia. Este era, aliás, o único problema daquele corpo que bem andava, bem enxergava, esbanjava saúde. Mas eternos são sua lembrança e nosso amor. Tchau, vovó querida. Amo muito você. Todos a amamos. Para sempre.
Fui com Gilberto, Letice e Julian a um festival na orla do rio Main. Lá, encontrei-me com meu amigo pernambucano João Guilherme, de quem me despedi, pois volta ao Recife após cinco meses em Frankfurt. Fui com Bertram e Gilberto ver um amistoso no estádio, em que o Eintracht Frankfurt derrotou o Chelsea por 2 a 1. Segui com Gilberto para uma casa chamada Jazzkeller, onde assisitmos a um excelente show, de Ivan Santos & Band.
Eu poderia dar mais detalhes de todos esses acontecimentos, mas não quero. Soube de outro acontecimento que abafou todos os demais. Uma das pessoas que mais amo na minha vida foi agraciar aos que a rodeiam, com sua pureza, bondade e generosidade, em outra dimensão (o céu, certamente, nos termos dela).
Sua alegria de viver sempre foi um exemplo para todos. A cada ano alimentávamos um sonho. O sonho de que a vovó seria eterna. Cada ano era mais um rumo à barreira centenária, que parecia que seria ultrapassada com facilidade. Parecia que ficaria pequena conforme outra década se passaria. E ela sempre estaria conosco, conhecendo os bisnetos, acompanhando os rumos que nossas vidas adultas fossem tomando.
Mas não era eterna. Não seu corpo vaidoso, sempre permufado, bem-vestido, e com brincos vistosos adornando um ouvido que pouco ouvia. Este era, aliás, o único problema daquele corpo que bem andava, bem enxergava, esbanjava saúde. Mas eternos são sua lembrança e nosso amor. Tchau, vovó querida. Amo muito você. Todos a amamos. Para sempre.
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